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Células-tronco em doenças neuromusculares

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 | 20:30

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Dra. Mayana, sou presidente da Associação de Doenças Neuromusculares de MS e os pacientes vêm a mim com muita frequência em busca de informações. Duas são recorrentes:

1- quais patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas por terapias com células-tronco;

2- como anda o progresso das pesquisas nas diversas fontes de células-tronco que já foram descobertas (tecido adiposo, polpa dentária, sangue menstrual, embriões descartados, etc.). Poderia nos falar um pouco sobre essas questões?

O que são patologias neuromusculares?

Existem centenas de patologias neuromusculares, causadas por mutações em diferentes genes e que causam uma fraqueza progressiva devido a degeneração da musculatura. Algumas são causadas por um defeito primário do músculo, como por exemplo as distrofias musculares progressivas (DMPs). O gene defeituoso deixa de produzir alguma proteína que é essencial para o músculo . Em outras o defeito primário é nos neurônios (células nervosas) que mandam ordens aos músculos. Os neurônios morrem e por causa disso os músculos  acabam se atrofiando  indiretamente. É o caso, por exemplo, das atrofias espinhais progressivas. No primeiro grupo, a preocupação é substituir as células musculares enquanto no segundo são os neurônios que devem ser substituídos.

Que patologias poderão vir a ser beneficiadas?

Eu acredito que todas as patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas mas  as abordagens terapêuticas serão diferentes. Nossa equipe está trabalhando mais com modelos animais de distrofias musculares, onde o efeito primário é no músculo. Estamos injetando CT de diferentes fontes e analisando qual é o seu efeito clínico.

Quais são as questões que  estamos querendo responder?

Como as células devem ser injetadas? Injeções locais, diretamente na musculatura, ou sistêmicas, na veia? Que quantidade deve ser injetada? Com que frequência?  Como garantir que elas cheguem no local certo? Como controlar a sua diferenciação, isto é, ter certeza que uma vez injetadas elas vão se diferenciar só em músculo e não em outro tecido? Como controlar a rejeição? Quais são as melhores células para formar tecido muscular?

Uma linhagem não é igual a outra

Tivemos bons resultados com CT de tecido adiposo humano. Quando injetadas em camundongos com distrofia, elas se direcionaram para os músculos, não foram rejeitadas (sem uso de imunosupressores) e os animais melhoraram clinicamente. Esses resultados nos deixaram muito animados. Mas sabemos que uma linhagem de CT pode não ser igual a outra e por isso esses experimentos precisam ser confirmados.

Qual é o próximo passo?

Vamos iniciar em breve um grande estudo comparativo envolvendo muitos animais e vários pesquisadores. A ideia é comparar o potencial de diferentes CT- no caso, tecido adiposo, cordão umbilical e polpa dentária- em camundongos com distrofia. Os animais serão injetados ao mesmo tempo e acompanhados pela mesma equipe. A avaliação será feita em teste cego, isto é, quem for analisar os resultados não saberá o que cada animal recebeu.

Os animais serão acompanhados por pelo menos um ano

Para termos respostas conclusivas, precisamos acompanhar os animais por pelo menos um ano. Na realidade eles deveriam ser acompanhados por 2 ou 3 anos. Só assim poderemos avaliar os resultados a  longo prazo. Portanto, podemos antecipar que vai ser um experimento demorado. Só assim poderemos ter resultados fidedignos. A partir deles poderemos direcionar os futuros tratamentos com muito mais segurança.

Por Mayana Zatz

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Os primeiros formandos de pré-iniciação científica da USP

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 | 21:47

Em outubro de 2008, há exatamente um ano, iniciamos o primeiro programa de pré-iniciação científica na Universidade de São Paulo. Abrimos nossos laboratórios para 400 alunos de escolas públicas, para que fossem pesquisadores por um ano. Hoje estamos festejando a formatura da primeira turma. O depoimento dos alunos e seus trabalhos mostra que o programa foi um sucesso.

Transcrevo neste espaço minha fala emocionada no encerramento do evento:

Aos 16 anos, eu tinha dois sonhos: estudar genética e entrar na USP. Genética??? Pouca gente sabia o que era isso. Mas entrar na USP era mais do que minha obrigação. Eu estudava em uma escola pública, o Colégio Estadual de São Paulo. Estudar em uma escola pública naquela época era um trampolim seguro para entrar em uma boa universidade. Cursinho??? Nem pensar… Aluno daqui não precisa fazer cursinho, diziam enfaticamente os nossos professores.

Aos poucos, infelizmente, a situação se inverteu. Esses mesmos alunos de escolas públicas são aqueles que têm a maior dificuldade para entrar nas melhores universidades.

Como reverter esse processo? Como plantar pelo menos uma sementinha?

Foi pensando nisso que tive um novo sonho. O de abrir as portas da nossa universidade para os melhores alunos das escolas públicas. Dar-lhes a oportunidade de serem pesquisadores por um ano. Desmistificar a Universidade como uma meta inatingível. Esse sonho só foi possível porque inúmeras pessoas acreditaram nele e sonharam junto. A nossa equipe na pró-reitoria de pesquisas foi incansável. O Pedro Bombonato, Myriam Krasilchik, Paulo Saldiva. Sem eles o programa não teria decolado. Os professores da USP que acolheram a ideia e os alunos de braços abertos. A Secretaria de Educação. O grupo Santander, que deu bolsas aos alunos, e o grupo Monsanto, aos professores das escolas públicas. Ao Flavio Fava , à FMUSP e à FUSP. À revista FAPESP. A vocês, nosso muito obrigado.

E foi assim que nasceu a ideia de se fazer um programa de pré-iniciação científica na USP. Tivemos que ultrapassar inúmeros obstáculos. A nossa maior força era a vontade de que desse certo. Em outubro de 2008, conseguimos finalmente iniciar o programa. Para minha surpresa, uma maioria esmagadora de meninas. A expectativa dos alunos era enorme. A nossa também. Conseguiríamos com esse programa despertar a sua curiosidade? Motivá-los a estudar mais? Melhorar a sua autoestima? Dar-lhes coragem para enfrentar o vestibular? Será que ia dar certo???

Os depoimentos dos alunos, os primeiros formandos em pré-IC pela USP, são emocionantes. Eles nos convenceram definitivamente que esse programa precisa ser continuado. O ano que vem já está garantido. Descobri que no CNPq existem bolsas para esse programa. as bolsas de IC-júnior. E como eu sou uma pedinte profissional, lá fui eu pedir ao prof. Marco Antonio Zago 400 bolsas para o ano que vem. Muitíssimo obrigada, Zago, por atender imediatamente a esse pedido.

Vou terminar lendo o depoimento de uma menina, Magda, que foi aluna da FEA. Ele fala por si.
MAGDA: “Oportunidade”. Esta é a palavra-chave que explica tudo o que estamos vivenciando. O Programa de Pré-Iniciação Científica foi uma porta que abriu caminho e nos deu base para traçar um novo horizonte.

Quando a nós foi apresentado, as perspectivas de inserção nesse universo eram poucas, mas estávamos dispostos a continuar. Metas incomensuráveis, tudo parecia distante, mergulhado em um impasse de limitações. Não criamos tantas esperanças, mas nos munimos do necessário para não desanimar. Entre tantas instituições escolares, entre tantos alunos, não poderíamos imaginar que a nós ia ser concedida a chance de saborear novos conhecimentos, aguçar o prazer de aprender.

Depois dos obstáculos vencidos, a recompensa! Meus conceitos foram completamente transformados. Minha visão monetária, com toda a certeza, jamais será a mesma, meu parecer sobre riqueza, bem-estar social e pobreza tomaram outros valores.

Os laços de aprendizado entre professores e alunos foram reforçados, num englobar de conhecimento, amizade, espaço e tempo. E essa experiência me fez acreditar em algo mais, mensurou metas que pareciam inalcançáveis, extinguiu e anulou limitações, aproximou um pouco mais sonho de realidade.

Agradeço a todos os responsáveis que de alguma forma nos fizeram seguir em frente. Espero que estas palavras tenham traduzido o grande impacto que o Programa de Pré-Iniciação Científica causou em seu decorrer.

Magda, o teu depoimento tem uma força incrível. É a prova viva de que o nosso sonho aconteceu. Vocês precisam levar essa mensagem a todos os jovens. Acreditem! Ousem! Não se intimidem com um ” é difícil”. Não deixem de tentar com medo de ouvir um não! Se vocês não tentarem, nada acontecerá. Mas se tentarem, o pior que pode acontecer é nada. E vocês se surpreenderão ao ver quantas metas aparentemente “impossíveis” vocês atingirão.

O evento que estamos celebrando hoje é a prova disso. O fato de termos o nosso governador José Serra, o secretário de Educação, Paulo Renato, o secretário de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, o presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, e tantas autoridades e professores pioneiros da educação aqui presentes mostra que a contaminação deu certo. Vocês jovens, com o vírus da curiosidade, com a vontade de ultrapassar obstáculos. E nós com a certeza de que valeu a pena, de que a sementinha germinou e de que ela precisa se espalhar.

Foi só uma sementinha, repito! Foram só 400 alunos. Mas temos 620 universidades no estado de São Paulo. Se todas as universidades de São Paulo oferecerem 400 vagas, serão 248.000 alunos só em São Paulo. E se todas as 2.500 universidades brasileiras fizerem o mesmo, serão 1 milhão de alunos . Isso fará uma diferença. Isso fará nosso país colher novos frutos.

Trata-se de um programa de Estado e não de governo.

Universidades, escolas públicas: parceiros de um amanhã!

Esse é o próximo desafio. É nisso que precisamos acreditar. E é por isso que vamos lutar.

Muitissimo obrigada.

Assista ao vídeo sobre o projeto:


Por Mayana Zatz

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Células-tronco de cordão umbilical: novas descobertas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 | 22:19

Um dos nossos principais objetivos no Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) é realizar pesquisas científicas visando contribuir para o tratamento de doenças neuromusculares. Para isso, achar fontes abundantes de células-tronco (CT) de fácil acesso e com potencial de formar vários tecidos é fundamental. Ainda temos perguntas muito importantes a responder, tais como: qual é a melhor fonte de CT para o tratamento de cada doença? Qual é o potencial que elas têm de formar diferentes tecidos? CT de várias fontes são equivalentes ou, dependendo de sua origem, elas podem formar um tecido melhor do que outro?

Dentre as várias fontes de CT adultas que estão sendo investigadas, como medula óssea, tecido adiposo e polpa dentária, entre outras, o cordão umbilical tem recebido uma atenção especial. O tecido do cordão, diferentemente do sangue, é rico em um tipo especial de CT com potencial de formar músculo, osso, cartilagem e tecido adiposo. São as chamadas CT mesenquimais (CTM). O que descobrimos agora é que as CTM do sangue do cordão são diferentes daquelas encontradas no tecido do cordão. Essa nova pesquisa, desenvolvida no nosso Centro, será publicada na revista Stem Cells Reviews and Reports. Além do interesse para futuras terapias, ela está relacionada a uma questão polêmica: os bancos de cordão umbilical.

CT mesenquimais (CTM)

Uma das grandes dúvidas em relação às CTM é se elas são todas iguais ou se, de acordo com sua origem, elas podem ter um potencial maior para formar um ou outro tecido. Por exemplo, um tipo de célula poderia ser melhor para formar ossos, enquanto outro seria melhor para originar músculos. Se isso for verdade, descobrir a “vocação” de cada uma delas é extremamente importante para futuras terapias.

Já sabemos que o sangue do cordão é rico em CT hematopoéticas, isto é, precursoras de células sanguíneas. Elas têm sido transplantadas com sucesso  em casos de leucemias, anemias e várias doenças hematológicas. Por outro lado, uma outra população de CT, as CTM, que são preciosas porque têm o potencial de formar vários tecidos, é escassa no sangue do cordão. Onde obtê-las?

O tecido do cordão umbilical é rico em CTM

Nosso grupo (em uma pesquisa realizada pelos alunos de doutorado Mariane Secco e Eder Zucconi) já havia mostrado que o tecido do cordão umbilical é muito mais rico em CTM do que o sangue do cordão. Nessa pesquisa, que foi publicada em 2008 (revista Stem Cells), comparamos o tecido do cordão e o sangue do cordão dos mesmos nascituros. Enquanto todos os cordões eram ricos nessas células, elas só apareciam em 10% das amostras de sangue de cordão. Chamamos a atenção dos bancos de cordão sobre a importância desse achado porque a rotina é que eles guardem o sangue e descartem o cordão. O próximo passo era descobrir se…

…as CTM do cordão e do sangue são iguais? Elas têm o mesmo potencial para formar diferentes tecidos?

Quando vimos que havia muito mais CTM no cordão do que no sangue, a primeira pergunta que surgiu foi: será que as do sangue são as mesmas do cordão, só que presentes em menor quantidade? Responder a essa pergunta não foi fácil, porque tivemos de comparar amostras pareadas, isto é: sangue e cordão umbilical do mesmo bebê.

Para isso, Mariane e o Eder tiveram de coletar e processar 65 cordões. Toda vez que nascia um bebê, eles tinham de estar lá para garantir que as amostras fossem coletadas com todo o rigor científico. Em seguida, elas foram comparadas por um método chamado de microarray, que nos permite analisar a expressão de milhares de genes ao mesmo tempo. Para esta análise, contamos com uma colaboração preciosa do Dr. Sergio Verjovski e de seu aluno Yuri Moreira, ambos do Instituto de Química (USP). O esforço valeu a pena e já temos os resultados, que serão publicados em breve. E o que descobrimos?

As células são diferentes

No linguajar científico, dizemos que elas têm um perfil de expressão diferente. Por exemplo, as CT do sangue parecem estar mais relacionadas a formação de ossos ou ao sistema imunológico, enquanto as do cordão se identificam mais com células nervosas, células secretoras e/ou formadoras de vasos sanguíneos. Diante desses resultados, as nossas próximas questões são: será que isso também vai ocorrer quando essas células forem injetadas em organismos vivos? Por exemplo, será que as CTM do tecido do cordão serão mais eficientes no tratamento de doenças neurológicas, já que elas estão mais relacionadas com a formação de neurônios? Como confirmar isso agora?

Qual é o próximo passo?

O próximo passo agora é separar as células e injetá-las em modelos animais com doenças neuromusculares, modelos de Parkinson ou esclerose lateral amiotrófica (ELA) e confirmar se esse mesmo comportamento ocorre “in vivo”, ou seja, no organismo do animal.  Um grupo de animais receberá CT do tecido do cordão e outro, do sangue do cordão, e eles serão comparados quanto à eficiência das CT no tratamento da doença. São pesquisas demoradas, mas as respostas serão fundamentais para direcionar os futuros tratamentos em seres humanos.

E os bancos de cordão, como é que ficam?

Milhares de pessoas estão pagando para guardar o sangue do cordão de seu filho em bancos particulares. Vale a pena? Minha opinião continua a mesma. O sangue de cordão deveria ser armazenado em bancos públicos e não privados. Ele poderia salvar vidas de inúmeras pessoas que sofrem de leucemias, anemias ou outras condições que poderão ser curadas com transplante de CT de cordão umbilical. Mas para aqueles que ainda querem pagar para manter o sangue do cordão de seu bebê em banco particular, minha sugestão é: guarde também o tecido do cordão umbilical.

Por Mayana Zatz

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Quebra de sigilo: do Enem ao nosso genoma

quinta-feira, 15 de outubro de 2009 | 22:55

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A quebra do sigilo da prova do Enem tem ocupado todos os espaços da mídia. Concordo totalmente com Jorge Forbes quando ele diz: “Não há segurança possível se, por segurança, for entendido o direito de cada um manter indevassado todos os aspectos de sua vida.” (caderno Aliás do jornal Estado de S.Paulo, 11 de outubro). Infelizmente. Isso nos remete a outro assunto, muito polêmico: a quebra de sigilo do nosso genoma, dos segredos contidos no nosso DNA. A quem pertencem essas informações?

Bancos de DNA

Os bancos de DNA armazenados em institutos de pesquisas são controlados por um esquema muito rígido de sigilo. Para ter acesso a essas amostras é necessário passar por rigorosos comitês de ética e justificar muito bem qual será o seu uso. E é claro, sempre com o consentimento dos doadores das amostras. Mas, ao contrário do caso do Enem, de escutas telefônicas ou da quebra de sigilo na internet não é necessário realizar nenhum crime para obter o DNA de alguém.

Nosso DNA está em toda parte

Nós o deixamos em toda  parte: na xícara onde bebemos nossos cafés, nos talheres que usamos nos restaurantes, no lenço de papel onde espirramos, nas cutículas que retiramos ao fazer as unhas nos salões de beleza, nos modess com nosso sangue menstrual (cuidadosamente embalados em invólucros higiênicos e prontos para serem levados) ou na ponta do cigarro que fumamos. Vocês devem se lembrar do caso da Roberta - irmã do Pedrinho que havia sido sequestrado ao nascer - e que teve seu DNA analisado em uma ponta de cigarro descartada, sem o seu consentimento.

Que informações poderão ser obtidas no nosso DNA?

A análise do nosso DNA nunca permitirá descobrir o que pensamos, o que sabemos ou o que sentimos. Mas informações como falsa paternidade ou o risco aumentado para algumas doenças estarão lá, disponíveis para todos. O sequenciamento do DNA vem permitindo obter um número cada vez maior de informações. E quem sabe, no futuro será possível saber se temos mais propensão para alguns traços de personalidade ou comportamento como agressividade, bom humor, otimismo.

A quem interessa?

Para os paparazzi seria um prato cheio. Além de seguir os famosos para obter fotos reveladoras, eles poderiam coletar também seus DNAs.  Já imagino as manchetes sobre os filhos de Michael Jackson, por exemplo. Mas o mais preocupante são as companhias de seguro saúde que certamente gostariam de saber se temos um risco aumentado de termos algumas doenças de alto custo para elas. Nossos empregadores também poderiam querer usar essas informações antes de nos aceitar.

Ético ou não ético?

Talvez você não tenha sido prejudicado pelo exame do Enem e não esteja interessado nas aventuras extra conjugais ou nas intimidades genômicas dos colunáveis. Mas quebrar o sigilo na internet  ou revelar segredos contidos em DNA é um assunto que diz respeito a todos nós. Para alguns juristas o DNA descartado não nos pertence mais. Portanto não é crime ou algo antiético usar ou revelar as informações obtidas nele. E você o que acha?

Por Mayana Zatz

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Um brasileiro explica o Nobel de Medicina

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 | 21:15

A genética ganhou de novo. Desta vez, os laureados no prêmio Nobel de Medicina foram os telômeros, as estruturas que ficam nas extremidades dos cromossomos. Os vencedores foram três americanos: Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak. Entender o papel dos telômeros e da telomerase, a enzima que os regula, vai nos ajudar a compreender mecanismos relacionados com envelhecimento, formação de tumores e algumas doenças genéticas.

Para falar disso, entrevistei o Dr. Rodrigo Calado, um jovem e brilhante pesquisador brasileiro que não conseguiu se “calar” quando soube da notícia. Foi quase “um ganhador”. Ele, que está atualmente no NIH (National Institute of Health, nos Estados Unidos), possui trabalhos importantíssimos relacionados com telômeros e tem colaborado conosco para desvendar essas estruturas nas células-tronco.

Por favor explique em uma linguagem “leiga” o que são os telômeros e qual a sua importância.

Rodrigo Calado - Os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos e servem como verdadeiros protetores dos cromossomos contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

O senhor conhece e já interagiu com as ganhadoras do prêmio Nobel? Qual foi a sua reação quando soube do prêmio?

R.C. - Sim, o grupo de pesquisadores na área de telômeros não é tão grande assim ao redor do mundo e nos reunimos pelo menos uma vez por ano para apresentar e discutir as descobertas nessa área. Tive a chance de discutir meu trabalho com a Dra. Elizabeth Blackburn, que sempre é muito motivadora e ajuda com ideias interessantes. A Dra. Carol Greider também lidera um grupo de estudos mais voltado para as implicações clínicas, ou seja, para pacientes com problemas nos telômeros, semelhante aos interesses do nosso grupo no NIH, e compartilhamos informações e ideias sobre o assunto.

O seu grupo fez descobertas importantes relacionando os telômeros e doenças genéticas ou hematológicas. O senhor poderia falar um pouco a respeito?

R.C. - Nosso grupo descobriu alterações nos telômeros de alguns pacientes com anemia aplástica, uma doença do sangue em que a medula óssea para de produzir as células do sangue e consequentemente o paciente tem anemia, infecções por conta do baixo número de glóbulos brancos e sangramentos por causa das plaquetas baixas. O que descobrimos foi que esses pacientes têm mutações no gene que produz a enzima telomerase, que então não funciona adequadamente. Como consequência, os telômeros ficam muito curtos e a célula-tronco hematopoética para de se dividir. Com isso, a medula óssea para de funcionar adequadamente e o número das células do sangue torna-se reduzido.  Descobrimos também que essas mutações causam uma instabilidade muito grande dos cromossomos e podem aumentar o risco do desenvolvimento de cânceres, como a leucemia aguda.

Sabemos que os telômeros diminuem de tamanho com o envelhecimento celular  e que a enzima telomerase regula o seu tamanho. Já me perguntaram se não valeria a pena colocar telomerase nas células para diminuir seu envelhecimento. Quais seriam os potenciais benefícios e riscos?

R.C. - Constatamos recentemente aqui no NIH que os hormônios sexuais, tanto o andrógeno (hormônio masculino) quanto o estrógeno (hormônio feminino), são capazes de estimular a produção de telomerase na célula-tronco da medula óssea, e este é um tratamento muitas vezes bastante efetivo. É interessante que mulheres após a menopausa que fazem reposição de hormônio têm telômeros mais longos que mulheres pós-menopausa que não fazem essa reposição. Outra forma de aumentar a telomerase na célula seria a terapia gênica, em que o gene da telomerase seria inserido no núcleo da célula e esta então passaria a produzir mais telomerase e reparar adequadamente os telômeros. Mas os estudos em humanos feitos até hoje se mostraram muito complicados e existe uma alta chance de desenvolvimento de câncer. Isso porque é muito difícil acertar na mosca em relação a onde e como colocar este gene no núcleo da célula. Muitas vezes, este gene acaba se “instalando” perto de algum oncogene, ou seja, um gene “precursor” de tumor. Em resumo, apesar das inúmeras pesquisas e do enorme potencial futuro, a terapia gênica ainda é uma promessa distante da aplicação prática em medicina.

Por Mayana Zatz

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Profissão, prazer e retorno financeiro

quinta-feira, 1 de outubro de 2009 | 22:36

chapeu-formando

Mayana, sou uma aluna do 1º ano do Ensino Médio e leitora da sua coluna em VEJA.com. Comecei a estudar Biologia e , mesmo sabendo tão pouco, amo esse assunto. Estou um pouco confusa sobre qual carreira seguir. Fico receosa de não poder conciliar prazer e retorno financeiro nessa área. Gostaria de saber como é trabalhar com genética.
(Júlia Dias de Oliveira Campos)

Recebo inúmeros emails de jovens que dizem querer seguir a área de genética e imagino que todos têm a mesma preocupação: é possível conciliar prazer e retorno financeiro? Se você tivesse feito essa pergunta há 30 anos, eu diria que não, a genética era uma ciência pouco conhecida e aparentemente de pouca aplicação prática. Os alunos da medicina daquela época não entendiam porque tinham de estudar genética. Hoje, a situação mudou radicalmente: a genética é a ciência do século XXI. Mas será que ser geneticista é uma profissão rentável?

É uma área muito ampla

É importante lembrar que a genética não se limita à parte humana e à parte médica, que tem sido o meu foco de pesquisas. Existe a genética animal, a genética vegetal, a genética de micro organismos e a biotecnologia que podem ter aplicações práticas mais rentáveis que a genética humana.

Que profissão pode garantir retorno financeiro?

Essa garantia não existe Júlia, para nenhuma profissão. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que entrar no mercado financeiro era garantia de alto salário. Mas essa situação parece estar mudando. Veja o que aconteceu nos últimos meses. Entre as profissões de futuro a biotecnologia e a genética parecem despontar como as grandes estrelas. Vale a pena apostar nelas? Na minha opinião existe um pré-requisito fundamental para o sucesso em qualquer atividade profissional…

Escolha sua profissão por paixão

Mais do que prazer, faça a sua escolha por paixão, Júlia. Um trabalho, não importa qual, onde você não sinta as horas passar. Se você conseguir uma profissão que a motive a ponto de envolvê-la de corpo e alma, o retorno virá. Talvez você não tenha um salário milionário, mas certamente se sentirá muito mais realizada que muitas pessoas frustradas, donas de jatinhos particulares. É assim que me sinto e é isso que desejo a você e a todos os jovens que estão começando ou questionando uma carreira.

Por Mayana Zatz

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Quanto você precisa dormir?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009 | 20:28

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Estamos cansados de ouvir que dormir o suficiente é muito importante para ter um bom desempenho e manter a saúde. O número de horas apregoadas pela maioria dos especialistas é de 8 horas. Entretanto, algumas pessoas dizem que não se sentem descansadas com menos de 9 ou 10 horas de sono, enquanto outras se sentem muito bem dispostas dormindo menos de 6 horas por noite. A necessidade individual de sono depende de hábitos ou dos nossos genes?

Se você sente culpa por gostar de dormir saiba que existe sim uma influência genética no número de horas  que cada pessoa necessita para se sentir descansado. É o que mostra uma pesquisa publicada na revista Sciences, de 14 de agosto.

Os genes do sono

Os genes que influenciam o sono ainda são pouco conhecidos, mas sabemos que a variabilidade entre pessoas de uma população obedece a uma herança dita multifatorial, como a altura ou o peso. Os fatores ambientais (prática de esportes, stress, alimentação adequada etc..) são responsáveis por 50% e a contribuição genética (chamada de herdabilidade) responde pelos outros 50%. Ela depende de vários genes cada um com um efeito pequeno. Em um extremo da curva estão aqueles que precisam de pouco sono e no outro os conhecidos “dorminhocos”. Entretanto, mutações em alguns genes podem ter um efeito significante no nosso sono. É sobre isso o artigo publicado pelo Dr. Ying He e seus colaboradores.

Mutação em indivíduos de pouco sono

Esses pesquisadores descobriram que uma mutação (P385R) em um gene denominado DEC2 - envolvido entre outras coisas no ritmo circadiano - está aparentemente associado a pouca necessidade de sono. Essa mutação foi encontrada em uma família - denominada de família de pouco sono - (short sleep family). Os portadores da mutação (mãe e filho) dormiam cerca de 6 horas, enquanto os outros familiares, que não tinham a mutação, dormiam em média 8 horas (variando de 7.4 a 9.4).

Trata-se de uma mutação rara. Como saber se ela exerce mesmo esse efeito?

Essa mutação identificada em uma família não foi encontrada em 250 indivíduos da população. Como então ter certeza que ela influencia o sono? Para ter essa resposta os cientistas geraram um camundongo transgênico com a mesma mutação. Observaram que os animais portadores da mutação permaneciam  ativos entre 1.2 a 2.5 horas a mais que os controles sem a mutação. Confirmaram assim seus achados em humanos.

Afinal, quanto sono precisamos?

Trata-se de uma pergunta não só de interesse social, mas também científica, que tem sido objeto de muitas pesquisas: qual é o papel ou a importância do sono no nosso desempenho e bem-estar? Estudos genéticos serão muito importantes para desvendar esse mistério. Por outro lado, confesso que fiquei aliviada ao saber que se trata de uma mutação rara. Imaginem se tivéssemos que nos submeter a um teste de DNA para sabermos se temos uma propensão genética a dormir muito ou pouco antes de sermos aceitos em um novo emprego?

E você, caro leitor? Sabia que os genes influenciam a sua necessidade de sono?

Por Mayana Zatz

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Testes para doença de Alzheimer

quinta-feira, 17 de setembro de 2009 | 20:12

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Na coluna passada falamos da descoberta de três novos genes que estão associados a um aumento do risco de se desenvolver o Mal de Alzheimer (DA), doença que leva à perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva. A questão é: vale a pena sabermos de antemão se temos um risco aumentado ou não de desenvolver a DA? Para discutir esse assunto entrevistei o Dr. David Schlesinger, neurologista que trabalha em pesquisas sobre  a DA.

O senhor defende que uma pessoa se submeta a testes preditivos. Quais são os argumentos para isso?

A medicina ainda não chegou no ponto de conseguir determinar o risco exato de desenvolvimento da Doença de Alzheimer (nem da maioria das doenças genéticas causadas por múltiplos genes). O que temos disponível é o gene APOE. Quem possui a variante e4, tem três vezes mais risco de desenvolver DA. Mas pessoas que possuem essa variante podem nunca ter a doença, enquanto outras que não a possuem  podem desenvolvê-la.

Na verdade, não há um diagnóstico de certeza mesmo para pacientes que já estão com demência, pois há inúmeras causas que podem causar perda de memória e da capacidade cognitiva. A DA é somente uma delas. Para complicar, o declínio cognitivo pode ser a combinação de DA com outras causas como pequenos derrames.

O senhor acredita que quando os testes disponíveis forem confiáveis e precisos, eles trarão  benefícios?Sim. Isso vai contra o que muitos geneticistas pensam no momento sobre doenças incuráveis, mas explico: todos nós temos um risco grande de desenvolver DA, desde que não tenhamos uma morte prematura. Quem chegar aos 85 anos de idade tem um risco de aproximadamente 30%. Também sabemos que muitos dos pacientes com demência têm uma combinação de pequenos derrames e DA. O risco para derrame é modificável com medicações e comportamentos saudáveis (dieta do mediterrâneo, ingestão de vinho, exercício físico regular, exercício mental regular, etc). Assim, as pessoas que souberem que têm um risco aumentado, terão um estímulo maior para prevenir o declínio cognitivo.

 

Além disso, aquelas pessoas com risco aumentado, poderão se planejar adequadamente do ponto de vista financeiro e de saúde, obtendo planos/seguros que cubram cuidadores especializados, etc.

O senhor pode explicar o que é a dieta do mediterrâneo?É uma interpretação moderna de dietas típicas de alguns países do mediterrâneo. Consiste do consumo de frutas e verduras em abundância, azeite de oliva como fonte de gordura, laticínios, peixes e aves, além de ingestão diária leve (uma taça) de vinho. Estudos mostram que esta dieta está associada com menor risco de doenças cardiovasculares e maior sobrevida.

 

Eu já afirmei inúmeras vezes que não gostaria de saber se tenho risco aumentado de vir a desenvolver a DA. E o senhor, gostaria de saber?Sim, gostaria muito. Se meu resultado sugerisse risco diminuído, ficaria mais tranquilo e investiria meus cuidados em outras doenças para as quais eu possa ter maior predisposição. Se por outro lado, viesse com risco aumentado, direcionaria meu comportamento na prevenção de demências associadas, obteria um seguro saúde mais focado e prepararia minha família para minhas eventuais limitações. Além disso,  procuraria participar de estudos experimentais de prevenção da DA, contribuindo assim com tratamento de futuras gerações.

 

Mesmo sem ser testado para a DA, existe alguma contra-indicação para  que todos ajam no sentido da prevenção? Dieta do mediterrâneo, exercícios físicos, exercícios mentais não são recomendáveis para todos nós?Vinho não é indicado para todos. Quem tem história ou risco de abuso de álcool deve se abster. Não existe contra-indicação para prática de exercícios (muito pelo contrário) ou algumas dessas medidas (como baixo consumo de carnes). No entanto, para alguns não é fácil aderir a esse tipo de comportamento. Quem não gosta de um bom rodízio, por exemplo?

Além disso, dedicar algumas horas por semana para exercícios físicos não é algo natural para todos, especialmente no mundo atual. Resultados genéticos poderiam servir de estímulo para algumas pessoas saírem do sedentarismo. Tudo isso é uma questão de prioridades - no futuro os testes genéticos poderão nos ajudar a definir melhor as prioridades de cada indivíduo.

Por Mayana Zatz

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Doença de Alzheimer

quinta-feira, 10 de setembro de 2009 | 22:25

alzheimer

Há muito tempo acompanho seu trabalho na área de genética. Li recentemente sobre a descoberta de células do Mal de Alzheimer. Gostaria de me colocar á disposição para ser voluntário em eventuais testes de seu laboratório. Estou  com 61 anos. Será que sirvo?
(Manuel Ribeiro)

O que são essas novas descobertas?

Com o envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida, a  doença de Alzheimer (DA), caracterizada pela perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva, está se tornando cada vez mais frequente. Embora não tenhamos estatísticas precisas para a população brasileira sabemos que a doença atinge mais de 5 milhões de americanos. Portanto, identificar novos genes e mecanismos responsáveis pela DA abre novas perspectivas de tratamento. É isso que dois grupos de pesquisadores independentes, um francês e outro britânico, acabam de publicar na revista Nature Genetics.

A DA pode ter herança dominante ou multifatorial

Existem formas da doença cujo início é precoce (entre 40 e 50 anos). Essa variações são causadas por pelo menos três genes autossômicos dominantes já identificados. Uma pessoa portadora de uma mutação em um desses genes, além da quase certeza de desenvolver a doença (desde que viva o suficiente) terá um risco de 50% de transmiti-la à sua descendência. Felizmente essas formas são raras e correspondem a menos de 10% de todos os casos de DA. As formas mais comuns, de início tardio (após os 60 anos) obedecem a uma herança mais complexa, dita multifatorial, isto é, pela interação de genes de suscetibilidade com fatores ambientais.

O que são esses genes de suscetibilidade?

São genes que aumentam o risco, mas não determinam que uma pessoa irá desenvolver a doença. Para que isso ocorra deve haver interação com outros genes de risco e fatores ambientais. Até o momento, o único gene de susceptibilidade para DA reconhecido em todos os estudos internacionais  era o gene APOE, que pode se apresentar sob três formas: APOe2, APOe3 e APOe4. Pessoas portadoras da forma APOe4  têm um risco aumentado de vir a desenvolver a DA.
O que mostrou esse novo estudo publicado na revista Nature Genetics?

Os pesquisadores, em dois estudos independentes, um realizado na França e outro no Reino Unido, identificaram mais três genes de suscetibilidade denominados: clusterina, CR1 e PICALM. O estudo envolveu muitos milhares de pessoas, 16.000 só no estudo britânico.

O que fazem esses genes?

O gene PICALM  atua na junção entre as células nervosas. Os genes da clusterina e CR1 interagem com a proteína amiloide que se acumula no cérebro de pacientes com DA, levando a morte celular e problemas cognitivos. O interessante é que variantes do gene da clusterina podem ter dois papeis antagônicos: um benéfico auxiliando na remoção das placas amiloides ou um patogênico permitindo a formação de fibrilas, que vão ancorar as placas amiloides às células nervosas (como se fossem teias de aranha para ancorar suas presas). Já o gene CR1  está envolvido com o  sistema imunológico. Ele poderia atuar reconhecendo ou não as placas amiloides como agentes invasores patogênicos. Se isso for confirmado, estimular esse gene a remover as placas amiloides abriria novas perspectivas terapêuticas.

E agora, como estimar o risco de podemos ter DA?

O primeiro gene de risco, o APOe4 , descoberto há 15 anos, está associado a um risco de 20% de uma pessoa desenvolver a doença, o da clusterina em cerca de 10% e o CR1 e PICALM em cerca de 3 a 5%. Existe uma probabilidade grande de qualquer um de nós ter um ou mais desses genes de risco. Mas cada um deles sozinho, não vai determinar qual é a probabilidade de alguém vir a desenvolver a DA. Mesmo que tivéssemos os três genes de risco teríamos uma probabilidade de 30 a 35% de vir a desenvolver a DA, ou seja, 65 a 70% de não desenvolvê-la.

Vale a pena passarmos por testes?

Muitas  pessoas afirmam que gostariam de ser testadas. Na minha opinião, embora as novas pesquisas sejam muito promissoras, enquanto não houver um tratamento efetivo que previna o depósito das placas amiloides, não vale a pena passar por esses testes genéticos. Pelo menos eu não quero saber…. Já falei disso em colunas anteriores. Mas essa é uma questão polêmica. Na próxima semana vou entrevistar o Dr. David Schlesinger, que vem trabalhando em pesquisas com a DA sobre os prós e contras de submeter-se a um teste preditivo.

Por Mayana Zatz

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Experiência em macacos traz esperança para portadoras de doenças mitocondriais

quinta-feira, 3 de setembro de 2009 | 21:17

Nesta semana, a revista Nature publicou mais um avanço espetacular. Um grupo de pesquisadores americanos conseguiu gerar macacos saudáveis usando óvulos de duas doadoras: uma forneceu o DNA nuclear e a outra, as mitocôndrias (as organelas que fornecem energia para as células). A grande notícia é que, se for possível repetir isso em humanos, as mulheres afetadas por doenças mitocondriais poderão gerar descendentes livres da doença. Existem mais de 40 patologias causadas por defeitos nas mitocôndrias, incluindo cegueira, surdez, doenças degenerativas, câncer e diabetes. E o que o macaco tem a ver com isso, vocês devem estar se perguntando…

Recordando: o que são mitocôndrias?

As mitocôndrias são organelas que ficam ao redor do núcleo da célula (no citoplasma) e têm um papel importantíssimo: produzir energia para a célula. Uma outra característica dessas organelas é que elas possuem DNA, o chamado DNA mitocondrial. Ele pouco interfere nas nossas características genéticas, mas mutações nesse DNA são responsáveis por várias doenças que podem ser muito graves. Quanto maior o número de mitocôndrias afetadas, maior o comprometimento clínico.

Doenças mitocondriais são transmitidas de mãe para filho

Este é o grande problema. Se uma mulher for afetada por uma doença mitocondrial, existe um risco muito grande de ela transmitir essa doença para sua prole - que será mais ou menos afetada, dependendo do número de mitocôndrias defeituosas presentes no óvulo herdado da mãe. Já os descendentes de homens afetados não correm esse risco, porque praticamente não existem mitocôndrias nos espermatozoides.

O que o experimento com as macacas tem a ver com isso?

Os pesquisadores americanos mostraram que é possível em macacas substituir as mitocôndrias de um óvulo sem  destruí-lo. Essa técnica é denominada transferência de núcleos (seria como pegar dois pêssegos e colocar o caroço do primeiro no segundo, mantendo suas estruturas intactas). Um óvulo com o núcleo de outro foi fertilizado por um espermatozoide e inserido no útero. Três macacas engravidaram e geraram quatro animais normais. Uma delas teve uma gravidez gemelar: Mito e Tracker. A técnica utilizada requer muita habilidade, mas esses cientistas acabam de demonstrar que isso é  factível. Se for possível repetir o experimento em humanos, mulheres afetadas por doenças mitocondriais poderão gerar filhos livres da doença. É um sonho almejado por todas elas.

Mas lá vêm os eternos opositores…

Já estão dizendo que a criança terá duas mães e um pai. Uma mãe biológica e uma mãe mitocondrial, imagino. Que bobagem. Seria como dizer que quem sofreu um transplante também tem duas mães ou dois pais (de acordo com o sexo do doador). Como serão as crises de identidade futuras? Já estou prevendo aquele rapaz em plena crise de adolescência dizendo à mãe: “Você não manda em mim, quem manda é a minha mãe mitocondrial!”

Na minha opinião, trata-se de mais um avanço espetacular. E você, caro leitor, condenaria o uso dessa técnica em humanos?

Por Mayana Zatz

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