Coluna do

Augusto Nunes

Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido.
E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido.

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O que ainda espera o Judiciário?

6 de novembro de 2009

Aprendizes de jagunço a serviço de José Sarney invadiram nesta quinta-feira a sede do Sindicato dos Bancários do Maranhão, em São Luís, para abreviar a pancadas a noite de lançamento do livro Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória e Mylton Severiano da Silva, que detalha alguns itens do amazônico prontuário da famiglia chefiada pelo presidente do Senado. Confiram o video.

Nos últimos oito meses, com o jaquetão enfeitado pela medalha de homem incomum que ganhou de Lula, Sarney foi absolvido liminarmente pelo Executivo, inocentado pelo Legislativo e favorecido pelo Judiciário. Graças à cumplicidade de Lula, ao apoio militante da base alugada e à covardia dos opositores no Senado, não só sobreviveu às acusações como conseguiu punir acusadores sem culpa.

Comparsa do velho morubixaba, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, colocou o Estadão sob censura. A afronta está completando 100 dias. Os colegas de Dácio transferiram o caso para o Tribunal de Justiça do Maranhão, subordinado ao dono da capitania. Cada vez mais atrevido, Sarney manteve no cargo até ontem o senador Expedito Filho, afastado por decisão do Supremo na semana anterior. Só faltava ao imortal de araque decidir que livros podem ser lidos pelos maranhenses.

Agora não falta mais nada.

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O companheiro de toga começa os ensaios para o teatro do mensalão

6 de novembro de 2009

Vista de longe, a sessão do Supremo Tribunal Federal foi interrompida pelo pedido de vista do ministro Dias Toffoli, resolvido a examinar cuidadosamente uma prova incluída na denúncia contra o senador Eduardo Azeredo. De perto, o que se viu foi a entrada em ação, por baixo da toga, da figura que funde o advogado-geral da União, o bacharel preferido do PT e o diretor de Assuntos Jurídicos da Casa Civil chefiada pelo amigo José Dirceu.

O ministro Dias Toffoli alega que a prova, contestada pela defesa de Azeredo, é a única que liga o senador tucano ao mensalão mineiro. É só uma das flores do buquê imenso, sabe o doutor  José Antonio Toffoli. O caçula do STF capricha na pose de quem, por não levar em conta o passado, julga com isenção qualquer caso, mesmo os que envolvam políticos de partidos oposicionistas. Só plateias bestificadas não enxergam o companheiro de toga já ensaiando para o teatro do mensalão, disposto a pagar com favores futuros as contas do passado.

Se encontrou um motivo para adiar o desfecho do caso Azeredo, ainda que por alguns dias, encontrará incontáveis pretextos para prorrogar até o fim dos tempos o julgamento dos mensaleiros amigos.  O relator Joaquim Barbosa recomendou aos ministros que apressem o andamento do processo. Se não atenderem ao conselho, nenhum deles estará na sessão que vai decidir em última instância o destino da turma do mensalão. Só vai sobrar Toffoli.

Aos 42 anos, ele pode esperar mais alguns para cumprimentar os padrinhos e demais companheiros pela absolvição por falta de provas.

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Prontuário do caçula é a nova atração da Casa do Espanto

5 de novembro de 2009

É difícil entender por que o Senado resistiu com tanta tenacidade à partida de Expedito Junior, despejado do gabinete por ordem do Supremo Tribunal Federal. Sim, o prontuário do orgulho do PSDB de Rondônia justifica o desconsolo dos colegas. Mas a prodigiosa capivara do substituto, segundo colocado na disputa eleitoral, informa que a Casa do Espanto incorporou uma nova atração. Orgulho do PDT de Rondônia, Acir Gurgacz responde na Justiça por abuso de poder econômico nas eleições de 2006. E é réu em outros 199 processos..

Com 200 ações judiciais no cangote, o caçula do Senado está em casa. Se José Sarney continuar na presidência, pode virar senador vitalício.

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O time do ministério pode vencer o campeonato dos presidiários

5 de novembro de 2009

Lula não estará exagerando se, num dos improvisos depois do almoço, afirmar que nunca antes neste país tantos casos de polícia foram ministros de um mesmo presidente da República. Tem tudo para brilhar no campeonato dos presidiários o timaço convocado pelo critério do prontuário e escalado no esquema 171 + 2: José Dirceu; Romero Jucá, Anderson Adauto, Humberto Costa, Saraiva Felipe, Edson Lobão, Silas Rondeau e Walfrido Mares Guia; Antônio Palocci; Alfredo Nascimento e Luiz Gushiken. Ainda no banco de reservas, gente muito promissora, como Orlando Silva, logo estará fazendo bonito na equipe titular.

A dupla de candidatas à vaga que será aberta em abril, quando Dilma Rousseff deixar de vez a chefia da Casa Civil para concentrar-se na campanha presidencial, informa que Lula resolveu investir na formação de um time feminino igualmente temível. Ainda restrito a Benedita da Silva e Matilde Ribeiro, o elenco vai incorporar Erenice Guerra ou Miriam Belchior, que já ocupam cargos de confiança na Casa Civil. Erenice, assessora de Dilma desde o Ministério de Minas e Energia, comanda a Secretaria Executiva. Miriam é a subchefe de Articulação e Monitoramento, além de coordenadora do PAC.

Como o noticiário sobre as possíveis herdeiras de Dilma tem parado por aqui, os leitores ficam sem saber que ambas disputam o posto anabolizadas por serviços especiais prestados ao PT e bastante valorizados pelos Altos Companheiros. Erenice, por exemplo, conduziu a montagem dos dossiês que tentaram reduzir Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso a perdulários irresponsáveis. Negou a autoria da abjeção com a candura dos depoentes profissionais ─ que voltaria a exibir na última da Dilma. Embora tenha combinado com Lina Vieira o encontro com a chefe da Casa Civil, Erenice continua jurando que nem sabe direito como se chega ao prédio da Receita Federal.

Miriam estreou nas páginas político-policiais em janeiro de 2002, depois do assassinato de Celso Daniel. Ex-mulher do prefeito de Santo André, foi ela quem lhe contou que ex-assessores andavam embolsando o dinheiro arrecadado nos porões para financiar campanhas do PT. Conversas estranhas entre Miriam e Gilberto Carvalho foram gravadas pela polícia em fitas providencialmente destruídas. 

As duas estão a um passo do primeiro escalão federal não pelo que pensam ou fazem, mas pelo que sabem e não contam.

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Todo corrupto merece cadeia

4 de novembro de 2009

Os primeiros barulhos do escândalo do mensalão, em maio de 2005, jogaram no colo do PSDB o personagem com que sonham todos os atores políticos. Foi bem no papel de mocinho da história até o depoimento do publicitário Duda Mendonça, atulhado de revelações que transformaram o presidente Lula em forte candidato ao impeachment. Em vez do confronto imposto pela coerência, o partido resolveu poupar o principal adversário, para arrastar até novembro de 2006 um chefe de governo com lama pela cintura e destroçar nas urnas o sonho do segundo mandato. 

A opção equivocada deixou Lula fora do pântano onde nadavam de braçada ─ em meio a alevinos adquiridos nos criadouros da base alugada ─ os  delúbios, silvinhos, genoínos e dirceus. Os líderes tucanos e os aliados do PFL acharam o cardume de peixes graúdos suficientemente impressionante para dispensar a incorporação da baleia branca. Em agosto, celebravam a estratégia prodigiosa quando foi descoberto o encanamento clandestino construído em Minas Gerais para despejar dinheiro sujo na campanha de 1998.

Planejado por Walfrido Mares Guia, depois recrutado por Lula para fazer o serviço no Ministério do Turismo, o duto construído na gestão do governador Eduardo Azeredo, candidato ao segundo mandato, foi patrocinado por um aprendiz de corrupto bastante promissor chamado Marcos Valério. A DNA, uma das agências de Valério,  conseguiu um empréstimo de R$ 11,7 milhões no Banco Rural, oferecendo como garantia contratos de publicidade com secretarias estaduais. Repassada ao QG da coligação liderada por Azeredo, a bolada irrigou tanto a campanha do governador quanto a de 70 candidatos à Câmara dos Deputados.

Terminada a campanha, Marcos Valério estava pronto para a montagem do esquema do mensalão, completado em parceria com Delúbio Soares, tesoureiro do PT, professor de matemática e mestre em ladroagem. Derrotado, Azeredo elegeu-se senador em 2003 e presidente do PSDB. Em agosto de 2005, alvejado pela bala perdida, subiu à tribuna com o lodo pelas canelas. Desceu só com a cabeça à tona.

Os constrangidos tapinhas nas costas dos correligionários contrastaram com o sorriso coletivo da companheirada. Caíra no pântano um tucano dos grandes. Era tudo o que queria o bando qualificado pelo procurador-geral Antônio Fernando Souza de ”organização criminosa sofisticada”, liderada por José Dirceu. Amparados no caso de Azeredo, os companheiros intensificaram a ladainha destinada a convencer o eleitorado de que o PT fez o que todos fizeram. Como já haviam caído na vida, as vestais de araque se dispensaram de explicar por que fizeram o contrário do prometido desde a fundação da sigla em 1980.

“Os autores das acusações querem me dar o abraço do afogado”, fantasiou Azeredo no discurso. Quem deu esse abraço foi o PSDB, que entrou no pântano agarrado ao senador delinquente, tenho repetido desde aquele agosto. Para não perder o amigo, o partido que não costuma perder uma chance de errar perdeu a bandeira do combate à corrupção em geral e, em particular, aos 40 do mensalão. Há quatro anos, o PSDB deveria ter providenciado o despejo do culpado. Preferiu endossar o falatório tão verossímil quanto um diploma de doutora na parede da sala de Dilma Rousseff.

Em 2007, perdeu outra chance de hastear a bandeira arriada ao fazer de conta que não soube da denúncia encaminhada pelo procurador-geral da República ao Supremo Tribunal Federal. Nesta quarta-feira, depois da sessão em que o ministro Joaquim Barbosa, relator do caso, pediu a abertura de uma ação penal contra o senador mineiro, a esperança de salvação se ofereceu de novo aos titubeantes vocacionais.

Caso se livre de Azeredo, o PSDB estará autorizado a afirmar que, diferentemente do PT, não se transformou por vontade própria em esconderijo de bandidos.  Ou faz isso ou se proíbe de abrir a boca sobre os fora-da-lei homiziados em outras siglas. A oposição oficial ainda não aprendeu que a legenda não anula o prontuário. É a folha corrida que prevalece sobre a sigla. O Brasil honesto exige mais que o enquadramento dos que enriquecem na grande quadrilha federal. Exige a aplicação da lei a todos os culpados. Exige o fim da Era da Impunidade.

Seja qual for a filiação partidária, sejam quais forem os cargos que ocupou, todo corrupto merece cadeia.