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27 de agosto de 1986
Corrida milionária

Na caça aos votos, os candidatos
usam os fundos do governo e
cortejam empresários na eleição
mais cara da História do país

As convenções partidárias mal terminaram e os debates pela televisão mal começaram, mas a campanha eleitoral de 15 de novembro já pôs em funcionamento, nos bastidores, a mais notória e rica das máquinas ilegais da política nacional: o jogo das verbas dos candidatos. No país de faz-de-conta das leis que existem mas não funcionam, o eleitor brasileiro não tem o direito de ajudar financeiramente o candidato de sua preferência. Pela lei, ele só pode entregar seu dinheiro aos partidos políticos, que depois irão reparti-lo com a justiça dos profetas e a honestidade dos trapistas entre todos os concorrentes abrigados na mesma legenda. As empresas, privadas ou estatais, também não podem participar da disputa - nem mesmo reforçando a conta bancária das agremiações políticas. O Brasil seria assim se a Lei n.° 5682, de 1971, fosse cumprida. Ela é descumprida e desconhecida. Lendo-a, não há quem consiga chegar ao último de seus 130 artigos sem rir. Ninguém a aplica, ninguém a teme e, como sucede a cada eleição, a disputa pelo voto torna-se uma feira. Faltam menos de três meses para a eleição e, mais uma vez, pode-se assegurar: este será o pleito mais caro da História. No cálculo conservador, os 10 000 candidatos a governador, senador e deputado gastarão, no mínimo, 1 bilhão de dólares, ou 14 bilhões de cruzados.

"Vamos acabar numa plutocracia, em que só os ricos poderão chegar ao governo", afirma o ministro-chefe do Gabinete Civil, Marco Antônio Maciel. Ao assumir a presidência do Tribunal Regional Eleitoral do Pará, há apenas uma semana, o desembargador Raymundo Paiva Melo fez uma descoberta espantosa: nas eleições de 1982, os partidos nem sequer se deram ao trabalho de apresentar as contas oficiais de suas campanhas. No Rio, o PDT do govemador Leonel Brizola apresentou uma previsão de gastos para a disputa de 1986 de apenas 9,1 milhões de cruzados - quantia que, mesmo num Estado como Pernambuco, não garantiria a vitória de um candidato à Assembléia Constituinte. Aprontando os papéis a serem entregues ao TRE paulista, na tarde da última sexta-feira, o presidente do PTB, Vicente Botta, também fazia cálculos modestos, afirmando que a campanha do empresário Antonio Ermírio de Moraes, o industrial mais rico do país, e de todos os candidatos do partido no Estado, capaz de colocar 200 automóveis à disposição da legenda, não iria custar mais do que 15 milhões de cruzados. Minutos mais tarde, informado por Marcos Emílio Gomes, de VEJA, de que o PT, legenda sem crédito na praça, estimava seus gastos em 51 milhões, Vicente Botta percebeu o absurdo que dissera e mudou de idéia. "Não temos previsão ainda", afirmou.

Hipocrisia ou repressão - No mundo do dinheiro real, o custo da campanha de Antonio Ermírio ou de seu adversário Paulo Maluf é estimado em 60 milhões de dólares, ou 830 milhões de cruzados. Quantos votos os candidatos terão no dia 15 de novembro, ninguém sabe, mas uma coisa é certa: a campanha mais barata de governador não ficará por menos de 100 milhões de cruzados e à Constituinte chegarão congressistas que, em geral, terão recebido amparos de 5 a 100 milhões de cruzados alheios.

Há quinze dias, incomodado pelo volume de denúncias que chegam ao Planalto, o presidente José Sarney incumbiu o ministro da Justiça, Paulo Brossard, de elaborar um novo projeto de lei punindo com mais rigor o derrame de dinheiro que acompanha a temporada eleitoral. Mas agora é tarde, as caixinhas já estão abertas. "Acho que, se pelo menos a lei que aí for cumprida, já será um avanço", acredita Brossard. O ministro acha porque e obrigado a achar, mas o político gaúcho Paulo Brossard sabe que as chances de a lei ser cumprida são as mesmas de o SNI revelar quem matou o jornalista Alexandre von Baumgarten. De qualquer forma, ele pretende acionar a Polícia Federal para investigar e reprimir os abusos cometidos pelos candidatos.

"Tentar regulamentar o excesso de gastos na campanha é como tentar resolver a quadratura do círculo", afirma o jurista Raymundo Faoro, ex-presidente da OAB. "A primeira alternativa é a hipocrisia, e a segunda uma repressão generalizada, única forma de fiscalizar de fato os caminhos do dinheiro."

"Estamos vivendo o típico caso de torpeza bilateral", afirma o ministro-chefe do Gabinete Civil, Marco Antonio Maciel, que sempre enfrentou a corrida às urnas com campanhas pobres, ainda que reforçadas pelo auxílio de empresários poderosos, como Antonio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, seu fiel financiador há mais de uma década. "Nenhuma das partes quer denunciar o ilícito da outra", diz Maciel. "Nesta eleição, donativo inferior a 1 bilhão é simpatia, coisa simbólica", diz um ministro.

Pânico de perder - Com a campanha na rua, o candidato pede votos aos eleitores e dinheiro aos empresários. Os mais procurados, por serem os mais ricos, generosos e interessados, são os grandes empreiteiros das obras públicas. Donos de orçamentos milionários, com seu faturamento atrelado ao poder público, eles costumam abastecer os cofres de todos os candidatos, com chance de vencer.

"Sou amigo de todos", afirma Olacyr de Moraes, o maior plantador de soja do mundo e dono da Constran, classificada entre as cinco maiores empreiteiras do país. "Quem trabalha para o governo não pode ter candidato", diz ele. Segundo um secretário do governo de Hélio Garcia, de Minas Gerais, dos 400 milhões de cruzados que o peemedebista Newton Cardoso e dos 300 milhões que o liberal Itamar Franco irão torrar, respectivamente, na disputa de votos, 80% sairão das grandes construtoras. Um empresário gaúcho estima que essas quantias são cobradas conforme uma tabela fixa, girando em torno de 1,5% a 2% do faturamento bruto das empreiteiras em seus negócios com o governo. Os empreiteiros acabam pagando caro, pois são obrigados a apostar em todos os candidatos com chances. Eles não se preocupam em vencer, pois vivem no pânico de perder. É conhecida a acrobacia de um grande construtor de obras públicas que há poucos anos era capaz de sentar-se simultaneamente à mesa de biriba do general João Figueiredo e à mesa de jantar de Tancredo Neves.

Num episódio humilhante para a legislação eleitoral brasileira, o único caso perfeitamente documentado de contribuição de empreiteiros para a campanha política de um brasileiro apareceu por mérito do Federal Bureau of Investigations, o FBI. No ano passado, a polícia americana anunciou que estava investigando o recebimento de 50 000 dólares por uma agência de relações públicas americana encarregada de divulgar uma visita feita em 1984 pelo então vice-presidente Aureliano Chaves aos Estados Unidos. A documentação do processo mostrou que os empresários Sergio Quintela, da empreiteira Montreal, e Peter Landsberg, do estaleiro Verolme, haviam pago parte do contrato. Quintela confirmou a despesa, Landsberg negou-a e Aureliano, tanto à época como hoje, informa que ela foi feita à sua absoluta revelia e sem necessidade.

"Os gastos deveriam ser transparentes", afirma o empresário Eugenio Staub, dono da Gradiente, que em São Paulo fornece equipamentos de som a dois candidatos do PMDB por uma vaga na Constituinte. Se houvesse transparência, ainda que sob certos limites para as doações, seria possível se descobrir de onde sai o combustível de cada candidato. Isso, porém, não interessa à maioria dos que dão e à quase totalidade dos que recebem.

Há método na loucura financeira das campanhas e esse método é tão refinado que todos os partidos adoram fazer de conta que a atual legislação funciona. "Controle que estabelece a igualdade cria uma situação fictícia que incentiva a fraude", afirma o juiz do TRE Roberto Wider, encarregado de fiscalizar os gastos de propaganda da campanha fluminense. Nos últimos quinze anos o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo não conseguiu punir um único candidato por abuso de poder econômico. "A avaliação das contas oficiais é feita depois do pleito por um comitê interpartidário", explica Francisco José da Silva, assessor do TRE paulista. "Evidentemente, ninguém tem interesse em que se mexa a fundo no assunto, pois o prejuízo seria geral", acrescenta.

Operação 10% - Nas últimas semanas os políticos conservadores do Norte e Nordeste foram abalados pela notícia de que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a poderosa FIESP, decidiu cancelar as remessas para fora do Estado porque a campanha paulista começou a ficar mais cara do que se pensava. Se uma fonte generosa como a FIESP está seca, outro oásis, a Federação Brasileira de Bancos, Febraban, fechou-se em copas como instituição. Dentro dela, contudo, formou-se um grupo de doze grandes empresários sentados numa caixinha de 4 milhões de dólares, com a esperança de ajudar na eleição de 55 constituintes, algo equivalente a 10% da Assembléia. "A experiência que se adquire observando a bancada dos parlamentares de esquerda ensina que um grupo desse tamanho pode não conseguir aprovar o que se quer, mas consegue impedir que se aprove o que não se quer", afirma um dos articuladores da empreitada.

O grupo dos doze da Febraban repete-se nacionalmente em escalas menores porque nesta campanha ocorreu um fenômeno raro: o empresariado dá à disputa pelas cadeiras na Câmara e no Senado quase a mesma importância que dá à batalha pelos governos estaduais. Na origem desse interesse está a Constituinte, A Sociedade Rural Brasileira, por exemplo. Funciona como uma espécie de avalista para candidaturas que peregrinam junto a fazendeiros, fornecendo a lista de nomes confiáveis para combater a reforma agrária. A União Democrática Ruralista, engordada pelos bois leiloados em seu benefício, tornou-se um bom endereço para a obtenção de recursos em Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

"Há muitos empresários atirados nas campanhas que, se antes patrocinavam candidatos, agora querem se eleger. Com isso, parece que inflacionaram os custos", diz o general Golbery do Couto e Silva. "O pior é que não se pode garantir que um congresso com mais empresários seja necessariamente melhor, pois a experiência mostra que eles, depois de eleitos, se desinteressam da rotina parlamentar", acrescenta. Nesse quadro agitado, há tramas obscuras e acusações pesadas. O dinheiro que ajuda a empinar uma candidatura também pode sabotar uma outra - e até retirá-la da disputa. "Isso aconteceu em Santa Catarina", acusa o deputado Walmor de Luc, vice-líder do PMDB na Câmara. Segundo ele, graças ao pagamento de 1 milhão de cruzados, "parte em dinheiro, parte em cheque", o empresário Realdo Guglielmi convenceu o candidato Rony Zaniboni a desistir da campanha - abrindo uma vaga a seu cunhado Eduardo Pinho Moreira. "Isso é mentira", afirma Guglielmi. "Participo da campanha como peemedebista de muitos anos."

Risco de traição - O fenômeno do aparecimento dos empresários na campanha de 1982 assemelha-se ao da emergência dos candidatos de esquerda e das lideranças sindicais no pleito de 1978. E se há casos em que as ajudas financeiras são escamoteadas, há também candidatos que as proclamam. Luis Roberto Andrade Ponte, vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, disputa uma cadeira na Constituinte e não esconde que recebe ajuda de empresários paulistas: "Recebo ajuda na medida das necessidades", informa. De empreiteiros ele recebeu seis casas para instalar comitês eleitorais. Dos fabricantes de móveis veio a mobília, dos vendedores de carros a condução, dos construtores de prédios vieram os tapumes. Dos eleitores, Ponte espera receber 100 000 votos, numa campanha que deverá custar pelo menos 5 milhões de cruzados. Ponte é uma espécie de mutirão da riqueza, mas não é o único. "Sei de sete candidatos que irão gastar 24 milhões de cruzados na Constituinte", afirma o carioca Mauro Magalhães, disposto a reforçar seu cesto de notas auxiliando um lote de 26 deputados estaduais.

Quando a ajuda é feita em dinheiro, e não em móveis ou carros, entra em funcionamento um mecanismo bem mais complexo que o ato de dar e receber. Os candidatos experimentados respeitam religiosamente um princípio: o da caixa única. Se um político tem diversas pessoas recebendo dinheiro em seu nome, acabará enriquecendo diversos amigos e terminando a campanha sem um tostão nos últimos dias, quando cada cruzado pode significar uma grande diferença. "No final, há sempre o risco de traição dos cabos eleitorais", afirma Mario Martins, proprietário de uma das maiores empresas de ônibus de Belém do Pará. Além disso, a multiplicidade de tesoureiros leva o candidato a perder a noção do movimento do dinheiro e muitas vezes um empresário que deu pouco aproveita-se da confusão para cobrar como se tivesse dado muito. Velho conhecedor de todas as manhas da política nacional, o falecido presidente eleito Tancredo Neves fez toda sua campanha com um só tesoureiro. Por desordem financeira, o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, um dos coordenadores da campanha vitoriosa de Jarbas Vasconcelos à prefeitura do Recife, acredita que "sumiram com quase metade da nossa verba". "Eram notas fictícias, despesas adulteradas, um monte de irregularidades. Como a lei não controla isso, não se pode sequer chamar a polícia."

Pagamento antecipado - Precisamente pela falta de controle da lei, o dinheiro da campanha eleitoral vive se escondendo. Nasce escondido no momento em que é dado, entra numa economia em que são poucas as notas fiscais honestas e, no fim das contas, acaba queimando os bolsos nos quais vai terminar suas viagens. Ao final da campanha de 1982 a quantidade de cruzeiros de origem suspeita produzida pela eleição acabou provocando uma alta do dólar no mercado paralelo porque os beneficiários precisavam se proteger da inflação e não tinham lugar seguro para internar sua poupança eleitoral fora das vistas do Fisco ou de eleitores curiosos.

Enquanto o dinheiro sai do cofre de empreiteiros ou industriais para o bolso dos candidatos, vive-se uma situação anômala, porém de responsabilidade exclusiva das pessoas que se envolvem na trama. O empresário arrisca ver o seu dinheiro transformado em viagem à Europa pelo candidato derrotado ou, em outros casos, arrisca-se a ser traído na primeira votação decisiva, pois um congressista pode mudar com mais facilidade de financiadores do que de eleitorado. Em muitos casos, porém, os candidatos cavam suas minas no terreno fofo dos dinheiros públicos e, nesses casos, o eleitor muitas vezes vota em quem o lesa na expectativa de que, votando num candidato que o atrai, haverão de parar de lesá-lo.

O governo não tem limites para enfiar a mão no bolso do contribuinte, financiador compulsório dos candidatos que freqüentam a máquina do governo. Pavimentando sua corrida ao governo da Bahia pelo PMDB, o ex-ministro Waldir Pires despediu-se da pasta da Previdência Social ordenando a instalação, em tempo recorde, de nove agências do órgão e a reforma de outras oito, todas no interior do Estado - onde, por tradição, os políticos do PFL têm maior força eleitoral. No final do ano passado, a agência de publicidade D/E recebeu a gorda conta de 4,4 bilhões de cruzeiros de um ministério pelo prazo de um ano - embora Pires, ao assinar o contrato, soubesse que em poucos meses deixaria o ministério para disputar o governo baiano. Agora, a mesma agência está encarregada de planejar sua campanha eleitoral. "Pergunto se é ético contratar uma agência para o ministério gastar por antecipação e depois contratá-la numa campanha pessoal", denuncia o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

O PMDB baiano meteu-se noutra trapalhada. O seu candidato ao Senado, Rômulo de Almeida. viajou no dia 13 de julho pelos municípios de Itamaraju e Teixeira de Freitas a bordo de um avião da empresa Abaeté, ao preço de 30 000 cruzados. A conta do vôo foi paga pela Caraíba Metais, empresa estatal tecnicamente falida há mais de dez anos, de cujo conselho administrativo o candidato faz parte. Denunciado o vôo pelo PFL, a Caraíba Metais defendeu Almeida dizendo que ele fora a Itamaraju para almoçar, transformando-o na única pessoa da região a ir almoçar de avião. Nesse episódio, ocorreu ainda um outro absurdo: quando a carona do candidato do PMDB foi denunciada, o presidente do conselho da Caraíba, Plínio Assman, reagiu pedindo, numa reunião formal, um voto de solidariedade a Rômulo de Almeida, dirigente que patrocinara a viagem. Num ambiente de constrangimento, outros membros do conselho reagiram, e Assman, inquieto, retirou a proposta e censurou a ata da reunião - apagando o que seria talvez o primeiro panegírico de uma malversação de dinheiro público.

Emprego e voto - O fenômeno é nacional. Em São Paulo, onde o candidato do PMDB Orestes Quércia não garantiu o apoio integral da máquina oficial à sua campanha, as legendas de oposição acusam o governo de Franco Montoro de planejar obras para o final do ano, acertando o custo e o prazo agora - mas só liberando as verbas depois de 15 de novembro, quando, com os mapas da apuração eleitoral nas mãos, os prefeitos das cidades do interior tiverem comprovado sua fidelidade na conquista do eleitorado. Nas repartições públicas do país, já se vive em regime de meio expediente, onde os milhares de servidores apadrinhados por deputados e senadores abandonam o serviço público para funcionar como cabos eleitorais. No Pará, há uma semana, o governador Jader Barbalho baixou um decreto efetivando 2 400 funcionários públicos que estavam trabalhando sob o regime da CLT - a partir de agora, a campanha do PMDB ficou ainda mais animada e nenhum deles correrá o risco de ser demitido por seu sucessor. No comitê do deputado fluminense José Colagrossi, campeão de votos em 1982 e agora candidato ao Senado pelo PMDB, vinte funcionários públicos começam a trabalhar a partir das 15 horas, quando seu expediente legal se encerra, em geral, 3 horas mais tarde. No Ceará, há uma luta desigual.

Embora esteja na oposição, o coronel Adauto Bezerra, candidato ao governo pelo PFL, garante o controle da máquina do governo - e costuma transformar a temporada eleitoral num festival de distribuição de empregos públicos. Há quatro anos, numa campanha em que se disputavam 2,8 milhões de votos, foram criados 40 000 novos empregos - o que dá uma gigantesca proporção de um cargo público para cada grupo de setenta eleitores. Hoje, a bordo de 100 peruas Kombi zero-quilômetro, a multidão de adeptos que Bezerra empregou no passado percorre o interior do Estado com contratos de trabalho no governo para o ano que vem. Administrando uma dívida de 10 bilhões de cruzados, o governador Gonzaga Morta, do PMDB, já não consegue manter a folha de pagamento de seus 125 000 servidores em dia, mas, ainda assim, partiu para o contra-ataque: há alguns dias, anunciou a realização de um concurso público para 2 000 empregos - a ser realizado em outubro, na reta final da campanha.

Nesse oceano de clientelismo, o candidato peemedebista Tasso Jerissaiti, empresário que acumulou um dos mais gordos patrimônios individuais do Nordeste, teve de abrir o quadro de funcionários de suas empresas. "As pessoas se acostumaram a usar as eleições para pedir emprego", afirma ele. Apoiada por um grupo de industriais cearenses, a campanha de Jerissaiti dispõe, hoje, de cerca de 5 000 postos de trabalho a ser distribuídos no setor privado, afirma um assessor. "A dificuldade é que queremos pessoas para trabalhar de verdade, e isso um cabo eleitoral não aceita", diz Jerissaiti. "Muita gente pede a vaga e depois não aparece mais. "Seus correligionários acusam o ex-ministro César Cals, candidato ao Senado pelo PDS, de ter à sua disposição cerca de 15 milhões de cruzados. Cals, como ex-ministro das Minas e Energia, é um candidato que dispõe, pelo menos, da gratidão dos empreiteiros do setor hidrelétrico.

A todo vapor - Quando a campanha ainda não chegou à arrancada final, uma caixa reforçada é um recurso precioso. Quem saiu à frente, como Paulo Maluf, consegue manter o Estado de São Paulo forrado por 840 outdoors. Da mesma forma, comprar papel de propaganda nas últimas, semanas é correr o risco de enfrentar o mercado negro. Hoje, já não é fácil encomendar camisetas. A Hering e a Sul Fabril, que abastecem o país com 3,5 milhões de camisetas por ano, estão com a caderneta de encomendas fechada até o início de 1987. As empresas especializadas em gravar estampas de propaganda de candidatos também estão no máximo de sua capacidade. "Dobramos nossas instalações, mas já percebi que não poderemos atender pedidos de última hora", afirma o empresário Jefferson Domit. diretor da Loja da China, de São Paulo, que irá dar nome, rosto e número a 1,5 milhão de camisetas de candidatos de onze Estados do país até 15 de novembro.

No país do cruzado, os salários dos cabos eleitorais já foram reajustados com uma larga margem de vantagem sobre a inflação de 4,5%. Hoje, para servir a um candidato à Constituinte, um vereador tem direito a um pagamento de 1 000 cruzados por dia, e uma liderança de bairro, capaz de garantir o apoio de 25 000 eleitores percorrendo bares e pontos de encontro da periferia pedindo votos em troca de favores, como enterro de graça ou internamento rápido num hospital em caso de doença, consegue tirar 6 000 cruzados mensais - o dobro do que receberia numa campanha normal.

"O segredo é deixar a pessoa devendo um favor", afirma Waldomiro Pereira, 53 anos, empregado como motorista da Câmara Municipal de São Paulo, engajado na campanha do peemedebista Samir Achoa, que arrebatou 370 000 votos em 1982, tornando-se o campeão da legenda no Estado. "Pela minha popularidade, poderia ser eleito sem gastar um tostão", afirma Achoa. "Mas eu faço questão de ser o primeiro."

Em Brasília, o editor e corretor de imóveis Geraldo Vasconcelos tenta plantar sua candidatura pelo PDT com uma caixa de 8 milhões de cruzados e a distribuição de 50 000 livros ao eleitorado. Nesse balcão, há candidatos que oferecem - mas já começam a surgir eleitores que pedem. "Se um político nos auxiliar, terá nossos votos", afirma o fazendeiro Gilberto Alves de Souza, de Floresta, a 70 quilômetros de Belo Horizonte, que publicou no jornal O Estado de Minas um anúncio classificado propondo a troca de 22 votos pela construção de seis mata-burros na região. "Só exigimos que a obra seja terminada antes da eleição", afirma Alves de Souza.

"O problema não é gastar muito, mas gastar bem", afirma o ex-ministro Marcus Vinícius Pratini de Moraes, candidato à Constituinte pelo PDS, que espalhou 150 outdoors em Porto Alegre, investindo a soma de 55 cruzados diários com cada um deles. Por trás de cada candidato à Constituinte, ou a qualquer posto eletivo, sempre existe uma bolsa de dinheiro - o que muda, apenas, é o seu tamanho. "Sem verbas, você nem sequer consegue avisar os amigos de que saiu candidato a alguma coisa", afirma Luis Gushiken, candidato à Constituinte pelo PT paulista. Nessa largada, em que mais de dez milhares de candidatos disputam 559 vagas, há bolsas abarrotadas e outras vazias. Líder de uma das campanhas mais pobres do país, lvan Maurício, candidato ao Senado pelo PSB pernambucano, descobriu que seu partido terá direito a 3 600 segundos no horário gratuito da TV - mas até para isso o dinheiro é pouco. Resultado: desde a semana passada Maurício percorre as ruas do Recife pedindo contribuições de 30 cruzados, num recurso extremo para conseguir levar a mensagem da legenda ao ar com um padrão técnico pelo menos razoável.

A cadeia e o cofre - Recurso normal em eleições que não são obra de um Estado autoritário, o dinheiro e a política sempre andaram juntos no Brasil - e em qualquer parte do mundo onde os candidatos são obrigados a conquistar o eleitorado antes de assumir seus cargos. Sob o regime dos generais, o ministro da Fazenda Delfim Netto costumava telefonar para os empresários de São Paulo estabelecendo as cotas de cada um para o partido do governo. A articulação que levou Tancredo Neves à vitória no Colégio Eleitoral, um ano atrás, também começou pelo tema da conta bancária. "Mas de onde vamos tirar o dinheiro para enfrentar o Maluf?", perguntou Tancredo Neves durante uma reunião com a primeira linha dos industriais paulistas. Tancredo sabia, em meados de 1984, que até janeiro do ano seguinte o dinheiro viria. Os empresários que fizeram fortunas no regime anterior sentiam uma necessidade quase patológica de provar sua fidelidade financeira ao regime futuro. A caixa de Tancredo Neves transformou-se numa grande fortuna. Morto o presidente, o que sobrou do dinheiro ficou sem rastro, e dele se conhece a história de que uma das pessoas mais próximas a Tancredo entregou a um familiar um cheque de 1,5 bilhão. Sempre se poderá saber, contudo, quem contribuiu para a campanha de Tancredo. É só pegar a lista dos convidados à sua posse de 15 de março - o presidente chamou todos os que o ajudaram para a festa, na qual todos comeram e beberam, menos ele, que foi para o Hospital de Base.

Quase dois anos depois da morte de Tancredo, a sua República vai para uma eleição cara, porém livre, num pais onde já se conseguiram eleições constrangidas, como a de 1970, mas jamais se viu pleito barato. Afinal, como ensinava o legendário político mineiro José Maria Alkmin: "O que dá votos é a chave da cadeia ou a do cofre". Pode-se reclamar que se esteja usando demais a chave do cofre, mas o que há de essencial na política brasileira de hoje é que ninguém pensa em usar a chave da cadeia, até porque depois de décadas de uso essa chave mostrou-se mais eficaz para soltar ladrões do que para moralizar a vida nacional.


 
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