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25 de setembro de 1974
Procuram-se
eleitores, vivos

Poderia, sem favor nenhum, ser o melhor e mais caro espetáculo sobre a face sonolenta das emoções cívicas nacionais. Uma campanha eleitoral para renovação do Senado da República, da Câmara Federal e das Assembléias Legislativas, como a que despertou o país na semana passada, numa inundação de slogans, cartazes, jingles, foguetes, refrigerantes e discursos sobre assuntos sisudos como a revogação do AI-5, os problemas da agricultura e da pecuária, o combate à inflação e o endividamento externo, movimenta números e mobiliza energias capazes de satisfazer aos sonhos do mais delirante produtor de superespetáculos. Pelo menos 1 500 atores, estrategicamente divididos entre o partido do governo e o da oposição, recitam diante de câmeras de televisão, microfones de rádio ou em improvisados palanques nas praças públicas, de maneira às vezes bombástica e tonitroante, de qualquer forma fora de moda, textos nem sempre bem decorados nos ensaios.

São centenas de patrocinadores, milhares de figurantes e milhões de cruzeiros em movimento nesse gigantesco happening institucional. E durante dois meses inteiros eles terão à sua disposição os horários mais nobres do rádio e da televisão, dos quais expulsam sem contemplações, amparados pelo poder da Justiça Eleitoral, as novelas lacrimejantes, as emoções do futebol e até mesmo as músicas românticas que os namorados se dedicam, nas bucólicas radioemissoras do interior. Infelizmente, mesmo as mais grosseiras pesquisas de mercado indicam absoluta falta de interesse do distinto público - do qual ainda na semana passada tiveram um eloqüente exemplo os pregadores da Arena e do MDB de São Paulo, forçados a falar a pequenos auditórios onde sobressaíam as cadeiras vazias.

Aparelhos desligados - O mercado, porém, apresenta potencialidades tentadoras. São 36 milhões de assistentes com lugar garantido no espetáculo pela compra antecipada dos ingressos nos cartórios eleitorais. E só a compulsória aquisição de novos bilhetes, nos últimos quatro anos, tornou possível a colocação de mais 49 atores no plenário cinza e eletrônico da Câmara dos Deputados. Em Brasília, onde uma lei recente tornou possível aos residentes votarem nos candidatos dos seus Estados de origem, pelo menos 8 000 pessoas procuraram os postos distribuídos pela Justiça Eleitoral no Plano Piloto e nas cidades satélites, e cálculos moderados indicam que pelo menos 78 000 comparecerão até o dia 1.° de outubro.

Apesar desses dados, tudo indica que se a eleição de parlamentares no Brasil fosse feita não por voto secreto e obrigatório, mas de acordo com os todo poderosos índices do IBOPE, os problemas do Legislativo no Brasil estariam mansa e definitivamente solucionados por falta de quorum. Desde a segunda-feira, dia 16, quando o horário antes reservado ao reinado da novela "O Espigão" começou a ser invadido por aflitos candidatos à atenção dos telespectadores, registra-se nos vinte Estados atingidos pelas ondas mágicas da televisão um espantoso índice médio de 50% de aparelhos desligados. E uma expressiva advertência fora oferecida aos empresários da temporada quinze dias antes quando, depois de concentrar alguns do melhores ingredientes reservados par tornar mais excitante o grande espetáculo nacional, tiveram a grande decepção de conquistar um magro índice de audiência pouco superior a 30% em Porto Alegre, onde os candidatos ao Senado Nestor Jost e Paulo Brossard de Souza Pinto exibiram-se no melhor de sua forma, e precedidos de avassaladora barragem Publicitária. Assim, parecem justificadas as reclamações do diretor da Rádio Novo Andirá, em Rio Branco, Acre, despojado de horários em que elementares programas de músicas encomendadas pelos próprios ouvintes, ao preço de 2 cruzeiros, garantem-lhe pelo menos 10 000 cruzeiros de renda, computada aí a contribuição dos 28 patrocinadores interessados em divulgar seus produtos entre uma música e outra. Uma quebra orçamentária e de audiência que não poderá ser compensada até 15 de novembro, tendo em vista a qualidade dos novos atores, capazes, como o candidato a deputado Alcimar Nunes Leitão, da Arena, de anunciar na noite de estréia a sua emoção: "Esta é a primeira vez que falo pelas ondas artesianas..."

Nada a aprender - Na verdade, nenhum candidato precisa apresentar-se assim desarmado para a campanha. Tanto a Arena quanto o MDB prepararam práticas cartilhas, onde estão resumidos os pontos essenciais de sua preparação . E a simples realização do debate prévio entre Nestor Jost e Paulo Brossard, no Rio Grande do Sul, indicava que, ao contrário das edições anteriores, a grande encenação eleitoral seria, em 1974, colocada em níveis de apuro técnico e dedicação profissional nunca antes atingidos desde que sua montagem foi entregue às pouco hábeis mãos da Arena e do MDB. E se o saudável exemplo gaúcho não chegou a estimular, na medida em que se esperava, o ânimo dos espectadores, serviu pelo menos para desencadear nos demais Estados uma onda de tentativas de imitação, quase sempre de qualidade marcadamente inferior. No Rio Grande do Norte, Azenor Nunes de Maria, candidato do MDB ao Senado por absoluta falta de quem se aventurasse a desempenhar o papel, dirigiu provocadores desafios ao adversário da Arena, talvez confiando nas habilidades oratórias desenvolvidas ao longo de vários anos de atuação como camelô no Rio de Janeiro. E como não obtivesse resposta, usou todo o tempo de seu primeiro programa gratuito, na noite de segunda-feira, para monologar enfadonhamente diante de Lima cadeira vazia, a que atribuía os defeitos de omissão e falta de empenho que pretendia diagnosticar nos trinta anos e quatro discursos da carreira política de seu adversário. Imperturbável, embora carregando em Natal o apelido de "candidato da cadeira vazia", Djalma Marinho retrucou, dias depois, no tom de quem sabe estar a batalha sendo travada em nível algo elevado para a capacidade do improvisado peemedebista: "Não poderia nunca debater com aquele rapaz. Nada tenho a aprender com ele e estou mui velho para ensinar-lhe qualquer coisa". Menos didático, mas certamente mais experimentado nos verdadeiros ringues onde se travam as disputas políticas, a velha raposa Dinarte Mariz oferece aos eleitores do mesmo Estado uma pragmática lição de como melhor aproveitar o voto, ao proclamar as virtudes do candidato a deputado Vigolvino, seu filho: "Não adianta votar no MDB porque nós temos a estrutura e eles nunca poderão fazer nada".

Verdes gramíneas - Esse brutal desinteresse dos telespectadores, que nem chega a constituir uma experiência original, pois é simples repetição do acontecido em eleições anteriores, não parece, no entanto, desestimular inteiramente os candidatos. Graças à fusão, os políticos do Estado do Rio de Janeiro - onde não há estações de televisão, pois todo o território é coberto pelas transmissões da Guanabara - estão atravessando alegremente a longa ponte Costa e Silva, diariamente, para enfrentar o desafio eletrônico anteriormente fora de seu alcance. No freqüentado restaurante "PTB", dos funcionários e artistas de cachê mais baixo da TV Globo, começaram a surgir políticos fluminenses a passear entre as mesas, decorando scripts. E em Maceió, onde são obrigados a se contentar com os serviços das rádios Gazeta, Difusora, Palmares e Progresso, também por falta de estações de televisão, os candidatos consideram-se altamente prejudicados em sua pregação. Em todo caso, sempre há possibilidades, para o exercício da imaginação política criadora: graças à falta de imagem, o candidato Rubens Vilar de Carvalho, da Arena, enviou para falar em seu lugar o providencialmente apolítico tenente Miguel César da Rocha, de melhor voz e mais desembaraço.

É verdade que em Salvador as televisões Itapuã e Aratu têm permanecido fora do ar, no horário reservado aos candidatos pelo TRE, por falta de valentes dispostos a enfrentar as câmeras. Até o fim da semana passada, apenas o candidato do MDB ao Senado, Clemens Sampaio, apresentou-se uma vez para ocupar seu tempo, substituindo o filme infantil "Skippi, o Canguru". No MDB baiano parece impossível dividir os horários entre os candidatos, por excesso de divisões dentro do partido. A Arena, aparentemente, mostra-se interessada em falar o menos possível, uma salutar decisão diante do tipo de oratória que o seu principal pregador, o futuro governador Roberto Santos, ofereceu aos pecuaristas de Itapetinga, maior bacia leiteira do Estado, na semana passada: "Seria compensatório o plantio disseminado de leguminosas que ensejassem o aumento do teor de proteínas das pastagens naturais e artificiais, em que há variedades de gramíneas bem adaptadas à região e que vicejam aqui com tanta abundância?"

Aos profissionais - A prudência dos baianos parece excessiva, mas igualmente pernicioso pode ser o entusiasmo dos arenistas do porto livre de Manaus, de espírito aberto a todas as tentações da eletrônica. Sem nenhum receio evidente, eles estão prontos a enfrentar os perigos da TV confiando no sábio comando do candidato José Carlos Amazonas, impávido guerreiro a cavalgar uma cátedra de Comunicação na universidade local, e cuja vitória é tida como favas contadas por adversários e companheiros. É claro que a extensa massa teórica formadora da Cultura do candidato José Carlos Amazonas não chega a fazer dele um verdadeiro especialista na melhor utilização das complexas possibilidades dos meios audiovisuais. E é por estarem perfeitamente advertidos para o perigo das improvisações que em quase todos os Estados os comandos da Arena e do MDB têm preferido entregar o planejamento e, em larga escala, até mesmo a execução das suas campanhas aos profissionais da publicidade.

Em São Paulo, onde a mobilização de recursos e de especialistas vem atingindo níveis realmente invejáveis, o candidato do MDB ao Senado, o ex-prefeito de Campinas Orestes Quércia (que em recente almoço com os repórteres políticos da Guanabara afirmou candidamente: "Se por acaso um candidato qualquer ler com atenção o AI-5, vai para a televisão e fica mudo") preencheu prudentemente alguns de seus horários com pequenos filmes, em que aparece andando na rua como um cidadão comum lutando pela conquista de um táxi, e que muito a propósito chama "meus comerciais"

Na Guanabara, os maçantes horários da Arena são anunciados com um fundo de música suave e doces imagens turísticas pelo locutor Roberto Figueiredo: "Encontro - um programa de pronunciamentos de alto nível, o seu programa". No Recife, o MDB se anuncia ao som de "Morte e Vida Severina", de Chico Buarque de Holanda, cenas do corte de cana e um letreiro: "Um dia de trabalho na zona da mata vale 8 cruzeiros, 1 quilo de charque custa 26, mais de três dias de trabalho".

Boa maquilagem - Às vezes, esse rigor técnico pode levar a surpresas como a que ocorre em Santa Catarina, onde os candidatos da Arena atuam num programa tão bem elaborado, rigorosamente dividido entre noticiário, opinião e entrevistas, que chega a rivalizar com informativos produzidos pelas próprias emissoras. E o seu prefixo musical, já consagrado com o nome de "Sambão da Arena" (o mesmo utilizado na campanha em São Paulo), obtém retumbante sucesso nas boates de Florianópolis, onde a execução rende generosas gorjetas aos discotecários.

Este ano de 1974, provavelmente, será da grande transição, em que os métodos tradicionais de fazer campanha eleitoral começam a ser efetivamente abandonados em favor da televisão. Assim, é possível supor que boa parte dos candidatos, ainda despreparados para o total aproveitamento dos novos recursos, prefira ater-se aos velhos processos que tão bons resultados produziram. Na Guanabara, o locutor Geraldo Casé, diretor de criação da TV Educativa, contratado simultaneamente pela Arena e pelo MDB para orientar seus programas, revela que alguns candidatos chegam humildemente a abrir mão de seu horário, "para não perder votos". Casé atribui apenas ao nervosismo o mau desempenho de alguns deles, como o que incluiu, no currículo lido diante das câmeras, sua condição de síndico do edifício onde mora. De qualquer forma, elogia, nos dois partidos, a excelência do trabalho de maquilagem, executado por Paulinho, o mesmo que prepara os atores da novela educativa "João da Silva".

Mais experimentado, e por isso mais acostumado a descortinar os caminhos que levaram ao futuro, o presidente do MDB, deputado Ulysses Guimarães, proclama com desembaraço: "Acho mais importante esse contato com o povo através do rádio e da TV do que em comícios, neste exato momento". Ele admite que no final da campanha será necessário promover grandes concentrações populares, mas, realista, reconhece também que no momento é praticamente impossível reunir mais que algumas centenas de pessoas em torno de qualquer palanque.

Atabaques e sinos - Apesar disso, nos últimos dias Guimarães acompanhou o candidato Quércia em um cansativo programa pelo vale do Paraíba - região de São Paulo de safras eleitorais habitualmente abundantes para os senadores oposicionistas -, onde foram perseguidos pelo sincretismo religioso das velhas cidades. Em Guaratinguetá, reunidos no bar do Prado, no bairro do Pedregulho, Guimarães, Quércia e o ex-prefeito Rafael Ranieri mal acabaram de escalar caixotes improvisados em tribunas e o Centro Espírita Aganjué invadiu com seus ruidosos atabaques o território da campanha eleitoral. Dali seguiram para Roseira, município de 5 000 habitantes que se orgulha de ter sido palco da novela "Os Inocentes", onde o comício foi interrompido pelos sinos da catedral, a bênção da ave-maria e uma interminável série de músicas sacras transmitidas por alto-falante. Tais acidentes foram recebidos com naturalidade pelos dirigentes oposicionistas; mas estranharam a súbita interrupção da energia elétrica em São José dos Campos, que impediu a transmissão radiofônica dos discursos e provocou uma vigorosa reclamação ao TRE.

Em Nova Brescia, Rio Grande do Sul, sinos e trevas uniram-se mais uma vez para perturbar a pregação oposicionista, em circunstâncias igualmente intrigantes. Pois menos de cinco minutos depois de a candidata Jussara Gauto convocar a população para reunir-se no improvisado cinema do salão paroquial, fez-se a escuridão. E todos puderam lembrar-se que os sinos da igreja, que haviam dobrado ruidosamente às 18 horas, voltaram a soar intempestivamente às 18h15, apenas um minuto antes de se apagarem as luzes.

São contratempos que só atrapalham os partidos da oposição. Assim, na Guanabara, o único Estado onde o MDB é majoritário, o candidato arenista Edmundo Coelho, cuja boa disposição para a campanha patenteia-se pela escolha, para ornamentar a sua figura de candidato, do coelhinho símbolo da revista Playboy, recentemente liberada pela censura, teve um comitê do bairro de São Cristóvão fechado pela polícia, que confundiu o local com um ponto de bicho. "Embora seja difícil reabrir o comitê", explica Coelho, "pois o caso já está me cheirando a perseguição política, eu posso provar que pagava um aluguel de 300 cruzeiros. O ponto é mais atrás".

Impregnações - Nos Estados onde controla os confortos governamentais, no entanto, a Arena consegue atuar com maior desenvoltura, embora nem sempre os resultados pareçam mais satisfatórios. Estreando a campanha paulista na cidade de Bauru, o senador Carvalho Pinto e o futuro governador Paulo Egydio foram surpreendidos pelo escasso comparecimento popular, e houve até quem lamentasse a presença de jornalistas no comício. Improvisadas reuniões em São Paulo, nos dias seguintes, apontaram setores do partido que não estariam se empenhando na campanha e a necessidade de reformulações no programa. Mais grave, em todo caso, é a desavença surgida na Paraíba: o governador Ernani Satyro declara-se definitivamente sem condições de comparecer a comícios ao lado do ex-governador João Agripino, seu antigo companheiro de UDN.

A desunião mais freqüente do que seria desejável e que chega a ser privilégio da Arena, tem sido um dos obstáculos para a eficiente busca de votos populares. Por isso seria aconselhável que, antes de tentar exorcizar os fantasmas externos, exibidos pelos adersários, dirigentes de ambos os partidos procurassem identificar aqueles que, internamente, ameaçam desagregar as duas agremiações e levá-las ao ridículo. É o caso da onda avassaladora de impugnações de candidaturas, nascida de apressadas interpretações das últimas modificações na legislação eleitoral, que já produziram até a tentativa de cancelar a candidatura do reitor Gama Filho, da Universidade Gama Filho, da Guanabara, porque assistia aos jogos universitários e, solicitado, deu a uma estação de televisão uma sucinta apreciação sobre os resultados conquistados pelos atletas: "Muito bons".

Talvez não seja o caso de levar a sério o caso da Bahia, onde praticamente todos os candidatos já sofreram impugnações. Em todo caso, em Florianópolis, o ex-presidente do diretório municipal do MDB e atual proprietário de uma loja de lingerie, Walmor Bion, prova que a praga não tem limitações geográficas ao tentar afastar dois candidatos de seu próprio partido porque não pagaram em dia as mensalidades devidas à tesouraria.

Boa digestão - No entanto, nada melhor do que uma eleição para mostrar que o remédio para todos os males da política está sempre na reserva inesgotável de anticorpos nos organismos realmente vivos, e não em artigos de códigos eleitorais ou qualquer variação no gênero. Pois, no Rio Grande do Sul, bastou que o MDB, mesmo às escuras, se apresentasse como um concorrente à altura da situação, para que todos os amuos, arrufos e desencontros da Arena fossem digeridos numa retumbante série de churrascos. Se resistir à obesidade condicionada pelas regras da boa convivência gaúcha, o partido promete revelar nessa campanha uma agilidade raramente permitida ao artritismo arenista. Disposto a gastar mais de 1 milhão de cruzeiros até 15 de novembro, sem contar o dinheiro que recebeu do Fundo Partidário Nacional, está esbanjando recursos. Assim, no dia 7 de setembro, quando as tropas do III Exército desfilavam em Porto Alegre apenas seus regimentos de cavalaria e infantaria para poupar combustível, uma pródiga comitiva de arenistas partia para um roteiro de 700 quilômetros pela área de colonização italiana e promovia em Farroupilha um corso com nada menos de trinta automóveis, que depois repetiria em outras cidades. E lançava um slogan contra os achaques do MDB: "Ou o Brasil acaba com os pessimistas, ou os pessimistas acabam com o Brasil."

Com esse otimismo, é natural que o candidato a vereador em Veranópolis, o jovem e grandiloqüente e Waldernar Pertile, ao saudar esse préstito, mostrasse estar imunizado contra as manifestações sobrenaturais que costumam assombrar os comícios da oposição. Para ele, "não acreditar no milagre brasileiro cria uma blasfêmia tão grande como dizer que não se acredita em Deus".

Deus pode até ser arenista, mas as campanhas políticas são inegavelmente o momento menos propício à exibição dos dogmas de fé. Tanto que o futuroso deputado Marco Antônio Maciel, secretário-geral da Arena, nessa época de irreverente carnaval de idéias, foi tropeçar rio sertão pernambucano de Cabrobó, a 566 quilômetros do Recife, com uma pergunta que a cartilha arenista, mesmo consultando oráculos como o general Octávio Costa, chefe da Assessoria Especial de Relações Públicas no governo Medici, não fora capaz de responder. "Será que as relações com a China vão facilitar nossa produção de algodão?"- fulminou-o um caboclo, à queima-roupa.

A grande inquietação - Mais afortunado, por estar sob a proteção do Centro Cívico XI de Agosto, Carvalho Pinto não chegou nem mesmo a ler o bilhete que lhe foi estendido na semana passada, em São Paulo, quando angariava votos na Faculdade Farias Brito em condições tão favoráveis, que nenhuma das quinze perguntas feitas por alunos dizia respeito ao Decreto-lei 477, teoricamente do acervo da curiosidade estudantil e dos mais embaraçosos para os candidatos governistas. Amarrotada e confiscada pelos organizadores ela festa, ficou a questão provocadora: "Trace um paralelo entre o preço de uma garrafa de cerveja e um litro de leite".

Carvalho Pinto, como Maciel, teria provavelmente gaguejado. Muito mais inquietante, contudo, para os candidatos nesses meses de campanha, é o fato de que os extremos da confiança ilimitada de Cabrobó e a atitude desafiadora de São Patilo, estende-se o vasto território da apatia política nacional. E é nesse campo minado de descrenças que eles precisam exercer, durante a campanha, o seu apostolado ruidoso e cheio de armadilhas. Por causa delas,

não é de admirar que sua pregação freqüentemente resvale para o ridículo. Como no caso de Augusto Lucerna, prefeito do Recife, que ao aparecer pela primeira vez na televisão e depois saudar o "eminente presidente Medici, ou melhor, presidente Geisel", declamou os versos do folheto de cordel "Viagem a São Saruê", de Manuel Camilo dos Santos, descrevendo um paraíso com poços de café quente, rios de leite, barreiras de charque e fontes de mel. Lucena leu e concluiu: "O governo não chegou a isso, mas já está providenciando".

Sem dúvida, políticos e eleitores poderiam esticar indefinidamente uma disputa sobre o lado dos comícios responsável pela aparência de grande festa desprovida de qualquer sentido prático que acaba exibindo a temporada de discursos. Nem por isso deixa de parecer estranha uma terra em que o candidato número 1 246 da Arena gaúcha à Assembléia Legislativa, o lateral da seleção brasileira de futebol na Copa de 1970, Everaldo Marques da Silva, abre seus pronunciamentos com esta singular declaração de inocência: "Em política eu não me meto".

Velhos tempos - Cenas assim levam o enigmático deputado carioca Lopo coelho, que há várias legislaturas se reelege pela Arena para suspirar nos corredores do Congresso pelos velhos tempos da instituição, a recobrar campanhas ainda próximas, como a de 1960, quando a criação do Estado da Guanabara atraiu para sua Assembléia Legislativa os melhores constitucionalistas disponíveis na praça carioca. Pela lista dos atuais candidatos, é fácil prever que a Constituição do novo Estado do Rio de Janeiro não estará entregue ao mesmo tipo de cabeças e mãos.

"Dramática", lembra Lopo Coelho, "foi a sessão de votação da lei que extinguiu a Câmara dos Vereadores. Apenas com uma guarda de trinta homens, fornecidos à última hora pelo Palácio Guanabara, os constituintes sofreram a pressão dos cinqüenta vereadores e dezenas de funcionários da Câmara, que iniciaram uma tumultuada marcha sobre a Assembléia. Ainda assim, votamos a lei."

Preocupado com a mesma queda de prestígio e com os eleitores que cada vez mais lhe perguntam: "Fazer política para quê, comandante?", o velho cacique do Estado do Rio e senador Amaral Peixoto, pesquisa a margem de culpa dos próprios parlamentares.

Em contraste com a Constituinte carioca de 1960, ele lamenta como somente cinco anos depois a Assembléia Legislativa fluminense tenha permitido o seu fechamento de uma forma inusitada pela polícia estadual. "Fizeram um cordão de isolamento com barbante, colocaram só um guarda na porta e ninguém ousou entrar", ele conta, debitando a esse caso "o grande descrédito que os políticos gozam no Estado".

Como um táxi - Hoje, o agrônomo Bernardo Barros, do subúrbio carioca do Campo Grande, reconhece que anda "meio perdido na batalha eleitoral". Não é para menos: com um título de master em Fitotecnia Agrícola conquistado na universidade americana de Oregon, candidato pela terceira vez a uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado, duas vezes pelo MDB, agora pela Arena, pretende "fazer do cargo legislativo apenas um táxi para o Executivo, onde pretende mostrar o que realmente posso fazer". Com tais intenções, não quer "gastar nada além de 5 000 cruzeiros", numa campanha em que candidatos como Gama Filho enterram milhões de cruzeiros de sua fortuna pessoal. Tanto dinheiro que, entre as crendices da oposição, surgiu na semana passada o mito de que ele teria comprado, para fazer propaganda, uma frota de cem kombis.

Mesmo rebaixada à categoria dos ministros, essa é talvez a característica mais inexplicável dos políticos: a de investir patrimônios num mandato cuja soma de vencimentos, ainda que líquida, não seria suficiente para recuperar. É, certamente, uma parte do mesmo fenômeno que faz com que se reúnam no Congresso, entre seus 276 membros, pelo menos cinqüenta fortunas pessoais capazes de tornar irrisórios os vencimentos de parlamentares. Pois nenhuma outra empresa seria capaz de atrair com salários de 9 000 cruzeiros industriais como o deputado paulista Ernesto Pereira Lopes da Costa, com 30 000 cabeças de gado em Mato Grosso, ou banqueiros como José Magalhães Pinto, senador mineiro presidente do Banco Nacional.

Ar rarefeito - Ainda mais quando o ex-governador do Rio Grande do Norte e ex-deputado Aluízio Alves, que, casado em 1969, subiu à vice-presidência da empresa holding do grupo União de Empresas brasileiras, declara: "Como empresário, já consegui levar cinco grandes empreendimentos para o meu estado (um centro industrial, uma fábrica de tecidos, outra de embalagens, indústria de confecções femininas e um hotel de dezessete andares), totalizando um investimento de 450 milhões de cruzeiros - maior que a arrecadação do ICM no Rio Grande do Norte no mesmo período".

Por isso, num momento em que mesmo um grande investimento em dinheiro e esforço reúne poucos curiosos em volta dos palanques eleitorais e um deputado como o mineiro Samir Tannus, pretendendo cobrar ingresso para seu comício em Ituiutaba, é absoluta exceção, não há por que duvidar da sinceridade de candidatos como o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães. Com seu ar inseparável de estóico cansaço, ele suspira a única explicação para disputar sempre, a cada quatro anos, a atenção de esquivos e céticos eleitores: "Se uma casa tem todas as portas e janelas fechadas, deve-se aproveitar a única fresta que permite a entrada de ar." Boa parte dos políticos brasileiros, segundo Ulysses Guimarães, estaria simplesmente viciada em respirar o ar rarefeito que ainda alimenta o debate dos grandes assuntos nacionais.


 
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