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24 de dezembro de 1989
Collor chega à praia

Depois de nove meses de campanha
e uma disputa apertada no segundo
turno, a sucessão termina como
começou - com a vitória do favorito

Já passava das 8 da manhã do último domingo quando Gelvan Oliveira, presidente da mesa da 136.ª Seção da 2.ª Zona Eleitoral de Maceió, que funciona nas dependências do Grupo Escolar Diegues Junior, terminou de arrumar a urna e a cabine de votação para receber os eleitores do turno decisivo da sucessão presidencial de 1989. Naquele momento, encostado na porta, já se encontrava o mais ilustre votante do lugar: Fernando Collor de Mello, 40 anos de idade, nascido no Rio de Janeiro e dono de uma carreira política feita em Alagoas. Assim que Gelvan Oliveira terminou de arrumar seus papéis, Collor avançou em passos rápidos até a cabine, retirou uma caneta Parker esferográfica do bolso da camisa, marcou X ao lado do número 20 e tomou o caminho da rua. "Vamos à vitória", disse o candidato.

Dito e feito. Às 5 da tarde de domingo 17 de dezembro, quando foi iniciada a contagem dos votos do segundo turno da eleição, Fernando Collor de Mello podia rir da última profecia lançada a seu respeito durante a campanha presidencial - a de que iria morrer na praia. Depois que os votos começaram a ser apurados, descobriu-se que Collor saiu nadando de Maceió, nadou, nadou, nadou até chegar com plena saúde a terra firme em 17 de dezembro e, uma vez na praia, toma agora um pique na direção de Brasília, onde estará no 15 de março de 1990, de casaca negra, para ser empossado como o 30.° presidente da República. Na verdade, a vitória de Fernando Collor sobre seu concorrente no segundo turno, o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, saiu melhor que a encomenda. Não se pode dizer que tenha sido um passeio, mas sem dúvida seu triunfo foi construído em cima de números muito mais folgados do que os anunciados no dia da eleição pelos principais institutos de pesquisa do país nos seus levantamentos de boca de urna. Na manhã de segunda-feira, quando mais de 70% dos votos já haviam sido apurados, estimava-se que Collor venceria o segundo turno com a marca espetacular de 40 milhões de votos de eleitores, uma vantagem de 5 milhões sobre Lula - por sinal, a previsão que o próprio Collor fazia reservadamente 48 horas antes da eleição. E uma diferença de 7%, contra os 3% ou 4% que as pesquisas indicavam. Dos 24 Estados do país, Collor levou a eleição em pelo menos dezenove. "Esse resultado me dá ainda mais ânimo para cumprir minha missão como presidente", dizia Collor no início da madrugada de segunda-feira em Brasília, para onde voltara após colocar seu voto na urna de Maceió. O mais jovem presidente da História do Brasil disparou rumo à vitória em cima do formidável eixo eleitoral que construiu entre São Paulo, Minas Gerais e Paraná, onde surrou impiedosamente seu adversário nas urnas - sendo que em São Paulo ganhou na capital e no interior. Somados a sua indisputável força no Nordeste, esses votos pulverizaram a larga vantagem que Lula conseguiu no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

Para os 82 milhões de brasileiros que puderam escolher, pela primeira vez em 29 anos, quem será o futuro presidente da República, a sucessão de 1989 ficará na História como a mais democrática de todas as eleições já realizadas no país - em nenhuma delas a liberdade foi tão ampla, em nenhuma a participação popular foi tão grande. Para o candidato derrotado Luís Inácio Lula da Silva, a contagem dos votos marcou um momento dramático, que ele preferiu acompanhar sozinho, em companhia de sua mulher, Marisa, e do filho menor, Luís Cláudio, de 4 anos, além de uns poucos amigos muito íntimos. No domingo, logo depois do almoço, Lula, falando pouco e dando sinais de desânimo com os resultados que estavam por vir, embarcou num helicóptero em São Paulo para descansar num lugar sossegado. Em Brasília, depois de votar, Collor recebeu os amigos para um churrasco em sua casa, no Lago Norte da cidade. Compareceram oitenta pessoas, que iriam se divertir até as 4 e meia da manhã do dia seguinte.

Ao capturar seu milionário cesto de votos no segundo turno, Fernando Collor de Mello consumiu a vitória suprema da confiança em si próprio. Quando a campanha presidencial teve início, havia um espectro no horizonte chamado Brizula - a possibilidade de um candidato de esquerda populista (Leonel Brizola) ou de esquerda socialista (Luís Inácio Lula da Silva) acabar levando a sucessão. Sempre se soube que haveria uma vaga para o anti-Brizula, e não foi pequena a lista de ilustres candidatos que se lançaram em busca desse lugar. Apareceram cabeças coroadas da política nacional, como o deputado Ulysses Guimarães. Também surgiram velhas raposas, como Paulo Maluf. Ao fazer seu discurso do choque do capitalismo, pronunciamento que entrará para os anais da sucessão como uma de suas páginas mais belas e inúteis, o próprio tucano Mário Covas procurava hastear uma bandeira neste promissor terreno do anti-brizulismo. Todos fracassaram.

O anti-Brizula, na verdade, era Fernando Collor, candidato no qual a maioria dos políticos prestava a mesma atenção que dispensa ao Estado do qual ele foi governador, Alagoas. Ao longo dos meses seguintes, Collor iria demonstrar que é o mais espetacular caso de self-made man da política brasileira. Corri um ímpeto que, até agora, só se via no mundo dos negócios, em que empresários como o empreiteiro Sebastião Camargo, por exemplo, começaram na vida carregando pedra em carroças puxadas por uma parelha de burros, para terminar a carreira com uma fortuna de 1 bilhão de dólares, Collor é aquele político que, em termos nacionais, saiu do nada para se tomar proprietário do mais cobiçado troféu eleitoral do país desde que o presidente Ernesto Geisel iniciou a abertura política em 1975.

Collor largou com menos medalhas no peito do que a maioria de seus concorrentes. Leonel Brizola já havia sido eleito governador de dois Estados, o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, o único político brasileiro a conseguir tal feito. Paulo Maluf ocupara o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo. Ulysses Guimarães era o "Senhor Diretas" e o santo padroeiro da Nova República. Há dois anos, Collor de Mello era um ilustre desconhecido fora de Alagoas - ao contrário também do senador Mário Covas, dono de 8 milhões de votos em São Paulo em 1986, e mesmo Luís Inácio Lula da Silva, líder do PT que ganhou a prefeitura de cidades como São Paulo, Campinas, Santos e Vitória em 1988. Uma das grandes injustiças cometidas contra Fernando Collor de Mello ao longo de toda a campanha presidencial foi o lançamento da teoria de que ele não passava de um produto de laboratório, uma espécie de Cyborg, construído por grandes empresários para vencer o espectro Brizula. É verdade que, na reta final, qualquer dono de empresa com um faturamento capaz de ser contabilizado na casa dos milhões de dólares fechou com Collor - contra Brizola, no início, contra Lula, mais tarde. A realidade, no entanto, é que Collor passou meses sendo tratado com piadinhas pelos garbosos capitães de indústrias do sul do país, que só começaram a levá-lo a sério depois que seu nome explodiu nas pesquisas.

Depois da votação de 17 de dezembro, constata-se que, se Collor é um candidato criado em laboratório, era ele próprio quem manipulava todos os instrumentos disponíveis. Foi ele quem confeccionou o discurso contra os marajás. Também é de sua iniciativa a postura de ataques ao presidente José Sarney - a quem acusou de estar cercado de assessores corruptos e até assassinos no Planalto. Também é de Collor a atitude antiesquerda nos últimos dias da campanha no segundo rumo. Saiu dos laboratórios do novo presidente, por fim, a nuvem de mal-estar que acompanhou a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva nos momentos finais da campanha no segundo turno.

Na manhã de domingo 17 de dezembro, havia uma novidade no comportamento do candidato do PT. Na hora de votar, ele saiu de casa em companhia de uma caravana de automóveis e caminhonetes. No momento de depositar seu voto na uma, Lula repetiu um gesto que marcou o 15 de novembro de sua vitória no primeiro turno - o beijo na cédula. Tudo parecia muito bem no concorrente do PT - mas era só uma impressão. Seu rosto estava fechado, ele sorria com dificuldade. Chegou a posar, várias vezes, fazendo o V da vitória com as duas mãos - mas era um gesto mecânico, sem convicção. Lula deu várias entrevistas no dia 17 de dezembro. Em todas elas, porém, preferiu falar, em tom modesto, da importância daquela eleição. "É o dia mais importante para uma pessoa com as minhas convicções", disse. "O PT cresceu muito."

Entre o Lula triunfal dos grandes comícios da reta final e o candidato abatido na manhã de 17 de dezembro havia uma diferença de peso. Para o candidato do PT, os últimos dias de campanha foram marcados por uma sucessão de dificuldades. Uma delas consistiu no grande golpe baixo da campanha - o depoimento de sua ex-namorada Mirian Cordeiro, que, conforme denúncias de assessores do PRN, embolsou 200 000 cruzados novos para ir ao horário político de Collor denunciar que o concorrente do PT tentara convencê-la a fazer um aborto para impedir o nascimento de uma filha do casal, Lurian, que hoje tem 15 anos de idade. O outro mau momento foi de sua própria autoria - uma visita ao Estádio do Morumbi, 24 horas antes da eleição, para assistir à final do Campeonato Brasileiro de Futebol entre o São Paulo e o Vasco da Gama, vencida pelo time carioca por 1 a 0.

Em si mesma, a idéia já era um prenúncio de problemas - levar um candidato a presidente da República a um estádio de futebol, onde político nenhum costuma ser bem recebido, já é uma operação arriscada. Quando se sabia que Lula era o candidato numa eleição apertada, o melhor que se poderia obter com esse passeio era o aplauso de meia torcida - e a vaia da outra metade, o que, num estádio do tamanho do Morumbi, lotado, é vaia que não acaba mais. O que ocorreu foi uma cena ainda mais cruel. Lula foi conduzido por seus assessores para caminhar pelo setor de cadeiras cativas do Morumbi, um abrigo natural de eleitores de seu adversário. Ali, foi vaiado por quinze minutos sem intervalos. "Au, au, au, Lula no Mobral". gritavam. "Brasil, urgente: Lula pra semente."

O grande problema do candidato do PT, no entanto, ocorreu a 72 horas da eleição: foi sua queda no último debate da campanha, acompanhado por uma platéia estimada em 90 milhões de pessoas. Foi ali, aparentemente, que a eleição se resolveu em favor de Collor, pois o desempenho de Lula foi catastrófico. Por sua linha de atuação ao longo de todo o programa, até parecia que o candidato do PT não estava em campanha para o Planalto, mas para outro edifício, o Palácio Marechal Floriano Peixoto, sede do governo de Alagoas. Ele desperdiçou a maioria de suas intervenções nas 2 horas e 45 minutos do debate tentando provar por todos os meios que Collor fora um mau governador daquele Estado - onde o candidato do PRN obteve 57% dos votos no primeiro turno. Lula também mostrou que não estava preparado para sustentar boa parte das denúncias que lançou à queima-roupa contra seu adversário. Ele condenou, por exemplo, um acordo que Collor assinou com grandes usineiros de Alagoas, que teria causado um prejuízo de 110 milhões de dólares aos cofres públicos. O candidato do PRN defendeu-se dizendo que tinha condições de provar que tudo fora feito nos conformes da legalidade - e Lula não teve uma palavra sequer para contra-argumentar, deixando claro que acabara de ler um pedaço de papel preparado por seus assessores, sem entender o que havia lido e sem saber direito do que estava falando.

Em duas oportunidades, Collor disse que Lula não sabia a diferença entre fatura e duplicata. O candidato do PT ficou quieto. Collor ainda questionou o candidato do PT querendo saber se o ex-governador Leonel Brizola tinha razão em dizer que o senador José Paulo Bisol, candidato a vice na chapa do PT, era corrupto. Lula não defendeu Bisol nem condenou Brizola. Apenas disse que ambos tinham divergências que seriam resolvidas depois da eleição - deixando no ar a impressão de que, para ele, uma acusação de corrupção, que é um assunto da área policial, e uma divergência política, que é um dado banal da rotina dos partidos políticos, podem ser consideradas problemas da mesma natureza e tratadas com os mesmos remédios.

"Estou convencido de que foi o debate que decidiu o segundo turno", afirma Carlos Augusto Montenegro, diretor-executivo do Ibope. Na fase final do segundo turno, o candidato Luís Inácio Lula da Silva enredou-se na mesma armadilha que destroçou diversos concorrentes no primeiro rumo. Era a idéia de que seria possível, com o auxílio de um punhado de dossiês misteriosos, mostrar que Fernando Collor não passava de uma espécie de andróide eleitoral confeccionado nos estúdios da TV Globo para estragar a sucessão presidencial de 1989. O fundo dessa teoria reside na convicção de que a maioria do eleitorado, em sua santa ignorância, teria se equivocado na hora de escolher seu candidato.

Não é que preferisse Collor por considerá-lo mais apto para governar o país, admirar sua firmeza na oposição ao presidente José Sarney - ou até mesmo por achá-lo mais bonito que Lula. Não. Segundo a tese do candidato-andróide, milhões de brasileiros, no seu comportamento habitual, iriam votar em Collor por erro. Bastaria, então, explicar a essas pessoas que 2 mais 2 são 4, mostrar a bobagem que estavam fazendo ao gostar de Collor e fazê-las mudar de idéia num passe de mágica, pela produção de um plim-plim revelador em seus cérebros que lhes permitisse refletir assim: "Ah bom, então vamos votar no Lula".

Para Collor, a campanha presidencial se encerrou com uma ironia. Quando o novo presidente disparou nas pesquisas, seus adversários no primeiro turno diziam que ele não seria capaz de resistir ao primeiro debate, no qual seria devidamente estraçalhado por seus competentíssimos adversários. O próprio Collor colaborou para dar consistência a essa teoria quando decidiu ficar ausente de todos os seis debates promovidos no primeiro turno. A previsão até ganhou ares de verossimilhança na fase final - no primeiro debate dessa etapa, Lula saiu-se melhor. No último duelo entre os dois, contudo, verificou-se que ocorreu o contrário. O candidato do PT, que até ali estava numa linha de ascensão que não fora interrompida nem mesmo pelo depoimento de sua ex-namorada, parou de subir. Collor, que estava em queda, parou de cair - e os votos apurados no início desta semana indicam que conseguiu recuperar a maior porção do terreno perdido entre o primeiro turno e as vésperas do segundo.

Encerrada a contagem dos votos, a dor dos derrotados e a festa dos vitoriosos da sucessão de 1989 cairão rapidamente no esquecimento dos 82 milhões de eleitores - e todas as atenções estarão voltadas para se descobrir quais providências o novo presidente planeja anunciar para retirar o país do atoleiro, marcado por uma inflação que em dezembro já chegou a 50% ao mês. É verdade que a vitória do candidato do PRN trouxe um clima de alívio ao mundo dos negócios, temeroso diante da hipótese Lula. Também é verdade, porém, que não faltam problemas no horizonte do novo presidente.

A primeira dificuldade é de natureza política. A eleição mostrou um país dividido entre dois candidatos fortes - o que significa que o vitorioso teve milhões de votos a mais que seu concorrente, mas que terá também muita gente do outro lado. É um problema que, concretamente, está colocado para Collor, embora seja óbvio que estaria, igualmente, colocado para Lula, caso tivesse sido ele o vitorioso na batalha de 17 de dezembro. Esse quadro de divisão pode ser deixado como está, o que levaria naturalmente a uma situação de exacerbação dos ânimos dos dois lados - num clima de conflito e retaliação que tem marcado as relações entre situação e oposição desde a posse do presidente João Figueiredo, em 1979. Pode ter, porém, um desdobramento positivo, o de levar o governo a dialogar com o outro lado. Como novo presidente, o protocolo reserva a Collor o direito de tomar a iniciativa nesse processo - deixando claro que, se fracassar, é porque a resistência surgiu do outro lado. Quando ainda era candidato, o presidente eleito fez essa sugestão a Lula, durante o primeiro debate da reta final. Vitorioso, pode mostrar que essa proposição era uma intenção para valer, e não um mero expediente destinado a embaraçar seu concorrente.

Uma questão que o candidato Collor deixou aberta, e que o presidente Collor terá cinco anos para responder, diz respeito a um traço marcante de seu comportamento - a busca obstinada do sucesso. É uma marca que pode cair bem num país que passou os últimos dez anos nas mãos de dois presidentes desorientados, que transigiam com ministros gastadores e poupadores, ora comungavam com idéias de austeridade ora, mais tarde, com proposições inflacionárias, cavando o buraco de incongruências que se transformou no Brasil de 1989. O fato, contudo, é que a reta final da campanha mostrou um Collor desmedidamente obcecado pela vitória. Quando seu programa no horário político exibiu o depoimento da enfermeira Mirian Cordeiro, por exemplo, boa parte do eleitorado de Collor enxergou no episódio o movimento de um político que é capaz de fazer praticamente qualquer coisa para vencer seu adversário - sem nenhum escrúpulo. Outra parcela de seu eleitorado, contudo, enxerga essa questão pelo seu aspecto prático, segundo o qual uma iniciativa desse tipo, por mais cruel que seja, pode ser justificada pela necessidade de golpear um adversário na reta final.

Outra dúvida reside em seu comportamento no segundo turno. Ele foi acusado de fazer uma pregação anticomunista. Asneira: da mesma forma que qualquer candidato tem o direito de fazer propaganda pró-comunista, qualquer outro concorrente que não goste do comunismo pode fazer sua propaganda anticomunista. O problema de Collor, nessa investida, encontra-se em outro lugar. Em sua pregação, ele não se preocupou em demonstrar que é anticomunista porque julga o comunismo um sistema fracassado, e sim em apresentar o adversário, pelo fato de ser de esquerda, como inimigo do povo e do país. Além disso, sustentou afirmações a respeito de Lula e do PT que sabia não ser verdadeiras. Disse, por exemplo, que o PT pretendia expropriar os depósitos nas cadernetas de poupança, o que é falso. Também disse que seu adversário queria mudar as cores da bandeira nacional, o que é igualmente falso.

Iniciada a apuração, circula a convicção de que o novo presidente, eleito como grande adversário do governo atual, está predestinado a transformar-se numa continuação daquilo que está aí. Há o temor de que, uma vez no Planalto, Collor não tome providências efetivas para consertar a máquina do governo, não consiga ser mais feliz em suas proposições privatizantes do que o presidente José Sarney e que sua convivência com o Congresso se torne marcada pela mesma relação de compadrio interesseiro de seu antecessor. Em apoio a essa tese, existe a constatação de que a confusão econômica em que o país se encontra é muito mais profunda do que a maioria das pessoas consegue imaginar - para muitos economistas, as chances de encontrar uma solução duradoura são idênticas às de adivinhar a quina da Loto. Atenção, portanto: é possível que o presidente Collor dê errado. Mas também é possível que acerte, e não apenas por sorte, como ocorre regularmente com os felizes premiados da Loto. Collor, na verdade, pode acertar porque tem condições para isso.

Uma diferença essencial de Collor para Sarney reside em seu cacife. Quando subiu a rampa do Planalto, Sarney era um presidente devedor. Devia ao PMDB, que o aceitou em suas fileiras depois de passar vinte anos como uma das estrelas da Arena e do PDS. Devia ao PFL, que funcionou como o grande cabo eleitoral de sua candidatura na chapa de Tancredo Neves. Devia a Ulysses Guimarães, que, diante do impedimento de Tancredo, resolveu bancar sua posse. Também devia a Aureliano Chaves, que lhe prestou lealdade em momentos difíceis. O presidente Collor chega ao Planalto sem dever nada a ninguém - foi ele o arquiteto e o principal credor de sua própria vitória. Não estará amarrado por uma árvore de acordos paralisantes como a Aliança Democrática nem precisará pagar favores que não recebeu.

Também colabora para essa chance de que algo efetivamente mude a partir de 15 de março de 1990 a personalidade do novo presidente. Collor é um político que vive com a idéia fixa de obter resultados, obtê-los logo e obtê-los de maneira visível para o público em geral. Após um governo de zero resultados como o de José Sarney, trata-se de algo que pode fazer diferença. Collor é do tipo que fica impaciente quando a conversa começa a encompridar em tomo de questões abstratas. É menos preocupado com o porquê e mais interessado no quê, para que e como - de novo, um traço que conduz mais à ação do que à divagação, sinal positivo num país onde o governo tem agido de menos e divagado de mais.

Há outro ponto que chama a atenção. Collor é um político que deu muitas voltas em sua rápida carreira de onze anos. Foi do PDS, depois mudou-se para o PMDB, chegou a namorar um partido fantasma chamado PJ (Partido da Juventude) e acabou no PRN de hoje. Apesar de tantas mudanças de endereço, existe uma linha que tem guiado o seu comportamento - é a sintonia com aquilo que se chama sentimento popular, ou opinião pública. Apenas numa única oportunidade o novo presidente assumiu uma postura que ia contra os apelos da maioria. Foi em 1985, quando deu seu voto ao ex-deputado Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, contra Tancredo Neves.

Antes e depois disso, porém, sua atitude foi de manter a linha direta com os humores das grandes camadas da população. Embora fosse do PDS, votou pelas diretas já em 1984. Denunciou o calote do Plano Cruzado logo na abertura das urnas de 1986, ainda que, na época, estivesse no PMDB e acabasse de ser eleito governador de Alagoas. Na Constituinte, foi o governador que entrou de peito mais aberto na batalha contra os cinco anos para Sarney. Em campanha, foi o inimigo número 1 dos privilégios do empreguismo - e o mais duro oponente do presidente José Sarney. Não é fácil a rotina que aguarda Collor de Mello em Brasília a partir de 15 de março de 1990. Reside nessa antena sempre apta a acolher o sinal que vem das ruas, no entanto, seu maior trunfo para fazer um governo que pode dar certo.


 
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