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Reportagens 24 de novembro de 1982O dia que mudou o Brasil Governadores eleitos diretamente deslocam
Entre suas muitas virtudes, eleição tem a capacidade de permitir que qualquer opinião política possa ser facilmente traduzida em números. Claros, simples e refrescantes como um copo d'água, os resultados eleitorais traduzem, através de algarismos, torrentes de palavras, manobras, paixões e promessas. Das urnas saem números maiores e menores, sempre indicando que mais ou menos pessoas quiseram ir numa ou noutra direção. Das urnas de 15 de novembro, com essa esmagadora simplicidade, saiu a constatação de que o PDS venceu. Elegeu a maioria dos governadores, armou uma maioria de quase dois terços no Senado e chegou perto da maioria absoluta na Câmara, além de assegurar seu controle sobre cerca de 3 000 das 4 000 prefeituras do Brasil. Do mandato dado a essas urnas, que pela primeira vez em dezoito anos tiveram o poder de indicar os nomes dos governadores, saiu também um país diferente.
Encerrou-se no dia 15 o mais longo período de centralização administrativa verificado desde o Império e abre-se, a partir da posse dos novos governadores, no dia 15 de março do próximo ano, um ressurgimento federalista no qual 70% do Produto Interno Bruto, representando uma economia que soma 200 bilhões de dólares, comparável, portanto, a duas Espanhas, ficará sob jurisdição de governadores da oposição. "Abriu-se uma nova fase", comentava em sua casa, a 100 quilômetros de Brasília, o general Golbery do Couto e Silva, um dos artífices da transição que levou o país da ditadura ao retomo da competição política. "Começa agora um período que exigirá participação. Terminou o tempo em que meia dúzia de pessoas pintavam painéis monumentais, como os muralistas mexicanos, mas sem a ajuda de escadas, de nada." De fato, a maior mudança ocorrida com a eleição está na própria origem do poder dos eleitos. O país não mudará apenas porque oposicionistas como Franco Montoro e José Richa governarão São Paulo e o Paraná. Mudará sobretudo porque o pedessista Roberto Magalhães, de Pernambuco, ou seu colega Jair Soares, do Rio Grande do Sul, foram eleitos diretamente, num novo regime no qual seus sucessores também precisarão de votos para medir suas subidas ou suas quedas. Com a mobilização de quase 50 milhões de eleitores e um dos mais baixos índices de votos nulos (4,5%), apesar das dificuldades impostas pela cédula utilizada, a maior eleição da história do país alterou os eixos da prática política nos próximos anos. O PDS ganhou liberdade e, precisamente por isso, seus candidatos eleitos em Pernambuco, Roberto Magalhães, e no Ceará, Luiz de Gonzaga Motta, já falam na necessidade de uma reforma tributária. Ambos, bem como seus colegas de partido, serão correligionários que se submeterão à liderança do presidente da República, mas nas relações de cada palácio estadual com o Planalto ficará implícito que cada um dos governadores se senta à cadeira em que está pela vontade dos eleitores, e não mais pela preferência de Brasília. E mais, que a permanência de um partido na cadeira do governo dependerá, em 1986, desses mesmos eleitores. Essa mesma influência do voto fez com que, em menos de dois dias, fosse pulverizado o radicalismo verbal de uma suposta "frente de governadores oposicionistas". "Isso é substituir uma forma de autoritarismo por outra", fulminou o paranaense Richa. "Ele tem toda razão", arrematou o paulista Montoro. Estava morta a frente, idéia atrás da qual se escondia, na realidade, uma tentativa de diminuir, através das máquinas partidárias, o poder dos oposicionistas, em benefício dos radicais de seus partidos. Para o governo, não houve susto na eleição dos adversários. O presidente João Figueiredo reconhece que a vitória de Leonel Brizola poderá levar a Brasília problemas delicados, mas nem por isso se amargurou com os resultados. Seu chefe do Gabinete Civil, professor João Leitão de Abreu, recolheu-se na sexta-feira à Granja do Ipê, em Brasília, e à retomada da leitura de diálogos do historiador inglês Arnold Toynbee, com a alma leve: "Enfrentamos uma situação desfavorável, de crise econômica, e obtivemos um resultado bastante bom. Agora, precisamos parar e usufruir os resultados". Do outro lado da linha partidária, o futuro governador Franco Montoro, bem como o inesperado Leonel Brizola, repetiam em suas conversas que, com criatividade, governarão com um olho no eleitorado e outro na crise. Afinal, a marca oposicionista estende-se no mapa do Brasil do sul do Paraná ao norte de Goiás, em plena Amazônia. Nessa superfície estão 63 milhões de pessoas, 80% de todos os telefones e automóveis do país e comunidades que levam a Brasília quase 7 em cada 10 cruzeiros da receita tributária da União. Enquanto ser oposicionista era acima de tudo exercitar idéias, tudo era mais fácil. A partir de 15 de março, quando as idéias deverão mostrar-se capazes diante de orçamentos, começará uma radiante fase de negociação. Os governadores dos dois partidos negociarão consigo mesmos, com suas equipes, seus correligionários, seus deputados e seus prefeitos. Dessa negociação é que sairão as conversas em Brasília. A eleição mostrou ao governo que ele está só e malquisto nas capitais, batendo-o em quase todas as urnas. Mostrou também que o pacote de novembro, com a vinculação dos votos, se serviu para ajudar o PDS, deu ao PMDB o que ele jamais teve: base municipal. Em todo o país as prefeituras peemedebistas poderão dobrar. Em São Paulo a vitória do senador Franco Montoro significou praticamente a destruição do PDS e a formação, no seu lugar, de um PMDB armado sobre cerca de 270 prefeituras, contra as 38 que tinha em 1981. Essa mudança fará com que em todos os Estados a oposição se torne mais robusta e, seguramente, menos retórica. Afinal, das mesas dos dirigentes partidários haverá agora menos livros de ciência política e mais canhenhos de contas. A lição do Rio de Janeiro, onde a verbologia dos "luas pretas", nome que estigmatizou os intelectuais de esquerda instalados ao redor do derrotado Miro Teixeira, liquidou uma campanha favorita, está na memória de todo político oposicionista disposto a fazer carreira. E nisso a eleição mostra sua semelhança com a simplicidade do copo d'água: há dez anos, para evitar que os luas pretas chegassem ao governo, o Planalto talvez os cassasse. Agora esse serviço foi polidamente feito pelos eleitores, que também cassaram por quatro anos o chaguismo fluminense, o neísmo paranaense, o radicalismo do PT e as poções de enxofre do deputado mineiro Magalhães Pinto, um articulador capaz de arrancar do Planalto o apoio à candidatura Eliseu Resende, sem arrancar das urnas os votos para completar a manobra. A própria sucessão presidencial, o mais acrobático dos espetáculos políticos brasileiros, passará agora a ser regida por alguma espécie de critério. Até a semana passada, por exemplo, o ex-governador paulista Paulo Salim Maluf era apresentado até pelo jornal americano The New York Times como um forte aspirante à Presidência. Batido por 2,8 milhões de votos na eleição de governador, Maluf ancorou-se na espetacular votação de cerca de 600 000 votos que obteve como candidato a deputado federal. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente o segundo deputado federal em votação é o cantor Agnaldo Timóteo, um candidato excêntrico eleito pelo PDT fluminense com cerca de 400 000 votos. O ministro do Interior, Mario Andreazza, foi dormir no dia 15 com três fichas no tabuleiro. Se ganhassem Jair Soares no Rio Grande do Sul, Eliseu Resende em Minas Gerais e Moreira Franco no Rio de Janeiro, ele amanheceria praticamente imbatível, já que conta com muita simpatia do presidente Figueiredo. A simpatia ficou, mas duas das três fichas foram-se e para mãos adversárias dentro do PDS - o que levará Andreazza a ter de redobrar seus esforços no Nordeste, onde estão justamente as tais mãos adversárias. Em contrapartida, o pernambucano Marco Maciel, que assumiu em 1979 sob a segura expectativa de que esquentaria a cadeira para o peemedebista Marcos Freire, bateu-o, elegeu-se senador e desce em Brasília como um candidato forte. Ao seu lado, o baiano Antônio Carlos Magalhães, senhor da maior vitória do PDS, chegará com a maior bancada federal do partido, controlando 27 cadeiras e alimentando a aspiração de subir na política federal. Forças revigoradas como as que exibem Maciel e Antônio Carlos Magalhães são o sinal mais visível de algo mais profundo: o fortalecimento político do Nordeste dentro da máquina do governo. Enquanto essa região prejudicada pelo sistema tributário dava bancadas para um legislativo sem aspirações, o poder do Sul sobre o Planalto sempre foi indiscutível. Agora, no Sul há oposicionistas e, quando o governo precisar de poder político, ligará para o Norte. O dia 15 de novembro de 1982 ficará na história do Brasil como aquele em que os eleitores voltaram a escolher os governadores, mas, com o tempo, se perceberá que neles reproclamou-se a federação. Nesse sistema, todos ficam administrativamente mais fracos, todos ficam pessoalmente mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, ganham o direito de ficar também mais ambiciosos. Enquanto isso, politicamente, o voto volta a raiar no horizonte do país como forma absoluta de escolha de governantes nos Estados e, inevitavelmente, ainda que num futuro ainda remoto, como forma de escolha do presidente da República. |
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