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Reportagens 23 de novembro de 1988O soco nisso que está aí Os votos do PT mostram o repúdio do eleitor
Poucas eleições foram tão úteis para o país como a de 15 de novembro de 1988. Entre as 8 da manhã e as 5 da tarde de terça-feira da semana passada, 70 milhões de eleitores foram às urnas para deixar uma mensagem amarga - como nunca se vira antes. Não era, apenas, que a população não gosta do governo - recado que, bem ou mal, já pode ser lido em quase todos os votos apurados no país desde 1974. Também não se pediu, na semana passada, que o partido que hoje está na situação seja devolvido às fileiras de um oposicionismo provisório, deixando seu lugar para legendas que, com o nome de PDS, PFL ou mesmo PSDB, administravam os negócios do governo até a véspera. As urnas de 1988 massacraram o PMDB nas grandes cidades, aleijaram o PDS em sua praça maior, que é São Paulo, e marcaram o fiasco das siglas conservadoras na disputa pela segunda cidade do país, o Rio de Janeiro.
Na semana passada, o eleitorado avisou que está cansado de políticos carcomidos, abriu uma rachadura num sistema eleitoral em que os partidos políticos se revezam como atores de uma mesma peça de teatro e disse ao país que está cansado dessa encenação que não leva a parte alguma. O nome dessa ruptura é Partido dos Trabalhadores, ou PT. Dono de uma bancada de apenas dezesseis cadeiras na Constituinte, o PT entrou no pleito com duas prefeituras na mão - a de uma cidade chamada Icapuí, a 250 quilômetros de Fortaleza, com 18 000 habitantes, e Vila Velha, a 13 quilômetros de Vitória. Quando as urnas foram abertas na manhã de quarta-feira, descobriu-se a novidade. Com boa folga sobre o segundo colocado, o deputado Olívio Dutra ganhou a prefeitura de Porto Alegre. O PT também venceu em Campinas e em Santos, pendurou sua estrela na administração de três das quatro cidades que formam o ABCD paulista - e ainda emplacou em outra capital, Vitória. Quando faltam poucos meses para a abertura da campanha eleitoral na qual irá se resolver a sucessão do presidente José Sarney, coube ao PT, também, o mais espetacular tesouro político em disputa na semana passada - a prefeitura de São Paulo, que a partir de janeiro será ocupada pela deputada Luiza Erundina, que venceu Paulo Maluf, do PDS, numa corrida apertada. Dedicada militante do movimento dos sem-terras, Erundina foi lançada candidata com o patrocínio daquela fatia do partido apelidada de xiita - na reta final, recebeu as bênçãos da hierarquia católica e tornou-se o primeiro caso de candidatura do PT a se beneficiar do voto útil. Maluf entrou na disputa eleitoral com movimentos calcados na vitória de Jânio Quadros em 1985 - acabou sofrendo sua terceira derrota política desde que disputou a Presidência com Tancredo Neves, em 1985. "O eleitorado reconheceu nossa postura oposicionista", afirma o deputado Luís Inácio Lula da Silva, fundador do PT. "Para a classe política, a eleição teve a força de um vendaval", afirma o deputado Plínio de Arruda Sampaio, do PT paulista. Em 1982, quando disputou sua primeira eleição, o PT garimpou 1,4 milhão de votos. Na noite da última sexta-feira, quando nem todas as apurações haviam terminado, essa contabilidade batia nos 8 milhões de eleitores. O PT sai das urnas de 15 de novembro como titular de 37 prefeituras e inicia o ano de 1989 na administração de cidades que, em seu conjunto, respondem por alguma coisa como 40% do Produto Nacional Bruto. Mesmo quando se recorda que a estrela petista ficou com perto de 12% dos votos disponíveis nas urnas da semana passada, é um crescimento que impressiona - pela matemática das vitórias, pela geografia eleitoral e pelo que está por baixo de tudo isso. Houve uma época em que o eleitorado entrava na cabine para protestar, como ocorreu em 1974, por exemplo. Em outras ocasiões, usava-se o voto para se afastar o PDS dos governos estaduais, como aconteceu em 1982. É verdade que, na semana passada, o PMDB pagou, nas mesmas urnas que o consagraram em 1986, a conta pelo abandono das promessas do Plano Cruzado, engavetado cinco dias depois do pleito. Contudo, a votação que empurrou a caravana do PT, na ultima terça-feira, é de outra natureza. Não foi um voto contra quem está no governo e a favor de quem faz oposição - mesmo porque boa parte dos oposicionistas aparentemente mais equipados do que o PT para saírem vitoriosos, como o tucano Artur da Távola, no Rio de Janeiro, ou mesmo Paulo Maluf, em São Paulo, acabaram ficando bem atrás em matéria de desempenho eleitoral. O que se viu, nas eleições municipais, foi a emergência de um outro voto - o do eleitor contra tudo isso que sempre esteve aí. "Foi um voto de revolta, num partido coerente", afirma um dos piores inimigos do PT, o médico Ronaldo Caiado, presidente da UDR. "O pleito mostrou que o eleitorado caminha para a esquerda", afirma o deputado do PT Paulo Delgado. É óbvio que a maioria dos eleitores não se encontra numa situação de rebelião diante da ordem constituída, da mesma forma que são poucos os brasileiros que comungam das idéias esquerdistas do PT. Só para se ter uma idéia disso, basta lembrar que Luiza Erundina ganhou a prefeitura de São Paulo com 30% dos votos. A margem foi suficiente para lhe garantir o primeiro lugar. No entanto, se tivesse disputado o pleito de 1985, Erundina seria a terceira colocada - naquela eleição, o senador Fernando Henrique Cardoso ficou com 35% do eleitorado. O aspecto mais divertido da votação do PT é o de mostrar que, até a semana passada, o mundo político brasileiro ficaria muito bem retratado num dos capítulos da obra-prima Em Busca do Tempo Perdido, do escritor francês Marcel Proust. É um desses ambientes freqüentados por pessoas ricas, de sobrenomes tradicionais e uma árvore genealógica que possui uma linha direta com a nobreza - ou com as grandes fortunas. Os personagens de Proust têm suas rivalidades e mesquinharias, freqüentam bailes de máscaras e fazem muitos mexericos a respeito de si próprios - a diferença é que tanto os Guermantes, família nobre com raízes que chegam à Idade Média, como os Swann, família de burgueses enriquecidos há muitas gerações, nunca se misturam com boa parte das pessoas que os cercam, a chamada criadagem. Numa das cenas do livro, em que descreve um jantar num restaurante de luxo, todo envidraçado, Proust compara o ambiente a um aquário - e se pergunta o que aconteceria se, um dia, o vidro do aquário quebrasse e a população que fica do lado de fora, habituada a assistir às refeições de longe, acabasse por entrar ali. Na semana passada, não foi isso o que aconteceu nas apurações. Mas foi como se Françoise, empregada doméstica que percorre as festas de Em Busca do Tempo Perdido, chegasse a um baile com suas roupas de camareira e tirasse, por exemplo, o nobre Robert de Saint-Loup para dançar. Na obra de Proust, Guermantes e Swann são os nomes disso que taí. No reino da política brasileira, eles são Ulysses Guimarães e Orestes Quércia, da linhagem do PMDB, Aureliano Chaves e Marco Maciel, da família PFL. É certo que eles têm seus problemas entre si, e há tantos mexericos dentro do PFL como entre o PFL e o PMDB - mas também é certo que, aos olhos do eleitor da última terça-feira, poderiam atender pelos sobrenomes Guermantes e Swann. O ângulo mais complicado disso que taí, no Brasil, é o seu tamanho, pois isso que taí quer dizer emprego público, salários milionários e jornais ocupados, regularmente, por manchetes sobre corrupção. Também pode ser traduzido por uma inflação mensal de 30%. Como os personagens de Proust, o PFL o PMDB são capazes, vez por outra, de produzir gestos elegantes - como um acordo entre cavalheiros chamado de Pacto Social. A dificuldade, para quem só pode assistir a essas cortesias de longe. é a forma de cavalheirismo que, vez por outra, parece reservada a quem nunca esteve aí. Seis dias antes das eleições, por exemplo, três operários foram mortos por tropas do Exército na usina da Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda. "O eleitor deu uma lição nos políticos tradicionais", afirma o novo prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, um dos grandes vitoriosos da legenda do ex-governador Leonel Brizola, o PDT - outro candidato bem-sucedido foi Jaime Lerner, que venceu em Curitiba com quase 50% dos votos. "O maior erro dessa gente foi subestimar o povo", acrescenta Alencar. As prefeituras capturadas pelo PT e pelo PDT marcaram um crescimento da votação das legendas de esquerda em vários pontos do país. A notícia foi assunto no The New York Times e, em Paris, virou editorial do Le Monde, que classificou a votação de Luiza Erundina em São Paulo como um "terremoto". Em Brasília, contudo, o presidente José Sarney fez o possível para dar a impressão de que nem estava aí quando o pleito foi realizado. "A derrota é, nitidamente, dos governadores", disse Sarney, ao longo de uma conversa, na semana passada. Cabo eleitoral ao contrário, desses que os políticos utilizam para roubar votos dos adversários, Sarney fez o possível para manter-se, fisicamente, longe do pleito. Saboreou a derrota do PMDB de Ulysses Guimarães e batalhou, apenas, na campanha de Carlos Gutierres à prefeitura de São Luís, que acompanhou, diariamente, pelo telefone. Desde sua posse, Sarney especializou-se na produção de pronunciamentos contra a classe política. Na semana passada, contudo, o presidente apareceu diante dos microfones do programa Conversa ao Pé do Rádio com um discurso diferente. "Eu não tenho nenhum preconceito", disse. "Converso, dialogo com qualquer partido, podendo pensar mesmo em uma união nacional com objetivos definidos para que o processo democrático seja concluído." Como ocorre em toda eleição, as urnas de 1988 serviram para colocar em xeque um pacote de verdades aparentemente estabelecidas - e também produziram seu conjunto de lendas particulares. Um dos mitos que a campanha destruiu foi o de que basta ter um bom programa de televisão para cair nas graças do eleitorado. Na verdade, a maioria dos candidatos do PMDB dispôs de recursos e de equipes especializadas para produzir suas aparições no vídeo, bem mais prolongadas que as de seus rivais - nem por isso, no entanto, conseguiram salvar-se da derrota. A lenda que as eleições municipais trouxeram à tona é mais antiga e diz respeito à teoria de que o 15 de novembro de 1988 marcou os funerais do PMDB. Acreditar nessa possibilidade, em se tratando de uma legenda que dispõe da maioria dos governadores de Estado, todos eleitos, é apostar numa miragem. Quem acredita que as urnas são capazes de matar os partidos se esquece de que elas têm o poder, igualmente, de ressuscitá-los. Basta lembrar do que era o PDS em 1986 e do que é hoje. Ou mesmo do PT, esfrangalhado na estréia eleitoral de 1982. Na realidade, a grande novidade que saiu das urnas não se encontra no mundo de quem sempre esteve por aí - mas no comportamento das pessoas que quiseram colocar o PT aí. O que mudou, no caso, não foi a publicidade que a legenda promoveu em torno de seus candidatos - como ocorre desde 1995, o PT é uma estreia de sindicalistas de esquerda e intelectuais marxistas, mas gosta de se apresentar, na TV, como uma nova marca de sabonete. A grande mudança ocorreu nos milhões de brasileiros que, a 15 de novembro, saíram de casa com o título de eleitor na mão e uma idéia comum na cabeça. Num fenômeno que há muito tempo não se via, as grandes capitais se dividiram ao meio - conforme a legenda de cada candidato. Em São Paulo, por exemplo, Paulo Maluf foi campeão de votos nos bairros nobres, como Jardins e Indianópolis - cravou uma vantagem de 35% contra 27% para Luiza Erundina. Na periferia da cidade, no entanto, onde a quantidade de problemas é proporcional ao volume de eleitores disponíveis, ocorreu o contrário: a candidata do PT fez 30%, contra 20% em lugares como a Capela do Socorro e Guaianazes, por exemplo. Um fenômeno bastante parecido ocorreu, também, nas capitais onde o PT saiu na frente - e até mesmo naquelas onde ficou em segundo lugar. Concentração de trabalhadores que ganham pouco, pequenos comerciantes e famílias que residem em favelas, as urnas da Zonal 113, em Porto Alegre, onde votam 81 000 eleitores, cravaram quase 50% de seus votos em Olívio Dutra - três anos atrás, o mesmo PT conseguia, no mesmo lugar, pouco mais que 10% das preferências dos mesmos eleitores. No bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, abrigo de operários que trabalham na cidade industrial de Contagem, o economista Virgílio Guimarães fez campanha para prefeito em duas ocasiões. Na primeira, em 1985, ficou com 8% dos votos do lugar. Em 1988, na arrancada que o deixou perto do novo prefeito da capital mineira, Pimenta da Veiga, do PSDB, Virgílio fez 43% dos votos. Na semana passada, enquanto os votos do PT saíam da urna, havia quem achasse uma delícia a idéia de viver sob uma administração da legenda de Lula - e também não faltavam pessoas capazes de horrorizar com essa realidade. A estrela petista realizou muitas proezas nas eleições municipais e, em São Paulo, por exemplo, a posse de Luiza Erundina irá consumar pelo menos um recorde. Com seis 11 milhões de habitantes, a capital paulista tornou-se. agora, a maior cidade do mundo entregue a um prefeito marxista - nem mesmo Moscou e Xangai, onde os prefeitos não são eleitos e nem sempre são marxistas, possuem tantos moradores. "O PT vai conhecer agora uma experiência nova", afirma o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. "Vai ver como é difícil cuidar da vidraça. Até hoje, ele só ficou do outro lado", acrescenta o ministro. A novidade, anunciada pelos eleitores de 1988, é bem mais original do que o ministro do Exército imagina. O que diferencia os prefeitos do PT não é que eles sempre estiveram do outro lado da vidraça - é que esse partido foi construído por pessoas que sempre estiveram do outro lado das grades da cadeia. Pode-se temer, com certeza, pela competência dos novos prefeitos do PT para enfrentar as dificuldades que terão pela frente. Deve-se apostar, inclusive, que cometerão muitas asneiras - como fazem, invariavelmente, os políticos que governam o país. O que é certo, porém, e que o Brasil não vai acabar por causa disso. Afinal, por vontade exclusiva do eleitor, a partir de agora o PT também é isso aí. |
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