BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



20 de novembro de 1974
A Arena
no dia
do MDB

 

Sexta-feira foi enterrado um Brasil. Sob a torrente de votos provocada pelos candidatos do MDB ao Senado ficaram velhas crendices e preconceitos da política nacional. Os cabos eleitorais responsáveis pelos pequenos diretórios no interior, que sempre tiveram nas mãos a ponta do cabresto partidário, foram aposentados pela televisão. A Arena, mesmo apoiada por 42 governadores em 22 Estados (os que terminam o mandato e os que vão iniciá-lo em março), não mais conseguiu justificar a certeza de que ao partido do governo estão sempre reservadas as vitórias. E com eles algumas figuras ilustres e tradicionais do universo parlamentar, onde desfrutavam de veneração igual à comumente dispensada aos móveis de época.

Tão violenta foi a força das águas oposicionistas que rompeu até mesmo os diques dos horários estabelecidos pela Justiça Eleitoral. Às 23h30 da sexta-feira, quando começaram a jorrar nas juntas de apuração de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, os primeiros votos que elegeriam o candidato do MDB ao Senado, Paulo Brossard de Souza Pinto, em São Paulo a cidade de Santa Rosa do Viterbo já havia começado a minar a superstição de que fora das capitais o povo prefere a Arena. Ali, nove horas antes do prazo, a primeira urna a ser aberta no país revelava, com uma vantagem de 30% dos votos, o nascimento de um novo fenômeno eleitoral: Orestes Quércia, ex-prefeito de Campinas, que há dois meses gravava vídeo-tapes de propaganda eleitoral no centro de São Paulo despertando menos curiosidade que o cinegrafista, alcançava a maior vantagem jamais registrada no Estado em eleições majoritárias. E isso contra o futuro ex-senador Carvalho Pinto, que há dezesseis anos foi protagonista de um espetáculo comparável, ao conquistar o governo estadual.

VENCE A OPOSIÇÃO - No sábado, quando começaram de fato as apurações nos diversos Estados, o caudal de votos do MDB chegou a adquirir proporções de inundação. Os candidatos de oposição ao Senado confirmavam, até excediam, todas as prévias nos locais em que sua vitória era esperada não só no Rio Grande do Sul e São Paulo como na Guanabara, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em Pernambuco e no Acre - um lote que, por si já representava uma significativa porcentagem 'do eleitorado brasileiro. Mas estava invadindo também lugares que esse resultado, ainda na véspera parecera quase impossível: Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Sergipe, Ceará, Rio Grande do Norte e Amazonas. E até no Pará, região considerada inóspita para o partido, sua torrente provocou uma pororoca fora de época ao equilibrar a força dos votos do pouco conhecido Alvaro Nascimento com o candidato arenista Jarbas Passarinho, de biografia enriquecida por um recente estágio de sete anos em dois ministérios e dois governos.

Ulysses Guimarães, deputado por São Paulo reeleito com sobra de votos e presidente nacional do MDB, não perdeu tempo em canalizar essa enchente para os reservatórios moderados e filtrá-la em água potável. Para ele, o segredo do PMDB foi simplesmente ter se preparado para a campanha com um ano de antecedência, quando o próprio Guimarães lançou à sucessão presidencial a caravela de sua anticandidatura. "Quem sai na frente bebe água limpas", ele declarava no fim de semana. "Estamos atingindo nossas metas, das quais a maior é a normalização democrática do pais, Mas não seremos fator de inquietação."

TROCA DE TEMAS - Com o MDB animado de tais propósitos, sua grande votação não pode deixar de ser vista nas suas proporções exatas: a recompensa por ter sabido fazer uma campanha mais próxima das preocupações populares do que a de seu adversário, desde o início colocado na defensiva. E não deixa de ser curioso que, nas eleições de 1970, o MDB foi derrotado pregando com uma regularidade de goteira, o tema da normalização institucional. Talvez com essa estratégia ele só tenha conseguido lembrar aos eleitores o quanto andava murcha a vida Política nacional. Agora, mudou de tática e, mesmo dando sinais de confiar no empenho do governo em promover a redemocratização, cuidou do cotidiano do eleitorado. E venceu.

Orestes Quércia, por exemplo, candidato a senador por São Paulo, talvez fique muito tempo gravado na memória dos fãs de seus programas eleitorais na televisão pelas duas palestras mais importantes de toda campanha: numa, tratou da saúde pública no Brasil, na outra criticou a política nacional de habitação. 0 AI-5, portanto, caiu do estrelato, o que pode ser um alvissareiro sintoma de esquecimento por total obsolescência. Mesmo assim, chegou, tranqüilo quanto à vitória, na cabina nem tão indevassável, onde se mostrou ainda pouco à vontade com a fama: como fotógrafos, por sobre o cercado de papelão do TRE, tentassem fotografar seu voto, Quércia se atrapalhou e se esqueceu do nome de seus candidatos à Câmara e à Assembléia. Mas ainda salvou dois votos para o partido, votando na legenda.

O domínio de quase 70% do eleitorado paulista vai custar a Orestes Quércia um sacrifício: a partir de março, terá de passar as semanas em Brasília, cidade de que não gosta. Mas tem uma compensação - a de repetir e até superar o feito de Jânio Quadros, sua admiração na política. "Trabalhei para ele em 1960, quando era segundo-tenente do Exército. Tive uma decepção muito
grande quando ele renunciou", comentava na semana passada. E Quadros, que sexta-feira estreou seu novo título de eleitor, recentemente tirado depois de dez anos de suspensão de direitos políticos, votou na Arena.

SOJA E AI-5 - "Coitado do Lacerda", comentou na Guanabara o ex-vice-governador Eloy Dutra, outro cassado de 1964 que acaba de recuperar a condição de eleitor. "Ele só vai poder votar em 1978." 0 que é uma segura medida do entusiasmo despertado pelas eleições, pois Dutra estava festejando o fato de ter sido cassado quatro anos antes do ex-governador carioca, Carlos Lacerda.

Na Fazenda Santa Genoveva, a 25 quilômetros de Bagé, onde votou o ex-presidente Emilio Garrastazu Medici, Paulo Brossard, candidato do MDB, ponteou sábado de manhã gado em seu cavalo árabe, encilhado com o arreio que ele ganhou de Synval Guazzelli, governador da Arena. Mas, à tarde, seu primeiro feriado desde o início da campanha acabou quando começaram a chegar as primeiras caravanas com oferendas de anotações dos resultados eleitorais. Nesse ambiente gauchesco, ele se entusiasmou até a bravata: "0 governo é a expressão da maioria. Se a oposição fizer a maioria, o correto, o que se faria da Inglaterra, seria organizar outro governo, pois não se justifica que a maioria seja oposição. E, se me perguntarem se o MDB está em condições de ganhar, eu respondo: é evidente". Também evidente é que a Casa para onde irá o novo senador gaúcho, pelo menos por mais quatro anos, tem maioria da Arena.

Isso não significa, no entanto, que Brossard esteja planejando levar para o Senado planos tão vastos de reformas políticas. Até porque ele admite que o segredo de sua campanha, este ano, tenha sido a oportunidade de variar o temário exclusivamente institucional que, em 1970, o levou à derrota: "Naquela época, eu não falei da soja", Brossard explicou. Graças a esses novos recursos cênicos é que o MDB pôde realizar uma campanha cercada de entusiasmo popular sem resvalar para excessos retóricos. E, por isso, os milhões de eleitores que preferiram sua legenda, sem dúvida, não estavam fascinados por qualquer tipo de radicalismo. E, quando a Arena de Campo Grande, em Mato Grosso, na véspera da eleição, começou a distribuir pela cidade fotocópias de um documento em que Vicente Bezerra Neto, candidato do MOB ao Senado, era chamado de "comunista", o juiz Milton Maluley não teve dúvidas em mandar a polícia invadir os arquivos arenistas e apreender-lhes o material subversivo. Por sinal, os métodos da Arena de Mato Grosso podiam ser muito radicais, mas suas preocupações com Bezerra Neto não eram infundadas: suas chances, desprezadas em outubro, haviam crescido tanto em inícios de novembro que, nos primeiros 40 000 votos, ele perdia por unia diferença preocupante - 1000 votos.

TRANQÜILIDADE - Lá, contudo, o governador eleito Garcia Neto não se preocupa demais com os resultados, pois confia em muitos fatores. Pelo menos, ao sair de sua seção eleitoral, comprou um bilhete de Loteria, "para tentar a sorte", explicou. Um caso tranqüilizador, sobretudo se comparado à situação no Ceará, onde o crescimento da candidatura de Mauro Benevides, do MDB, para o Senado, quase se transformou num problema doméstico para o atual governador, César Cals. Acusado de aliciar eleitores nas proximidades das urnas, seu filho Sérgio ameaçou entrar em luta corporal com o candidato a deputado federal da oposição- Iranildo Pereira. O empenho de última hora da família Cals não ajudou o arenista Edílson Távora na sua desassistida campanha para o Senado: perde para Benevides com diferença de 10% dos votos já apurados.

Tais incidentes não bastaram para turvar a tranqüilidade do processo eleitoral. Às 17 horas de sexta-feira, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, desembargador Carlos Thompson Flores, declarou. "Não temos nenhuma reclamação, nem dos partidos, nem dos candidatos. 0 país está todo em ordem". E, de traje esporte, solitário no prédio do TSE, ficou o diretor geral da secretaria, Geraldo Costa Manso, acompanhando as apurações através de uma complicada parafernália eletrônica.

Menos tranqüilo foi o dia dos juizes regionais da Justiça Eleitoral, mas por outras razões. Por todo o interior, fazia-se o primeiro ensaio geral da "leo Etelvino Lins", produto da obstinação com que o deputado pernambucano, às vésperas de se aposentar, pretendeu sanear as eleições da contaminação do poder econômico, legando aos TREs o encargo de transportar e alimentar votantes em dia de eleição.

Mesmo em São Paulo, um Estado sem maiores problemas de estradas ou dinheiro, a verba de 2 milhões de cruzeiros não bastou. O TRE se limitou a sugerir aos juizes do interior que se arranjassem com imaginação. Assim, o lanche dos mesários foi fornecido pelos partidos, que aproveitaram a onda de liberalidade e transportaram eleitores em seus carros. Mais cioso do protocolo, o juiz de Patrocínio, em Minas Gerais, Edgard de Andrade Rocha, afixou no cartório uma portaria em que, em sete consideranda, esmiuçava seus problemas financeiros e apelava aos eleitores da zona rural, proprietários de veículos, que dessem carona aos demais E advertia os pedestres de que a multa, por não votar é de "20 cruzeiros", mesmo se não houver transporte. No Espírito Santo, juizes do interior consultaram o Tribunal Regional sobre a possibilidade de alugar mulas, mais garantidas contra os atoleiros do que meros automóveis. "Ninguém poderia esperar que os resultados da lei já fossem completos este ano", argumenta seu criador, Etelvino Lins. Com boa dose de razão, pois mesmo onde não estavam sobos rigores da lei, os juízes acabaram tendo mesmo de providenciar transporte para eleitores. Como na urbana Fortaleza, que amanheceu na sexta-feira sem ônibus. Os gerentes das empresas alegavam que os motoristas haviam sido liberados para votar, mas o TRE vislumbrou na medida uma sutil manobra para prejudicar o candidato da oposição, Mauro Benevides, com maior reduto de votos na capital, e providenciou soldados da polícia Militar para assumir os volantes. Por nao ter disposição para discutir problemas de transporte, João Cleofas, o usineiro pernambucano candidato à reeleição pela Arena, desfalcou seu eleitorado ao sair de casa no dia 15, com um revólver Taurus, calibre 32, carga dupla, na cintura, ele não parou para conversar com os cabos eleitorais que o esperavam na porta. Quando sua camioneta Veraneio de luxo, com dois bancos especiais na cabina, arrancou, Manoel Nascimento de Brito sacou da pasta os 178 títulos dos eleitores que comanda e fulminou: "Doutor Cleofas me desconheceu. Nem me deu bom dia. Vou mandar meu pessoal votar nos dois candidatos a deputado da Arena, com quem tenho compromissos. E abrir mão para senador. Aliás, pedir para que votem nesse doutor de Olinda, o Marcos Freire".

MUITO VELHO - Os 178 votos de Brito não resolveriam, certamente, o problema de Cleofas, que 24 horas depois começava a se despedir de sua cadeira no Senado, que ocupou desde 1966. Perdia para Freire, com quase a metade dos votos. Com a mesma diferença, o candidato do MDB fluminense, Roberto Saturnino Braga, àquela altura, ameaçava deixar o Senado sem seu presidente. Paulo Torres, da Arena, não conseguiu se reeleger, embora contasse, ainda em outubro, com franca vantagem sobre o concorrente: além de sua candidatura ter sido trabalhada mais tempo, ele aparecia nas primeiras prévias como o favorito de uma área onde o MDB sempre fora o favorito - a baixada Fluminense. Às pressas, Saturnino Braga firmou na cidade de Nova Iguaçu sua trincheira eleitoral e começou a reconquistar terreno, até rechaçar a invasão arenista. Do outro lado da baía de Guanabara, o futuro governador do novo Estado, Floriano Peixoto Faria Lima, ofereceu à Arena apenas o seu voto, e talvez por isso terá de governar com uma respeitável maioria oposicionista na Assembléia.

Despreocupado, pois seu cargo atual ministro da Educação - dispensa incomodar seu grande e fiel eleitorado, Ney Braga foi ao Paraná votar. Na boca da urna, cumprimentado por uma nostálgica eleitora, que prometia votar nele se fosse candidato, respondeu: "Estou muito velho para isso". Ney Braga, capaz de conseguir eleitores até quando não está precisando de votos, indiscutivelmente fez falta à Arena paranaense que, nem mesmo debaixo de sua proteção, pôde eleger seu candidato ao Senado, João Mansur, que renderia a vaga deixada pelo ministro. Mansur foi atropelado por um surpreendente crescimento de Francisco Leite Chaves, advogado de Londrina sem experiência eleitoral, que só aceitou ser candidato pelo MDB por falta de outra cobaia.

Leite Chaves não terá se surpreendido menos com os primeiros resultados do que Mansur, pois ainda na véspera ele ameaçava bombardear o adversário com outras armas que não os votos. Como o governador Emílio Gomes e o vice Jaime Canet, também futuro governador, pretendem viajar juntos ao exterior, ele anunciou que pediria a impugnação de Mansur se ele, na qualidade de presidente da Assembléia Legislativa, assumisse o cargo. E vencedores não costumam negar aos vencidos essas pequenas compensações. Em Minas Gerais, as circunstâncias fizeram com que o governador eleito, Aureliano Chaves, passasse o dia das eleições a uma prudente distância de José Augusto, titular de um mandato de senador em extinção e de uma desalentadora campanha para se reeleger. Chaves, como deputado, tem o título em Brasília e, lá chegando, informou ao presidente Geisel que a vitória da Arena era "certa mas suada". Contudo, se José Augusto e seu adversário Itamar Franco mantiveram suas candidaturas num empate que durou quase toda a campanha e foi registrado em todas as prévias, na última semana o oposicionista havia começado a crescer assustadoramente. E a abertura das primeiras urnas, no sábado, bastou para mostrar que ele venceria com o dobro dos votos de José Augusto.

CONFIAR NO INTERIOR - Itamar Franco, como Quércia, e talvez Evelásio Vieira, que persegue tênues possibilidades de vitória em Santa Catarina, parecem formar uma nova dinastia de senadores da oposição. Os três montaram suas candidaturas ao Senado com base numa experiência em administração municipal. E das prefeituras partiram à conquista de Brasilia, diretamente.

Talvez esta seja mais uma explicação para o tom principalmente técnico e de crítica administrativa pelo qual afinaram seus debates eleitorais.

Para a preservação do velho estilo, no entanto, os senadores Rui Carneiro, da Paraíba, e Adalberto Senna, do Acre, têm boas chances de conservar suas cadeiras, sem falar no carioca Danton Jobim, beneficiado por tal maioria em seu Estado que, na sexta-feira, os responsáveis pela candidatura de seu adversário, Luís da Gama Filho, conseguiram irritar a já avariada Arena da Guanabara, inundando os subúrbios com volantes que pretendiam vinculá-lo aos deputados mais votados do MDB. A falta é ainda mais grave porque Gama Filho acumula as funções de presidente e mecenas da Arena carioca. No Espírito Santo, o deputado José Carlos Fonseca, concorrendo pela Arena ao Senado, passou um fim de semana intranqüilo: as primeiras apurações, talvez por apresentarem maior número de votos das grandes cidades, apontavam uma maioria favorável ao emedebista Dirceu Cardoso. Fonseca, porém, tinha o raro consolo de ser um arenista que pode confiar no eleitorado do interior - ainda não contaminado pelas imagens da televisão.

HORAS NA FILA - Contra as filas para justificar abstenções por ausência do domicílio eleitoral, este ano o TRE pretendeu inovar o sistema, descarregando a coleta dos documentos sobre as agências dos Correios. Isso criou graves problemas para Estados, como Goiás e Mato Grosso, onde nem todos os municípios possuem tais estabelecimentos. Mas, como o dia 15 é feriado, muitas agências não funcionaram, nas grandes cidades, deixando filas quilométricas diante das que abriram suas portas. Em Fortaleza, 110.000 pessoas procuraram o posto central dos Correios. E, em São Paulo, fila por fila, Elinda Teixeira, empregada doméstica de 23 anos e com título de Aquidatiana, em Mato Grosso, acabou apresentando suas justificativas à bilheteira de um cinema, no centro da cidade. É que, tal como os eleitores ausentes, os aficionados dos best sellers do terror cinematográfico haviam aproveitado o dia livre para se organizar desde cedo nas filas para a exibição de "0 Exorcista". Mesmo sem esses enganos, os eleitores que precisaram enfrentar as longas esperas para obter indultos do dever do voto foram os únicos com sérios motivos de queixas contra a organização das eleições.

Queixas igualmente irritadas só mesmo as dos arenistas de São Paulo. Na noite de sábado ainda não se conformavam com a aplastante derrota de sua legenda. Contrafeito, o deputado Rafael Baldacci Filho, que se empenhou a fundo numa competição para ser o deputado mais votado do Estado - curiosa modalidade de desafio em que se empenharam inúmeros concorrentes paulistas -, aconselhava os jornalistas que o procuravam: "Quem pode explicar esta derrota é a Arena e aqui no Estado o dono da Arena é o Laudo Natel, o governador de quem, em outros tempos, Baldacci já foi o coordenador político.

Mais destemperado, o deputado Marco Antônio Castello Branco, concorrendo à reeleição para a Assembléia Legislativa, exagerava até mesmo os índices da derrota arenista. "Aqui, estamos perdendo de 5 a 1, o que caracteriza uma crise política e faz prever muitas mudanças na Arena", bradava. Mas, ao fim dessa sessão de autocrítica, chegava uma conclusão fatalista: "Não adianta nesta eleição todo mundo saiu de casa para votar no MDB". Castello Branco tem razão em prever a necessidade de mudanças na Arena. Mas ao contrário do que insinua, o provável que o partido tenha de cuidar dessas transformações por si mesmo.

FUTUROS COMANDANTES - Nem que seja por mera acomodação de lugares novos no Congresso Nacional Arena e MDB não poderão sair dessas com a mesma feição que ostentavam quando nelas entraram. Mas convém não exagerar o verdadeiro alcance dessas mudanças, pois elas passaram ao largo de atingir a estrutura do governo Sábado, quando os políticos começavam a recolher suas surpresas, o presidente Geisel passava o dia, em Granja do Riacho Fundo, dedicado a estudar processos e assuntos administrativos do governo. Sequer imitou o programa de fim de semana de muitos brasileiros com menores responsabilidades políticas, dedicados a acompanhar a contagem de cada voto com os ouvidos colados em rádios de pilha.

Mais próximos, sem dúvida, das atribuições da política estadual, os futuros governadores é que não conseguiram, em sua maior parte, mostrar o mesmo sangue-frio diante dos resultados. No Pará, Aluísio Chaves diagnosticou e receitou: "Declaro enfaticamente que, a partir de março, assumirei o comando político e administrativo do Estado. Tenho indiscutível ascendência sobre os líderes ostensivos da Arena, aos quais estou vinculado por antigos laços de amizade". Mais comedido, o paulista Paulo Egydio Martins, que tentou exercer o comando da Arena antes mesmo da posse para salvar a candidatura do senador Carvalho Pinto, sexta-feira, na hora de votar, declarava: "É preciso tornar a Arena mais ampla depois das eleições. Mas ambas as legendas motivaram bastante a população e todos fizeram o máximo de seus esforços, o que reflete o grande sentido de maturidade política do povo de São Paulo". Com essas reservas de espírito esportivo, é provável que ele encontre com mais rapidez que outros governadores a fórmula da convivência com uma oposição ampliada mas, em geral, disposta a cooperar.

RECONHECER A DERROTA - Assim, na manhã de domingo, na maior parte dos Estados brasileiros, Arena e MDB estavam rigorosamente empatados apenas num ponto: a perplexidade. Ainda que as juntas apuradoras paranaenses ainda tivessem uma enorme tarefa pela frente, pouco antes do meio-dia de sábado, o deputado Zacarias Saleme, secretário do Interior e Justíça do governo, chegava ao Palácio Iguaçu para comunicar ao governador Emílio Gomes os primeiros resultados parciais de Curitiba e quinze municípios do interior. À entrada, vaticinou para os jornalistas: "Pela amostragem dos votos do interior e as da diferença em Londrina e na capital, o candidato da oposição está praticamente eleito". Era uma grande novidade, pois nunca antes a Arena se destacara pelo tom pessimista de suas declarações. "0 pleito está no início, mas indiscutivelmente evidencia a vitória do dr. Paulo Brossard de Souza Pinto", antecipou-se, com a voz grave que o momento exigia, o senador gaúcho Daniel Krieger, que na véspera votara na mesma seção do candidato oposicionista. Krieger, um experimentado político da Arena e que nunca se esmerou no exercício de esconder o que pensa, reconhecia que "a vitória da oposição nos outros Estados não está surpreendendo, porque o povo não tem conhecimentos para atribuir a quem cabe a culpa" por seus problemas. 0 que não deve indicar que o senador, sempre um incondicional partidário da democracia, quando posta em prática, estivesse condenando o voto popular por atentados contra o seu partido. "Não tenho motivos específicos a que atribuir a derrota da Arena. Quem deve atribuir é quem me julga e quem me julga é o povo."

Na verdade, o levantamento desses "motivos específicos" deverá consumir a melhor parte da energia da imaginação política criadora de arenistas e emedebistas. Pois os dois partidos, eles também desorientados pelo hábito, já sedimentado, de tutelar as opiniões individuais e coletivas, se aproximaram da campanha sem uma idéia clara do que a opinião pública lhes reservava e, por isso, sem condições de prever os resultados de uma consulta ampla e livre como a que acabou de ocorrer. Na tarde de sexta-feira, o senador paulista Franco Montoro, um dos mais eficientes cabos eleitorais de Quércia e do MDB em geral, confessava seu espanto ao desembargador Francisco Tomás de Carvalho Filho, presidente do TRE. "Com surpresa, para mim", ele exemplificava os sustos de suas viagens pelo país, "um Estado onde eu tinha a certeza de que a Arena iria eleger, aliás, um ótimo parlamentar, Djalma Marinho, o adversário dele, um rapaz muito simples, Agenor Maria, hoje ganha em todas as grandes cidades, e muitas do interior, porque a Arena não acreditou nele e começou a ironizar o rapaz.

LUCRO GERAL - E, possivelmente inquieto com a dimensão que as proezas eleitorais de seu partido começavam a assumir, ele concluiu: "Não será uma vitória do MDB, mas sim do Brasil". Sem dúvida, toda oportunidade para aferir a opinião nacional termina, se os dados da pesquisa são digeridos por um metabolismo político saudável, distribuído lucros por todos os que têm responsabilidades de uma função pública. "E feliz o país que ainda pode apurar o sentimento popular dessa maneira", comentava o deputado Célio Borja, líder do governo na Câmara. Porque, se esse sentimento era tão pouco conhecido a ponto de desorientar os profissionais da arte de representá-lo, a liberdade de expressão garantida pelo presidente Geisel nestas eleições teve o mérito indiscutível de interpretar essas opiniões desconhecidas pelo mais baixo custo social. E colocar à disposição dos políticos brasileiros um guia seguro para a análise de seu futuro próximo.

Por exemplo, já é fácil prever que o Senado Federal, espicaçado pela presença relativamente maior do MDB em suas bancadas, voltará a ser uma Casa de importância e atividade política, no Congresso. Os futuros governadores, com sua rápida imersão na política durante a campanha e reinando sobre unanimidades menos incondicionais, terão a oportunidade de promover a revisão de seus métodos e critérios de comando partidário, antes que a sua sucessão, presumivelmente por eleições diretas, escancare as portas para a ascensão do MDB aos executivos estaduais. No novo Estado do Rio de Janeiro, onde a oposição terá maioria de dois terços na Assembléia Constituinte, o próprio MDB precisará demonstrar a sua capacidade de atuar em limites de crítica e participação toleráveis pelo governo, pois lhe caberá boa parte na modelagem final da fusão. Quanto à Arena, resta a melhor chance, desde que foi criada, para trocar os números de seu gigantismo pela reavaliação de sua utilidade como um partido menos poderoso, mas capaz de se colocar realmente em sua posição de partido do governo.


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |