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Reportagens 17 de novembro de 1976Nas urnas começa o debate
No final de 1975, reunido em Brasília com os dirigentes nacionais e estaduais da Arena, ainda escalados com os decepcionantes resultados colhidos nas eleições parlamentares de 1974, o presidente Ernesto Geisel assumiu um claro compromisso, ao procurar estimular o partido para as batalhas futuras. "O objetivo imediato que temos à frente", disse então Geisel aos arenistas, "é ganhar as eleições de 1976, derrotar o adversário, vencê-lo lealmente." E, aos que temiam um eventual acúmulo de boas bandeiras nas trincheiras oposicionistas, erguidas pelas dificuldades econômicas e financeiras já então influindo poderosamente sobre a opinião pública, receitou com voz severa e decidida: "É tudo uma mistificação que temos de destruir". Na sexta-feira da semana passada, em Maceió, Alagoas, diante das 6 000 pessoas reunidos para vê-lo e ouvi-lo, num largo palanque erguido num logradouro batizado com o agourento nome de praça dos Martírios, o presidente deu por encerrado seu esforço para ajudar a Arena a destruir "as mistificações" da oposição, dirigindo uma apelo final, antes das grandes eleições desta segunda-feira - quando cerca de 75% dos eleitores brasileiros escolherão prefeitos e todos votarão em vereadores para 3 968 municípios de todo o Brasil. "Teremos dentro de poucos dias eleições", disse Geisel em Maceió. "São eleições para as quais eu também concito a todos que compareçam, cumpram o seu dever, que é votar. Cumpram também o seu direito, que é o de escolher aqueles que consideram melhores. Votem, porque é um dever cívico, porque é através do voto que nós vamos, realmente, como desejamos, dentro da nossa realidade e capacidade, aperfeiçoar gradativamente a nossa democracia." E, para que não pairassem dúvidas sobre onde deveriam ser procurados os melhores, sugeriu: "Apóiem a Arena ( ... ) e através desse apoio caminhem com a Revolução, que, como eu já disse muitas vezes, tanto fez, mas tem tanto e muito ainda por fazer". Forma polida - Em Guarapuava, no interior do Paraná, uma cidade visitada na semana anterior por Geisel, o presidente do MDB, deputado Ulysses Guimarães, chegou a reconhecer os benefícios desse comportamento do chefe do governo para o exercício da atividade política em geral. Na quarta-feira passada, num longo comício durante o qual lembrou estar completando a expressiva cifra de 1 200 discursos pronunciados nessa campanha - aos quais correspondem a formidável carga de 12 000 discursos ouvidos -, o veterano Guimarães, ora aclamado como "o paladino da democracia brasileira", ora como "futuro presidente da República", saudou o chefe adversário de forma polida: "Eu homenageio o presidente da República, porque várias vezes disse que respeitará os resultados dessas eleições. Agora, aqueles que não os aceitarem serão reacionários, estarão contra o povo que se manifestou e contra a nação".Nessa luta para ajudar a Arena a reconquistar pelo menos parte do terreno perdido em 1974, quando a oposição obteve dezesseis das 22 cadeiras de senador em disputa, Geisel não hesitou em empenhar seu prestígio pessoal junto ao eleitorado - e, num crescendo, colocou a própria Revolução, de que é representante na presidência, entre os argumentos utilizados para conseguir votos. Embalado por esse reforço, o presidente da Arena, deputado Francelino Pereira, foi entregar no Palácio do Planalto, na semana passada, suas últimas previsões a respeito dos resultados eleitorais e garantiu aos jornalistas que acorreram a ouvi-lo: "Minhas informações traduzem uma segura perspectiva de vitória, não apenas em termos de conquista de mandatos eletivos, mas também no cômputo geral dos votos". Foi um sensível progresso no otimismo do comandante arenista, pois nas semanas anteriores ele não se aventurava a falar em maioria de votos, embora falasse com segurança em maioria de prefeituras - afinal, o MDB nem sequer apresentou candidatos em mais de 1 000 pequenos municípios do interior. Pereira parecia satisfeito em anunciar tais previsões, embora elas não chegassem a satisfazer inteiramente ao desejo presidencial. Pois, discursando no mês de março passado, durante um fantástico churrasco que consumiu algumas toneladas de carne, na cidade paranaense de Marechal Rondon, Geisel havia solicitado à Are na que conquistasse uma votação capaz de superar a goma dos votos dados ao MDB, os brancos e os nulos. Ás vésperas do pleito, portanto, a Arena se sentia em condições de garantir-lhe apenas mais votos que o MDB. Francelino Pereira baseou suas previsões em relatórios que lhe foram enviados pelas direções estaduais da Arena, e é possível que eles fossem isentos e imparciais. Em todo caso, no final da semana passada escapavam das conversas de alguns chefes arenistas confissões que poderiam comprometer pelo menos parte do significado de suas previsões e levantar dúvidas até mesmo quanto à possibilidade de a Arena ser mais votada que o MDB. Na verdade, algumas previsões arenistas chegam a ser mais pessimistas que os cálculos do partido da oposição. Grandes cidades - Na capital paulista, alguns respeitáveis chefes da Arena declaravam-se satisfeitos com a perspectiva de eleger oito vereadores para uma Câmara com 21. E, em outras áreas igualmente interessadas, registrava-se uma certa resignação diante da convicção de que nesta segunda-feira mais de 60% dos eleitores da Grande São Paulo - um áspero território que inclui 38 municípios e tem mais de 10 milhões de habitantes - estariam votando nos candidatos do MDB. Os mesmos 60% em favor da oposição, com ligeiras variações mas igual resignação, eram estendidos ao crucial município de Campinas, palco da mais acirrada batalha eleitoral de São Paulo, por ser o berço político do grande fenômeno emedebista, o senador Orestes Quércia, eleito em 1974 com quase 6 milhões de votos.No Rio Grande do Sul, igualmente, os arenistas reconheciam ao MDB a possibilidade de conquistar uma vantagem de 80 000 votos em Porto Alegre, e a certeza da vitória em seis das doze maiores cidades do Estado. E no Grande Rio, como na Grande São Paulo, acreditava-se que 60% dos votos seriam da oposição, sendo que só os municípios do Rio e São Paulo, somados, representam mais de 14% de todo o eleitorado nacional. Aliás, em todas as análises desapaixonadas da campanha eleitoral, arenistas e emedebistas acreditam sempre que nas grandes cidades a oposição tem maiores possibilidades de vitória, o que não chega a ser uma profecia ousada, pois isso já aconteceu em 1972, quando, de modo geral, o desempenho do MDB foi medíocre. Assim, como nas cinqüenta maiores cidades do país estão concentrados quase 13 milhões de eleitores, ou mais de 30% dos 40 milhões de votantes do país, é possível que a certeza de Francelino Pereira de conquistar também a maioria dos votos não fosse tão segura quanto a depositada na conquista do maior número de prefeituras. Num exercício de prudência, aprendida ao longo de quarenta anos de atividade política, o plácido cacique emedebista Ernâni do Amaral Peixoto deixa escapar um receio, na sua ampla, arborizada residência plantada bem perto do planetário instalado no bairro carioca do Leblon: "O presidente Geisel deveria ficar fora da questão. Se os seus candidatos perdem, ele estará mal". Riscos inerentes - Vencer ou perder, enfim, é contingência de todas as disputas, e é essa incerteza, justamente, que engrandece o comportamento do presidente da República aos olhos do senador Petrônio Portella, líder da bancada arenista. Em Teresina, Piauí, para onde viajou na semana passada a fim de cumprir um vertiginoso programa de fim de campanha - percorreria 1 000 quilômetros, em 24 horas, por estradas asfaltadas, estradas de terra, alguns penosos desvios e faria uma dezena de discursos -, Portella declarou: "O presidente Ernesto Geisel abre perspectivas novas para o processo político, com um exemplo verdadeiramente edificante. Quem participa de um pleito se integra numa luta, cujos resultados, por mais favoráveis que sejam as circunstâncias, não podem ser previstos. Há margem de risco, mas os riscos são inerentes ao ofício de um verdadeiro líder".É provável que Portella, como Amaral Peixoto, jamais tenha visto um presidente da República empenhar-se tão a fundo numa eleição municipal. Realmente nenhum político, dos dois partidos, jamais viu, mas nem por isso eles fazem restrições ao comportamento de Geisel, daí tirando conseqüências destinadas a garantir muito mais do que apenas uma robusta votação para a legenda arenista. Também no Rio de Janeiro, mas a uma respeitável distância de Amaral Peixoto, o presidente da Câmara dos Deputados, o claro e lógico advogado Célio Borja, assegura: "A participação do presidente Ernesto Geisel nas eleições cria o dever de respeitar os resultados e confirma a via eleitoral como caminho para aprimorar as instituições políticas". Mais pragmático, o senador baiano Ruy Santos, já próximo da aposentadoria, depois de exercer durante 32 anos consecutivos mandatos parlamentares, pontifica: "O presidente é responsável por 50% do sucesso da Arena". Abertura, fechamento - Quem ainda puder recordar o estado de espírito dos chefes arenistas reunidos em Brasília, no final de 1975, talvez possa até atribuir ao presidente uma porcentagem mais significativa. Afinal, nesse momento ele talvez fosse o único a acreditar nas possibilidades de reerguimento do moral do grande partido, que alguns meses depois seu novo dirigente, o piauiense Francelino Pereira, apontaria como "o maior do mundo ocidental". Não é atrás de reconhecimentos desse tipo, no entanto, que viaja o presidente, mas da esperança de que, juntamente com os candidatos arenistas, os ideais revolucionários traduzidos nos programas e na orientação do governo possam merecer a confiança popular. No começo do mês, em Teresina, ele o admitiu abertamente: "Espero que esses votos reconheçam o que a Revolução fez e tudo que ela tem ainda a fazer". E repetiria poucos dias depois, em Goiânia: "A Revolução precisa continuar, para produzir, para multiplicar esses resultados muitas vezes e fazer do Brasil o país que nós esperamos".Mas o que tem a Revolução ainda a fazer, sobretudo no campo político? "Se a Arena ganhar, abertura maior, se a Arena perder, fechamento maior", responde telegraficamente o baiano Ruy Santos. E, enquanto ele se dedica a mais uma vez acender o cachimbo, o governador Roberto Santos exercita uma resposta mais elaborada: "Acho que, terminadas as eleições, haverá uma abertura para o debate". Debate sobre o quê? Professor acostumado ao exercício do magistério, Santos, o governador, sugere temas: "O bipartidarismo, o voto distrital, a organização dos diretórios". Com lógica menos evidente, Amaral Peixoto estabelece condicionamentos: "Se a votação for favorável ao MDB, será um sinal de que o povo quer mudanças. Quais? Aquilo que se chamou um dia distensão". Em desuso - A distensão, não se pode esquecer, foi uma expressão consagrada pelo presidente Ernesto Geisel, logo depois de sua posse, e, se entrou em desuso com os atropelos e desencantos da campanha eleitoral de 1974, jamais chegou a ser baixada para o arquivo morto dos projetos inviáveis. O presidente, é verdade, nas suas peregrinações em busca de votos para a Arena, jamais chegou a ressuscitar a expressão posta de quarentena. Mas o deputado Célio Borja, outrora um assíduo freqüentador do Palácio do Planalto, arrisca uma profecia: "Se se pode prever um próximo passo de significação política e econômica, será o da mobilização e do chamamento de todos os grupos sociais para participar das decisões que afetam o bem-estar e o destino do povo".É possível que Borja tenha retomado o hábito antigo de atravessar a praça dos Três Poderes para discutir problemas na sede do Executivo. Pois, se o presidente jamais chegou a esboçar uma promessa, ou mesmo insinuar uma definição, no Palácio do Planalto acredita-se num próximo esforço de mobilização da opinião pública - que poderia incluir também os sindicatos de trabalhadores -, em busca de apoio e compreensão para as severas medidas de contenção financeira a serem adotadas nos próximos meses. Então talvez o presidente possa até mesmo tomar conhecimento da reivindicação que a Arena jovem de Alagoas pretendia lhe fazer, estendendo diante de seu palanque uma faixa com a frase "Queremos a revogação do Decreto-lei 477". Ela foi apressadamente recolhida pelos agentes de segurança, e seus portadores submetidos a um rápido interrogatório, "desagradável, porque deu a impressão de que estávamos sendo presos", contou mais tarde o estudante arenista Gastão Toledo. Para os políticos mais idosos, porém, colocam-se problemas mais concretos e sem dúvida mais capazes de influir no seu futuro pessoal. Pacto na bancada - A extinção do bipartidarismo, por exemplo, que o governador Roberto Santos inclui com alguma displicência entre os temas possíveis de seu debate, alimentaria sozinha uma polêmica interminável "Acredito que o bipartidarismo vai permanecer", segreda o chefe emedebista gaúcho Pedro Simon, como Ruy Santos um inveterado adepto do cachimbo, de que possui invejável coleção, mais de uma vez enriquecida com exemplares ofertados pelo governador arenista Synval Guazzelli - que, no entanto, não tem como ele tanta certeza da sobrevivência do regime de dois partidos. "Se os dois partidos conquistarem o engajamento e a participação mais ampla da opinião nacional, o bipartidarismo poderá se firmar", diz Guazzelli. "Caso contrário, o sistema poderá ser reexaminado."Mais ao norte, em Guarapuava, no centro-oeste paranaense, no mesmo dia em que Guimarães chegava ao seu 1 200.º discurso, o senador emedebista Francisco Leite Chaves, mascando seguidamente pastilhas Valda, para manter em forma a garganta avariada pelo esforço excessivo dos últimos dias, e carregando um maço de rosas brancas recebido de uma eleitora, manifestou crença diferente. "Não acredito na permanência do bipartimento. Creio que, para o sistema político brasileiro, o ideal será um mínimo de quatro partidos." Mas Leite Chaves não se mostra disposto a colaborar para chegar a essa perfeição, pois logo a seguir revelou a existência de uma espécie de pacto entre os vinte senadores da bancada oposicionista: no caso de serem extintos os atuais partidos, todos se filiarão à nova agremiação que tiver um programa igual ao do MDB. Em todo caso, a investida mais prática contra o bipartimento será desfechada mais ao norte, em Minas Gerais. Mais precisamente, a ofensiva se fará em Belo Horizonte, onde o advogado Maurício Brandt Aleixo, filho do falecido vice-presidente da República, o mineiro Pedro Aleixo, propõe-se aproveitar esta segunda-feira para conquistar as assinaturas de eleitores que lhe faltam para a formação de um terceiro partido - o Partido Democrático Republicano, idealizado por seu pai. Voto distrital - Brandt e seus seguidores concentrarão esforços, além de Belo Horizonte, no Rio, em São Paulo, Recife, Salvador, Goiânia e Brasília. Eles precisarão de mais cerca de 500 000 assinaturas, e esta seguramente será a última tentativa a ser feita. Caso ainda desta vez não seja atingido o número legal (5% dos eleitores que votaram na última eleição), estará definitivamente provada a impossibilidade de rompimento do sistema bipartidário, sem a promoção de reformas legais.No Maranhão, onde foi encerrar uma campanha algo atribulada pelas interferências do governador Nunes Freire - seu adversário, apesar de pertencerem ambos à Arena -, o senador José Sarney engorda numa frase o rol das reformas possíveis: "Teremos que fazer algumas correções no modelo político, e elas incluem o voto distrital, mantendo-se conseqüentemente o bipartidarismo e extinguindo-se as sublegendas". "É mais um artifício para impedir o crescimento da oposição", reage, em Porto Alegre, Pedro Simon - referindo-se, naturalmente, ao voto distrital. "Não me agrada a idéia", concorda com ele o governador Guazzelli. Mais próximo de Sarney, pois como ele está em São Luís, mas tão distante de suas idéias quanto Simon e Guazzelli, o governador Nunes Freire arrisca uma solitária defesa das sublegendas: "Se a sublegenda se houvesse consolidado, o bipartidarismo estaria vitorioso, pois abrigaria no mesmo partido todas as tendências, amenizando divergências". Abrigar todas as tendências num único partido parece um objetivo esdrúxulo e provavelmente inatingível. Pouco disposto a amabilidades do tipo das propagadas por Nunes Freire, o senador pernambucano do MDB Marcos Freire considera inúteis todas as reformas, se não forem precedidas "da reforma maior, que é a normalização constitucional do país". Na semana passada, Freire cumpriu um roteiro de mais de 500 quilômetros, em sete horas de automóvel, para discursar em quatro cidades diferentes no encerramento da campanha oposicionista em Pernambuco. Para conseguir, seguramente teve de infringir pelo menos a Lei Falcão n.° 2 - o recente memorando do ministro da Justiça, proibindo velocidade superiores a 80 quilômetros horários nas estradas. Fidelidade partidária - Dispensado de velocidades assim vertiginosas, pois um recente problema cardíaco lhe proíbe emoções fortes e sua campanha eleitoral jamais ultrapassa as fronteiras de Barbacena, um bucólico centro exportador de rosas, o líder arenista José Bonifácio Lafayette de Andrada alimenta maquinações diversas. "Logo depois das eleições", anunciou, assumindo ares de dr. Silvana da política, "vou propor a suspensão da fidelidade partidária, a fim de permitir que os descontentes encontrem seus lugares e os partidos se consolidem como agremiações políticas."A fidelidade partidária foi criada para garantir as vitórias parlamentares da Arena. Ela impede que deputados e senadores votem em plenário contra a orientação do partido e também que eles, por qualquer motivo, troquem de agremiação, ótimo para arenistas estilo Andrada, quando o partido tinha ampla maioria. Mas agora, que depende da ajuda do MDB, por exemplo, para aprovar reformas constitucionais, nada melhor que uma suspensão temporária do princípio antes inviolável, para que emedebistas eventualmente enganados quanto à sua vocação oposicionista "encontrem seus lugares". "Em termos de Rio Grande do Sul, garanto que não sai nenhum", informa Simon. É provável, mas Andrada não está interessado em gaúchos. Seu objetivo, embora não declarado publicamente, é o poderoso batalhão de emedebistas liderados pelo ex-governador da Guanabara Antônio Pádua de Chagas Freitas, ele próprio hoje afastado da oposição. Andrada, no entanto, parece contar com poucos adeptos para sua fórmula, mesmo dentro de seu partido. "Acho isso ridículo, completamente ridículo", fulminou-o o líder arenista Walter de Prá, do Espírito Santo, que se referia apenas a essa suspensão temporária da lei. Como a maioria dos políticos, nos dois partidos, ele é contra a existência de uma lei tão rígida - e nessa posição tem o apoio até do presidente do MDB, Ulysses Guimarães: "Os partidos devem ser protegidos por seus programas, não por uma lei como essa". Fora de hora - Nesse amplo debate das conseqüências possíveis dessas eleições, nem mesmo o ousado deputado José Bonifácio se atreveu a lembrar Lima outra fórmula, cuidadosa mente cultivada em alguns gabinetes arenistas: a prorrogação dos mandatos de deputados, senadores e governadores, para evitar as eleições de 1978. Não que falte coragem ao líder arenista - é que, do seu quase esquecido passado udenista lhe ficou uma clara definição contra prorrogações deste tipo.Certamente, não foi para alimentar debates desse nível que o presidente Ernesto Geisel percorreu o país de norte a sul, detendo-se em capitais e cidades do interior, pedindo votos para a Arena e para o seu governo. Assim, talvez seja mais oportuno recolher na tranqüilidade manifestada pelo deputado Francelino Pereira a indicação de que, para o governo, ainda não soou a hora de desencadear reformas de qualquer espécie -sobretudo as políticas. Essa tranqüilidade poderia ser percebida na quase displicência com que o ministro da Justiça, Armando Falcão, informava na sexta-feira não saber ao certo onde passaria o feriado eleitoral. Falcão, como Geisel, é eleitor carioca e em 1974 transferiu sua folha de votação para Brasília, onde permanece até hoje. Assim, nem ele nem o presidente estarão votando nesta segunda-feira nos candidatos arenistas, embora ambos - cada um a seu modo - tenham contribuído de forma tão decisiva para o bom desempenho do partido oficial nesse pleito. Com efeito, ao governo não pareceu necessário preparar qualquer esquema especial para acompanhar a votação. É verdade que a Arena projeta uma central de informações para a sua secretaria geral, agraciada até com um terminal do serviço de computadores do Senado. Mas ela só será ativada na terça-feira, quando estiver de volta a Brasília o responsável pelo gabinete - o deputado Nelson Marchezan, que foi votar no sul. Essa tranqüilidade oficial, sem dúvida apoiada em sólidas e seguras pesquisas de opinião, parece a melhor garantia de que a Arena desta vez trabalhou com mais acerto - e, ainda que não represente a confirmação das previsões otimistas do deputado Francelino Pereira, assegura pelo menos a certeza de que algum tipo de vitória o partido poderá apregoar, já a partir desta terça-feira, quando estarão sendo abertas as urnas em todo o país. E então poderá ser iniciado o grande debate sugerido pelo governador Roberto Santos, em busca das reformas que aperfeiçoem o processo político brasileiro. Debate para o qual a primeira e a última palavra serão dadas, ainda uma vez, pelo governo. |
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