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Reportagens 15 de novembro de 1989Uma idéia que deu certo Com o voto de 15 de novembro, o país
Na manhã de 15 de novembro de 1989, estará provado que existe uma grande fatia da população brasileira capaz de ter idéias que dão certo. São os cidadãos que saem de casa todo todos os dias para trabalhar e dão duro para pagar as contas do fim do mês - ali se encontram profissionais liberais, gerentes de banco, gente da lavoura, operários de macacão azul e também uma multidão de pessoas bem mais humildes, que freqüentemente não tem emprego fixo, sobrevive com um dinheiro muito miúdo e não tem vez em nada de bom que acontece no país. Cinco anos atrás, em 1984, esses brasileiros, que reunidos formam aquela parte da nação chamada povo, entenderam, apoiaram e deram vida a uma idéia - promover eleições diretas para presidente da República. Nesta quarta-feira, enfim, eles colhem o resultado do que plantaram participando da eleição presidencial mais ampla, democrática e popular que o Brasil já teve desde a Proclamação da República, exatamente 100 anos atrás.
É sabido que por muito tempo outro tipo de gente, a dos senhores engravatados, com residência em Brasília e nos bairros nobres das grandes capitais, ou fardados, com residência nos quartéis, cultivou muitas outras idéias. Uma delas foi a de que o país funcionaria com muito mais eficiência sem eleições presidenciais, que poderiam ser substituídas por colégios eleitorais formados por pessoas da mesma turma. Eis aí uma idéia que não deu certo: 29 anos e dez governos depois da última eleição para presidente, em 1960, o resultado dessa eficiência está bem aí, à vista de todos, com o país arruinado por doses sucessivas e cavalares de inépcia, desídia e pura e simples roubalheira. Também se imaginou nesses ambientes que seria possível dar as costas para a idéia que o povo tivera cinco anos atrás. Foi assim que, no 25 de abril de 1984, 63 parlamentares votaram, sob repúdio nacional, contra a emenda que propunha as diretas já. Mais tarde, sentindo a direção do vento levantado das ruas, uma gorda parcela de senhores ilustres tirou o paletó e a gravata para subir nos palanques junto ao povo, resolveu fundar a Aliança Democrática e chegou ao governo com o aval da população, mas pelo mesmo atalho do Colégio Eleitoral - o resultado também é conhecido, e se chama governo José Sarney. No ano passado na Constituinte, as diretas foram de novo à votação e de novo perderam, dessa vez para o mandato de cinco anos dado a Sarney. Adiou-se, empurrou-se para a frente, trapaceou-se o que foi possível para ir-se arquivando a idéia, simples, limpa e racional, de eleger-se o presidente da República pela soma dos votos de cada um dos brasileiros. Esforço inútil, como finalmente se demonstra agora, com o Brasil de todos se preparando para fazer, nas próximas horas, o que a massa de seus cidadãos sempre pediu que fosse feito. Na quarta-feira desta semana, comemoração do centenário da República, 82 milhões de eleitores estarão no centro de um acontecimento extraordinário: a conquista pelo povo brasileiro do direito de escolher o governo que irá gerir o país nos próximos cinco anos. No dia 15, 56% de todos os habitantes do Brasil irão às urnas, o que quer dizer que, para todos os efeitos práticos, esta é a primeira eleição presidencial de verdade que ocorre no país - na última, em 1960, apenas 25% puderam votar. Outra conquista notória da eleição de 1989 é o sinal de irrestrita liberdade que marcou toda a campanha. Por tradição, as legendas de esquerda, de uma forma ou de outra, quase sempre estiveram proibidas de participar de um pleito no Brasil - e os candidatos oposicionistas, mesmo moderados, sempre foram perseguidos por quem dominava a máquina do governo. Desta vez disputam a Presidência candidatos como Mário Covas, que teve seus direitos políticos cassados em 1968, Leonel Brizola, que foi obrigado a viver quinze anos no exílio, Luís Inácio Lula da Silva, que chegou a ser preso por liderar greves operárias, e Roberto Freire, do PCB - partido posto na ilegalidade em 1948 e que só voltou a funcionar à luz do dia 37 anos depois, em 1985. Sempre se disse que uma eleição com essas personalidades, principalmente se entre elas houvesse candidatos com chances reais de ganhar, seria simplesmente impossível. Lula ou Brizola na Presidência? Não dá. E ainda por cima com uma inflação mensal de 40%? Aí, então, nem pensar. Tudo acabaria em baderna, a retórica radical e freqüentemente rancorosa da esquerda iria criar um clima de tensão insuportável e, no fim das contas, o Exército daria um golpe. O fato, no entanto, é que o único tumulto de toda a campanha presidencial foi a efêmera e inútil candidatura do empresário Silvio Santos, maquinada na última hora no Palácio do Planalto e no PFL e morta sem choro nem vela na noite da última quinta-feira. A sucessão foi um sucesso monumental em matéria de participação popular. O programa do horário político, bem como os debates, teve boa audiência. A violência, depois de ensaiar alguns passos iniciais e ser vigorosamente denunciada, não foi maior do que a que ocorre rotineiramente nos campos de futebol. Os comícios foram os maiores já realizados no país - só perderam, em número, para os da campanha das diretas já. Num país que já teve quarenta presidentes - menos da metade eleitos -, o pleito de 15 de novembro de 1989 assinala uma ruptura. Nunca houve, no Brasil, uma eleição com um governo tão desmoralizado que não pudesse, ao longo de toda a campanha, utilizar-se da máquina do Estado para beneficiar determinado candidato. Em 1989 isso não ocorreu - não por vontade própria de magistrado, como gosta de dizer o presidente José Sarney, mas pela absoluta incapacidade de seu governo em auxiliar qualquer concorrente, já que todos os 22 candidatos oficiais, sem exceção, se apresentaram como de oposição. Cinco anos após o movimento das diretas, vê-se que o trabalho foi tão completo que fez sumir, literalmente, a situação. O resultado é que daqui a pouco, ao tomar a direção das urnas, os eleitores do Brasil terão a oportunidade de zerar uma etapa de sua História - com a mesma naturalidade com que os homens do povo da Alemanha Oriental puderam, na semana passada, passear pelos dois lados do Muro de Berlim e mandar às favas um regime que só existia na ficção. PRN Na porta de entrada Chega à reta final o candidato Collor de Mello, que parecia sem chances no início da campanha e que se tornou o fenômeno da temporada Quando Fernando Collor de Mello comunicou em janeiro passado que seria candidato à Presidência da República e que escolhera uma sigla quase fantasma para concorrer, o PRN, o anúncio soou como um blefe até para os políticos experientes. Ele estaria, pensou-se então, fazendo espuma em volta do próprio nome para, quem sabe, habilitar-se a uma vaga de vice numa chapa qualquer. Quando Collor chegou ao terceiro lugar nas pesquisas, sustentado pela preferência de 7% do eleitorado, apenas dois meses depois, esse ensaio de turbina ainda foi considerado um ruído inconsistente. No momento em que, já em vôo de cruzeiro, ele alcançou o patamar de 45% das intenções de voto dos brasileiros, em junho, esta façanha ainda recebeu olhares desconfiados de todos os lados. O problema com Collor é que a realidade parecia estranha demais para ser verdadeira. Nesta semana, aos 40 anos de idade, com o currículo de ter sido prefeito indicado de Maceió e governador eleito de um Estado pobre e pequeno, Alagoas, Fernando Collor de Mello, a bordo de sua invenção batizada como PRN e sem nenhum suporte dos partidos tradicionais, que ele ajudou a destroçar em sua subida, entra na reta final da campanha como o grande favorito destas eleições. Perseguido nas pesquisas da semana passada pela dupla Luís Inácio Lula da Silva, do PT, e Leonel Brizola, do PDT, mas com uma dianteira tranqüilizadora, Collor de Mello é o mais forte candidato, pelos prognósticos, a abocanhar uma das duas vagas que dão direito à passagem para o segundo turno das eleições presidenciais, a 17 de dezembro próximo. Ele pode até não chegar lá, vitimado por um obus inesperado, desses que voam nas eleições, nos jogos de futebol e nas corridas de cavalo, mas seu espetacular desempenho durante a corrida pelos votos, mesmo com a queda que experimentou nas últimas semanas, o transformou num fenômeno. Há três anos, era um político inteiramente desconhecido e, mesmo eleito governador, tornou-se gerente de um Estado inexpressivo na orquestra federal. Com sua campanha contra os marajás em Alagoas e uma briga a cada mês com o governo do presidente José Sarney, isso tudo misturado com arrojo e uma sensibilidade política apurada - só isso -, Collor de Mello conseguiu conquistar o eleitorado brasileiro. "Já estou no segundo turno", comemorava Collor na noite de quinta-feira passada. "Desde o começo eu achava que eu e o Lula iríamos para o segundo rumo, porque somos os únicos fatos novos desta campanha. O Lula merece, eu mereço." No fundo, ele torce para ter Brizola como adversário, pois considera a candidatura de Lula mais explosiva do que a do candidato do PDT. O líder das pesquisas ainda está respingado por um mergulho que, a certa altura, parecia querer levá-lo ao fundo do tanque de votos. Desde que começou o horário eleitoral na televisão, há dois meses, Collor de Mello não parou de cair nas pesquisas de opinião. Perdeu mais de 13 milhões de votos no período. As rodadas divulgadas na semana passada mostram, porém, que Collor reagiu e conseguiu se estabilizar no patamar de 25% das preferências. Isso significa um patrimônio de 20 milhões de votos, mais do que suficientes para levá-lo ao segundo turno - caso nada de espetacular perturbe o andamento da campanha em suas últimas horas. Seus concorrentes mais próximos, Lula e Leonel Brizola, embolavam-se no segundo lugar, ambos no patamar de 15% das intenções de voto. Por fim, também alimentando esperanças de crescer na preferência do eleitorado no final de semana e conseguir passar para o segundo turno, vinha o candidato do PSDB, senador Mário Covas, no patamar de 10% nas pesquisas - ou seja, menos da metade dos eleitores de Collor. "Estamos caminhando para a vitória", comemorava Collor na semana passada. Ao longo da campanha, o candidato do PRN bateu até à exaustão na sua tecla eleitoral predileta: a caçada aos marajás, que promete reavivar caso chegue ao Planalto. Nas últimas semanas, vinha enfrentando o problema de não encontrar uma novidade capaz de entusiasmar o eleitorado. Na semana passada, Collor achou o assunto que procurava - mais uma briga pessoal com o presidente José Sarney em torno do lançamento da candidatura do empresário Silvio Santos. Atribui-se sua reação na reta final das pesquisas a esse artifício. Ao longo de seis programas consecutivos no horário eleitoral na TV, num total de trinta minutos, Collor repetiu um pronunciamento no qual classificava o presidente Sarney de "irresponsável", "omisso" e o apontava como o patrocinador da operação de bastidores que transformou Silvio Santos em candidato. Olhando o telespectador nos olhos, naquele estilo que se considera mais convincente para os políticos na televisão, bem mais calmo que na suas aparições públicas, um excelente orador em todos os sentidos, Collor de Mello falou nestes termos sobre o presidente da República: "Que direito tem o senhor, que é um político de segunda classe e que pegou carona na História com a morte de Tancredo Neves, de golpear o processo democrático?", desafiou o candidato. Foi o ataque mais agressivo a um político desde o início da campanha eleitoral. Na terça-feira passada, Sarney apareceria pela primeira vez no vídeo, no horário eleitoral de Collor, para exercer o seu direito de resposta, concedido pelo TSE. "O Brasil é testemunha da brutalidade, da violência, da desumanidade e do desatino com que estou sendo agredido por um candidato profundamente transtornado", disse Sarney. "Sou vítima da violência, do vandalismo verbal e do terrorismo moral", queixou-se o presidente. A diferença entre os pronunciamentos do candidato e do presidente vai além do tom utilizado por ambos. Em primeiro lugar, Collor atacou e Sarney defendeu-se, o que já distingue os dois pronunciamentos a partir da situação dos autores. Além disso, Collor agrediu e Sarney apenas criticou. O resultado, em qualquer caso, parece ter favorecido o candidato. A resposta de Sarney na TV, antes de ganhar sua forma equilibrada, mas tímida, mereceu uma análise doméstica. Na noite de quarta-feira, o presidente se reuniu por quatro horas com seus familiares e assessores mais próximos a fim de decidir como reagir a Fernando Collor de Mello. "Tem que dar uns tiros nesse safado", encorajou o deputado Zequinha Sarney (PFL-MA), filho do presidente. "Você não pode perder o senso de altitude", ponderou sua mulher, dona Marly. Esse conselho, mais ao agrado da personalidade do presidente, que não é de dar soco na mesa, acabou prevalecendo. Na sexta-feira, Sarney voltaria ao horário do PRN para exercer novamente o direito de resposta. Outra vez o pronunciamento foi comedido. A novidade é que o presidente tentava atingir o candidato onde ele menos esperava - na sua imagem de político sincero. Sarney desenterrou um vídeo antigo, no qual Collor, ainda governador de Alagoas, agradecia em cima de um palanque os favores que o presidente fez ao Estado e ao Nordeste. Além de espancar o adversário Sarney, que só tem lhe proporcionado vantagens nesta campanha, Collor de Mello conseguiu ao mesmo tempo livrar-se de um outro adversário, este perigoso, que ameaçava sua candidatura - Silvio Santos. Quando o Tribunal Superior Eleitoral afogou os sonhos do dono da rede de televisão SBT, na quinta-feira passada, lançando ao mar junto com ele um pelotão de políticos oportunistas que haviam tomado seu barco na última hora, Collor de Mello removia talvez o último obstáculo a sua entrada na fase do segundo turno das eleições. Ninguém sabe direito o capital de votos que eventualmente teria o empresário Silvio Santos numa eleição. Por temer que o cofre pudesse ser fundo, Collor trabalhou para arrombá-lo. Às pressas, assessores de Collor procuraram provas consistentes de que Silvio seria o principal dirigente da rede SBT - caso em que deveria ter se afastado do posto na emissora, até maio para candidatar-se. Da mesma forma, vasculharam registros da legenda de Silvio, o PMB, terminando por encontrar irregularidades. Foi a representação do PRN contra o empresário que apontou motivos para que o TSE cassasse a candidatura de Silvio e anulasse as preocupações de Collor. Ao saber da decisão, Collor de Mello, que se encontrava numa estrada, nas imediações de Brasília, parou o carro no acostamento e improvisou uma comemoração ali mesmo, dando socos no ar, em companhia de assessores e seguranças. "Estou no segundo turno", explodiu o ex-governador de Alagoas, com um comentário que tem sido repetido em sua roda nos últimos dias. A irrupção de Silvio Santos no palco eleitoral preocupara profundamente Collor de Mello. Ele andava tenso nos últimos dias, não conseguia dormir mais de duas horas por noite. Também não conseguia relaxar na poltrona do jatinho Challenger, no qual se desloca pelo país. Para disfarçar as olheiras, passou a usar óculos escuros a maior parte do tempo e aumentou o consumo de comprimidos antiácidos. Além da sombra de Silvio Santos, preocupava-o o desfecho de sua guerra particular com o presidente José Sarney. Na intimidade, passou a se queixar de seus auxiliares e amigos, especialmente de Carlos Augusto Montenegro, diretor do Ibope, que na sua opinião estaria lhe dando palpites infelizes a respeito de como se portar na campanha - como o de não participar de debates na TV. "Estou irritado com o Montenegro", disse Collor a um amigo. "A maioria de seus conselhos foi errada", acrescentou. Na tentativa de amansar o fantasma da candidatura Silvio Santos, uma incógnita que aparecia em altitudes variadas nas pesquisas, Collor correu para as ruas - visitou quinze cidades em uma semana e realizou até quatro comícios por dia - a maior parte um grande sucesso, mas alguns particularmente desestimulantes. Na segunda-feira, percorreu seis cidades da periferia de São Paulo e foi recebido com frieza em todas elas. A programação previa horários muito apertados entre um comício e outro. Por isso, as carreatas de Collor se deslocavam entre os municípios em ritmo de Fórmula Indy. Quatro carros da comitiva bateram entre uma cidade e outra, enquanto nas carrocerias das caminhonetes a comitiva tinha sua segurança ameaçada por freadas bruscas. Nesses comícios, Collor não falou mais que dez minutos e sempre repetiu o mesmo texto. Foi só no final da tarde, ao saber que o presidente Sarney pretendia processá-lo por injúria, calúnia e difamação, que Collor começou a animar-se. "Vou botar na cadeia esse magote de cabras safados que está em Brasília roubando o dinheiro do povo", atacou, empoleirado num palanque, na cidade de Suzano, junto a São Paulo. No discurso seguinte, voltou à carga. "Esse presidente que está em Brasília está envolvido em corrupção, falcatruas e ladroagem", disse o candidato, com aquela disposição dos que encontram um alvo lucrativo em que bater. No curso da semana, o tom agressivo do candidato se manteve quase no mesmo nível de estridência. Resta esperar pelo resultado das urnas para ver se a mensagem fez efeito. No canto oposto do ringue, o adversário preferencial de Collor de Mello estava longe de mostrar a mesma animação. A um amigo, o presidente Sarney queixou-se de que nenhum dos parlamentares a quem auxiliou ao longo dos últimos cinco anos, nem mesmo algum dos ministros que nomeou, saiu em seu socorro diante dos ataques de Collor. "Só não me sinto inteiramente sozinho porque tenho alguns livros do Fernando Pessoa na estante", desabafou o presidente a um amigo, referindo-se ao poeta português que de maneira tão profunda penetrou nos meandros da alma humana. À medida que a prova das urnas se aproximava, o aparato montado pelo PRN para a campanha de Collor ficava mais espantoso. Ele chega às vésperas da eleição com vários jatinhos à sua disposição, e, dependendo da ocasião, a frota é reforçada por bimotores. Em seus deslocamentos, normalmente viaja em uma esquadrilha de cinco jatinhos. Um é para o candidato, o outro para assessores e amigos, dois para seguranças e, por fim, ele reserva um para jornalistas que cobrem sua campanha viajarem de graça. Na semana passada, Collor aumentou o número de aeronaves de seu comboio. Em Anápolis, Goiás, aterrissou com sete jatos. Em Goiânia, a esquadrilha chegou a contar com onze aviões. Não é só isso: ele ainda tem mais três jatinhos para outros serviços de campanha. No total, catorze jatos. Nenhum dos outros candidatos, em seus melhores momentos de campanha, exibiu-se com essa suntuosidade dentro da luta eleitoral. No máximo os concorrentes dispunham de dois aviões. A segurança pessoal de Collor também foi reforçada. Às vezes, chega a ter oitenta homens. Num comício recente em ltumbiara, Goiás, o comitê local do PRN tomou a providência de colocar um segurança colado, em marcação corpo a corpo, junto a cada um dos quinze petistas conhecidos da cidade. Outro sinal de força nessa estrutura é o fulgor cada vez maior nos comícios. Na Ceilândia, cidade satélite de Brasília, mais de 30 000 pessoas assistiram na noite de quinta-feira a um show da dupla sertaneja Milionário e José Rico, enfeitado por um espetáculo pirotécnico e de canhões de luzes, que jogaram no espaço fachos luminosos verdes e amarelos. De acordo com dois auxiliares diretos de Collor de Mello, o candidato já torrou 100 milhões de dólares na campanha. Teria gastado mais, segundo cálculos de outros. Além desse reforço material, em dinheiro e aeronaves, Collor foi apontado como o grande protegido da Rede Globo nessas eleições. Jatinhos e cobertura da televisão não atrapalham ninguém, mas é preciso lembrar que todas as apostas em Collor só começaram depois que ele subiu sozinho os primeiros degraus das pesquisas auxiliado apenas por sua cruzada antimarajá, seu discurso anti-Sarney e sua pregação antipolíticos. Seria ajudado, nessa fase da corrida pelos votos, por aquilo que muitos eleitores definiram como um toque de sinceridade no candidato. Collor dizia também ao eleitorado que era um candidato sem compromissos com o poder e com o dinheiro. PT-PDT Duelo por uma vaga Lula e Brizola chegam empatados na reta final da campanha e travam uma luta sangrenta pelo direito de disputar o segundo turno Todos os candidatos que não têm o número 20 nem atendem pelo nome de Fernando Collor de Mello passaram os últimos seis meses denunciando fraudes nas pesquisas eleitorais. Se, por acaso, a apuração da votação de 15 de novembro revelar que Collor de Mello não irá para o segundo turno da eleição, em 17 de dezembro, todos ficarão muito satisfeitos - e irão à TV lembrar ao eleitorado que tinham razão em suas acusações. A realidade, porém, é que a campanha presidencial chegou a seus últimos dias com todos os concorrentes convencidos de que o candidato do PRN já tem o passaporte carimbado para disputar a segunda fase da sucessão - e que a única briga de verdade, até o dia 15, é para definir quem irá ficar com a outra vaga. Há, nos meios políticos, a impressão de que esse premiado irá ser escolhido por uma outra fatia do eleitorado, aquela que costuma dar seu voto às legendas de esquerda, e há, também, a convicção de que a guerra tenha se afunilado entre dois candidatos. Luís Inácio Lula da Silva, do PT, e Leonel Brizola, do PDT. Os dois passaram os últimos dias em situação de empate técnico nas intenções de voto, percorreram o país para realizar comícios grandiosos e, ao chegar o fim de semana, ambos já tinham definido o que pretendem fazer para a arrancada final antes do dia 15. Para Leonel Brizola, o adversário principal é Lula. Para Lula, o inimigo a abater é Brizola. "Foi a Igreja que organizou o PT em todo o país, num movimento pequeno-burguês radical que tem um operário de fachada", disse Brizola, no Recife, onde fez um comício na quarta-feira. "Lula é despreparado e incompetente, precisa de treino e menos vaidade, pois experiência não se ganha de um dia para o outro", disse, também, o candidato do PDT. No mesmo dia, em Aracaju, ao tomar conhecimento das declarações do adversário, Lula foi ao contra-ataque. "Brizola gosta muito de ver um operário montar um palanque, mas fica incomodado quando ele quer apanhar o microfone", disse o candidato do PT. "Se o problema fosse experiência e idade, todos nós deveríamos votar no Ulysses", disse Lula. "O Brizola é tão presunçoso que se fosse escrever um livro o título seria 'Eu me Amo'." Vizinhos na bancada de oposição ao governo do presidente José Sarney, aliados fiéis na maioria das votações ocorridas na Constituinte e até co-proprietários do mais rico condomínio sindical do país, a CUT, na qual o PT de Lula possui uma floresta de entidades e o PDT de Brizola também construiu um ninho, os dois candidatos da esquerda têm alterado momentos de carícias e de pedradas desde que descobriram que concorriam pelo mesmo eleitorado e que, cedo ou tarde teriam de se enfrentar numa sucessão presidencial. No início do ano, até parecia que essa disputa poderia ocorrer no segundo turno. Lá pelo meio da campanha, quando a caravana de Lula descia a ladeira nas intenções de voto e Brizola mantinha-se isolado em segundo lugar, tinha-se a impressão de que Lula ficara fora da corrida e que, silenciosamente, os votos prometidos ao PT acabariam engordando as urnas do PDT. Aconteceu, então, a espetacular ascensão de Lula nos últimos trinta dias, quando sua legenda colocou-se em movimento, a máquina de quase 100 000 militantes saiu à rua para pedir votos - e o dia 15 de novembro transformou-se, para ambos, num duelo mortal pela sobrevivência. "Brizola pode chorar muito, porque já está fora do segundo turno", afirma Lula. Na semana passada, em seu esforço final, o candidato do PT conseguiu colher boas notícias pela maioria das cidades que visitou. Na quinta-feira, por exemplo, ele esteve em Volta Redonda, onde três operários foram mortos a tiro por soldados do Exército no final do ano passado, num episódio que, acredita-se, tenha jogado um peso decisivo nas eleições municipais de 1988. Ali, Lula fez um comício para 5 000 pessoas e recebeu um tratamento semelhante ao que a platéia de grandes espetáculos musicais costuma reservar aos ídolos de sua preferência. Depois que o candidato do PT depositou flores no monumento em homenagem aos operários mortos, foi carregado nos braços por centenas de pessoas emocionadas, que queriam abraçá-lo, tocá-lo e até pedir um autógrafo. Preocupada, sua equipe de segurança realizou uma operação de emergência para retirá-lo dali, carregando-o até os portões da Companhia Siderúrgica Nacional, a uma boa distância do monumento aos operários. Em Salvador, onde esteve na quarta-feira, Lula é o líder nas pesquisas eleitorais e fez um comício no qual reuniu um público calculado em 50 000 pessoas - o maior de toda a campanha eleitoral na cidade. ‘No dia 15, vamos lavar a alma dos 489 anos de exploração a que estamos submetidos", disse o candidato do PT, dando a entender que um voto em sua pessoa seria equivalente a um voto contra todos os governantes que o país já teve desde que as caravelas de Pedro Álvares Cabral aportaram em Porto Seguro. Na sexta-feira, o candidato do PT atacou Leonel Brizola em seu próprio terreno, o Rio de Janeiro, e fez bonito - uma manifestação a seu favor na Candelária reuniu 50 000 pessoas. O moral do comando de sua campanha estava tão elevado, na reta final, que se cogitava a possibilidade de que 200 000 pessoas iriam comparecer ao comício de encerramento, marcado para este domingo, 12, na Praça da Sé, em São Paulo. "Eu não estou mais disputando com o Brizola, estou disputando o segundo turno com o Collor", afirma Lula. "Não interessa mais brigar para saber quem vai chegar em segundo lugar no primeiro turno, mas sim disputar quem vai ser o primeiro no segundo", acrescenta o candidato. Na madrugada de quarta-feira passada, no Recife, Lula passou duras horas na casa do governador de Pernambuco, Miguel Arraes. A conversa foi muito cordial, e o candidato do PT foi embora convencido de que, nos últimos dias, contará com o auxilio do governador para engordar seu cesto de votos no Nordeste - impressão idêntica a que seu rival Leonel Brizola colheu depois de se encontrar com o mesmo Miguel Arraes, um mês atrás. Concretamente, o governador de Pernambuco quer ficar em paz com os dois candidatos de esquerda - com a esperança de, vencida a primeira rodada da sucessão, ganhar musculatura para jogar um papel-chave nas articulações para o segundo turno. Há bastante tempo, porém, que a maioria dos sindicatos de canavieiros do Estado, onde Miguel Arraes funciona como uma espécie de cacique para todas as horas, já entrou em campanha pelo PT. Na semana passada, foi a vez de o principal auxiliar de Arraes, o secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Pedro Eurico Barros, anunciar o apoio público a Lula. "Eu saio na frente para esperar o governador no segundo turno", diz Pedro Eurico. Às voltas com a corrida de um adversário que, intimamente, seus assessores consideravam predestinado à derrota assim que a campanha começasse para valer, Leonel Brizola passou os últimos dias na liderança de uma caravana bem movimentada. O candidato do PDT inaugurou sua entrada na reta final com a produção de uma das melhores peças de oratória de toda a sucessão presidencial. Foi no momento em que se despedia dos telespectadores, ao final do debate na TV Bandeirantes, transmitido no domingo dia 5. Com lágrimas nos olhos, o candidato do PDT fez um discurso bem estruturado, carregado de expressões antigas, mas bem escolhidas, como "o país está em perigo", para defender uma idéia simples. Dirigindo-se ao eleitor na segunda pessoa do singular, ele disse que em 15 de novembro as pessoas não precisavam lhe dar seu voto, o que não deveriam fazer era apoiar Collor de Mello ou o empresário Silvio Santos, cuja candidatura, naquele momento, não fora ainda transformada em poeira pelo TSE. "Se esta for a tua consciência, não vota no Leonel Brizola", disse. "Aqui há gente de bem. Escolhe entre nós, mas não vota nesses pilantras", acrescentou. Como, no mesmo debate, havia candidatos como Paulo Maluf, do PDS, e até Ronaldo Caiado, do PSD, sem falar no cada vez mais perigoso Luís Inácio Lula da Silva, a assessoria de Brizola considerou o pronunciamento alguma coisa próxima do desastre. Chegou a tentar convencer o candidato a não exibi-lo no horário político, sob o argumento de que seria elegante demais - e eficiente de menos. Brizola passou a semana tentando fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Por cinco dias consecutivos, colocou no ar suas últimas imagens na TV Bandeirantes. Ao mesmo tempo, nos comícios que realizou em oito cidades do país, parou de falar mal de Collor, da TV Globo e de Roberto Marinho, os alvos favoritos de seus discursos ao longo de toda a campanha - para centrar fogo em Lula. Na sexta-feira, o candidato do PDT já implicava até com a aparência do concorrente do PT. "Seria bom se ele tirasse a barba", disse num comício em Florianópolis. "Porque esconder a cara? É preferível deixar a cara a descoberta, assim como a minha, que eu uso há sessenta anos." Nesse esforço de últimos dias para colocar-se à frente do PT, Brizola chegou a discursar para mais de 300 000 pessoas, em um circuito de comícios por oito cidades de Pernambuco, Paraná, Maranhão, Ceará e Minas Gerais. Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o candidato participou de uma apoteótica carreata com cerca de 1 000 veículos no centro da cidade. Bloqueado à esquerda pelo bom tamanho de Lula, Brizola sonha em obter, nos últimos dias, o apoio de quem quer que seja, inclusive das viúvas do PFL, que ficaram de mãos abanando com a implosão da hipótese Silvio Santos. Na semana passada, o senador Hugo Napoleão, um dos principais articuladores da desastrada candidatura do dono do SBT, contou a alguns deputados do Piauí que não teria nenhum constrangimento em apoiar Brizola ainda no primeiro turno e foi recebido com simpatia. "Napoleão será bem-vindo", afirmou o candidato a vice da chapa do PDT, Fernando Lyra. Em São Paulo, Brizola tem como possível o apoio de uma fatia do PMDB alinhada com o governador Orestes Quércia. Na semana passada, Quércia chegou a usar o nome de Brizola para esfriar um movimento dos governadores do PMDB em direção ao apoio a Mário Covas em um telefonema que recebeu do governador gaúcho, Pedro Simon, rival político do candidato do PDT em seu Estado. Simon sugeriu a Quércia apoiar Covas ainda no primeiro turno, para dar chance a um candidato com afinidades com o PMDB, sob a condição de que Ulysses Guimarães viesse a concordar. "E por que não apoiar Brizola?", cortou o governador paulista, a quem o apoio aos tucanos provoca a mesma irritação que o apoio a Brizola provoca em Simon. É verdade que as pesquisas indicavam na semana passada que a segunda vaga no segundo turno estava sendo disputada por dois grandes candidatos, Lula e Brizola. O fato, contudo, é que no panorama eleitoral também começou a aparecer um candidato que cresce, mostrou que também é bom de palanque e sonha surpreender os concorrentes na fita de chegada - o senador Mário Covas, do PSDB. Com cerca de 10% nas pesquisas eleitorais, Covas distanciou-se do pelotão intermediário dos candidatos, vem se beneficiando do esvaziamento da campanha do PMDB de Ulysses e do PL de Guilherme Afif Domingos e aposta na possibilidade de aparecer como uma espécie de Erundina de primeiro turno. Na semana passada, o candidato do PSDB conseguiu fazer comícios movimentados, como o de Curitiba, no Paraná, o maior da cidade em toda a campanha, em que reuniu uma platéia de mais de 30 000 pessoas. Mário Covas chegou a cultivar, nos últimos dias, a esperança de que sua candidatura pudesse ser engordada pelo PMDB e seus governadores nos momentos finais da campanha. Numa articulação patrocinada pelo prefeito licenciado de Belo Horizonte, o tucano Pimenta da Veiga, um grupo de cinco governadores, entre os quais o do Paraná, Álvaro Dias, trocou telefonemas estudando o apoio ao candidato do PSDB. A trama foi cortada por um apelo do candidato do partido, Ulysses Guimarães, e de sua esposa, Mora, que chegou a enviar bilhetinhos às esposas dos governadores para pedir que não abandonassem o barco do PMDB. "Não faça isso, você vai desagregar o partido", disse Ulysses, ao telefone, a Álvaro Dias. "Sei que a minha candidatura está numa situação muito difícil, mas é importante que ela vá em frente, sob pena de o PMDB não sobreviver", continuou Ulysses, na sua mais clara demonstração de desânimo na campanha. Na leva de governadores com que Dias conversava e também pensava em juntar-se aos tucanos estavam Nilo Coelho, da Bahia, ligado ao vice da chapa de Ulysses, Waldir Pires e ainda Pedro Ivo, Henrique Santillo, Marcelo Miranda, Geraldo Melo e Pedro Simon. Desfeita a operação, a esperança de Covas residia na idéia de que, por livre e espontânea vontade, o milionário eleitorado do PMDB resolvesse apoiar seu nome e escrever X ao lado do número 45 na cédula. No esforço final dos três candidatos de esquerda com mais chances de ir para o segundo turno, os últimos dias de campanha são um vale-tudo para chegar ao dia 15. "A esta altura da campanha, o apoio é bem-vindo, venha de onde vier", diz Covas ao lado de um Brizola que se queixa da barba do Lula e de um Lula que acusa o candidato do PDT de ser arrogante demais. |
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