BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



13 de novembro de 1985
O país acorda melhor

Na alvorada do sábado, o
Brasil colhe os resultados de uma
campanha que derrubou mitos e
acabou com vinte anos de maniqueísmo

Nesta sexta-feira, 18 milhões de brasileiros vão às urnas. Escolherão 201 prefeitos, entre os quais os 25 que governarão as capitais dos Estados e Territórios nos próximos quatro anos. Atrás dessa conta, disputa-se de tudo. Na batalha de São Paulo, o PMDB disputa, através do senador Fernando Henrique Cardoso, a chance de impor-se como partido dominante na vida política nacional e uma das mais bizarras coligações conservadoras já formadas ergue, com a vassoura do ex-presidente Jânio Quadros, uma perigosa barreira contra essa pretensão. Em Curitiba, Campo Grande e Florianópolis, unindo-se ora ao PDS, ora ao PFL, o governador fluminense Leonel Brizola combate para quebrar o eixo provincial que o acorrenta ao Rio de Janeiro e ao Rio Grande do Sul. O PDS, herdeiro da Arena, que se intitulava "o maior partido do Ocidente", elegia quase todos os governadores e nomeava todos os prefeitos no regime de 1964, tenta, com poucas chances, ficar do mesmo tamanho que o PDT. Numa eleição dominada pela propaganda gratuita na televisão e pelo histrionismo que esse meio de comunicação favorece, prevaleceram choques pessoais e partidários, em detrimento de uma das principais questões da vida brasileira: o futuro de suas grandes cidades.

Aos poucos, porém, derrubaram-se mitos. Caíram a lenda do interesse dos analfabetos por política e a balela do interesse dos políticos pelos analfabetos. O Congresso deu aos iletrados o direito de votar, pela primeira vez na História do país, e, além de o Tribunal Superior Eleitoral ter-lhes exigido que leiam números, eles mesmos manifestaram pouco interesse pelo alistamento. Em todo o país registraram-se apenas 65 000 títulos de analfabetos. Caiu também a lenda segundo a qual o excesso de partidos polui eleições. Há trinta partidos registrados e raras são as pessoas capazes de decifrar o significado de mais de meia dúzia de siglas. No Rio de Janeiro há um recorde de candidaturas - dezenove - e a maioria dos eleitores desconhece metade delas. Os partidos comunistas, banidos desde 1947, reapareceram com bandeiras, foices, martelos e até candidatos sem que tenham tirado o sono alheio. Tudo isso num país em que vigorou por quinze anos um bipartidarismo mambembe, com um governo que cultivava um anticomunismo capaz de ameaçar a candidatura a presidente de Tancredo Neves porque em seus comícios apareciam algumas dúzias de panos encarnados. Entre 1965, quando se realizou a última grande eleição para prefeito de capital, e o pleito desta sexta-feira o país mudou tanto que agora o número de paulistanos indecisos, cerca de meio milhão de eleitores, equivale à votação do candidato vitorioso de duas décadas passadas, o brigadeiro Faria Lima.

A próxima semana haverá de começar com um novo quadro partidário. As urnas dirão se o PMDB tem um tamanho equivalente à força que deseja ter dentro do governo federal e informarão se o PFL, como partido, dispõe de fôlego para disputar uma Assembléia Constituinte no ano que vem ou se, por falta de votos, seus líderes terão de se conformar em continuar participando de assembléias de acionistas. Os votos revelarão ainda se o fenômeno do populismo é uma experiência encerrada na vida política brasileira ou se cinco governos presididos por generais foram apenas um intervalo numa tendência mais duradoura. Jânio Quadros em São Paulo e Leonel Brizola por onde pode encarnam, nos gestos, na retórica e nas práticas agressivas, algo que pode ser um retorno aos anos 60, com seus truques e incertezas. Afastados à força da política, reaparecem, contudo, medindo suas forças através do mais legítimo dos instrumentos: o voto.

Acima de tudo, porém, a eleição desta sexta-feira é a primeira dos últimos vinte anos à qual o eleitor vai livre da corrente maniqueísta do julgamento de um regime que fazia pleitos com uma das mãos e atos institucionais com a outra. Nesse período. a cada avanço da oposição correspondia um remendo legal através do qual os adversários do regime podiam ter votos desde que não chegassem ao poder. Esse ardil fez com que desde eleições federais até inexpressivas disputas por câmaras de vereadores ficassem viciadas por uma simplificação inevitável. Votava-se, onde se podia, sempre contra ou a favor do regime. Essa redução fez com que ineptos chegassem ao poder bajulando Brasília, e farsantes, a Brasília bajulando o eleitorado oposicionista. Abertas as comportas, desapareceu o grande espantalho e uma situação artificialmente simplificada complicou-se, ganhando em sinceridade. Há candidatos do PMDB metidos em fraudes com dinheiro público, brizolistas empoleirados em palanques com bicheiros - ou envolvidos em brigas de rua, espancando e sendo espancados - e severos condestáveis do PFL atrás de panfletos fraudulentos produzidos por estelionatários. Há tudo isso e falta o autoritário - para receber todas as culpas.

Em 1945, quando a política francesa ressurgiu com a libertação do país pelas tropas aliadas, o filósofo francês Jean-Paul Sartre observou que a vida era bem mais simples durante a guerra, quando todo o mal parecia estar de um lado e todo o bem, do outro. No Brasil, durante os 21 anos de duração de um regime que negava a seus adversários o acesso ao poder, todas as mazelas foram grudadas, aos poucos, na carcaça dos governantes. Isso tornava mais simples as opções políticas, mas não eliminava a dificuldade verdadeira dos problemas reais. Nas páginas seguintes está um retrato da campanha eleitoral na sua fase decisiva. Nele, vê-se que em Mato Grosso brizolistas e malufistas estão unidos contra a candidatura do deputado Dante de Oliveira, autor do memorável projeto de restabelecimento das eleições diretas para a escolha do presidente da República. No Amazonas, o governador peemedebista, Gilberto Mestrinho, ostenta com segurança o título de político mais desenvolto e voraz na utilização do Erário em benefício de seu candidato. No Rio Grande do Norte, o governador do PFL, José Agripino Maia, convocou uma reunião de prefeitos para discutir a melhor forma de compra para votos de periferia. A linha divisória do maniqueísmo está dissolvida e, por isso, milhões de eleitores sentem-se diante de escolhas complicadas. No entanto, por mais complicadas que elas sejam e por mais falíveis que sejam os eleitores, o Brasil amanhecerá melhor no sábado. Quando a primeira urna for aberta, o país começará a melhorar, pois a vontade popular terá avançado mais um degrau na sua condição de soberana condutora do destino nacional.

Sexta-feira das paixões

Os brasileiros das capitais escolhem seus prefeitos, e São Paulo diz para onde se inclina o país

Entre o final da tarde desta sexta-feira e a manhã do sábado, milhões de brasileiros perderão, sem queixas, algumas horas de sono para ouvir o som das urnas. Em todas as capitais, os eleitores reservarão um dos ouvidos para escutar o nome de seu futuro prefeito. O outro ficará atento ao que se passa em São Paulo, palco da mais importante das disputas em curso nesta temporada eleitoral. Na manhã de sábado, afinal, os 4,8 milhões de habitantes de São Paulo cadastrados para o pleito terão escolhido não só o administrador da maior metrópole brasileira - eles também terão influenciado fortemente, com sua decisão, os rumos políticos do país.

Em pelo menos nove capitais, a apuração nada terá de emocionante, já que em todas se conhece antecipadamente o nome do vencedor. Em quatro cidades, segundo o Instituto Gallup, é rigorosamente impossível indicar favoritos. Em outras quatro, enfim, o Gallup arrisca-se a apontar prováveis vencedores, mas recomenda cautela. Nesse grupo juntam-se as cidades cujos quadros eleitorais são, na verdade, bem diferentes, como São Paulo e Rio de Janeiro. No Rio, o senador Roberto Saturnino, do PDT, corre bem à frente de seus adversários mais diretos e só uma improvável reviravolta pode confiscar-lhe o favoritismo. Em São Paulo, o senador Fernando Henrique Cardoso, do PMDB, entra na reta final com alguns corpos de vantagem sobre o ex-presidente Jânio Quadros, do PTB. Mas talvez fosse mais prudente agregar São Paulo ao grupo de cidades em que a disputa é marcada pelo equilíbrio.

Troca de camisa - Na semana passada, as capitais brasileiras registravam a inconfundível excitação que costuma preceder a corrida às urnas, e mesmo em cidades com a situação já definida colecionavam-se tropelias, exageros e extravagâncias. Na noite de quarta-feira passada, por exemplo, em meio à entrevista que concedia à TV Manchete em Cuiabá, o governador de Mato Grosso, Júlio Campos, resolveu dirigir-se diretamente ao deputado Dante de Oliveira, candidato do PMDB a prefeito da cidade, que o tem acusado de consumir recursos públicos na campanha do candidato do seu partido, o PDS. Voltou-se para a câmara e, expressão carregada, fez o gesto de quem dá uma ampla "banana", acompanhado da devida sonorização. "Dante, aqui pra você, ó!", destemperou-se o governador Júlio Campos.

Antes de despir-se do que o presidente José Sarney gosta de chamar de "a liturgia do cargo", Júlio Campos já mostrara saber trocar de camisas políticas com bastante desembaraço e nenhuma eficácia. ,Agressivamente malufista na recente sucessão presidencial, Campos aliou-se ao governador Leonel Brizola, a quem cedeu o direito de indicar o vice-prefeito da chapa, para tentar ganhar a eleição em Cuiabá com seu candidato, Gabriel Novis Neves, do PDS. Perdeu com Paulo Maluf e, agora, vai perder com Brizola. O desembaraço de Campos para trocar de camisa é comparável ao de Brizola para trocar de discurso conforme a paisagem. Se no Rio de Janeiro o governador ataca o PDS e acusa o deputado Rubem Medina, do PFL, de ter-se ausentado da sessão que votou a emenda das diretas já, em Cuiabá Brizola elogia Júlio Campos, que é do PDS, bateu-se contra as diretas e apoiou Maluf.

Na quinta-feira, enquanto andava a cavalo pelas ruas de Cuiabá perseguindo eleitores indecisos, Dante de Oliveira galopava rumo a um título cobiçado por vários campeões de popularidade do PMDB - o de candidato proporcionalmente mais votado em todo o país nas eleições da próxima sexta-feira. Como a agressividade de Campos e seus partidários tem acompanhado a curva ascendente do autor da emenda das diretas já, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso já requisitou tropas do Exército para assegurar a ordem no dia do pleito. A mesma providência se aplicará a Natal, palco de denúncia dando conta de uma ousada operação de boca de urna articulada pelo governador José Agripino Maia e por dezenas de prefeitos do interior do Rio Grande do Norte.

Panfletos grosseiros - É possível que, até sexta-feira, essas cautelas alcancem outras capitais às voltas com a pesada tensão pré-eleitoral. Em São Paulo, a preparação dos comícios de encerramento das campanhas de Fernando Henrique Cardoso e Jânio Quadros, marcados para o dia 12, lembrava operações de guerra. No Recife, onde se acumula um virtual empate entre os deputados Sérgio Murilo, do PMDB, e Jarbas Vasconcelos, do PSB, jorravam panfletos grosseiros - num deles, ressuscitou-se um crime de morte de que Sérgio Murilo foi acusado e absolvido há 25 anos.

No Rio de Janeiro, onde o senador Roberto Saturnino ampliou seu favoritismo, multiplicavam-se as batalhas campais entre partidários dos três principais candidatos - e crescia de forma inquietante a agressividade de militantes brizolistas decididos a silenciar adversários à custa de vaias, ovos, socos e pontapés. Em Curitiba, outra fábrica de panfletos anônimos e denúncias de baixa extração, a tensão pré-eleitoral, estimulada pela pequena diferença que separa o deputado Roberto Requião, do PMDB, do ex-prefeito Jaime Lerner, do PDT, é um convite a escorregões de parte a parte.

"Nunca vi uma campanha com um nível tão baixo, e olhe que participo de campanhas eleitorais desde meus tempos de estudante universitário", espanta-se o governador José Richa, licenciado do cargo para dedicar-se à luta pelo voto dos indecisos - um contingente que parece ter dobrado de tamanho nos últimos dias. Os partidários de Lerner e sobretudo o ex-governador Patilo Pimentel, candidato pelo PDS sem chance alguma de vitória, têm cometido exageros chocantes na tentativa de associar Richa e Requião aos comunistas. Mas o candidato do PMDB também contribui para a perplexidade do governador. Num comício promovido na terça-feira passada, por exemplo, Requião disse no palanque, referindo-se a adversários, um palavrão poucas vezes ouvido na história dos comícios no Brasil.

Jogo bruto - Nas duas cidades em que se registra um empate entre dois concorrentes - Florianópolis e São Luís -, captam-se voltagens distintas. Em Florianópolis, como ocorre na maioria das capitais, sucedem-se acusações recíprocas entre os partidários de Edison Andrino, do PMDB, e Francisco de Assis Filho, do PDS, mas a agressividade, até o final da semana passada, era apenas verbal. "Política no Maranhão é jogo bruto", avisa o deputado Vieira da Silva, do PDS, incorporado à campanha da candidata do partido, Gardênia Gonçalves. "E quem estiver na frente será levado de roldão: presidente da República, filho, nora, genro e o diabo."

"Aqui a disputa é na base da Lei de Talião: olho por olho, dente por dente", devolve o governador Luiz Rocha, um dos comandantes da campanha do deputado Jayme Santana, do PFL, ao lado do deputado José Sarney Filho e de Roseana Sarney Murad, filha e secretária do presidente da República. Nesse clima, são virtualmente inevitáveis explosões como a que agitou São Luís na última sexta-feira. Ao retornarem de um comício de Santana, num subúrbio da capital maranhense, eleitores que ocupavam dois ônibus e dez carros toparam com uma pequena multidão reunida para uma manifestação em favor de Gardênia. Resultado: cerca de quarenta feridos, seis dos quais hospitalizados.

Antes mesmo do conflito, o presidente Sarney decidira permanecer em Brasília no dia 15, justificando pelo correio sua ausência das filas de votação. Com esse gesto, Sarney, que se esquivou dos palanques, terá passado também ao largo das urnas - e será um dos raríssimos políticos brasileiros que nada terão a perder nesta sexta-feira. Em contrapartida, ele tampouco estará sabendo, no dia 15, que país surgirá das urnas no dia seguinte, e que deverá ficar sob sua presidência pelo menos até 1988.

Broches no expediente - Se Fernando Henrique ganhar em São Paulo, esse novo país terá a cara do PMDB, que na semana passada disputava como favorito as prefeituras de dezessete das 25 capitais. Em algumas delas, os candidatos do partido procuravam apenas não cometer erros que ameaçassem a vantagem abissal que os separa dos concorrentes - caso de Salvador, onde Mário Kertesz aparece como adversário do cuiabano Dante de Oliveira na luta pela maior votação proporcional do país. Em outras, porém, candidatos igualmente beneficiados pelo favoritismo absoluto pareciam descontentes com o patamar alcançado e agarravam-se a quaisquer cordas disponíveis para subir um pouco mais.

É o caso de Manaus. Ali, o governador Gilberto Mestrinho pôs a serviço de seu candidato, Manuel Ribeiro, toda a estrutura do governo e seu estoque de pressões. Veículos oficiais circulam com propaganda do candidato, funcionários públicos são obrigados a desfilar portando broches de Ribeiro durante o expediente e o Palácio Rio Negro funciona ostensivamente como quartel-general da campanha. Para o deputado Armando Freitas, líder da bancada do PMDB na Assembléia Legislativa, não há razões para perplexidade. "O PDS utilizou esses métodos durante 21 anos", alega Freitas, que passou boa parte desse período condenando o partido do governo pela utilização de recursos públicos em campanhas eleitorais.

Cuidados na agenda - As estrelas do PMDB pretendem aproveitar esse final de campanha para brilhar além das fronteiras de seus territórios, ornamentando comícios. A organização dessa agenda exige cuidados. Deram-se bem, na semana passada, os políticos que compareceram ao comício de Dante de Oliveira em Cuiabá e foram aplaudidos por quase 30 000 pessoas. Deram-se mal os que subiram ao palanque montado em Porto Alegre pelo candidato peemedebista Francisco Carrion Jr., em declínio na reta final. O governador Íris Rezende, por exemplo, praticamente perdeu a viagem: escalado para animar o tristonho comício, teve de falar para menos de 3 000 pessoas.

Erros e acertos cometidos ao longo da campanha poderão ser avaliados com mais precisão a partir de sábado, quando as urnas falarem. O fato é que, diante dos candidatos que lhes foram apresentados, os eleitores das capitais geralmente procuraram agir de modo criterioso, examinando seus defeitos e virtudes para então decidir. Ao contrário de outras eleições, desta vez não surgiu nenhuma reedição do "voto cacareco", pelo qual se apóia algum candidato extravagante em sinal de protesto contra os nomes lançados pelos partidos mais fortes. Em ocasiões anteriores, os beneficiários dessa forma de protesto não utilizaram a televisão e mesmo assim receberam votações maciças. Desta vez, os possíveis cacarecos tiveram direito ao horário gratuito do TRE, mas continuaram patinando em índices irrisórios. Na campanha de 1985, os eleitores que não encontraram seu candidato ideal limitaram-se a escolher, entre os nomes disponíveis, aquele que lhes parecia mais aceitável.


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |