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Reportagens 9 de outubro de 1996O novo Maluf de sempre Consagrado pelos votos dados
A grande novidade das urnas de 3 de outubro é o velho Paulo Salim Maluf, 65 anos, oito eleições disputadas, três vitórias e cinco derrotas. Maluf emerge do primeiro turno da eleição municipal como o prefeito-símbolo. Como Cesar Maia, no Rio de Janeiro, ou Tarso Genro, em Porto Alegre, ele fez uma administração aprovada pela maioria da população e, embora não tenha feito seu sucessor no primeiro turno, chegou bem perto - seu afilhado, Celso Pitta, recebeu 48% dos votos na quinta-feira. Há cinco meses, quando decidiu que Pitta seria seu candidato à sua sucessão em São Paulo, Paulo Maluf pesava 86 quilos e sua taxa de colesterol batia em 250, um número de risco. Na semana passada, estava com 80 quilos, o colesterol em 160 - saúde de um adulto vinte anos mais jovem. O prefeito paulista está mais magro porque se dedicou à campanha como um trator. Só nas carreatas diárias, algumas sem o seu candidato, rodou 4 500 quilômetros. É como se tivesse saído de São Paulo com destino a Belém e de lá seguisse para Fortaleza, de pé, no lombo de um caminhão. 'Foi a campanha mais dura que enfrentei', diz. 'Tivemos contra nós o governo federal, o Banco Central, o Serra, o PT, três línguas de aluguel e o juiz eleitoral: derrotamos todos', acrescenta, fiel ao seu estilo exagerado e dramático. Mesmo que Pitta seja derrotado no segundo turno por Luiza Erundina, hipótese remota pelas projeções da semana passada, Maluf é um prefeito vitorioso. Maluf nunca foi o prefeito mais popular do Brasil, mas nenhum outro enfrentou uma realidade tão áspera como administrar uma cidade com 10 milhões de habitantes, tão rica, tão desigual. Mesmo assim, está saindo da prefeitura com aprovação de 62% da população, contra 29% de Erundina em 1992 e 30% de Jânio Quadros em 1988. Seu trunfo foi um orçamento de 22 bilhões de reais contra 17 bilhões na gestão anterior, mas também se explica pelo jeito de governar. Na prefeitura ou fora dela, Maluf está sempre em campanha. Isso quer dizer que tem tanta preocupação com as suas obras como em divulgá-las. Em sua administração os gastos publicitários cresceram o mesmo que os túneis, ou seja, 400%. Maluf, que gosta de fazer política o tempo inteiro, sabe que às vezes esse mundo se move com base em amizades e trocas com uso de dinheiro público. Há meses, a Rede Manchete vem divulgando aos domingos, regularmente, 'reportagens' em seu benefício. Ele explica que os elogios são uma retribuição a um favor que prestou ao falecido Adolpho Bloch, fundador da emissora. 'Eu era governador, e o Bloch me procurou para pedir um empréstimo do Banespa, com todas as garantias. Intercedi por ele e o empréstimo saiu. Hoje tenho amigos lá, e bons amigos', reconhece. Há três meses, quando inaugurou um conjunto de cinco viadutos conhecido como Complexo Sacomã, Maluf telefonou para Roberto Irineu Marinho, vice-presidente da emissora, e pediu vinte segundos de reportagem no Jornal Nacional, com um segundo mostrando o momento em que ele descerrava a placa. 'Fui atendido', diz. Não se deve desprezar um traço da personalidade de Maluf, que é a insistência. Ele tem sobre sua mesa um porta-retratos com a fotografia de sua audiência com o presidente americano, Bill Clinton, há seis meses. O encontro, ele diz, foi o resultado da ajuda de 'alguns amigos na Casa Branca'. Um desses amigos, que inclusive embolsou honorários como guru de marketing político, é James Carville, antigo assessor de campanha de Clinton. O porta-retratos é um dos três que ele tem sobre a mesa. Outro é de sua esposa, Sylvia, mas o maior deles é o de Ayrton Senna, ídolo, amigo e eleitor assumido. A afinidade com o automobilismo é notada logo na entrada de sua sala, onde está exposto um pneu careca de Fórmula 1. É uma lembrança oferecida por Rubens Barrichello, tirada do Jordan com que ele conseguiu a primeira pole position de sua carreira. Maluf adora velocidade, até porque nela também pode exercitar um dos grandes traços de sua personalidade: o gosto pela competição. Com seu Porsche 1995, já ultrapassou os 240 quilômetros no retão do Autódromo de Interlagos, e nem sempre respeita os limites de 80 por hora nas vias expressas de São Paulo. O prefeito gosta também de vinhos e tem uma suntuosa adega em sua casa, no bairro dos Jardins. Foi dessa adega que retirou duas garrafas na noite de quarta-feira, véspera da eleição, e levou para o salão de inverno de sua casa, onde uma tevê de 43 polegadas anunciava o início do Jornal Nacional. Ao seu lado estavam o filho Flávio, atual presidente da Eucatex, Duda Mendonça e Nelson Biondi, os publicitários que mudaram a cara do malufismo. Na prefeitura Maluf fez uma cirurgia plástica para extrair as bolsas sob os olhos e também trocou os óculos com lentes grossas de míope - 7,5 graus nos dois olhos - por lentes de contato descartáveis. Com sua barba no estilo Abraham Lincoln, Duda Mendonça recauchutou o malufismo, que a revista inglesa The Economist, a bíblia do conservadorismo mundial, classifica de 'populista'. Duda tem a maior parte das contas de publicidade da prefeitura e também se transformou no seu mais importante conselheiro político. Maluf conversa com ele todos os dias - mesmo quando não está em campanha. A velha face do malufismo continua lá, mas está cedendo lugar aos recém-chegados. Salim Curiati, que já foi prefeito de São Paulo, responde por uma secretaria obscura. Reynaldo de Barros, o Reynaldão, ex-prefeito, cuida das secretarias das quais saem as verbas para as empreiteiras, atuando como facilitador para as doações de campanha de Maluf. O veterano Calim Eid já foi confundido com a própria língua de Maluf, mas desde que foi apanhado como gerente do caixa de campanha no caso Paubrasil está quase mudo, cuidando mais de seus negócios privados do que de política. Entre os antigos, um dos mais escutados é Heitor Ferreira, conselheiro desde os tempos do colégio eleitoral contra Tancredo Neves, em 1984, e respeitado pela lealdade nas horas difíceis. Dos novos, um nome em alta é do assessor Adilson Laranjeira, que conseguiu a façanha de ensinar Maluf a melhor lidar com a imprensa, e é ouvido como um conselheiro político. Nessa atual fase populista, Maluf até ensaia usar o jaquetão e o charuto de Getúlio Vargas, autodefinindo-se como 'pai dos pobres' e mostrando talento para comandar programa de auditório. Numa de suas carreatas, na Vila Ema, Zona Leste, beijou e abraçou as mulheres, de todas as idades, cumprimentou os homens e deu autógrafos. Na calçada, o aguardavam os candidatos a prefeito e a vice de Uberaba, que queriam uma gravação de Maluf para ser usada no horário eleitoral. Maluf falou, achou que não estava bom. Repetiu a gravação e, depois, cochichou, com orgulho: 'Em 1985, quando as pessoas me viam, mudavam de calçada. Hoje, querem que eu grave'. Uma senhora se aproximou puxando conversa, Maluf fingiu que a conhecia, deu-lhe um abraço e perguntou: 'Em quem nóis vai votá?' A mulher respondeu: 'Pitta'. Na carreata, Maluf acenava e jogava bonés para a população. 'Se não me eleger mais, pelo menos posso virar jogador de beisebol', comentava. Três horas depois, a carreata parou numa praça. Pitta dançou com as mulatas de uma escola de samba e discursou. Maluf também falou, como se fosse um animador de auditório, perguntando 'Vocês querem o Cingapura? Vocês querem o Leve-Leite? Vocês querem o Fura-Fila?' Maluf também não briga para valer com Sergio Motta porque em várias áreas os dois sempre se entenderam muito bem. Por decisão de Maluf, a empresa de engenharia Hidrobrasileira, fundada pelo ministro e da qual se afastou oficialmente quando passou a integrar o governo de Fernando Henrique, recebeu um belo contrato da prefeitura para administrar uma das unidades do PAS, atividade considerada o filé mignon das cooperativas médicas. Com antecedentes tão agradáveis, não há por que imaginar que será impossível uma reconciliação em breve. Na disputa pelo segundo turno, o prefeito já recebeu sinais de que o empenho do PSDB a favor de Erundina será muito inferior ao que o próprio PT pode imaginar e que os tucanos chegaram a prometer quando esperavam ficar com a segunda vaga. 'O governo não tem motivos para estimular um partido que se destaca por fazer oposição às reformas em Brasília', salienta o ministro Luiz Carlos Santos. 'É difícil explicar por que apoiamos um partido que atua contra o governo, enquanto o PFL e o PPB, que estão com Maluf, tudo fazem para apoiá-lo no Congresso.' Maluf era um interlocutor freqüente de Fernando Henrique Cardoso até a eleição em São Paulo começar a esquentar. Hoje, ele culpa o presidente pelos ataques de Motta. 'Ele disse o que disse com a conivência do presidente', acusa. Passado o primeiro turno da eleição, ele arregaça as mangas e diz que vai combater o projeto de reeleição de Fernando Henrique Cardoso. 'Sou radicalmente contra a reeleição porque quem está no governo sempre usa a máquina e não há como impedir isso', afirma. O alvo da frase é o Planalto, mas a fala de Maluf não deixa de ser uma involuntária confissão de culpa. Não se tem memória de um prefeito paulista que tenha usado tanto a máquina da prefeitura para eleger seu candidato. O próprio exercício do poder municipal se transformou numa campanha permanente. O Cingapura, seu projeto de moradia popular, é feito sob medida para aparecer nas avenidas de grande movimento e nos filmetes de propaganda. O PAS, seu projeto de saúde, que é caríssimo, só passou a funcionar menos de um ano antes das eleições, e ninguém pode jurar que seja mantido, mesmo com Pitta vencendo no segundo turno. Num aspecto a prefeitura de Maluf é imbatível: as obras viárias, que beneficiam os empreiteiros e os que têm carro. Ao tomar posse, São Paulo tinha apenas dois túneis e cinqüenta viadutos. Quatro anos depois, tem oito túneis e 77 viadutos - uma ampliação de 400% num caso e de 50% em outro.
O segundo turno traz um complicador para Celso Pitta: a acusação de que ele realizou negócios lesivos à cidade quando era secretário das Finanças de Paulo Maluf. Em documentos divulgados pelo Jornal da Tarde, de São Paulo, no último dia 28, está o demonstrativo de uma transação que, nas palavras de dez banqueiros e dois ex-presidentes do Banco Central ouvidos por VEJA, é 'muito suspeita'. A 'suspeita', no caso, é de favorecimento de uma obscura distribuidora de títulos e valores mobiliários do Rio de Janeiro, a Contrato. Paulo Maluf refere-se ao assunto com uma comparação: 'Imagine um ladrão invadindo uma casa. Ele vê um Picasso e um Renoir na parede. Encontra todas as jóias da madame. Ainda assim, decide roubar apenas um cinzeiro'. Se a imagem está correta, em sua gestão sumiu um cinzeiro de 1,7 milhão de reais, numa operação sob responsabilidade de Pitta. É normal que as prefeituras lancem títulos no mercado, com prazos de resgate entre três e cinco anos. Quem os compra, recebe em troca a promessa de uma taxa de juro recompensadora ao final da operação. Também é normal que, quanto mais perto do prazo de resgate, menor seja essa taxa de juro, já que o risco de que, no fim, o comprador fique com um papel micado na mão se reduz substancialmente. Portanto, o mercado comercializa esses papéis sempre levando em conta a credibilidade de quem os oferece e o prazo de vencimento do título. O anormal na negociação que Pitta fez é que ele trocou títulos que tinha em seu poder, com prazo de vencimento menores (primeiro quadrimestre de 1995), por outros, com vencimento para março e dezembro de 1997, em poder da Contrato, usando a mesma taxa de juro. Total da operação: 53,5 milhões de reais. Já seria uma irregularidade. Mas Pitta ainda revendeu os títulos de longo prazo, que acabava de adquirir da Contrato, para a própria Contrato, oferecendo agora à empresa taxas de juro generosas e um descontão - 1,7 milhão de reais. 'Naquela época, dezembro de 1994, para ter um rendimento desses, de 3,3%, devia-se esperar no mínimo um mês', diz um executivo do BC. Para a Contrato, um dia bastou. Pitta afirma que fez o negócio porque, primeiro, precisava de dinheiro. Conseguiu. Depois, porque a empresa carioca passava por dificuldades e necessitava de uma 'operação de salvamento'. Como a empresa carioca detinha em carteira muitos títulos da prefeitura, se ela quebrasse, diz Pitta, a credibilidade dos títulos municipais poderia sair arranhada. A Contrato alega que revendeu os papéis, na seqüência, à Paper, outra distribuidora, de onde tirou dinheiro para pagar a prefeitura. 'Não há nenhuma explicação para o mercado ter mudado de uma hora para a outra e a Contrato ter conseguido vender títulos que lhe estavam dando problemas', diz um ex-executivo do BC. 'Fica-se sentado naquele fogareiro, obrigado a tomar uma decisão no ato para ver se consegue fazer o melhor', defende-se Pitta. Aparentemente, fez o pior. Alkimar Moura, diretor de normas do BC, está investigando. |
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