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Reportagens 5 de outubro de 1994Eles têm o país na ponta da língua O eleitorado tem cara própria,
Três de outubro nem parece ser o dia da caça. Se parecesse, o brasileiro votaria diretamente no que lhe interessa. Se pudesse dispensar os intermediários que refletem seus desejos em promessas, nomes e siglas, e livre do regulamento talhado pelo figurino do caçador, a maioria absoluta do eleitorado encomendaria às urnas nesta segunda-feira quatro anos de trégua, para se refazer dos estragos de uma década gasta com bagunça. O eleitor brasileiro quer paz. Amém. É paz o anseio que os morubixabas dos institutos de opinião pública, unanimemente, sentem roncar neste ano nos 283.544 terreiros eleitorais que dividem o Brasil. Onde houver nesta semana um X ao lado do nome de Fernando Henrique Cardoso, leia-se: "O brasileiro quer ter o direito de dormir, acordar e sair de casa sem surpresas, sem salvadores da pátria, mas com políticos confiáveis que lhe tragam a solução de problemas práticos". Quem dá essa tradução do que o cidadão quer nas eleições é a socióloga Maria Tereza Souza Monteiro, dona da Retrato, uma firma com ouvidos para ouvir e entender os eleitores, aplicando-lhes um método aparentemente inverossímil: conversar olho no olho com os brasileiros, entrevistando-os durante horas, num ambiente que mistura salgadinhos, refrigerantes, cerveja, rigor estatístico e faro clínico para pegar, na voz de uma pessoa, a ressonância de vastas tendências coletivas. Desde 16 de agosto, a pedido de VEJA, a Retrato fez onze entrevistas de mais de duas horas, escutando ao todo 95 eleitores, escolhidos por critérios de amostragem, para terem a cara de um eleitorado de quase 95 milhões. A identidade entre o que disse a milionésima parte do eleitorado e o que, na maioria, seu conjunto está pensando é produto de um método de pesquisa. Uma técnica de sondagem que permite juntar, ao redor de uma mesa, multidões encarnadas em pequenos grupos de indivíduos (veja, a partir da página 34, quadros com frases dos participantes dos grupos das pesquisas qualitativas). Com esse método, Maria Tereza tem poderes de vida e morte em telenovelas. Através desse processo, as emissoras afinam seus enredos com o gosto da audiência. Polegar para cima, a personagem casa no último capítulo. Polegar para baixo, morre de repente. Todas as redes de televisão são clientes da Retrato. A indústria farmacêutica costuma consultá-la no lançamento de remédios e cosméticos. Através da Retrato, os bancos moldam seus serviços ao gosto do freguês. Mesmo logotipos passam por esses testes de pesquisas qualitativas. RENúNCIA AO SONHO - Com base em sua pesquisa para VEJA, Maria Tereza anuncia: Fernando Henrique é um candidato com "sabor de reeleição". Seus eleitores elogiam nele a perspectiva de "continuidade". Os eleitores de Lula esperneiam contra a promessa de "continuísmo" de FHC. Exceto por idiossincrasias partidárias, num ponto estão todos de acordo: Fernando Henrique significa trocar de presidente para não mudar de rota. Eis o eleitor brasileiro padrão 1994, flagrado pela Retrato e descrito por Maria Tereza: "Depois da queda de Fernando Collor, ele passou a achar, sobre si mesmo, que pode votar mal. O eleitor tem medo de ser tapeado outra vez. A maioria que vota em Fernando Henrique age por cautela, para evitar que as coisas mudem no país de forma imprevisível. O que me bateu, nesta série de entrevistas, foi a sensação de que, tentando ser frio, o eleitor renunciou ao sonho, que sempre foi parte inseparável de uma campanha eleitoral. Nesta, ele se recusou a sonhar". É a ressaca do impeachment, que também aparece num diagnóstico do instituto Fonte, de Belo Horizonte, que trabalha com o mesmo tipo de entrevista. É como se a eleição de 1994 fosse o avesso da festa de 1989, em que o brasileiro estava disposto a alijar de um só golpe de urna toda a velharia institucional. Acabou montando um segundo turno com duas incógnitas - Lula e Collor. Ambos foram içados à disputa final por brasileiros capazes de apostar tudo num salto sem rede para o futuro. A valentia acabou, atesta o dossiê do Fonte: "Os acontecimentos tiveram um impacto forte na população. O eleitorado passou a sentir e ver o Brasil e a eleição presidencial com outros olhos. Ao contrário de 1989, hoje os eleitores enchem o peito para falar de Brasil. Embora em nenhum momento deixem de observar a gravidade da situação atual, há uma tendência de valorização espontânea das qualidades do país e de seu povo. O patriotismo está nos discursos sobre a liberdade que se tem aqui, riquezas e características do país. A auto-imagem de povo acomodado não ofusca mais a admiração pela alegria, pelo bom humor e pela criatividade que se consegue manter apesar de tanto sofrimento". QUíMICA SOCIAL - Ao contrário do que se pensava, não foi a auto-estima do brasileiro que caiu. Ela anda até em alta. O que despencou foi o apreço do cidadão pelas autoridades em geral. "O eleitorado pesquisado não tem dúvida de que o problema é fundamentalmente político e administrativo", conclui o relatório. O sociólogo Sérgio Abranches, tarimbado rastreador dos passos do brasileiro comum, concorda com esse diagnóstico: "A série de decepções políticas dos últimos anos produziu uma química na sociedade brasileira. Está todo mundo querendo deixar para trás o passado. Do ponto de vista do eleitor, tudo se resume a três prioridades: ordem, olhar para a frente e educação". Pior para Luís Inácio Lula da Silva. Se ele agora está perdendo pela segunda vez uma eleição para Collor, não é por causa da invisível semelhança entre o Fernando de cinco anos atrás e o Fernando de 1994, como em vão os petistas quiseram demonstrar. Mas porque o efeito Collor deixou o brasileiro precavido demais para aceitar majoritariamente o convite de Lula à aventura de uma reforma em regra do país. "O cansaço de escândalos potencializou um erro estratégico da campanha de Lula, quando começou a perder a dianteira nas pesquisas. Não adianta atacar o adversário com denúncia", diz Abranches. Pior também para Fernando Henrique Cardoso. O povo que em 1989 votou em Fernando Collor com imprudente confiança agora vota em Fernando Henrique por genérica desconfiança dos políticos, embora seu currículo pessoal seja incomparavelmente melhor que o do homônimo. Ele ganha, mas não leva a alegria popular a reboque. Abranches arremata: "Seu sucesso é também o sucesso de uma campanha chata, em que ele parece estar o tempo todo dizendo: 'Vejam como sou previsível, como não dou sustos, como não jogo lama nos outros, como não dou manchete aos jornais'. É seu modo de anunciar que, com ele, não há riscos". Tomando o pulso do país por outros instrumentos, Carlos Augusto Montenegro, dono do Ibope, chega a conclusões parecidas: "Na verdade, está havendo três eleições simultâneas neste ano. Uma para senador e deputado, marcada pela frieza e pelo desinteresse, ameaçada pela abstenção altíssima. Outra para governos estaduais, em que a tendência é ganharem nomes conhecidos, sem surpresas, porque aí o voto é muito pragmático. Por fim, a eleição presidencial, em que domina a busca da estabilidade. E não só a estabilidade da moeda, mas da vida em geral. Isso favorece Fernando Henrique". Favorece, mas diminui. O que ele ganha de um lado em facilidade para empilhar índices de preferência eleitoral perde no atrelamento de seu passado a seu futuro. O catedrático da Universidade de São Paulo arpoado pelo AI-5, o parlamentar que se aliava à vanguarda sindical contra o atraso social dos governos militares, o marido da professora Ruth Cardoso, o filho do general Cardoso, que há meio século subiu em palanques ao lado do comunista Jorge Amado, o candidato que na reta final da campanha arrebanhou artistas para lhe passarem atestado de bons antecedentes ideológicos - ou seja: o intelectual Fernando Henrique chega à Presidência da República bafejado por um suspiro conservador. O que circunstancialmente convinha ao povo circunstancialmente lhe conveio para facilitar a campanha. PARADOXO DO VOTO - Isso, as cédulas evidentemente calarão. Nelas, sob pena de anular o voto, o eleitor não pode acrescentar vírgula, palavra, reticências ou ponto de interrogação. O regulamento do Dia da Caça é avaro com seu protagonista, o eleitor. Acaba de ratear entre os 11.964 candidatos, que não passam de coadjuvantes da eleição, as 120 horas de propaganda gratuita para, via rádio e televisão, entupir os ouvidos dos brasileiros com promessas, denúncias e até maluquices. É o "paradoxo do voto", dissecado pelo cientista político Marcus Figueiredo, num livro de 1991, de que só é preciso atualizar uma conta acabrunhante: nesta eleição presidencial, o peso de cada eleitor brasileiro na decisão de 3 de outubro é de 0,00000105%. "Esse é o poder do voto de um cidadão. Isso equivale a dizer que, se um indivíduo deixar de votar, sua ausência virtualmente não altera o resultado", escreveu Figueiredo, para perguntar: "Por que vota?" Não é só por ser o voto obrigatório. Pelos cálculos do Ibope, mais de 40 milhões de eleitores estão decididos a ignorar as eleições de deputados e senadores. Mas é porque a aparente desimportância do eleitor individual deriva da importância avassaladora do eleitorado brasileiro global. Há 100 anos, foi eleito o primeiro presidente republicano - Prudente de Moraes, com 276.000 votos, quase três vezes menos do que Lula levou à Constituinte em 1986. O Brasil de Prudente de Moraes beirava, em 1894, 16 milhões de habitantes. Mas a porcentagem de eleitores sobre a população era deliberadamente ínfima, para sustentar um sistema político em que homens públicos de fraque e polaina reinavam sobre um mar de párias. Esse Brasil acabou. Dez anos atrás, quando foi às ruas pelas diretas já, o país tinha 58,6 milhões de eleitores. Ao votar em Collor, passava de 82 milhões. Agora, são mais 13 milhões. Nada cresceu tanto no Brasil como o eleitorado. à medida que cada eleitor, individualmente, se diluía nesse número, multiplicavam-se as suas chances de povoar os palácios governamentais com criaturas tiradas de seu próprio ventre. Lula, por exemplo. E mesmo Fernando Henrique, vinte anos e 35 milhões de eleitores atrás, era um professor proscrito. Crescendo em número, o eleitor é cada vez mais anônimo. Um ilustríssimo desconhecido. Ouvi-lo requer uma técnica especial de amplificação da sua voz, a "pesquisa de qualidade". Há doze anos, Maria Tereza ensinava metodologia de pesquisa na Universidade Gama Filho, quando entrou em atividade no Rio de Janeiro um vulcão de votos, hoje extinto, chamado Leonel Brizola. "Naquele ano, o da restauração das eleições diretas para governador pelo regime militar, ele tomou conta do Rio. E eu propus à minha turma tentarmos estudar por quê. Descobrimos: o carioca votou em Brizola na ocasião para mostrar ao país que não tinha medo de cara feia de general, para o Rio ser vanguarda", lembra a ex-professora. FAIXA VITAL - A bravata do brizolismo custou caro ao carioca e deu lucro a Maria Tereza. Foi assim que, quatro anos depois, ela fundou a Retrato. Ao entrevistar eleitores para VEJA, a sua firma reuniu em cinco capitais (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador) onze grupos de eleitores com idades variando dos 25 aos 45 anos e profissões típicas de classe média. Essa é, segundo Maria Tereza, a bitola de 52,7% do eleitorado. Uma faixa vital para a opinião pública brasileira. Ela explica: "Pegamos com esses grupos o miolo da sociedade brasileira, deixando propositadamente de fora os muito pobres, que vivem sob a pressão da sobrevivência, e os muito ricos, que se julgam acima das contingências políticas. Uns porque não têm o costume de pensar que uma eleição altera suas vidas. Os outros, porque têm a cabeça e a conta bancária em Miami. O eleitor que quisemos ouvir é o que vive no Brasil, do Brasil e para o Brasil. A opinião pública é ele". "Essa grande classe média é mesmo a viga mestra do eleitorado, que desconfia ao mesmo tempo dos miseráveis e da elite predatória", endossa Sérgio Abranches. Foram convidados a falar bancários, funcionários públicos, programadores de computador, professores, comerciantes, comerciários, motoristas de táxi e donas de casa. Por norma desse tipo de pesquisa, sentaram-se às mesas sem saber quem os entrevistava, nem para que, e tinham a garantia do anonimato. Todas as entrevistas, de 16 de agosto, quando a eleição já se inclinava em favor de Fernando Henrique, a 9 de setembro, quando a queda do ministro da Fazenda Rubens Ricupero ricocheteou na campanha, foram testemunhadas por um jornalista de VEJA, incógnito. Por esses gabaritos de renda, emprego e hábitos, Maria Tereza garante que cada entrevistado representava "alguma coisa entre 100.000 e 150.000 eleitores". Encarar essa multidão incorporada em gente de carne e osso toca os nervos até de pesquisadores. Conta Andréa Freire, da Retrato: "Em 1992, fazendo sondagens sobre a eleição do prefeito de Salvador, caiu no meu grupo um vendedor ambulante de picolé. Não tinha sapatos, seus pés eram gretados, faltava a maioria dos dentes em sua boca. E ele não parava de dar graças a Deus por tudo o que tinha. Estatisticamente, eu sabia que esse brasileiro existe. Mas ali, posto na minha frente, era outra história. Eu tinha vontade de chorar". Foi mais ou menos o que sentiu agora João Fábio Caminoto, chefe da sucursal de VEJA em Porto Alegre, presente às duas sessões de entrevistas na capital do Rio Grande do Sul: "Tenho a sensação de que todos ali se esqueciam de que eram objetos de uma pesquisa. Foi muito interessante ouvir o eleitor brasileiro soltar a voz. Eu me senti num Brasil em que cada um colocava sobre a mesa suas opiniões, sem truques, de caras limpas. Deu até vontade de me sentar junto, tomar cerveja e falar o que penso". "CARNEIROS E BURROS" - O editor assistente Gustavo Paul trouxe das sessões em Brasília outras impressões fortes: "Pessoas que vivem separadas iam soltando a língua e, ao fim de duas horas e meia de conversa, aparentemente tinham discutido mais do que em toda a vida. Saíam com ares de quem tivesse desopilado o fígado, com a sensação do dever cumprido". No Rio de Janeiro, a repórter Virginie Leite constatou a vitalidade, numa das três sessões a que assistiu, de uma espécie supostamente extinta - o brasileiro cordial. Seu depoimento: "Os homens se comportaram como se estivessem numa mesa de bar, discutindo política. A reunião entrou pelas 10 da noite. Ninguém se conhecia ao chegar. Ao sair, os entrevistados pareciam íntimos. Um pedindo carona para o outro, trocando tapinhas nas costas, essas coisas". Não faltaram nem piadas: "Brizola é um grande pecuarista: cria carneiros no Uruguai e burros no Brasil". Visto do alto, o país dá a impressão de que passou a última década em exercícios de ordem unida: todos juntos pelas diretas em 1984, depois outra vez contra Paulo Maluf, e para eleger Tancredo Neves no voto indireto, até desembocar na marcha pelo impeachment. Olhado de perto, revela suas nuances. Em Salvador, o chefe da sucursal Ernesto Bernardes ouviu eleitoras declaradas de Lula em diálogos como este: "Os meios de comunicação que o elegeram de repente viram que Collor não servia mais e pressionaram para ele sair", disse uma biscateira de 29 anos, negra. "E Collor teve um aspecto positivo. Aquela história de liberar importações, de aprovar o Código do Consumidor. Eu tenho nojo daquele homem, mas isso eu reconheço", retrucou uma historiadora paulista que, por sinal, foi aluna de Fernando Henrique na USP antes de controlar uma pousada na Bahia. Outro choque heterodoxo: - Lula é o candidato mais legítimo. Digo isso apesar de não ser petista - disse a professora que sempre vota no candidato do PT para presidente. - E o que há de errado em ser petista? - interveio Andréa, a mediadora do debate. - É uma coisa chata, de gente que quer converter você a qualquer custo. Há meses, noutra série de entrevistas, Maria Tereza pediu que um grupo enumerasse exemplos do "Brasil que deu certo". Apareceu, dividindo preferência com a Petrobrás e os Correios, o PT. Parece contraditório. Mas o Partido dos Trabalhadores, ao ser reconhecido como reserva de seriedade, transforma-se para a opinião pública em prerrogativa de militante. Quem não lhe dá tempo integral não se declara petista. DESCONFIADO - Se os políticos tivessem o hábito de ouvir mais e falar menos, fariam uma considerável economia de bobagens. No PMDB, a funerária Orestes Quércia não espalharia que o fiasco de seu candidato, achatado no mesmo porcentual que há cinco anos humilhou Ulysses Guimarães, pelo menos serviu para devolvê-lo às páginas de política, resgatando-o de longa temporada nas bordas da reportagem policial. Instada pela equipe da Retrato a fazer associações livres com a palavra "corrupção", a maioria devolveu de bate-pronto: "Quércia". E Brizola? É "atraso". O horário gratuito tem ibope zero. Certo? Não. "É como escovar os dentes", diz o eleitor. E os pontos cardeais que orientam os políticos? "Direita é quem faz tudo certinho e esquerdista quem vive querendo lhe passar a perna", o editor Igor Fuser, de VEJA, ouviu um entrevistado explicar em São Paulo. Quatro anos atrás, o departamento de lingüística da USP apurou que palavras como essas, brandidas como claves pelos candidatos na campanha presidencial, eram inteiramente ocas para o público. O ex-ministro Rubens Ricupero é um "crápula" como trombeteou Lula ao som do escândalo da parabólica? "Ele foi muito homem, porque outro político teria desmentido tudo", disse um entrevistado no Rio. Sua gafe? "Acho que foi coisa do Roberto Marinho. Ele está apoiando Fernando Henrique e montou tudo isso para pressionar, porque, se um dia Fernando Henrique quiser tirar a concessão, ele tem como se defender." A Rede Globo é a primeira fonte de informação dos entrevistados. As notícias entram em suas casas principalmente através do Jornal Nacional, mas desconfiam de tudo o que a emissora faz. O eleitor é antes de tudo um desconfiado. Vê traços de conspiração até no caso PC Farias: "Não adianta ele ficar na cadeia um tempinho e depois sair bilionário. Nos países civilizados, a Justiça pune a pessoa que roubou, obrigando-a a devolver o dinheiro", disse um advogado no Rio. Até uma lulista acudiu PC em Salvador: "Aqui só se prende ladrão de galinha, os mais humildes. Por que PC está preso? A mulher dele morreu de enfarte porque a pressão sobre ela era muito grande". Explica Maria Tereza: "A Rede Globo surge como símbolo indiscutível da manipulação do voto, justificado pelo apoio à candidatura Collor e, em especial, pelo episódio de divulgação do último debate das eleições presidenciais passadas, quando beneficiou seu candidato através de efeitos de edição. Atualmente, Fernando Henrique é identificado como o depositário dessa preferência da emissora". Há um paradoxo nessa desconfiança. Ao se imaginar teleguiado pela Globo, o eleitor vacina-se contra a manipulação. O brasileiro tende a encarar os escândalos políticos mais ou menos como a Antiguidade via os rififis no Olimpo - desavenças entre seres levianos que passam por superiores. Por exemplo: "Nesse negócio de aparelho de som e filho fora do casamento, a gente já está escolado". O eleitorado brasileiro tem ojeriza aos políticos. Nem por isso defende o fechamento do Congresso, "que idealmente enxerga como uma instância de defesa contra o poder arbitrário do governo, mesmo se funciona mal nas funções de rotina", diz Maria Tereza. "O que o brasileiro vê de positivo no país é ele mesmo", comenta Andréa. Para medir essa distância, Fernando Henrique e Lula foram convidados a jogar perguntas no estoque de respostas previamente recolhido por essas entrevistas. Surgiu um abismo. Lula pergunta: "Será que a força dos ricos, dos poderosos e dos corruptos neste país é tão grande que é capaz de fazer com que um povo tão sofrido, tão humilhado como o brasileiro feche os olhos para seu próprio sofrimento e cometa duas vezes o mesmo erro, trocando o futuro pelo passado?" Responde o eleitor: "Já vimos esse filme antes, mas desta vez o diretor é diferente e o roteirista também. Tivemos ministros da Fazenda que criaram inflação, tiveram o controle da economia nas mãos e deixaram degringolar. Os outros planos mexeram com a vida da gente do dia para a noite. Este, não. Foi colocado nas mãos da gente". Fernando Henrique pergunta: "Será que o Brasil acredita que o Brasil, pela primeira vez, possa dar um salto nos próximos quatro anos?" O eleitor: "Essas coisas demoram. Tivemos duas gerações com exemplos negativos vindos de cima. São reflexos dos governos que tivemos. Erramos com Collor. Pode ser que erremos com Fernando Henrique ou Lula, com quem quer que seja. Isso faz parte da educação política. Pode ser que nossos filhos venham a votar certo". O eleitor tem cara. Ela não consta dos retratos oficiais da campanha.
•94,7 milhões de eleitores estão habilitados a votar O povo diz que o governo de FHC seria tranquilo... "Sinto como se estivesse num avião em que Fernando Henrique é o piloto. Se não apóio, me esborracho." ...acha que não deixariam LULA governar... "Fico numa tremenda expectativa. Quero votar no Lula, mas ouço muito comentário de que, se ele ganhar, seis meses depois os militares tomam conta." ...pensa que COLLOR foi traído... "Não votei no Collor, mas, a partir do momento em que assumiu, era presidente do meu país e, por isso, eu queria que tudo desse certo." ...exagera o poder da REDE GLOBO... "A Globo assumiu o Fernando Henrique Cardoso como assumiu Collor. Meu voto é do Fernando Henrique." ...diz que RICUPERO foi uma vítima... "Ele foi muito homem, porque outro político teria desmentido tudo." ...que o POVO é a melhor coisa do país... "O cara sai de madrugada para trabalhar, não sabe se volta. Dá um duro desgraçado e no fim do mês recebe salário baixíssimo, que mal dá para o custeio dele, quanto mais sustentar mulher e filhos. E, no entanto, chova ou faça sol, está lá na empresa, cumprindo seu horário. E ainda com aquela esperança de que o Brasil um dia vai mudar, vai melhorar." ...fala que o REAL é um sucesso... "O Tribunal Superior Eleitoral divulgou ontem que 34 milhões de eleitores são analfabetos. Então, dizer que o mercado de imóveis e o de carros está aquecido e tomar isso como critério de que o Plano Real deu certo é um absurdo total." ...vê o ESPORTE como redenção... "Nenhum político teria a manifestação que o Senna recebeu quando morreu. Nem ele sabia que era tão querido. Eu me emocionei, e não ligo para automobilismo. Aquilo mexeu com o povo. Foi sofrido, difícil, mas deu um senso de união muito grande." ...tem respeito pela ESQUERDA... "O PT é o único partido de personalidade. Não se coliga com quem pensa diferente dele, como o PFL." ...e admiração pela DIREITA. "Voto em Enéas porque quero votar numa coisa diferente. Sempre anulei meu voto." |
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