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2 de março de 1994
Luís Inácio
Sinatra
Lula da Silva

O PT discute fumaça e o seu
candidato vai para a estrada, aplaca
a direita e afaga a esquerda

Rogério de Moraes, 32 anos, auxiliar de enfermagem, fundador e presidente do Partido dos Trabalhadores de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, é um petista de mostruário. Cabelo até os ombros, jeans, pasta e uma prisão na memória. Chegara o seu grande dia. A quadra do ginásio municipal, próxima ao obelisco que lembra a rendição do general paraguaio Estigarríbia a dom Pedro II, estava enfeitada com bandeiras vermelhas, e a Caravana da Cidadania, com Luís Inácio Lula da Silva a bordo, acabara de estacionar. Mal terminara o Lula-lá, Ronaldo Zulke, presidente do PT gaúcho, perguntou-lhe: "Onde estão os arrozeiros?"

Novamente os arrozeiros. Rogério sabia havia dois meses que a direção do partido queria um encontro com esses prósperos e inadimplentes ruralistas da região, responsáveis por 85% da lavoura do município, o maior produtor do país. Havia dois meses respondia com a ritualística petista: se Lula vem a Uruguaiana para debater com todos os segmentos da comunidade, a camada do arroz deve vir ao ginásio em condições de igualdade com os outros setores da sociedade civil organizada.

José Luis Cadorin, presidente da Associação dos Arrozeiros, com 1.600 hectares plantados e a representação das máquinas Massey Ferguson na cidade, também estava no ginásio. Sabia havia um mês que Lula queria conversar. A reunião podia ser pública, desde que fosse exclusiva. Ofereceram-lhe uma sala ao lado do palco, mas era pequena. Viu Zulke e avisou-o de que o segmento decidira esperar Lula no salão nobre da prefeitura, onde o presidente do Brasil e o da Argentina costumam encontrar-se quando passam pelo pedaço.

CADEIRA VAZIA - Enquanto um feliz dirigente do PT local informava a Lula que os arrozeiros tinham ido embora, Zulke encaminhou-lhe a proposta. Negócio fechado, o dia era de Cadorin. Uma hora depois, com uma camiseta suada e boné vermelho, Lula chegava à prefeitura para ouvir a agenda dos empresários: menos importações, mais subsídios e pouca cobrança para suas dívidas. Disse-lhes que "a elite brasileira fracassou", condenou as importações, prometeu subsídios e deixou a questão das dívidas para outro dia.

Na mesa havia uma cadeira vazia. Era a de Rogério, que preferira ficar com suas queixas:

- Perdemos. O partido quer falar com eles. Os arrozeiros tripudiaram sobre os setores populares.

- Como fica o petista de Uruguaiana, humilhado na hora em que o senhor foi ao encontro dos arrozeiros?

- Não se pode misturar debate com empresários com debate com a militância porque vai virar tudo um debate da militância.

- E como ele fica?

- Ele é o que eu era em 1972. Tudo para mim era xingar a Mercedes, a GM e a Ford. Se você vai para um sindicato, isso muda, você olha para a categoria. Se você faz um partido, tem de olhar para a sociedade. Para ele, o mundo é o PT. Eu tive um tempo em que o meu mundo era a Villares. Ele se ampliou, mas não quero abandonar o Lula de 1972. Ele é o oxigênio que eu preciso para ser o Lula de 1994.

Lula-94 está sozinho na estrada. Faltam sete meses para a eleição presidencial e ele está na frente, com 30% das preferências, diante de adversários amedrontados e ainda incapazes de produzir candidato com 20% de peso. Segundo o Mapa das Elites, um levantamento da consultoria Fato, Pesquisa, Jornalismo, a taxa de medo a Lula subiu de 54% em setembro para 80% no início de fevereiro. Na semana passada, enquanto sua caravana atravessava 28 municípios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o PT parecia rachado ao meio. De um lado, Lula-72, encarnado pela bancada de esquerda da Comissão Executiva, de outro, Lula-94, mais moderado, buscando alianças e desfazendo temores. Trata-se de uma briga apaixonada porém irrelevante. Algo como uma eventual rebelião da equipe técnica que acompanha Frank Sinatra, inconformada com a escolha de um novo repertório. A equipe é capaz de tudo, menos de cantar.

SEM-TERRA, SEM-SAPATO - Luís Sinatra da Silva troca de camiseta cinco vezes por dia, dorme quatro horas por noite. Sentado na primeira poltrona do ônibus de turismo de sua caravana, ouve pequenas exposições antes de descer numa cidade. "Sete arrozeiros da região de Uruguaiana são responsáveis por mais de 50% das dívidas do setor", "a mortalidade infantil em Alegrete é a maior do Rio Grande do Sul" ou "os Ilgenfritz são uma das principais famílias de Ijuí". às vezes, está sem a camisa molhada, que foi estendida sobre a televisão. Na saída de um assentamento de Sem-Terra, voltou ao ônibus calçando duas bolas de lama e tornou-se um Sem-Sapato. Pode elogiar um bom leitão em Concórdia, mas não há força no mundo que o faça reclamar dos churrascos graníticos que tritura. Desta vez não está para brincadeira. Seus seis seguranças têm aqueles pequenos microfones japoneses que aparecem em comitiva de filme americano. A caminhonete que puxa a caravana tem dois rádios e ao lado do motorista vai um navegador com um mapa da estrada (de Ibirubá a Carazinho há seis lombadas, três delas dentro do município de Victor Graeff). Cada cidade tem sua pasta (com um só hospital, Itaqui está muito abaixo da média de leitos por habitante do Estado), cada assunto tem sua cor (o arroz tem capa amarela, os suínos catarinenses, laranja). Aborrece-se quando descobre que por falta de aviso deixou um prefeito do PPR esperando-o no saguão do hotel. Viu os ruralistas puxarem o Hino Nacional em Ijuí na manhã de segunda-feira, puxou-o em Erechim na noite de terça. Salvo pela insubmissão vocabular ("cidadões", "as leis não são cumprida"), Lula-89, nunca mais.

A caravana é puxada por dois camelos. Um é José Graziano, 44 anos, casado, dois filhos, professor titular de economia agrícola da Unicamp, latifundiário (seu pai tem 2.000 hectares em São Paulo). Carrega consigo não só um arquivo mas também uma loja de artigos de escritório, com lupa, grampeador, fita adesiva e tesoura. Com doutorado na Universidade de Londres, é capaz de tomar chá com sagu. A serenidade de sua voz pode enlouquecer um interlocutor. Os ruralistas inadimplentes têm direito a receber de volta o prejuízo que o Plano Collor lhes impôs? "Têm, é direito certo. Deles e dos demais setores afetados, como as categorias de assalariados que foram apanhadas no contrapé do dissídio." Suas pastas contam histórias incríveis. Em 1991, o Banco Central registrou o financiamento de 950.000 hectares de arroz colhido, mas o IBGE só achou 900.000 hectares de arroz plantado. Na reunião de Uruguaiana, ponderou modestamente que nos últimos dez anos a agricultura já ganhou duas anistias financeiras e "não se pode acumular uma dívida na esperança de que ela não será paga". O segundo camelo é Wander Bueno do Prado, 41 anos. Ele faz a caravana andar. Ex-metalúrgico de São Caetano, apanhou da polícia na greve de 1981, ano em que conheceu Lula. Escolhe os hotéis, confere as estradas, comanda a segurança e controla os papagaios de pirata. "Ontem mesmo houve um companheiro que se esqueceu de sair de trás do Lula", disse a caminho de Ijuí. Em caso de colapso mecânico um novo ônibus haverá de aparecer em quinze minutos. Num colapso político, Wander desembarca Lula em São Paulo ou em Brasília em três horas. Durante a campanha de 1989 pleiteava a Embaixada do Brasil no Líbano: "Vai ser muito mais tranqüilo". Hoje não gosta que se repita a piada.

SANTA NOSTALGIA - Tudo seria mais simples se este Lula não fosse como aquele que passou, mas só ele decide quais faixas tocam o 94 ou o 72. Em Santana do Livramento, num comício que começava em território brasileiro e ia até a cidade uruguaia de Rivera, do outro lado da praça, falou em "conquistar a sociedade socialista". Era uma sessão nostalgia na qual se tocou Caminhando, saudou-se Che Guevara e pela primeira e última vez viram-se foices e martelos nas bandeiras. Santa nostalgia, de um tempo em que as ruas de Rivera eram o caminho da liberdade. Do alto do palanque, Marco Aurélio Garcia e Flávio Koutzii, dois PT-94, lembravam-se de suas fugas. Um em 1964, outro em 1970, com documentos falsos. Garcia, professor da Unicamp e coordenador do programa do partido, acabara de dinamitar uma aproximação do ex-ultra-esquerdista argentino Mario Firmenich com Lula e almoçara há poucos dias com o banqueiro paulista Olavo Setúbal. Koutzii, deputado estadual, é um dos principais defensores da política de alianças do partido. Perto deles, o presidente da Frente Ampla de Rivera, o ortopedista Juan Pedro Silva Antuña, 65 anos, preferia esquecer: "Os tempos hoje são outros. Não há por que lembrar isso. Durante as duas ditaduras, a de vocês e a nossa, eu sempre tive a esperança de ver um comício desses, mas achava que era uma coisa meio irreal". Ele recebia brasileiros que se fingiam de doentes. Passou uns quinze.

No dia seguinte, em São Borja, a Caravana da Cidadania ergueu uma barreira de ferro a uma das mais caras nostalgias dos candidatos populares da política brasileira. Não só Lula passou pela terra natal de Getúlio Vargas sem visitar-lhe o túmulo como nem sequer lhe citou o nome. O senador José Paulo Bisol, orador talentoso que fala com a mímica de Elba Ramalho e o olhar de Hannibal, the Cannibal, valeu-se dos Evangelhos para explicar que perdera a voz e de Nietzsche para contar que esquecera os óculos, mas passou ao largo da memória do "Velho". Na vizinhança de Vargas o gesto não caiu tão mal. "Podia ter vindo, mas vai ser o futuro presidente do Brasil", diz Setembrino Dornelles, 29 anos, zelador do jazigo de mármore branco de onde roubaram o retrato esmaltado do ditador. "Votei nele, podia ter vindo, mas esse tempo passou, hoje vem pouca gente", admite Alvemar Marques Wertonge, 61 anos, motorista de táxi, dono da casa em frente, que em 1954 viu Getúlio chegar. Nenhuma concessão ao trabalhismo. Nem ao refinado Alberto Pasqualini, que em 1947, quando Luís Inácio Lula da Silva tinha 2 anos, prometia vida longa aos "capitalistas que souberem realmente compreender a verdadeira função do capital". Nem sequer a Fernando Ferrari, o "homem das mãos limpas", cujo filho acaba de entrar para o PT. "Eu não tenho nada com o Getúlio. Entrei no movimento sindical fazendo oposição a Getúlio. Seria um desrespeito à memória dele", explica Lula.

TROGLODITAS - Lula-94 apareceu com toda a sua audácia em janeiro, quando visitou o projeto Jari, empreendimento megalomaníaco do miliardário americano Daniel Ludwig, que nos anos 70 despejou 6 milhões de dólares no Pará e viu-se chuçado do Brasil por uma coligação de nacionalistas de direita e esquerda. Ludwig morreu em 1992, seu empreendimento foi transferido para um consórcio de empresários brasileiros tonificado por empréstimos oficiais e hoje vai de vento em popa. Depois de ver uma fábrica de celulose trazida do Japão por mar, de conversar com posseiros e com desempregados, Lula rendeu-se. "Passei vinte anos esculhambando o Ludwig, mas o negócio que ele fez é impressionante", contou a um grupo de petistas gaúchos que o acompanhava.

- Ludwig estava certo. Lula estava errado?

- Eu achava que estava certo. Pensava que ele queria fazer um enclave americano no Brasil. Ele foi um sonhador. Para os padrões brasileiros era um homem muito avançado. Sobretudo se a gente o compara com os trogloditas que há por aí. O negócio é o seguinte: a cidade que tem lá só existe porque tem a fábrica. O hospital só existe por causa da fábrica. O município quase que só arrecada imposto da fábrica. No tempo dele havia um pedaço onde trabalhavam 600 pessoas. Hoje tem lá um cidadão criando peixe, sem empregar ninguém. Esse pessoal tem saudade do tempo do Ludwig.

Em oito dias de caravana, Lula fez cerca de cinqüenta discursos, da prefeitura de Uruguaiana, com seus lambris e retratos de quatro gerações de criadores que governaram a cidade, a um galpão de Não-Me-Toque, com as paredes sujas e dois retratos do ultra-esquerdista Carlos Marighella, assassinado em 1969. Transformou-se num entrevistador tipo Silvio Santos em Rosário do Sul ("O senhor pediria para baixar a inflação?") e num moderador de debates em Concórdia ("Se eu sair prometendo coisas nós vamos ter um PIB de 450 bilhões de dólares e 5 trilhões em promessas. Vou ser mais um mentiroso que passou pelo Brasil"). Dias antes, numa decisão que passou praticamente despercebida, a direção do PT decidiu que as novas versões de seu programa deverão evitar quantificações específicas. Assim, ele é a favor da reforma agrária, mas não dirá mais que pretende assentar 1 milhão de famílias em quatro anos. Primeiro porque não sabe se terá dinheiro para isso. Segundo porque, como ninguém supera a esquerda em promessas declaratórias, logo depois de o PT ter falado em 1 milhão, a coligação teocoletivista do Movimento dos Sem-Terra pediu 2.

NEGO OLHANDO FEIO - O roteiro da caravana foi um produto de engenharia política. Passou das intermináveis estâncias do pampa às pequenas propriedades das montanhas. Atacou o latifúndio improdutivo, avisou que magnata do Sul com mais de 500 hectares sem uso perderá para a reforma agrária, mas criou situações que lhe permitiram a convivência com os latifundiários. Em Uruguaiana agradeceu uma exposição de Walter Borin, 3.500 hectares de arroz, dono de pelo menos quinze minutos de pasto da estrada que a caravana acabara de percorrer. Borin falou em nome da Federarroz declarando-se inadimplente, como "milhares de pequenos produtores que estão na iminência de perder suas terras". Em Ronda Alta, Lula soube pela presidente do PT que havia alguns representantes da UDR na platéia. Mirou num e atacou: "Tem nego aí olhando feio enquanto a gente fala. Em 1989 diziam aqui nesta cidade que se o Lula ganhasse ia tomar a terra de todo mundo. Tudo mentira. Temos de repensar a quantidade de mentiras que se contam neste país".

Na alma de Lula-94 há certo rancor pelo que fizeram com Lula-89. Inicialmente contra os adversários que o transformaram em "comedor de criancinhas". "O que nos assustava era ver gente com 5 hectares amedrontada." Foi à forra com ironia depois de ouvir ruralistas chamarem os banqueiros de "gatunos" e de se queixarem de ter perdido 20 bilhões de dólares para o setor financeiro: "Fiquei muito feliz de ver essas estatísticas, porque não passou petista pelo Ministério da Agricultura, mas passou uma praga de gafanhotos pela lavoura". O rancor, contudo, estende-se ao próprio eleitorado. Em Livramento: "A responsabilidade é nossa. Temos de criar vergonha na cara e eleger pessoas dignas". Em Rosário do Sul, debaixo de uma imagem da Virgem de Fátima: "Quem colocou os ladrões lá? Não foi obra de Deus, foi o voto do povo". Diante das ruínas das Missões, em São Miguel: "Eu tenho pena do povo brasileiro. Acho que o Collor foi uma lição definitiva para aprendermos que o povo brasileiro não pode mais acreditar em mentiras".

NINGUÉM COME AÇO - Lula parece viver em dois estados. Ou está calado ou está discursando. Quando discursa, tende a ser mais agressivo de pé do que sentado. Em sua caravana sulista revelou-se um adversário da abertura do mercado brasileiro aos produtos agrícolas do Mercosul, mesmo sabendo que a queda das barreiras tarifárias na região permitiu que as exportações gaúchas para a Argentina, o Paraguai e o Uruguai crescessem 68,5% no ano passado. Graças a essa expansão, o Rio Grande tornou-se o segundo maior Estado exportador do país, desbancando Minas Gerais. Defendeu uma política de subsídios agrícolas, chegando a condenar os falecidos estímulos à siderurgia e à petroquímica: "Ninguém come aço, ninguém come nafta". Argumenta que, através de uma política agrícola competente, será possível produzir alimento suficiente para dar a cada brasileiro três refeições por dia. Quando percebeu que os ruralistas repetiam que "campanha não acaba com a fome", devolveu: "O PT propôs um plano de segurança alimentar e indicou o Betinho. Nós fizemos a nossa parte". Suprema gentileza, mencionou mais vezes os 20 milhões de dólares roubados pelo deputado João Alves do que o decreto legislativo pelo qual os ruralistas receberiam de volta a correção paga sobre seus empréstimos, despesa estimada pelo Banco do Brasil em 97 bilhões de dólares. Nessa área entrou apenas o deputado Adão Pretto (cabelos castanhos, olhos azuis), eleito pelos Sem-Terra: "Nós do PT votemu contra o fim da correção monetária. Dos 97 bilhões de dólares, só 5% é do pobre. Com esse dinheiro dava para comprar 13.712.000 Fuca. Eles dava a volta na Terra e ainda dava para ir daqui de Novo Barreiro a Porto Alegre".

Em qualquer caso, como sucede a caravaneiros de todas as latitudes, Lula repete conceitos, histórias e faíscas. Poucos foram os lugares onde não repetiu a base de sua proposta: fará uma reforma agrária para dar comida a todos os brasileiros e um lugar na escola a cada criança. Junto, incluía duas estatísticas: os 32 milhões de indigentes e a evasão escolar que leva ao 2º grau apenas 23 em cada 100 crianças que entram nos colégios.

Para esquentar a platéia:

- O Bisol me contou que esse Ricardo Fiúza, o dos bigodões, teve 1.161 títulos protestados. Se o pobre deixar de pagar uma dívida, fica sem a terra, fica sem a casa.

- As autoridades brasileiras não conhecem o Brasil. Conhecem as ruas de Paris, de Roma, falam francês, até chinês, mas não conhecem o país. (Quarenta e oito horas depois de ter passado alguns momentos no extremo sul do país, adquiriu direito à frase: "Conheço o Brasil do Oiapoque ao Chuí".)

- Essa elite que governa o Brasil desde a Proclamação da República fracassou.

Em dois casos o estoque revelou-se ralo. Em Ronda Alta, berço do Movimento dos Sem-Terra, o galpão estava frio. A cidade é governada por um prefeito petista que fundou uma farmácia popular e comprou o hospital privado. Moralizou-o, reduziu as internações à metade e devolveu ao Ministério da Saúde o dinheiro que vinha sendo roubado. Lula falava em falta de leitos e em remédios caros. Faltava pouco para o fim do discurso quando se valeu da arma infalível: pediu o confisco dos bens de Fernando Collor. Aplausos. Diante de 1.000 pequenos produtores do oeste catarinense, habituados a um sistema de produção pelo qual a agroindústria lhes vende os insumos e compra os porcos e frangos, nada parecia funcionar. Acabara de varrer para fora do tapete uma velha briga do PT com o sistema integrado dos cinco grandes frigoríficos, reconhecendo-lhes as virtudes, mas pela primeira vez em toda a caravana o número de pessoas que o ouvia era menor do que aquele que o vira entrar. Falou em garantia de preços e os aplausos chegaram.

PLUTOGOGIA - Um candidato a presidente que viaja pelo Sul oferecendo menos importações, mais subsídios e melhores preços é coisa tão velha quanto o pasto. Em geral começam por Livramento e diferem apenas no estilo. Rombudo, o brigadeiro Eduardo Gomes gastou mais tempo em 1950 falando da qualidade dos "plantéis de raças selecionadas" do que de lavradores. Getúlio Vargas, muito mais esperto, prometia "baratear o custo de vida e melhorar as condições das classes trabalhadoras". Um prometia "vultosos créditos bancários a juros módicos" e o outro, simplesmente "crédito barato". Lula não se deu à plutogogia e, sempre que falou em dinheiro, demonstrou uma opção preferencial pelos pequenos produtores. "Muito bom, mas enfatizou demais o pequeno e o médio produtor. O grande deve ter o mesmo tratamento que eles", atesta Albano Luiz Segabinazzi, 57 anos, 3.600 hectares de arroz em Uruguaiana e "alguma coisa" no Uruguai.

Lula quebrou a escrita de todas as campanhas presidenciais, inclusive da sua em 1989. Dividiu-se entre os grandes plantadores e os pobres assentados por programas governamentais e invasões, confundindo-se deliberadamente com os Sem-Terra. Lula-94 é capaz de fazer coisas que Lula-72 não fazia, mas a naturalidade com que se meteu nos caminhos de barro dos assentamentos indica que esse Lula recente é capaz de qualquer coisa que o de 1972 tenha feito.

- No PT tem radical sim. E dependendo do assunto eu sou de ultra-esquerda. Talvez eu esteja mais próximo dos Sem-Terra que muitos companheiros do PT. Uma coisa é eu estar em São Bernardo comendo pizza e analisando o problema deles. Outra coisa é eles estarem no meio daquelas terras se matando que nem cavalo. Eles têm de ser radicais. Para eles é vencer ou morrer. Aí vem o abonado do PT e diz que eles são radicais. Se há uma coisa que eu compreendo é o radicalismo da base. Eu não posso compreender o radicalismo do professor da USP, mas o do peão eu entendo. Se ele não for radical, não existe. Outro dia eu chorei ouvindo uma poesia de uma menina de 10 anos contra o Collor. Havia um ódio incrível no que ela dizia. Ela falava com um ódio que a gente nem espera numa criança daquela idade. Mas que ódio era? O de quem não come. Ela está com fome, não tem Natal, não tem aniversário, não tem nada.

COBRA MAL MATADA - Radical, para os Sem-Terra, não é insulto. Como diz o deputado Antonio Marangon, "a burguesia, companheirada, está que nem cobra mal matada, recebeu uma paulada e só está esperando a hora de dar o bote". Um dos seus líderes pode informar, com a naturalidade de quem diz as horas, que no próximo dia 1º eles deverão movimentar Florianópolis. Planejam invadir a Secretaria de Agricultura, a sede do Incra e a companhia de eletricidade, "para agilizar umas coisas que eles prometeram". Uma guarda de Sem-Terra encarregada da segurança de Lula debaixo das ruínas das Missões desacatava ordens dos coordenadores da caravana e do diretor do museu anexo à Igreja de São Miguel. Lula visitou quatro assentamentos, todos voltados não só para a idéia de dar terra a quem nela quer trabalhar como também para a proposição do trabalho cooperativo. O primeiro, em Itaiba, é um verdadeiro sucesso. Nele vivem 100 famílias, onze das quais associadas num sistema comunitário em que a propriedade é contabilizada através da soma das obras trabalhadas. Os demais assentados preferiram a propriedade individual e também vão bem. "Estou por cima da carne-seca", conta Hélio Bellini, 50 anos, casado, três filhos, eleitor de Lula. Ele tem 30 hectares, carro, trator, vinte vacas, 2.000 galinhas, quarenta porcos e colheu 1.000 sacos de soja. "Sou a favor da reforma agrária", diz Bellini, "mas sou contra o invadismo." Não tem nada contra o trabalho comunitário, "mas prefiro ficar independente". Economizou para ajudar os filhos a comprar pequenas propriedades e aborrece-se quando conta que na cooperativa há famílias que enviaram os filhos a acampamentos de Sem-Terra para ocupar áreas improdutivas alheias. Bellini ouviu Lula, mas o candidato petista não ouviu um só assentado na ortodoxia privatista, aquela de quem quer terra com cerca para escrever o próprio nome na porteira.

Invadismo é uma incorreção vocabular, mas invasão é uma palavra politicamente incorreta. Diz-se ocupação. "Ocupar, Resistir, Cultivar" é o lema dos Sem-Terra. No Rio Grande do Sul há noventa assentamentos e em 85 deles os Sem-Terra entraram sem a permissão dos donos. Na maioria dos casos a questão ("conquista", em sem-terrês) foi resolvida indenizando-se o proprietário. Há hoje no Estado 1.400 famílias acampadas, esperando a sua hora. Lula visitou o assentamento do Holandês. São 150 pessoas em 700 hectares. Produtiva e mecanizada, a cooperativa é um desmentido à lenda segundo a qual os assentados do Sul do país não conseguem andar com as próprias pernas. Seu administrador chama-se José Cê, tem 39 anos, 1,89 metro, 109 quilos e a viva lembrança das pancadas que levou da Brigada Militar durante os dias em que viveu acampado à beira da estrada. Tem a soberba dos bem-sucedidos: "Devemos uns 35.000 dólares ao Banrisul e nunca atrasamos uma prestação. Nós não somos inadimplentes".


Em marcha com velhos amigos

O não petista e o que tem medo de apanhar

A Caravana da Cidadania que atravessou o Rio Grande do Sul e Santa Catarina e nesta semana acaba em Londrina, no Paraná, custou 30.000 dólares, tudo com recibo e nota fiscal. O PT de cada um dos três Estados deu 8.000 e a direção nacional entrou com a diferença. É uma caravana de velhos amigos de Lula, quase todos vindos do movimento sindical. Só numa caravana petista haveria um Freud e só no Brasil um Freud a serviço de um candidato a presidente da República seria o chefe da sua segurança. O único que não tem carteira do PT é Ricardo Kotscho, 45 anos, trinta de jornalismo, dois prêmios Esso e responsável pela introdução da palavra "mordomia" no vocabulário político nacional. Foi uma reportagem de Kotscho, publicada em O Estado de S. Paulo em 1976, que mostrou ao país, graças à gradativa suspensão da censura no governo do general Ernesto Geisel, como viviam os poderosos do regime. "Eu acho que até para ser assessor de imprensa você não pode pertencer a partido político. Além disso, tem a vantagem que eu posso dizer o que bem entender, na hora que eu quiser, e não passará pela cabeça de ninguém pedir a minha expulsão."

Kotscho conheceu Luís Inácio da Silva no fim dos anos 70, quando foi mandado para o ABC, onde aparecera um tal de Lula falando em reorganização do movimento sindical. É dele a idéia das caravanas. "Se eu tivesse feito só isso, como cidadão e como jornalista, já estaria satisfeito." Fez mais.

Foi dele também a idéia de levar Lula ao Estádio do Morumbi no sábado 17 de dezembro de 1989 para um memorável Vasco versus São Paulo. Um dos filhos do vascaíno Lula queria torcer para o São Paulo, mas na última hora desistiu. Foram de qualquer maneira e resultou no seguinte: na véspera da votação do segundo turno, Lula entrou no estádio para torcer pelo Vasco. Por isso, e por ser Lula, tomou imensa vaia e foi hostilizado pela galera de griffe das cadeiras cativas que cantou o Hino Nacional em homenagem a Fernando Collor.

SEGURANÇA DO AGRESSOR - Enquanto Kotscho é um assessor de imprensa que raramente aparece e detesta fotografias, José Carlos Espinoza, 39 anos, 2,02 metros, 112 quilos, é uma espécie de pau para toda obra invariavelmente confundido como agente de segurança. "Eu esquento comício, pego charuto, carrego mala, seguro elevador, tomo conta de porta. Até o Lula acha que eu sou segurança dele. Um dia vai acabar apanhando por causa disso." Apesar disso, em 1989, quando um descontente quebrou um ovo na cabeça de Lula em Osasco, foi Espinoza quem o tirou da multidão que tentava linchá-lo. "Até hoje tem gente que me goza porque eu garanti a segurança do agressor em vez de proteger o Lula." Numa prova de que tamanho não é documento, Espinoza nunca brigou na vida. "Eu apanhei do meu pai até os 18 anos de idade, tenho um medo terrível de apanhar."

Espinoza, ou Espina, é uma das poucas pessoas capazes de tirar Lula do meio de uma manifestação e levá-lo para um carro sem parar no caminho. "Bicho, agora é melhor a gente ir direto para o carro." Se a aglomeração se torna ameaçadora, avisa: "É melhor abrir espaço porque desse jeito eu estou começando a ficar nervoso". Seus lemas: "Se chover Xuxa, cai Pelé na minha cabeça" ou "Governo do PT não é negócio para mim. Eles não gostam dos grandes".


A grande guerra escondida

Lula alheio a pelados e peludos

Na sexta-feira da semana passada Luís Inácio Lula da Silva visitou a réplica da velha estação de Rio Caçador, em Santa Catarina. Nela funciona o Museu do Contestado, com a história de uma guerra varrida para baixo do tapete da historiografia nacional. Durou de 1912 a 1915, morreram 10.000 caboclos e pelo menos 1.000 soldados. Nela o Exército usou pela primeira vez seus obuses e deram-se os primeiros vôos e o primeiro desastre da aviação militar brasileira. Mistura de guerra camponesa com movimento messiânico, foi maior que Canudos na extensão e no massacre. Foi produto da conjunção de uma briga de coronéis, uma disputa de limites e um intenso processo de expulsão dos caboclos que vagavam pelo mato. "Foi um genocídio imposto a um povo que vivia livre e não queria ser oprimido", diz o historiador Nilson Thomé, o maior conhecedor do assunto.

Guerra estranha. A história do Exército brasileiro não a menciona. O capitão Ricardo Kirk, cujo avião se espatifou num morro há oitenta anos, ficou num pequeno cemitério catarinense até 1943, quando seus ossos foram levados para a Cripta do Aviador, no Rio de Janeiro. Desde então sua memória foi esquecida. Há poucos anos descobriu-se a exata localização da sepultura do "monge" José Maria, cujas visões produziram a centelha da encrenca, mas tanto o caboclo que tinha o segredo quanto o confidente com quem ele passou a reparti-lo preferiram não mexer na ossada. Pouco se sabe de Maria Rosa, uma garota de 15 anos que comandou colunas de 1.000 homens montada num cavalo branco com a sela enfeitada de flores. Ou ainda de Adeodato, um jagunço feroz que começou matando soldados e acabou liquidando seus melhores amigos. Pelas forças do governo combateram como jovens oficiais os futuros generais Henrique Lott e Euclides Figueiredo. Lott testemunhou a Nilson Thomé o efeito da fome e do tifo para quebrar a vontade dos caboclos sitiados pela tropa. Denominavam-se "pelados" e raspavam as cabeças, chamando os soldados de "peludos".

Desde que o atual senador Esperidião Amin socorreu a memória dos caboclos mortos no Contestado, tratar do assunto deixou de ser coisa de agitador, mas Lula, mesmo tendo incluído a visita ao museu em sua agenda, passou ao largo do assunto. Dias antes, falando a uma platéia petista diante das ruínas da Igreja de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, lembrou os índios, os quilombos, Canudos e até mesmo as perseguições do regime de 1964. Contestado, nada. Visitou o grande salão onde numa parede estão preservados dois facões de madeira usados pelos caboclos, demorou-se olhando velhos fuzis, mas minutos depois, quando subiu num caminhão e discursou para 300 pessoas, não se referiu ao que vira. Preferiu relembrar que, "enquanto uma criança que rouba um pão ou até mesmo um relógio é posta na cadeia, o João Alves, que roubou 50 milhões de dólares, está solto".

Sua visita a Caçador relacionava-se mais com as bases militantes da Igreja, com as quais se reuniu no imenso auditório da universidade. Com dois bispos à mesa, declarou ser eticamente contrário ao controle da natalidade. Seu primeiro programa previa uma visita ao centro de formação de líderes do Movimento dos Sem-Terra, mas a suspensão dos cursos e a época de colheita impediram que visitasse a escola, no velho seminário da cidade, verdadeira casa mal-assombrada para os fazendeiros da região. Eles a apontam como se, além de formar Sem-Terra, fizesse parte de algum projeto clandestino de agitação no meio rural. Na realidade, o centro funciona dentro das leis, como a Confederação Nacional da Agricultura.


 
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