Ponto
de vista: Stephen
Kanitz Intenções por trás
das palavras
"Se não nos
preocuparmos em detectar
a agenda oculta de quem nos prega alguma
coisa, seremos presas fáceis dos que falam
bonito e escrevem melhor ainda"
Muitos escritores,
cientistas e formadores de opinião usam e abusam de
nossa confiança. Sutilmente nos enganam para defender
os próprios interesses. É o que em epistemologia
chamamos de "a agenda oculta". É assustador o número
de filmes de Hollywood que têm uma agenda oculta, e
como caímos como uns patos acreditando em tudo. Eu
sempre desconfio da agenda oculta de escritores, colunistas
e pseudocientistas. É a primeira coisa que tento adivinhar.
Ele, ou ela, está querendo me dizer exatamente o quê?
Que bronca carrega na vida? Ele é separado, foi um
dia traído, multado, preso ou ludibriado?
Ilustração
Atômica Studio
Quanto mais velhos ficamos, mais percebemos quanta agenda
oculta existe por trás de quase tudo o que é
escrito hoje em dia no Brasil e no mundo. É simplesmente
desanimador.
Salman Rushdie,
o autor de Versos Satânicos, ao responder recentemente
a por que preferia escrever ficção em vez de
livros técnicos, afirmou: "Na ficção
pegamos o leitor desprevenido". Desprevenido significa sem
a vigilância epistêmica necessária para
perceber o que o escritor está tentando fazer. É
mais fácil uma feminista radical escrever um livro
de ficção em que todos os personagens masculinos
são uns calhordas do que escrever um livro de sociologia
dizendo que "todo homem é um canalha", o que resultaria
em processo judicial. Por isso, prefiro sempre artigos que
apresentam tabelas, números e outras informações
concretas em vez de "idéias", opiniões e indignações.
É justamente isso que editores de livros no mundo inteiro
nos aconselham a evitar, porque senão "ninguém
lê", o que infelizmente é verdade.
Mas é justamente
isso que deveria ser lido. Queremos dados agregados, que são
difíceis de arrumar, para nós mesmos fazermos
nossas interpretações. Se houver uma equação
complicada, melhor ainda, porque equações nos
revelam regras, relações entre variáveis
e tendências. É a isso que se chama ciência.
A opinião dos outros sobre um fato isolado é
conversa mera e efêmera. Daqui a um mês ninguém
mais falará de Renan Calheiros, assunto que coletivamente
nos ocupou por quatro meses.
Infelizmente, somos
uma nação que idolatra quem faz parte da academia
de letras, aqueles bons de papo, que escrevem bem, e não
aqueles que pesquisam bem ou calculam com rigor científico.
Ignoramos solenemente os que fazem parte de nossa Academia
Brasileira de Ciências, que descobrem a essência
do que ocorre na prática, as causas de seus efeitos,
os que usam o método científico de análise.
O último acadêmico de ciências nem sequer
foi noticiado pela imprensa brasileira. "Imortais" no Brasil
são aqueles bons de bico, que nos seduzem com belas
frases e palavras, por isso somos um país do "me engana
que eu gosto". Nosso descaso com ciência, estatísticas,
equações, dados, números, análise
científica é a causa de nosso atraso. Porque
não nos preocupamos com ciência, viramos o país
da mentira.
Muito do que se
escreve, até em livros de filosofia, vem, na realidade,
de pessoas justificando sua vida, seus erros e suas limitações.
Elas têm uma agenda oculta que cabe a você descobrir.
Quando alguém sai propondo maiores gastos em educação,
sempre indago se não é mais um professor querendo
maiores salários, pagos por impostos, "impostos" à
sociedade. Notem como 95% desses artigos pedem verbas, vinculações
de verbas e mais verbas, e nenhum discute quais as novas matérias
que seriam ensinadas. Omitem invariavelmente o fato de que
hoje, nas universidades, algo em torno de 50% dos alunos nem
terminam o curso e por volta de 50% dos que terminam
não exercem a profissão. Esse é um problema
resolvido com mais verbas ou com uma urgente reforma no conteúdo
educacional?
Desconfio sempre
de quem não oferece seu e-mail ou site num artigo ou
livro publicado. É como se dissesse: "Já sei
tudo". Prefiro ler quem o oferece e lê as mensagens,
sugerindo que é um humilde cientista que quer saber
se escreveu algo errado, para corrigir o que foi escrito.
Se não mudarmos
nossa mentalidade, se não nos preocuparmos em detectar
a agenda oculta de todos aqueles que nos pregam alguma coisa,
pagaremos caro pela nossa falta de vigilância epistêmica.
Seremos sempre presas fáceis dos que falam bonito e
escrevem melhor ainda.