Vila Sésamo
voltou. Falta saber se as crianças
o amarão como seus pais nostálgicos
Marcelo Marthe
Fotos
divulgação/TV Cultura
O novo Garibaldo:
fantasia com 5 000 penas é lavada com vodca e
água
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Na memória
dos brasileiros com mais de 35 anos, Garibaldo tem lugar de
honra. Entre 1972 e 1977, o pássaro gigante e desengonçado
ensinou às crianças noções sobre
as letras e os números em Vila Sésamo. Produzido
em parceria pela Rede Globo e pela TV Cultura de São
Paulo, o programa era revolucionário para a época:
valendo-se de descobertas da psicologia e da neurologia, mostrou
que era possível juntar conteúdo educativo e
diversão. Proposta tão bem-sucedida que Garibaldo
e sua turma se tornaram ícones. A partir desta segunda,
estréia na mesma Cultura uma nova versão de
Vila Sésamo. Garibaldo volta à ribalta,
naturalmente. Mas não como esteio de um programa que
visa à inovação. Nos últimos trinta
anos, as sacadas de Vila Sésamo foram exaustivamente
aproveitadas. Estão presentes tanto no programa de
Xuxa como nas atrações de um canal segmentado
como o Discovery Kids. Com a experiência de quem produziu
sucessos infantis como Castelo Rá-Tim-Bum e
Cocoricó, a Cultura está fazendo uma
aposta explícita na nostalgia. Não foi
à toa que se resolveu dar destaque a Garibaldo, entre
tantos personagens do antigo programa: uma pesquisa confirmou
que ele era o mais lembrado pelos adultos. O cálculo
é que os pais que foram fãs no passado estimularão
os filhos a gostar do programa. Mais que isso, vai se criar
um bom pretexto para que assistam à TV ao lado das
crianças.
A televisão
e o país mudaram muito, é claro, desde os tempos
do Vila Sésamo original (veja
o quadro). Vivia-se ainda a era da televisão
em preto-e-branco. E a Globo, embora já fosse líder
de audiência, teve de se associar a uma emissora modesta
como a Cultura por uma razão hoje impensável:
sua estrutura era tão pequena que ela não dispunha
de um estúdio para gravar o programa. Só com
o tempo assumiu sozinha produção e transmissão.
Vila Sésamo revelou gente como Sonia Braga e
acabou quando ainda era bastante popular. Como lembra José
Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, manda-chuva
da programação da Globo na época, houve
duas razões para sua saída do ar. A principal
delas é que a Globo passou a achar desinteressante
o acordo financeiro que tinha com a detentora de seus direitos,
a Sesame Workshop, entidade sem fins lucrativos que produz
o programa nos Estados Unidos e licencia o formato para 120
países. A outra razão é que Vila Sésamo
sofreu um patrulhamento crescente da esquerda e dos censores
do regime militar, por supostamente fazer propaganda do "modo
de vida americano". "Havia pressões, inclusive do governo,
para colocarmos uma atração brasileira no lugar",
diz Boni. E assim foi feito: depois de seu fim, o Sítio
do Pica-Pau Amarelo reinou.
A monstrinha Bel: ela não
existia na versão original
Na TV atual, será
complicado Vila Sésamo repetir o sucesso do
passado. Em primeiro lugar, porque não disporá
de uma vitrine como a Globo. Além disso, seu formato
e sua temática já não diferem tanto do
que se observa em outros programas. O apelo à repetição
altamente eficaz para atingir as crianças na
faixa dos 3 aos 6 anos agora é explorado em
toda parte, dos Teletubbies ao Hi-5. Sua agenda
politicamente correta também virou lugar-comum. Isso
não tira os méritos do programa. Graças
à edição ágil e aos efeitos especiais,
seu teor educativo foi aperfeiçoado desde os anos 70
um exemplo é o quadro do boneco Elmo, que estimula
a imaginação das crianças por meio da
sucessão de cenários virtuais. Vila Sésamo
também procura ajustar-se a cada país onde
é veiculado. Na África do Sul, que enfrenta
o flagelo da aids, há uma personagem soropositiva.
No Brasil, a ecologia e o respeito à diversidade cultural
serão enfatizados.
A princípio,
a TV Cultura produzirá um quarto do conteúdo
de Vila Sésamo (o restante virá de fora
e será dublado). Isso inclui o principal esquete,
em que contracenam Bel, monstrinha cor-de-rosa criada para
a versão nacional, e Garibaldo. Não é
fácil, aliás, ser Garibaldo. Com 21 anos de
manipulação de bonecos, o ator Fernando Gomes
garante que nunca enfrentou nada tão excruciante: dentro
da fantasia, ele tem de ficar com um braço estendido
para sustentar a cabeça da ave, enquanto usa o outro
para bater as asas. Tem ainda de permanecer curvado. E controla
seus movimentos apenas por um monitor que carrega dentro do
boneco (Laerte Morrone, o Garibaldo dos anos 70, foi mais
prático: fez um rombo na fantasia para enxergar). "O
pessoal morre de rir toda vez que dou uma trombada no cenário",
diz Gomes, que faz quiroterapia para aliviar as dores. A manutenção
da fantasia é uma operação à parte.
Enquanto o Garibaldo dos anos 70 era azul (o que rendia um
tom de cinza mais intenso na passagem para o preto-e-branco),
o atual é feito com 5.000 penas de peru e avestruz
tingidas de amarelo-ouro. A produtora americana exige que
só se toque nelas com luvas. Recomenda ainda que a
limpeza seja feita com uma mistura de água e vodca.
Sim, água e vodca. Agora se entende por que Garibaldo
é tão abilolado.
UM
PROGRAMA, DOIS TEMPOS
O que mudou
no país e na TV entre o primeiro
Vila Sésamo e sua nova versão
O Vila Sésamo
dos anos 70: alvo de patrulha
O PAÍS
1972 Enquanto
um show infantil como O Clube do Capitão Aza
(TV Tupi) louvava a ditadura militar, Vila Sésamo
sofria patrulhamento: a esquerda e os censores do regime
tachavam o programa de "americanizado"
2007 Ninguém
mais leva a sério tais reações
xenófobas. O sexo e a violência passaram
a ser a grande preocupação em relação
ao que as crianças vêem na TV
A TELEVISÃO
1972Vila Sésamo era o carro-chefe infantil
da maior rede do país, a Globo. Personagens como
Garibaldo tornaram-se ícones culturais
2007
Será exibido só na TV Cultura, de audiência
modesta. Além de concorrer com as outras redes
abertas, enfrentará os canais pagos especializados
no mesmo nicho as crianças de 3 a 6 anos
O PROGRAMA
1972
Era uma experiência inovadora: para ensinar às
crianças noções sobre letras e
números, valia-se das descobertas da neurologia
e da psicologia. Os quadros eram lentos e tinham um
quê de encenação teatral
2007
O apelo é a nostalgia: espera-se que os pais
que foram fãs estimulem os filhos a ver. Temas
como a diversidade cultural, a ecologia e a saúde
ganham destaque. Os quadros têm efeitos especiais
e edição ágil