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31 de outubro de 2007
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Televisão
É o Garibaldo, filho

Vila Sésamo voltou. Falta saber se as crianças
o amarão como seus pais nostálgicos


Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação/TV Cultura

O novo Garibaldo: fantasia com 5 000 penas é lavada com vodca e água


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Na memória dos brasileiros com mais de 35 anos, Garibaldo tem lugar de honra. Entre 1972 e 1977, o pássaro gigante e desengonçado ensinou às crianças noções sobre as letras e os números em Vila Sésamo. Produzido em parceria pela Rede Globo e pela TV Cultura de São Paulo, o programa era revolucionário para a época: valendo-se de descobertas da psicologia e da neurologia, mostrou que era possível juntar conteúdo educativo e diversão. Proposta tão bem-sucedida que Garibaldo e sua turma se tornaram ícones. A partir desta segunda, estréia na mesma Cultura uma nova versão de Vila Sésamo. Garibaldo volta à ribalta, naturalmente. Mas não como esteio de um programa que visa à inovação. Nos últimos trinta anos, as sacadas de Vila Sésamo foram exaustivamente aproveitadas. Estão presentes tanto no programa de Xuxa como nas atrações de um canal segmentado como o Discovery Kids. Com a experiência de quem produziu sucessos infantis como Castelo Rá-Tim-Bum e Cocoricó, a Cultura está fazendo uma aposta explícita na nostalgia. Não foi à toa que se resolveu dar destaque a Garibaldo, entre tantos personagens do antigo programa: uma pesquisa confirmou que ele era o mais lembrado pelos adultos. O cálculo é que os pais que foram fãs no passado estimularão os filhos a gostar do programa. Mais que isso, vai se criar um bom pretexto para que assistam à TV ao lado das crianças.

A televisão e o país mudaram muito, é claro, desde os tempos do Vila Sésamo original (veja o quadro). Vivia-se ainda a era da televisão em preto-e-branco. E a Globo, embora já fosse líder de audiência, teve de se associar a uma emissora modesta como a Cultura por uma razão hoje impensável: sua estrutura era tão pequena que ela não dispunha de um estúdio para gravar o programa. Só com o tempo assumiu sozinha produção e transmissão. Vila Sésamo revelou gente como Sonia Braga e acabou quando ainda era bastante popular. Como lembra José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, manda-chuva da programação da Globo na época, houve duas razões para sua saída do ar. A principal delas é que a Globo passou a achar desinteressante o acordo financeiro que tinha com a detentora de seus direitos, a Sesame Workshop, entidade sem fins lucrativos que produz o programa nos Estados Unidos e licencia o formato para 120 países. A outra razão é que Vila Sésamo sofreu um patrulhamento crescente da esquerda e dos censores do regime militar, por supostamente fazer propaganda do "modo de vida americano". "Havia pressões, inclusive do governo, para colocarmos uma atração brasileira no lugar", diz Boni. E assim foi feito: depois de seu fim, o Sítio do Pica-Pau Amarelo reinou.

 
A monstrinha Bel: ela não existia na versão original

Na TV atual, será complicado Vila Sésamo repetir o sucesso do passado. Em primeiro lugar, porque não disporá de uma vitrine como a Globo. Além disso, seu formato e sua temática já não diferem tanto do que se observa em outros programas. O apelo à repetição – altamente eficaz para atingir as crianças na faixa dos 3 aos 6 anos – agora é explorado em toda parte, dos Teletubbies ao Hi-5. Sua agenda politicamente correta também virou lugar-comum. Isso não tira os méritos do programa. Graças à edição ágil e aos efeitos especiais, seu teor educativo foi aperfeiçoado desde os anos 70 – um exemplo é o quadro do boneco Elmo, que estimula a imaginação das crianças por meio da sucessão de cenários virtuais. Vila Sésamo também procura ajustar-se a cada país onde é veiculado. Na África do Sul, que enfrenta o flagelo da aids, há uma personagem soropositiva. No Brasil, a ecologia e o respeito à diversidade cultural serão enfatizados.

A princípio, a TV Cultura produzirá um quarto do conteúdo de Vila Sésamo (o restante virá de fora e será dublado). Isso inclui o principal esquete, em que contracenam Bel, monstrinha cor-de-rosa criada para a versão nacional, e Garibaldo. Não é fácil, aliás, ser Garibaldo. Com 21 anos de manipulação de bonecos, o ator Fernando Gomes garante que nunca enfrentou nada tão excruciante: dentro da fantasia, ele tem de ficar com um braço estendido para sustentar a cabeça da ave, enquanto usa o outro para bater as asas. Tem ainda de permanecer curvado. E controla seus movimentos apenas por um monitor que carrega dentro do boneco (Laerte Morrone, o Garibaldo dos anos 70, foi mais prático: fez um rombo na fantasia para enxergar). "O pessoal morre de rir toda vez que dou uma trombada no cenário", diz Gomes, que faz quiroterapia para aliviar as dores. A manutenção da fantasia é uma operação à parte. Enquanto o Garibaldo dos anos 70 era azul (o que rendia um tom de cinza mais intenso na passagem para o preto-e-branco), o atual é feito com 5.000 penas de peru e avestruz tingidas de amarelo-ouro. A produtora americana exige que só se toque nelas com luvas. Recomenda ainda que a limpeza seja feita com uma mistura de água e vodca. Sim, água e vodca. Agora se entende por que Garibaldo é tão abilolado.

 

UM PROGRAMA, DOIS TEMPOS

O que mudou no país e na TV entre o primeiro
Vila Sésamo
e sua nova versão


O Vila Sésamo dos anos 70: alvo de patrulha

O PAÍS

1972 Enquanto um show infantil como O Clube do Capitão Aza (TV Tupi) louvava a ditadura militar, Vila Sésamo sofria patrulhamento: a esquerda e os censores do regime tachavam o programa de "americanizado"

2007 Ninguém mais leva a sério tais reações xenófobas. O sexo e a violência passaram a ser a grande preocupação em relação ao que as crianças vêem na TV


A TELEVISÃO

1972 Vila Sésamo era o carro-chefe infantil da maior rede do país, a Globo. Personagens como Garibaldo tornaram-se ícones culturais

2007 Será exibido só na TV Cultura, de audiência modesta. Além de concorrer com as outras redes abertas, enfrentará os canais pagos especializados no mesmo nicho – as crianças de 3 a 6 anos


O PROGRAMA

1972 Era uma experiência inovadora: para ensinar às crianças noções sobre letras e números, valia-se das descobertas da neurologia e da psicologia. Os quadros eram lentos e tinham um quê de encenação teatral

2007 O apelo é a nostalgia: espera-se que os pais que foram fãs estimulem os filhos a ver. Temas como a diversidade cultural, a ecologia e a saúde ganham destaque. Os quadros têm efeitos especiais e edição ágil



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