No início
de 2002, o jornalista americano Daniel Pearl saiu da casa
em que estava hospedado em Karachi, no Paquistão, para
entrevistar um radical islâmico. Entrou no táxi,
acenou para a mulher e nunca mais voltou. Semanas depois,
um grupo ligado à Al Qaeda divulgou um vídeo
que mostrava a decapitação de Pearl. A imagem
é um dos símbolos funestos da guerra ao terror
que se instalou desde o 11 de Setembro. E essa é a
imagem que o diretor inglês Michael Winterbottom não
mostra em O Preço da Coragem (A Mighty Heart,
Estados Unidos/Inglaterra, 2007), que estréia nesta
sexta-feira no país. Seu filme se ocupa dos esforços
para que o seqüestro não tivesse esse desfecho
esforços que envolveram um agente antiterrorismo
paquistanês (o magnífico ator indiano Irrfan
Khan), editores do jornal Wall Street Journal, agentes
federais americanos e, principalmente, Mariane, a mulher de
Pearl, grávida de cinco meses e também jornalista.
Quem assistiu às entrevistas que ela concedeu durante
o seqüestro e depois dele, já viúva, há
de se lembrar de sua serenidade. Interpretada por Angelina
Jolie, Mariane ostenta controle não como uma virtude
heróica ou feminina, mas como a única forma
de revanche que é capaz de conceber: se os terroristas
querem provocar desespero e confusão, essas são
as emoções que ela vai lhes negar. É
uma atuação superlativa, que em si bastaria
para recomendar o filme. Não que seja essa a sua única
qualidade. Na direção semidocumental de Winterbottom,
este é um estudo da maneira como um grupo de cristãos,
judeus e muçulmanos se uniu para tentar derrotar pessoas
guiadas pela intolerância. A renda de O Preço
da Coragem, porém, não reflete suas virtudes.
Desde junho, o filme amealhou menos de 16 milhões de
dólares em todo o mundo. Alguns analistas atribuíram
tal desinteresse ao seu tema. Mas outros filmes que tratam
de assuntos relacionados ao 11 de Setembro se mostraram muito
mais bem-sucedidos caso do excelente Vôo United
93 (76 milhões na bilheteria mundial) e do fraquinho
As Torres Gêmeas (163 milhões, puxados
por Nicolas Cage). A indiferença a O Preço
da Coragem, na verdade, advém de um dado desalentador:
o fato de ele ser protagonizado por uma mulher.
Essa explicação
é mais facilmente comprovável do que se imagina.
Somada a bilheteria dos seis últimos filmes dos nomes
graúdos de Hollywood (veja o quadro), constata-se
que um abismo de cifrões separa os astros das estrelas.
Julia Roberts, a campeã, fica 1,3 bilhão de
dólares atrás de Johnny Depp, o primeiro entre
os homens. Nenhum filme estrelado por uma mulher conseguiu
romper a barreira dos 200 milhões de dólares
na bilheteria americana nas últimas décadas.
Na verdade, Mary Poppins, de 1964, e A Noviça
Rebelde, de 1965, ambos com Julie Andrews, foram as últimas
produções encabeçadas por uma atriz a
terminar o ano em primeiro lugar na venda de ingressos.
Por tradição,
diz-se que essa disparidade se deve ao tipo de filme de que
as atrizes se incumbem: roteiros que falam de relações
humanas, baseados em personagens e diálogos. Filmes,
portanto, que sofrem na tradução e por isso
não vão tão bem no exterior, que hoje
alimenta mais de 60% da bilheteria de Hollywood. Pior ainda,
do ponto de vista dos estúdios: essas tramas não
têm apelo junto aos espectadores que mais gastam em
ingressos os rapazes, que preferem ação
e efeitos especiais. Mas essa verdade tida como absoluta não
passa de uma meia verdade. Veja-se o caso de Valente (que
teve sua estréia no Brasil cancelada), no qual Jodie
Foster faz um papel inicialmente escrito para um ator: traumatizada
depois de sofrer um ataque brutal, ela compra uma arma e procura
situações em que possa usá-la. Na moralmente
discutível série Desejo de Matar, com
Charles Bronson, essa idéia do personagem que toma
a justiça nas próprias mãos virou, além
de um sucesso, um mito cultural. Já esse bom filme
do diretor Neil Jordan mal suscitou alguma conversa e fez
uma renda não mais do que decente, de 61 milhões
de dólares. Em Invasores, em cartaz no país,
também Nicole Kidman interpreta um personagem que,
nas versões anteriores dessa ficção científica
(Vampiros de Almas, de 1956, e Invasores de Corpos,
de 1978), era um homem. O saldo foi um fiasco. E não
só porque o filme é ruim: Número 23,
com Jim Carrey, é outra ficção sem sal
nem lógica, mas rendeu o triplo.
Como se vê,
o tipo de papel não basta para solucionar o enigma
da rejeição que as mulheres sofrem na bilheteria.
O dado mais curioso para explicar esse quadro vem dos próprios
filmes "de mulherzinha", que em tese falariam diretamente
a 50% da humanidade. Quando eles viram um sucesso, quase sempre
é porque trazem um astro vistoso ou atraente dividindo
o topo dos créditos. Por exemplo, Mel Gibson em Do
que as Mulheres Gostam, ou Jack Nicholson em Alguém
Tem que Ceder. Não são só os homens,
em suma, que torcem o nariz para elencos femininos. Mulheres
gostam de ver mulheres em cena, mas não só elas.
E são as primeiras a desanimar diante de filmes que
as privem de seus astros prediletos. Esses filmes, elas podem
ver em casa, em DVD, dividindo o sofá com o marido
ou namorado. Que não é um Brad Pitt, mas é
delas.