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31 de outubro de 2007
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Cinema
Eternas vice-campeãs

Por que as mulheres rendem menos no cinema americano


Isabela Boscov

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Quadro: Um abismo de cifrões
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Trailer de O Preço da Coragem

No início de 2002, o jornalista americano Daniel Pearl saiu da casa em que estava hospedado em Karachi, no Paquistão, para entrevistar um radical islâmico. Entrou no táxi, acenou para a mulher e nunca mais voltou. Semanas depois, um grupo ligado à Al Qaeda divulgou um vídeo que mostrava a decapitação de Pearl. A imagem é um dos símbolos funestos da guerra ao terror que se instalou desde o 11 de Setembro. E essa é a imagem que o diretor inglês Michael Winterbottom não mostra em O Preço da Coragem (A Mighty Heart, Estados Unidos/Inglaterra, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país. Seu filme se ocupa dos esforços para que o seqüestro não tivesse esse desfecho – esforços que envolveram um agente antiterrorismo paquistanês (o magnífico ator indiano Irrfan Khan), editores do jornal Wall Street Journal, agentes federais americanos e, principalmente, Mariane, a mulher de Pearl, grávida de cinco meses e também jornalista. Quem assistiu às entrevistas que ela concedeu durante o seqüestro e depois dele, já viúva, há de se lembrar de sua serenidade. Interpretada por Angelina Jolie, Mariane ostenta controle não como uma virtude heróica ou feminina, mas como a única forma de revanche que é capaz de conceber: se os terroristas querem provocar desespero e confusão, essas são as emoções que ela vai lhes negar. É uma atuação superlativa, que em si bastaria para recomendar o filme. Não que seja essa a sua única qualidade. Na direção semidocumental de Winterbottom, este é um estudo da maneira como um grupo de cristãos, judeus e muçulmanos se uniu para tentar derrotar pessoas guiadas pela intolerância. A renda de O Preço da Coragem, porém, não reflete suas virtudes. Desde junho, o filme amealhou menos de 16 milhões de dólares em todo o mundo. Alguns analistas atribuíram tal desinteresse ao seu tema. Mas outros filmes que tratam de assuntos relacionados ao 11 de Setembro se mostraram muito mais bem-sucedidos – caso do excelente Vôo United 93 (76 milhões na bilheteria mundial) e do fraquinho As Torres Gêmeas (163 milhões, puxados por Nicolas Cage). A indiferença a O Preço da Coragem, na verdade, advém de um dado desalentador: o fato de ele ser protagonizado por uma mulher.

Essa explicação é mais facilmente comprovável do que se imagina. Somada a bilheteria dos seis últimos filmes dos nomes graúdos de Hollywood (veja o quadro), constata-se que um abismo de cifrões separa os astros das estrelas. Julia Roberts, a campeã, fica 1,3 bilhão de dólares atrás de Johnny Depp, o primeiro entre os homens. Nenhum filme estrelado por uma mulher conseguiu romper a barreira dos 200 milhões de dólares na bilheteria americana nas últimas décadas. Na verdade, Mary Poppins, de 1964, e A Noviça Rebelde, de 1965, ambos com Julie Andrews, foram as últimas produções encabeçadas por uma atriz a terminar o ano em primeiro lugar na venda de ingressos.

Por tradição, diz-se que essa disparidade se deve ao tipo de filme de que as atrizes se incumbem: roteiros que falam de relações humanas, baseados em personagens e diálogos. Filmes, portanto, que sofrem na tradução e por isso não vão tão bem no exterior, que hoje alimenta mais de 60% da bilheteria de Hollywood. Pior ainda, do ponto de vista dos estúdios: essas tramas não têm apelo junto aos espectadores que mais gastam em ingressos – os rapazes, que preferem ação e efeitos especiais. Mas essa verdade tida como absoluta não passa de uma meia verdade. Veja-se o caso de Valente (que teve sua estréia no Brasil cancelada), no qual Jodie Foster faz um papel inicialmente escrito para um ator: traumatizada depois de sofrer um ataque brutal, ela compra uma arma e procura situações em que possa usá-la. Na moralmente discutível série Desejo de Matar, com Charles Bronson, essa idéia do personagem que toma a justiça nas próprias mãos virou, além de um sucesso, um mito cultural. Já esse bom filme do diretor Neil Jordan mal suscitou alguma conversa e fez uma renda não mais do que decente, de 61 milhões de dólares. Em Invasores, em cartaz no país, também Nicole Kidman interpreta um personagem que, nas versões anteriores dessa ficção científica (Vampiros de Almas, de 1956, e Invasores de Corpos, de 1978), era um homem. O saldo foi um fiasco. E não só porque o filme é ruim: Número 23, com Jim Carrey, é outra ficção sem sal nem lógica, mas rendeu o triplo.

Como se vê, o tipo de papel não basta para solucionar o enigma da rejeição que as mulheres sofrem na bilheteria. O dado mais curioso para explicar esse quadro vem dos próprios filmes "de mulherzinha", que em tese falariam diretamente a 50% da humanidade. Quando eles viram um sucesso, quase sempre é porque trazem um astro vistoso ou atraente dividindo o topo dos créditos. Por exemplo, Mel Gibson em Do que as Mulheres Gostam, ou Jack Nicholson em Alguém Tem que Ceder. Não são só os homens, em suma, que torcem o nariz para elencos femininos. Mulheres gostam de ver mulheres em cena, mas não só elas. E são as primeiras a desanimar diante de filmes que as privem de seus astros prediletos. Esses filmes, elas podem ver em casa, em DVD, dividindo o sofá com o marido ou namorado. Que não é um Brad Pitt, mas é delas.


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