Rubem Fonseca é, por várias
razões, um caso único na literatura brasileira.
Aos 82 anos, esse mineiro radicado no Rio de Janeiro celebrizou-se
como um autor policial, mas não é um cultor
convencional do gênero: Fonseca explora a violência
carioca por uma perspectiva psicológica, até
mesmo existencial. Seu novo livro, O Romance Morreu
(Companhia das Letras; 200 páginas; 37 reais), talvez
constitua uma surpresa para os leitores: pela primeira vez,
o autor apresenta um livro de crônicas, com textos publicados
originalmente no site Portal Literal. No fundo, a novidade
não é tão surpreendente assim. Os contos
de Fonseca, afinal, buscam sua matéria no cotidiano,
como é comum na tradição brasileira da
crônica basta lembrar Rubem Braga, Fernando Sabino,
Luis Fernando Verissimo, entre tantos outros cronistas. E,
como já faz no conto, Rubem Fonseca vai além
do comentário ligeiro para compor textos sobre uma
variedade de temas que é, esta sim, surpreendente.
Literatura, cinema, charutos, violência urbana, pornografia:
nada é elevado ou insignificante demais para o cronista.
A vários desses textos
caberia a mais apropriada denominação de ensaio,
tanto pela extensão como pela profusão de citações
e pelas considerações que abrangem muitos campos
do conhecimento. Aquilo que o reservado Rubem Fonseca não
disse nas entrevistas que se recusa a dar aparece nessas páginas.
Vamos encontrar o autor em pessoa, com suas preferências
não raro insólitas: Em matéria
de leitura eu sou onívoro, ou polífago, se preferem.
Leio tudo que aparece na minha frente. Mas as duas leituras
preferidas por mim são, respectivamente, poesia e bula
de remédio. O relato de viagens que incluem
Israel, Estados Unidos, Alemanha traz um instantâneo
privilegiado da história: Rubem Fonseca escrevia em
um apartamento de Berlim na noite de 9 de novembro de 1989.
Ouviu gritos e buzinas na rua, saiu para ver o que acontecia
e testemunhou a queda do Muro de Berlim. Por pura casualidade,
foi entrevistado pela Globo junto ao que restava do muro,
no que é provavelmente a única declaração
que já deu a um jornalista. Ao lado desses grandes
eventos, as crônicas de Fonseca também apresentam
considerações prosaicas, como as recomendações
sobre o preparo da pipoca: O microondas deve ser evitado.
Os infelizes, preguiçosos ou muito ocupados, que só
provaram a microwave popcorn, podem achá-la palatável,
mas qualquer outra é melhor que ela, até mesmo
essas de carrocinha, feitas com óleos de origem suspeita.
No universo literário de Rubem Fonseca tem de tudo,
para satisfação dos leitores.