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31 de outubro de 2007
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Em seu primeiro livro de crônicas, Rubem Fonseca
vai do ensaio histórico à pipoca de microondas


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Rubem Fonseca é, por várias razões, um caso único na literatura brasileira. Aos 82 anos, esse mineiro radicado no Rio de Janeiro celebrizou-se como um autor policial, mas não é um cultor convencional do gênero: Fonseca explora a violência carioca por uma perspectiva psicológica, até mesmo existencial. Seu novo livro, O Romance Morreu (Companhia das Letras; 200 páginas; 37 reais), talvez constitua uma surpresa para os leitores: pela primeira vez, o autor apresenta um livro de crônicas, com textos publicados originalmente no site Portal Literal. No fundo, a novidade não é tão surpreendente assim. Os contos de Fonseca, afinal, buscam sua matéria no cotidiano, como é comum na tradição brasileira da crônica — basta lembrar Rubem Braga, Fernando Sabino, Luis Fernando Verissimo, entre tantos outros cronistas. E, como já faz no conto, Rubem Fonseca vai além do comentário ligeiro para compor textos sobre uma variedade de temas que é, esta sim, surpreendente. Literatura, cinema, charutos, violência urbana, pornografia: nada é elevado ou insignificante demais para o cronista.

A vários desses textos caberia a mais apropriada denominação de ensaio, tanto pela extensão como pela profusão de citações e pelas considerações que abrangem muitos campos do conhecimento. Aquilo que o reservado Rubem Fonseca não disse nas entrevistas que se recusa a dar aparece nessas páginas. Vamos encontrar o autor em pessoa, com suas preferências não raro insólitas: “Em matéria de leitura eu sou onívoro, ou polífago, se preferem. Leio tudo que aparece na minha frente. Mas as duas leituras preferidas por mim são, respectivamente, poesia e bula de remédio”. O relato de viagens — que incluem Israel, Estados Unidos, Alemanha — traz um instantâneo privilegiado da história: Rubem Fonseca escrevia em um apartamento de Berlim na noite de 9 de novembro de 1989. Ouviu gritos e buzinas na rua, saiu para ver o que acontecia — e testemunhou a queda do Muro de Berlim. Por pura casualidade, foi entrevistado pela Globo junto ao que restava do muro, no que é provavelmente a única declaração que já deu a um jornalista. Ao lado desses grandes eventos, as crônicas de Fonseca também apresentam considerações prosaicas, como as recomendações sobre o preparo da pipoca: “O microondas deve ser evitado. Os infelizes, preguiçosos ou muito ocupados, que só provaram a microwave popcorn, podem achá-la palatável, mas qualquer outra é melhor que ela, até mesmo essas de carrocinha, feitas com óleos de origem suspeita”. No universo literário de Rubem Fonseca tem de tudo, para satisfação dos leitores.


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