O gerúndio
tem sido discriminado e denunciado pelo hábito nacional de enrolar.
O que há de verdade nisso?
André
Petry
Fotos
Biblioteca Nacional de Lisboa e Roberto Setton
A
TRADIÇÃO NOS TRÓPICOS
Luís de Camões, o grande poeta português, e uma operadora
de telemarketing: por que será que em Os Lusíadas o poeta
disse "cantando espalharei por toda parte", e não "a cantar espalharei
por toda parte"? Os operadores de telemarketing sabem a razão: o gerúndio
do Brasil é a forma clássica da língua; modernismo é
o jeito de falar dos portugueses
Há dez meses no poder, o governador do Distrito Federal, José Roberto
Arruda, não conseguiu publicar um edital para a construção
de uma vila olímpica, uma de suas promessas eleitorais. "Vamos estar publicando",
eis o que lhe respondem quando indaga sobre o assunto. O projeto da vila foi concluído
e enviado à Procuradoria-Geral, que pediu alterações. O projeto
foi então endereçado para uma estatal, a Novacap, que fez as devidas
alterações e mandou a papelada ao Tribunal de Contas. E aí?
"Vamos estar publicando", informavam ao governador. O Tribunal de Contas pediu
novas adaptações, o projeto foi devolvido à corregedoria
do Distrito Federal, de onde voltou ao tribunal. "Vamos estar publicando." No
Tribunal de Contas, o conselheiro responsável pelo assunto saíra
de férias, decorreram os trinta dias regulamentares de seu descanso, o
conselheiro voltou e descobriu-se que o terreno da vila olímpica não
estava registrado em nome do governo. A papelada foi remetida a outra estatal,
a Terracap, que fez o registro e mandou tudo de volta ao Tribunal de Contas. E
o edital saiu? "Vamos estar publicando", respondiam ao governador. Irritado com
as intermináveis delongas, no dia 28 de setembro passado o governador baixou
um decreto demitindo o gerúndio. Motivo: ineficiência. Era o gerúndio
oficialmente acusado de leniente e enrolador.
A demissão do gerúndio saiu em decreto publicado no Diário
Oficial e completa um mês de vida neste domingo e, até
agora, o edital da vila olímpica não foi publicado. A conclusão
é inarredável: o culpado, veja só, não era o gerúndio.
Há uns dez anos, uma parcela expressiva de brasileiros passou a implicar
com o gerúndio ou, mais propriamente, com o gerundismo, nome dado à
praga infecciosa que leva falantes do português a fazer uso abusivo do gerúndio.
A versão mais popular informa que a praga surgiu entre operadores de telemarketing,
que dizem "Vou estar transferindo sua ligação", em vez de simplesmente
dizer "Vou transferir sua ligação". E a praga decorre da tradução
rudimentar de manuais de telemarketing escritos em inglês. O idioma de Shakespeare,
de fato, usa o gerúndio com entusiasmo e, na tradução às
pressas, a frase "I will be sending..." virou "Eu vou estar mandando...".
A novidade, para alguns, é que nada disso faz sentido. É verdade
que operadores de telemarketing usam o gerúndio com franca voracidade,
mas eles não criaram essa forma de expressão nem ela vem
do inglês mal traduzido.
Aos leigos, a influência de um idioma sobre outro pode parecer algo tão
misterioso quanto o sorriso de Mona Lisa, mas a sociolingüística há
muito já mostrou que uma língua influi no vocabulário de
outra, mas não na estrutura, a menos que haja um ambiente de bilingüismo.
Como não se pode dizer que operadores de telemarketing formam uma comunidade
especialmente bilíngüe, a tese da influência do inglês
é só um palpite de amador. "São explicações
de quem não entende nada de português", diz a professora Odete Menon,
da Universidade Federal do Paraná, que estuda mudanças no português
há três décadas e, há dez anos, dedica-se ao velho
e bom gerúndio.
Roger
Viollet Collection/Getty Images
MIGUEL
DE UNAMUNO O escritor espanhol dizia
que o português é como "o espanhol sem ossos"
Velho
e bom? Sim, herdado do latim, o gerúndio é a forma mais clássica
da língua portuguesa. Está em Luís de Camões, o estupendo
poeta morto em 1580. Num dos primeiros versos de Os Lusíadas, texto
cuja importância para a língua portuguesa é igual à
da Bíblia para os religiosos, lê-se o seguinte: "Cantando
espalharei por toda parte / Se a tanto me ajudar o engenho e arte". Camões
não escreveu como os portugueses de hoje: "A cantar espalharei por
toda parte...". Por quê? Porque, no seu tempo, nem os portugueses usavam
essa forma de falar, denominada infinitivo gerundivo. "Até a prosódia
do tempo de Camões era mais parecida com a nossa do que com a dos portugueses
de hoje", informa Pasquale Cipro Neto, o mais conhecido professor de português
do país.
Em História
de Portugal, uma obra do século XVI, escrita por ninguém menos
que Fernão de Oliveira, autor da primeira gramática da língua
portuguesa, aparece 61 vezes o gerúndio dos brasileiros e nenhuma
vez o infinitivo gerundivo dos lusitanos. Estudos comparativos mostram que os
portugueses começaram a usar o infinitivo gerundivo no fim do século
XIX e sua aplicação se consolidou na primeira metade do século
passado (veja quadro). É coisa recente, portanto.
Um trabalho da estudiosa Núbia Mothé, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, mostra que os portugueses empregam a nova forma mais na língua
falada do que na escrita e seu uso é mais disseminado entre jovens. Comparando
diálogos das décadas de 70 e 90, Mothé descobriu que o infinitivo
gerundivo aparece na boca de 89% dos portugueses de 25 a 35 anos. Entre os de
36 a 55 anos, o porcentual cai para 65%. E fica em 55% entre os que têm
mais de 56 anos. Isso também significa que em Portugal, como no Brasil,
se usam as duas formas. A diferença é que preferimos a antiga
e eles, a nova.
"O português
brasileiro é que usa a forma dita clássica no idioma. O que está
em jogo é a antiga crença de que a língua portuguesa pertence
a Portugal e que, portanto, eles a usam melhor do que nós", diz Mothé.
Como todo idioma vivo, o português, em terras brasileiras, portuguesas ou
africanas, está em permanente mudança algumas coloridas e
singelas, outras espinhosas e obtusas. A influência do escravo africano
no português do Brasil é notória. Em Casa-Grande &
Senzala, Gilberto Freyre, numa das passagens mais belas do seu clássico,
diz que a negra que habitava a casa-grande como cozinheira ou babá fez
"com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas,
os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas
moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente,
é uma das falas mais doces deste mundo". Freyre também informa que
os escravos africanos tiveram uma influência semelhante no francês
das Antilhas ("adocicaram o francês, tirando-lhe o fanhoso antipático,
os rr zangados") e no inglês do sul dos Estados Unidos ("deram ao
ranger das sílabas ásperas do inglês uma brandura oleosa").
Miguel de Unamuno, escritor
espanhol da virada do século XIX para o XX, dizia que o português
é como "o espanhol sem ossos". A imagem traduz a superioridade sonora do
português sobre o espanhol quando se trata de suavidade melódica.
Pode-se supor que faltou a Unamuno originalidade na sua definição,
já que a mesma imagem de uma "língua sem ossos" foi usada pelo alemão
Thomas Mann para falar do russo algo que talvez também não
fosse muito original tendo em vista que o próprio Leon Tolstoi, o gigante
romancista, admitira, ainda antes de escrever Anna Karenina, que o russo
literário "não tinha ossos". Fazia-o em tom crítico, porém.
Ainda que a idéia de uma língua desossada seja copiada de um escritor
pelo outro, é uma definição exemplar para o português,
sobretudo o falado no Brasil. Depois que as negras amaciaram nosso idioma com
seus dengos e cafunés, com seus quitutes e quindins
todas essas palavras de origem africana , Eça de Queiroz percebeu
a diferença em relação ao seu português e disse que
o idioma do Brasil era um "português com açúcar". Portanto,
sem ossos e com açúcar.
Quem há de desgostar de uma língua que se fala sem a rigidez dos
ossos e com a doçura do açúcar? Quem há de rejeitar
uma língua cujas palavras se dissolvem na boca? São variações
que a vida nos trouxe, e, como num darwinismo lingüístico, as que
ajudam uma língua a sobreviver e enriquecem suas formas de expressão
acabam sendo incorporadas. "Quando uma forma lingüística atende a
uma necessidade de comunicação, ela se difunde", explica José
Luiz Fiorin, professor de lingüística da Universidade de São
Paulo. Eis o caso do gerundismo. Os operadores de telemarketing descobriram que
era útil. Porque soa como uma forma polida de falar, tal como o futuro
do pretérito é usado por quem quer ser gentil, e dá uma idéia
de descompromisso e desobrigação: "vou estar enviando" não
é tão afirmativo quanto "vou enviar".
"Quando
ouvimos isso, interpretamos que não existe nenhum comprometimento, por
parte do falante, de que a ação vai ser levada a cabo", diz a professora
Ana Paula Scher, da Universidade de São Paulo, autora de um trabalho sobre
o tema junto com a professora Evani Viotti. Ana Paula completa: "É uma
estratégia adotada por quem não tem poder de decisão". Isso
explica por que o gerundismo é tão irritante. Quando o ouvimos,
já intuímos que estamos sendo embromados. Explica, também,
por que ele é tão usado por gente que não tem a palavra final,
como os operadores de telemarketing. E, por fim, explica por que o edital do governador
do Distrito Federal não foi publicado até hoje. O problema não
está no gerúndio. Está nos funcionários que cedem
à burocracia e nunca se empenham para concluir o que começaram.
Se deixarmos o gerúndio em paz, mas criarmos um ambiente em que todos firmem
compromissos sólidos (dos operadores de telemarketing aos funcionários
públicos de Brasília), a língua voltará a soar doce
e mole e as coisas, no Brasil, a começar pelo ensino de português
nas escolas, vão funcionar.