Júlio Lancellotti
é agora acusado de
pedofilia por ex-funcionária da Casa Vida
Marcelo Carneiro
Danilo Verpa/Folha Imagem
Fabiano Accorsi
Lancellotti: ele deu
86 000 reais ao suposto chantagista. Mas de onde saiu
esse dinheiro?
A testemunha: ela diz que viu o padre beijando um menino
de 15 anos
Há pouco
mais de um mês, ao denunciar à polícia
que era vítima de extorsão, o padre Júlio
Lancellotti disse que sua intenção era dar fim
a uma história que se arrastava desde 2004. Até
o momento, porém, a única certeza é que
ela ainda está longe de terminar. Depois de formalizar
o pedido de ajuda policial, o padre veio a público
informar que, sob intimidação, havia dado 56.000
reais a Anderson Batista, jovem agora com 25 anos que conhecera
como interno da Febem. O dinheiro foi usado na compra de um
jipe de luxo e de um terreno. De acordo com Lancellotti, Anderson
ameaçava denunciá-lo de ter abusado de uma criança
de 8 anos o que o padre jura ser mentira, apesar de
ter pago, ao longo de três anos, uma bela quantia ao
sujeito. A polícia ainda não deteve o acusado
de extorsão, que está foragido, mas já
está às voltas com outra questão relacionada
ao padre. Lancellotti, que não consegue explicar a
contento a origem da dinheirama dada a Anderson e se contradiz
ao tentar explicar o tipo de amizade que mantinha com o rapaz,
passou a enfrentar uma acusação formal de pedofilia.
Os policiais que investigam a denúncia de extorsão
tomaram o depoimento de uma mulher que trabalhou por quase
um ano em uma das ONGs criadas pelo padre. Ela disse ter visto
Lancellotti aos beijos com um menino de 15 anos. O testemunho
motivou a abertura de um inquérito sobre corrupção
de menores, que tem Lancellotti como investigado.
A testemunha diz
que o episódio aconteceu em 1999 dentro da Casa Vida,
que atende crianças infectadas pelo vírus da
aids, em São Paulo. Seu depoimento ocorreu sob a condição
de anonimato. Antes, também protegida pelo sigilo,
ela já havia concedido uma entrevista à Rede
Record. VEJA esteve com a denunciante. A testemunha tem duas
décadas de experiência no trato com menores infratores.
É formada em enfermagem, trabalhou na Febem e, durante
meses, foi cedida por essa instituição à
Casa Vida, gerida por Lancellotti. O que ela diz:
"O menino
tinha de 15 para 16 anos e apareceu do nada. O padre não
disse de onde ele veio. Lá era uma casa só para
crianças com HIV, mas esse menino não tinha
HIV. Sei porque eu preparava os coquetéis e ele não
tomava coquetel. O padre disse que o menino ia morar na casa
porque precisava de uma atenção maior".
"Numa noite,
ouvi o padre e o menino conversando na sala de televisão,
no andar de baixo. Quando desci para pegar água, vi
os dois se beijando na boca. Eles estavam de pé. O
padre envolvia o menino com um braço e lhe fazia carinho
no rosto. Não parecia haver coação. Quando
vi a cena, subi correndo as escadas. Não sei se eles
me viram, mas certamente escutaram o barulho. Após
uma semana, o padre nos comunicou que tinha encontrado droga
nas coisas do menino e o havia mandado embora. Duas semanas
depois, ele me mandou de volta para a Febem".
"O padre
espancava as meninas. Socorri três que haviam sido surradas
por ele. As agressões aconteciam sempre de dia, dentro
do escritório dele, com a porta fechada. Como eu trabalhava
à noite, chegava apenas a tempo de ver as meninas com
muitos hematomas. Eu passava pomadas e fazia massagens".
"Quando
havia um evento, as crianças iam antes na sala do padre.
Ele dizia como elas deveriam agir na frente das pessoas e
falava: 'Não se esqueçam de me chamar de pai'".
A testemunha diz
que só contou a uma pessoa o marido o
que viu na Casa Vida. Ela atribui a três motivos o fato
de ter levado oito anos para tornar pública a história
do beijo que teria presenciado: "Eu era só uma funcionária
e o padre Júlio, uma pessoa influente. É claro
que iriam acreditar nele, e não em mim. Também
fiquei com medo de morrer. Eu trabalhei nesse meio (a antiga
Febem) e sei que poderia sofrer alguma retaliação.
Agora, com a história do Anderson, eu me senti mais
segura para falar. Espero que outros sintam coragem para fazer
o mesmo".
VEJA apresentou
esse relato a um policial que teve acesso ao depoimento da
testemunha. Ele disse que as informações prestadas
na delegacia são as mesmas. Pode ser invenção?
Pode. Pode ser verdade? Também pode. Afinal de contas,
a testemunha foi à polícia denunciar Lancellotti.
Se não for louca, deve saber das conseqüências
penais de um falso testemunho. Diante da gravidade da acusação,
é preciso que as investigações sejam
aprofundadas. Só assim o padre poderá recuperar
ou perder de vez a sua reputação.
Zonas de sombra, nesse caso, são inadmissíveis.
O próprio
episódio da extorsão ainda está envolto
em muitas brumas. E, em vez de iluminá-lo, Lancellotti
tem contribuído para tornar ainda mais confuso o enredo.
Uma das questões que necessitam ser esclarecidas é
quanto, efetivamente, ele entregou a Anderson. Em seu primeiro
depoimento, Lancellotti diz ter dado 56 000 reais. Boa parte
dos recursos, de acordo com o padre, foi usada para pagar
prestações da compra de uma Mitsubishi Pajero
avaliada em 65 000 reais. Na semana passada, quando já
tinha sido informado de que a polícia havia pedido
cópia dos documentos da compra do carro à concessionária,
Lancellotti voltou à delegacia para dizer que havia
se esquecido de um detalhe: também dera outros 30 000
reais a Anderson, a título de entrada para a aquisição
do veículo. É difícil acreditar que uma
pessoa com poucas posses o padre declarou ter rendimentos
mensais de pouco mais de 3.000 reais não tenha
se lembrado logo de um gasto tão vultoso. Outro dado
a esclarecer, repita-se, é a fonte do dinheiro. Em
entrevistas, o padre disse que conseguiu parte dos recursos
por meio de "empréstimos com amigos". Em seu segundo
depoimento à polícia, deu uma nova versão.
Tudo teria origem em "recursos próprios, provindos
de suas economias durante 35 anos". Uma vez que as ONGs na
esfera de influência do padre recebem recursos públicos
só com a prefeitura de São Paulo, os
convênios chegam a quase 11 milhões de reais
anuais , é fundamental esclarecer se parte desse
montante foi usada nos pagamentos a Anderson.
Uma coisa é
certa: o amigo do padre, agora denunciado por extorsão,
ganhava o dinheiro em espécie. VEJA entrevistou o faxineiro
Everson Guimarães, preso em flagrante quando ia receber
2.000 reais das mãos de Lancellotti. Ele é,
até o momento, o único detido, sob a acusação
de ter sido cúmplice na chantagem. Caberia a Guimarães
recolher com o padre o dinheiro exigido por Anderson. O preso,
que é defendido pelo mesmo advogado de Anderson, conta
outra história: "Ele nunca ameaçou o padre.
Pedia e recebia. Os dois eram amigos, o padre vivia procurando
o Anderson". Guimarães disse que por cinco vezes foi
ao encontro do padre. Em todas, recebeu envelopes recheados
de cédulas de 50 reais. As quantias variavam entre
15.000 e 30.000 reais. VEJA também entrevistou o técnico
em refrigeração José Carlos Ferreira,
que tem uma loja na mesma rua em que Anderson é dono
de uma pensão. "Além da Pajero, o Anderson também
teve um Audi. Foi o padre quem deu", conta Ferreira. Em 2006,
Anderson realmente adquiriu um Audi A3. VEJA ainda conversou
com o vendedor que participou da compra da Pajero, em uma
concessionária. O funcionário, que pediu para
não ser identificado, disse que, no dia da compra,
Anderson e sua mulher, Conceição Eletério,
estavam acompanhados por Lancellotti: "Em momento nenhum o
padre pareceu nervoso. Foi uma venda normal".