Neste ano, brasileiros
vão comprar 2,5 milhões de carros, 9 milhões de computadores
e 50 milhões de celulares. É o resultado da estabilidade econômica,
que baixou juros e elevou o consumo
Os
brasileiros nunca compraram tantos carros. E tão equipados. Em 2007, serão
2,5 milhões de unidades, um recorde sem paralelo na indústria automobilística.
A participação dos modelos populares no total de vendas caiu de
67% para 55% desde 2002. Atualmente, 30% dos carros do modelo Gol saem da fábrica
com ar-condicionado, contra 15% há cinco anos. Acessórios que antes
apenas os mais ricos podiam comprar como o airbag se popularizaram.
E a explicação é uma só: crédito. Em todo o
mundo, o setor automobilístico depende do financiamento farto e acessível.
No Brasil, até pouco tempo atrás, ele era escasso e caro. Agora
já é possível adquirir um veículo sem nenhuma entrada
e financiá-lo em até sete anos, com prestações inferiores
a um salário mínimo. Paralelamente a isso, a indústria automobilística
tornou-se mais produtiva e consegue vender carros a preços relativamente
mais baixos do que no passado. Em 1960, eram necessários 92 salários
mínimos para adquirir um Fusca zero-quilômetro. Na década
seguinte, precisava-se de 73 mínimos. Agora, para adquirir um Uno Mille
são necessários 55 mínimos.
Roberto
Setton
PARECE
OS ANOS 70... Estão de volta os óculos
Ray-Ban, os saltos plataforma e um consumo tão aquecido que faz lembrar milagres
econômicos. Mas, no terreno dos negócios, fenômenos que parecem sobrenaturais
têm sempre uma explicação lógica. A forte expansão do consumo na década de 70
(abaixo) e na atual começou com reformas econômicas. O desafio é sustentar
o crescimento pelas próximas décadas. Isso exige mais segurança jurídica, menos
burocracia e carga tributária menor
Sergio
Beresovky
O Brasil tornou-se o oitavo maior produtor mundial de veículos, sem que,
para isso, fosse necessário recorrer a protecionismo e subsídios
estatais. A história de sucesso da indústria automobilística
demonstra como o poder das leis de mercado, regidas por instituições
eficientes, pode levar um país rapidamente ao desenvolvimento. Casos semelhantes
ocorrem em diversos setores da economia, como no comércio de computadores
e, mais recentemente, no mercado imobiliário. Essa revolução,
que propele o país rumo a uma sociedade moderna de consumo em massa, só
foi possível graças a três pilares:
Reformas institucionais Ninguém empresta dinheiro
por filantropia. Para financiarem empresas e pessoas, bancos precisam ter a garantia
de que vão reaver rapidamente o bem financiado em caso de inadimplência.
Sem essa certeza, cortam a torneira do crédito. Era o que ocorria. As pessoas
que não conseguiam honrar as prestações entravam na Justiça,
contestando as taxas cobradas pelos bancos. Os processos se arrastavam por anos,
e não raro os juízes davam ganho de causa aos compradores. Isso
só mudou com a aplicação da alienação fiduciária
em garantia, um instituto legal que prevê a rápida retomada do carro
financiado em caso de calote.
Competição Acostumados a ganhar dinheiro fácil
financiando o governo, os bancos mal tinham linhas para a compra de automóveis.
Para contornarem o problema, as montadoras criaram os próprios bancos e,
assim, estimularam a venda a prazo. Quando o negócio deslanchou, os grandes
bancos comerciais decidiram aderir, estimulando ainda mais a competição.
O financiamento de automóveis tornou-se uma das modalidades mais baratas
no mercado (28,7% ao ano em média, contra 140% do cheque especial), atrás
apenas do crédito imobiliário (em torno de 12% ao ano). Em 1960,
havia apenas sete modelos de carro disponíveis no mercado; atualmente existe
uma centena, incluindo os importados. A concorrência assegura uma maior
oferta de produtos e contém a alta de preços seja do produto,
seja do dinheiro para comprá-lo.
Estabilidade política e econômica Desde a implantação
do real, em 1994, o Brasil passou por quatro eleições presidenciais,
livres e democráticas, sem que isso significasse viradas bruscas na condução
da economia. O receituário de controle das contas públicas e combate
à inflação foi preservado, possibilitando a queda da taxa
de juros e o alongamento nos prazos de financiamento.
Divulgação
Montadora
em São Paulo: vendas decolaram quando bancos puderam retomar carro do comprador
inadimplente
Foi
sob esses três pilares que o crédito para a compra de carros pegou
no tranco e acelerou. Não se via no país uma expansão tão
vigorosa e duradoura desde o milagre econômico. E essa é uma boa
notícia, pois o grau de desenvolvimento de uma sociedade pode ser avaliado,
entre outros fatores, justamente pelo acesso que seus habitantes têm a bens
de consumo. Não foi por outro motivo que o economista Joseph Schumpeter
(1883-1950) disse que o sucesso de uma sociedade capitalista não está
em prover meias de seda à rainha da Inglaterra, mas sim em torná-las
acessíveis a todas as trabalhadoras. Antes dele, o filósofo escocês
Adam Smith (1723-1790) já havia dito que "nenhuma sociedade pode florescer
e ser feliz se a grande maioria de seus membros é pobre e miserável".
Smith via com alegria operários emergindo socialmente, usando sapatos de
couro e camisas de linho. Dá-se o mesmo hoje com o brasileiro de baixa
renda que usa celular e dirige o próprio carro zero-quilômetro. Essa
mudança começou no Plano Real e aprofundou-se com o crescimento
econômico iniciado em 2003. O Brasil ultrapassou a França e já
é o terceiro maior mercado consumidor de cosméticos do mundo, atrás
apenas dos Estados Unidos e do Japão. Em celulares, o país é
o quinto maior em número de linhas. Afirma o economista da LCA Consultores,
Bráulio Borges: "O que vimos no passado eram soluços. Foram movimentos
passageiros que não se mostraram sustentáveis a longo prazo. Agora
as bases estão consolidadas para o crescimento do mercado consumidor a
longo prazo". Desde 2003, estima-se que cerca de 6 milhões de pessoas tenham
migrado das classes mais baixas e atingido a classe C. Em outras palavras, nesse
curto período de tempo uma população equivalente a todo o
estado de Santa Catarina ingressou no mercado de consumo.
Roberto
Setton
Mais
consumo, mais produção, mais emprego. Neste ano, 1,6 milhão
de vagas formais já foram criadas
O potencial desse mercado atrai investidores de todo o mundo, como a Elektra,
a maior rede de varejo do México, que deverá se instalar em breve
no Nordeste. As pessoas de baixa renda tornaram-se também clientes fundamentais
para os bancos. Em 2003, elas possuíam 26 milhões de cartões
de crédito; hoje são 61 milhões. De acordo com projeções
da consultoria McKinsey, o mercado de consumo de massa representava 48% do total
de vendas do comércio brasileiro em 2004 e deverá atingir 60% dentro
de dois anos. Ao contrário dos surtos anteriores de consumo (como o do
Plano Cruzado), o crédito público deixou de ser a principal fonte
de financiamento no país. O avanço mais rápido ocorre nas
linhas de crédito livre (veja
o quadro), cujas destinações e taxas de juro não
são determinadas por lei (esse é o caso, por exemplo, do crédito
rural e do sistema financeiro habitacional). É o crédito livre que
injeta recursos no financiamento de bens de consumo, como celulares, aparelhos
de DVD, computadores e automóveis. Ao fim de 2002, essas linhas somavam
240 bilhões de reais; hoje atingem 600 bilhões de reais um
salto de 150%. Um estudo recente feito pelo Instituto Fernand Braudel de Economia
Mundial, que ouviu 1.092 famílias na periferia da Grande São Paulo,
revela que boa parte delas possui geladeira dúplex, celular, carro, aparelho
de DVD, TV de 29 polegadas e outros itens de consumo que eram associados à
classe média alta e aos ricos. Detalhe: 70% da compra desses bens foi feita
no crediário. Graças ao financiamento, em 14% das residências
das famílias pesquisadas há um computador. Ainda que timidamente,
viagens aéreas e pacotes turísticos também passaram a fazer
parte da vida dessas pessoas.
Mas o grande teste para a expansão definitiva do crédito no país
será o financiamento imobiliário. Apesar do rápido crescimento
desse segmento nos últimos anos, o crédito habitacional ainda é
baixíssimo no Brasil (veja
o quadro). O porcentual não chega a 2% do PIB, enquanto no México
é de 9% e em países desenvolvidos supera 100%. Mudar esse quadro
dependerá não só de manter a estabilidade e reduzir ainda
mais os juros, mas também de reformas, entre elas o fim do direcionamento
do crédito no setor. Outra medida urgente, não apenas para o ramo
imobiliário mas para todas as modalidades de crédito, é a
criação do chamado cadastro positivo. Assim, as pessoas com histórico
de bons pagadores poderão ter acesso a dinheiro mais barato (atualmente,
os bons pagam pelos ruins, encarecendo o financiamento).
Os resultados obtidos até aqui são auspiciosos. "O Brasil ficou
dormindo 25 anos e aparentemente está acordando", resume o economista Antonio
Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda. O crescimento econômico se acelerou,
mais empregos foram criados e a desigualdade social diminuiu. Tudo isso sem sinal
de reaquecimento inflacionário, porque as empresas estão investindo
mais e impedindo que ocorram pressões por aumentos de preço. Nos
próximos quatro anos, os principais setores da economia brasileira planejam
investir 1 trilhão de reais, bem mais do que os 650 bilhões investidos
entre 2002 e 2005, de acordo com o BNDES. E isso é só o começo,
se o país mantiver políticas sensatas. Para manter o atual ritmo
e até mesmo acelerá-lo, o país não poderá postergar
por mais tempo a agenda ainda inconclusa de reformas (veja
o quadro abaixo). Há também que acelerar os investimentos
em infra-estrutura para eliminar os gargalos da economia. Se mais estradas não
forem construídas, por onde trafegarão tantos carros novos?