Incêndios florestais
devastaram o sul da Califórnia, uma
das áreas mais ricas do planeta, forçando 1
milhão de
pessoas a deixar sua casa, entre elas estrelas de Hollywood
Chris Carlson/AP
Barracas cedidas pelo governo
para abrigar 10 000 refugiados em estádio de San Diego
Quando as chamas
se aproximam e se torna urgente abandonar a casa, todas as
questões existenciais de uma vida podem se resumir
a três palavras: o que levar? Na semana passada, uma
série de incêndios florestais devastou o sul
da Califórnia, forçando 1 milhão de americanos
a deixar às pressas suas casas ameaçadas pelo
fogo. Na hora do susto, decidir como empacotar sua vida em
uma mala não é uma tarefa fácil. Com
12 000 metros quadrados de área erguida em estilo mediterrâneo
no alto de uma colina, a casa do investidor Bob Jaffe queimou
até os alicerces no domingo 21. Devido à imponência
e à localização da residência (Rancho
Santa Fe, nos arredores de San Diego, a segunda localidade
mais rica dos Estados Unidos), o incêndio foi acompanhado
por equipes de televisão. No dia seguinte, entre os
escombros, Jaffe angustiava-se com sua escolha final. "Sim,
consegui salvar o Porsche", disse numa entrevista. "Mas talvez
tivesse sido melhor salvar os bichinhos de pelúcia
da minha filha."
O serviço
de emergência da Califórnia recomenda que cada
um se prepare para tirar todos os familiares da casa e os
animais de estimação. No manual produzido pelo
governo estadual, há uma lista de dezenas de coisas
para serem levadas em caso de incêndio. Se o tempo for
escasso, a recomendação é se concentrar
em itens prioritários: remédios de uso contínuo,
artigos de higiene pessoal, documentos e dinheiro. No caos
do desastre, a lógica nem sempre prevalece. A psicóloga
Helen Lena Astin, citada pelo jornal Los Angeles Times,
diz que é impossível prever o que as pessoas
vêem como essencial em momentos de crise. Ela lembra
de um amigo que voltou à casa em chamas para pegar
o smoking, sob a justificativa de que seria difícil
encontrar outro que lhe caísse tão bem. Na semana
passada, esse tipo de comportamento foi visto em profusão.
Uma moradora de Malibu tratou de salvar um par de sapatos
de 1 000 dólares. Entre os desabrigados, havia alguns
que carregavam teses de mestrado, recibos de impostos, ingressos
de shows, cartões-postais antigos. Outra pessoa, diante
do céu coberto de fumaça, lembrou-se de pegar
as cinzas da mãe, mas esqueceu os gatos. Ela teve de
voltar correndo para buscá-los.
Um manual oficial
para essas ocasiões é necessário porque
os incêndios florestais no sul da Califórnia
fazem parte do calendário anual. Algo similar às
enchentes no Brasil, com a notável diferença
de as vítimas do desastre estarem entre os mais ricos
dos Estados Unidos, incluindo muitas estrelas de Hollywood.
Com um clima do tipo mediterrâneo, em que a chuva só
aparece durante o inverno e os verões são extremamente
secos, o mais rico estado americano registra a cada ano uma
média de 8 000 focos de incêndio em áreas
de matas. Em geral, as chamas logo são controladas
pelos bombeiros. Desta vez, o fogo fugiu ao controle. Em quatro
dias, a partir do domingo 21, 23 grandes incêndios e
centenas de focos menores formaram-se em diferentes áreas
desde a região de Santa Barbara, a noroeste de Los
Angeles, até a fronteira com o México, 386 quilômetros
mais ao sul. Somando-se todas as áreas queimadas, chega-se
a 2.100 quilômetros quadrados, o equivalente a duas
vezes o município do Rio de Janeiro. O fogo tomou de
assalto as matas e, em questão de horas, incinerou
mansões, carros e lojas de luxo. Em Malibu, o espetacular
trecho de praia preferido pelos milionários, labaredas
atingiram, entre outras, a casa da atriz Jennifer Aniston
e a de Mel Gibson, arrasaram dois trailers do ator Sean Penn
e provocaram uma debandada de astros e estrelas (veja
o quadro) como nunca se vira antes, exceto, evidentemente,
nas telas de cinema.
A cidade de Malibu
já foi arrasada em três incêndios nos últimos
100 anos. Ainda assim, milionários continuam disputando
suas casas, especialmente em Malibu Colony, onde uma residência
à beira da praia particular custa 15 milhões
de dólares, e Carbon Canyon, com terrenos de 6 milhões
de dólares. Todos os moradores desses dois locais elegantes
tornaram-se provisoriamente refugiados. Tal regularidade de
incêndios com seu potencial destruidor suscita a pergunta
de por que pessoas tão ricas continuam morando em uma
região assim perigosa. No blog do jornal Los Angeles
Times, um desabrigado deu a seguinte explicação:
"Quando você constrói sua casa nessa região,
aceita a possibilidade de incêndio, prepara-se para
o pior e espera que ele nunca ocorra". O coeficiente de esperança
é somado ao fato de que o espírito da região
dificilmente pode ser transferido para outro lugar, mesmo
para as praias da Flórida. O glamour de Hollywood,
as universidades e o pensamento mais aberto dos californianos
não podem simplesmente ser transplantados. São
Francisco é muito diferente de Miami. Essa diferença
é mantida com a luta contra o fogo e a confiança
na eficiência dos serviços de emergência.
O incêndio
foi, em termos de prédios destruídos, pessoas
mortas e desalojadas, o segundo mais devastador da história
da Califórnia. Matou sete pessoas, quatro delas imigrantes
mexicanos que tentavam aproveitar a fumaça para entrar
em território americano. O grande incêndio anterior,
em 2003, apesar de a área atingida ter sido menor,
destruiu o dobro de imóveis e deixou 24 mortos. Os
estragos relativamente menores se devem, em boa parte, à
presteza dos serviços de emergência. Escaldadas
pelo fiasco do socorro das vítimas do furacão
Katrina, em 2005, as autoridades americanas, desta vez, acudiram
como uma máquina bem azeitada, quase excessiva. No
Estádio Qualcomm, do time de futebol americano Chargers,
em San Diego, para onde foram cerca de 10.000 pessoas, o cenário
era bem diferente do abandono visto no Superdome, em Nova
Orleans, quando o furacão Katrina atingiu a cidade.
Em vez do descaso e da violência que deixaram as pessoas
em pânico no Superdome, o que se via eram crianças
gargalhando com atividades coordenadas por palhaços,
adultos recebendo massagem e acupuntura, uma banda de blues
para acalmar os ânimos e psicólogos rodando pelo
estádio para confortar os desabrigados. Voluntários
distribuíam fraldas e revistas e até um quiosque
do Starbucks estava instalado no local. Em certo momento,
havia ali um funcionário público ou voluntário
para cada refugiado.
A comparação
entre os desastres é, em certa medida, um tanto forçada.
Em Nova Orleans, gente pobre esperava ser evacuada por ônibus
bloqueados pelas enchentes. Na Califórnia, os moradores
abastados fugiam no próprio carro e estavam em contato
constante com as autoridades e os amigos. Em San Diego, a
área mais atingida, um sistema de ligações
de emergência, o "911 invertido", fazia telefonemas
com uma gravação avisando as pessoas de que
deveriam abandonar suas casas. O governador Arnold Schwarzenegger
tinha preparado com cuidado o estado da Califórnia
para a tragédia anunciada. O presidente George W. Bush,
ainda escaldado pela própria paralisia durante o desastre
do Katrina, desta vez reagiu rápido e enviou soldados,
aviões, helicópteros e tudo o mais que pôde
para socorrer os desalojados.
A pergunta que
fica agora é se todo o dinheiro da Califórnia
pode ou não controlar os incêndios. Três
fatores explicam como o fogo tomou proporções
tão catastróficas: a baixa umidade do ar, altas
temperaturas e ventos fortes. São todos muito comuns
no sul da Califórnia, mas desta vez foram mais intensos.
A seca na Califórnia é uma das maiores dos últimos
anos. Em 2006, a região de Los Angeles teve menos de
13 centímetros de chuva. Com umidade relativa de 5%,
a vegetação nas montanhas do estado ficou completamente
seca, transformando-se em um perfeito combustível.
Numa situação assim, qualquer faísca,
que pode ser causada por um mau contato em um cabo de energia
elétrica ou fagulha que escapa de uma fogueira de acampamento,
é suficiente para que a vegetação pegue
fogo facilmente. A polícia encontrou evidências
de incêndio criminoso em nada menos que dezoito focos
mais recentes e estabeleceu uma recompensa de 285 000 dólares
por informações que levem ao incendiário.
O verdadeiro vilão
do sul da Califórnia é um vento chamado Santa
Ana, característico desta época do ano. Vindo
do deserto, forte e quente, ele pode aumentar a temperatura
do ar em 6 graus. Na semana passada, as rajadas chegavam a
170 quilômetros por hora, espalhando fagulhas e criando
outros focos de incêndio nas matas e nas casas. "Essas
centelhas chegam a voar até 3 quilômetros. Elas
entram nas casas por frestas e começam a queimar tudo
de dentro para fora", disse a VEJA Max Moritz, do departamento
de ciência ambiental da Universidade da Califórnia,
em Berkeley, e um especialista em incêndios. Mudanças
demográficas também explicam a enorme dimensão
dos estragos. Nos últimos trinta anos, 8,6 milhões
de casas foram construídas no Oeste americano a menos
de 50 quilômetros de florestas nacionais. Esse movimento
é particularmente intenso na Califórnia. Viver
perto da mata significa estar próximo do fogo, que
faz parte do mecanismo natural de renovação
da vegetação. Por ironia, a intensidade dos
incêndios é, em parte, decorrência do empenho
preservacionista, que impede a limpeza da mata. Paradoxalmente,
a presteza com que as autoridades californianas enfrentam
os incêndios acaba contribuindo para agravar o problema.
"Os bombeiros conseguem abafar quase 99% dos focos que surgem.
Mas, com isso, eles permitem que a vegetação
cresça, o que só faz acumular lenha e aumentar
o potencial da tragédia", explicou a VEJA Richard Minnich,
professor de ecologia do fogo da Universidade da Califórnia,
em Los Angeles. Um pouco mais ao sul, do outro lado da fronteira,
as autoridades mexicanas incentivam a criação
de cabras nos arredores de cidades e vilarejos para manter
o mato sob controle. Essa estratégia, de baixíssimo
custo, funciona, e os incêndios periódicos causam
menos estragos no México que nos Estados Unidos. Na
verdade, a única coisa que os habitantes da Califórnia
podem fazer é manter a vigilância. E fugir quando
o incêndio recomeçar em outubro do ano que vem.