O caos deu novo
sinal de vida nos aeroportos brasileiros na semana passada.
Os passageiros que embarcaram em São Paulo e no Rio
de Janeiro enfrentaram filas, cancelamentos de vôos
e atrasos de até 24 horas. Tudo indica que, ao contrário
das vezes anteriores, a principal causa da confusão
foram as fortes chuvas que atingiram a Região Sudeste
do país. Ainda assim, o ministro da Defesa, Nelson
Jobim, não perdeu a oportunidade de apontar sua artilharia
para o presidente da Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac), Milton Zuanazzi. "A Anac continua naquela leniência
que a caracteriza", disparou Jobim, insinuando que alguma
coisa poderia ter sido feita para minimizar o sofrimento dos
passageiros. Jobim é bom de conversa, tem-se mostrado
excelente em performances, mas o seu rol de resultados é
quase nulo. Há três meses, pressiona o presidente
da Anac a deixar o cargo. Já escolheu até um
substituto. Protegido pela imunidade das agências, Zuanazzi
recusa-se a sair. Seu mandato só termina em 2011 e
ele tem dito a assessores nas últimas semanas que renunciará
quando conseguir provar ao presidente Lula que não
é um dos responsáveis pela crise.
Fotos
Andre Dusek/AE, Hipolito Pereira/Ag. O Globo
A
ministra Dilma e o presidente Milton Zuanazzi: "xingamentos"
O presidente da Anac, curiosamente, parece ter-se fortalecido desde que Jobim
assumiu o cargo de ministro. No ápice da confusão aérea,
no fim do ano passado, Zuanazzi estava bem menos convicto do papel nulo na crise
que agora se atribui. Na semana passada, VEJA teve acesso a uma mensagem eletrônica
enviada por ele à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a quem Zuanazzi
deve a indicação para presidir a agência de fiscalização.
Redigida em um idioma muito parecido com o português, a mensagem foi enviada
inadvertidamente a outros diretores da Anac no ano passado. Em seu trecho mais
tenso, Zuanazzi coloca o cargo à disposição da ministra.
Escreveu ele: "Dessa forma, na hora que te parecer oportuno, estou te disponibilizando
o mandato de presidente da Anac. Se não achares necessário, fica
a informação que estou seriamente repensando minha permanência
na agência". Incomodado com sua situação, Zuanazzi se queixava
do comportamento de Dilma. Revela que foi obrigado a ouvir calado "xingamentos"
da ministra. "Em todo esse tempo, fiquei sempre com a sensação que
me tratavas nem como chefe da Casa Civil e nem como amiga, e nem as duas coisas
juntas. Teu tratamento ensejava como (sic) se eu fosse um 'devedor eterno'
por ter sido indicado para presidir a Anac. Em nenhum momento senti qualquer proteção
pela cumplicidade natural entre companheiros", escreveu o presidente da Anac.
Beto
Barata/AE
Jobim
e sua cruzada pelas mudanças no setor aéreo: muita encenação
Dilma Rousseff é a
grande gerente do governo. Durante os piores momentos do apagão, ela entrou
em choque em diversas ocasiões com Milton Zuanazzi, de quem cobrava uma
ação mais rigorosa contra as companhias aéreas. Zuanazzi
ouviu várias vezes em alto e bom som a opinião da ministra sobre
seu desempenho. Não deve ter ouvido boas coisas, pois chegou a cogitar
da renúncia coletiva da direção da Anac. Todos acabaram saindo,
menos Zuanazzi. A pressão do ministro Jobim, paradoxalmente, parece ter-lhe
dado energias para permanecer no cargo. Abandonado, ele se empenha em mostrar
que a culpa pelo caos é do governo. Zuanazzi está montando um dossiê
com as medidas engavetadas que ele sugeriu para debelar a crise.
Enquanto isso, para muita gente ele continua sendo o rosto mais conhecido do caos
aéreo. Na semana passada, segundo o colunista Ancelmo Gois, de O Globo,
Zuanazzi era um dos passageiros do vôo da TAM 3887, que fazia a rota
BrasíliaRio de Janeiro. Depois de esperar por uma hora para desembarcar,
atraso justificado pela falta de escadas e ônibus, Zuanazzi foi abordado
por um passageiro e, ainda de acordo com o colunista, travou-se o seguinte diálogo:
"E aí, presidente, reclamamos com quem?". "Comigo é que não
é. Vá ao juizado no aeroporto. Vá falar com a companhia!"