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Livros
A permanência de Winston Churchill
Há sempre o que aprender lendo sobre as muitas vidas e obras do "leão
britânico", a quem Hitler e Stalin nunca enganaram

Eurípedes Alcântara
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| Churchill retratado em óleo com o uniforme de
comodoro do ar honorário da RAF: "Majestade... o povo acaba de me dar a
ordem da botina" | | Winston
Churchill (Stuart Ball, biografia ilustrada da British Library; tradução
de Gleuber Vieira; Nova Fronteira; 256 páginas; 49,90 reais) revive histórias
de um dos mais impressionantes homens de Estado dos tempos modernos. A fonte do
interesse sempre renovado pelo "leão britânico" do século
XX é o seu papel de guerreiro do bem em sucessivos episódios dramáticos
que formaram o mundo em que hoje vivemos. O reconhecimento da sua real estatura
política sempre pareceu chegar um pouco tarde ou acabar um pouco cedo demais.
Em julho de 1945, dois meses depois da vitória dos Aliados na Europa, seu
partido, o Conservador, perdeu a eleição geral. Os trabalhistas
obtiveram maioria no Parlamento e seu líder, Clement Attlee, foi feito
primeiro-ministro. Derrota em plena vitória. Coisa humilhante. Churchill
tratava da divisão da Alemanha na conferência de Potsdam com o soviético
Joseph Stalin e o americano Harry Truman (Franklin Roosevelt morrera em 12 de
abril). Churchill foi substituído
imediatamente por Attlee, que, como vice-primeiro-ministro, se juntara à
delegação inglesa em Potsdam. Attlee continuaria a mencionar o ausente
Churchill como "o senhor primeiro-ministro" por todo o resto da conferência.
Pequena homenagem. A maior, ele não quis. O rei ofereceu-lhe a Ordem da
Jarreteira, a mais cobiçada do império britânico. Churchill
recusou-a com uma de suas tiradas típicas: "Obrigado, majestade, mas não
ficaria bem. O povo acaba de me dar a ordem da botina". Churchill só se
tornou sir em 1953, dois anos antes de deixar o posto de primeiro-ministro,
que ocuparia pela segunda e última vez. Aceitaria, então, a Jarreteira
das mãos da jovem rainha Elizabeth II.
Nas duas grandes guerras do século XX, Churchill começou na mesma
posição de comando, a de primeiro lorde do almirantado, o ministro
da Marinha inglês. "Winston está de volta" foi o lacônico radiograma
que o almirantado passou a todos os navios da Marinha Real em setembro de 1939,
quando ele foi nomeado, menção à sua primeira chegada ao
imponente edifício da Avenida Whitehall no já então longínquo
ano de 1911. Carreira curiosa para
o tenente de cavalaria, jogador de pólo na Índia. Churchill ganhou
e perdeu várias eleições e foi acumulando experiência
em cargos ministeriais Colônias, Comércio, Interior, Marinha,
Material Bélico, Guerra e até Finanças, em 1924. Ele foi
ministro das Finanças por cinco anos, período em que fez alguns
dos mais memoráveis e inteligíveis pronunciamentos sobre economia
da história de todos os púlpitos. A partir daí entrou em
um período que chamou de "ermo". Ele voltaria. A guerra, esse momento crucial
das nações, em que tudo o mais se apaga e o que avulta é
a competência de cada um, traria Winston Churchill de volta ao governo.
A Inglaterra recorreu a ele para derrotar a ameaça de Adolf Hitler, para
cuja malignidade Churchill vinha alertando desde o começo dos anos 30.
Talento político e o mais
poderoso dom de oratória que o Parlamento conheceu aliaram-se à
maestria no domínio da língua inglesa como escritor. Escreveu muito,
escreveu bem e deixou citações interessantes sobre a arte. "Das
palavras as mais simples, das mais simples a menor." "Escrever um livro é
uma aventura. Principia um brinquedo e um gosto. Vira uma amante, depois um tutor,
depois um tirano. Na fase final, já conformado em ser seu escravo, você
o mata e arremessa o corpo ao público." Lord Moran, seu médico acompanhante
e amigo, disse que Churchill recebeu feliz o Prêmio Nobel de Literatura
de 1953 por suas Memórias da Segunda Guerra Mundial, apenas achou
que a premiação viria mais tarde, por Uma História dos
Povos de Língua Inglesa, que ele ainda escrevia.
De todas
as saídas de Churchill do centro do proscênio da história
recente, a mais encabulante para quem vê o enredo de trás para a
frente foi aquela descrita no primeiro parágrafo. Sua humilhante derrota
meses depois de vencer a guerra na Europa. A gente daquele tempo pode ser desculpada?
Com o passar dos anos ficou mais clara a explicação da derrota de
Churchill. O governo da coalizão não tinha propriamente oposição,
pois os três partidos estavam no governo. O trabalhista Attlee, como vice-primeiro-ministro,
fora encarregado, pela duração toda da guerra, dos assuntos da administração
interna do reino. Cabia a Churchill as questões militares e diplomáticas.
Ele viajava constantemente. Ademais, refletiu-se na vitória trabalhista
de então o auge do prestígio no Ocidente dos soviéticos,
do comunismo e da esquerda: os russos eram os aliados parceiros da vitória
da Grande Aliança, diziam representar o futuro do mundo e contavam com
as boas graças dos Estados Unidos. Pode-se mesmo dizer que Churchill venceu
Hitler com sua obstinação em não ceder, não pedir
paz, não desistir até hoje ecoa na história seu discurso
nos Comuns: "We shall never surrender!" , mas quem venceu a guerra, forças
contra forças, foram os russos, muito ajudados pelos Estados Unidos.
Churchill resumiu a história dizendo
que, "na derrota do nazismo, a Inglaterra entrou com o tempo, os Estados Unidos
entraram com o aço e a União Soviética entrou com o sangue".
Assim foi, e depois da virada da maré, no verão e outono de 1942,
os russos não mais se detiveram até chegar a Berlim. Nesse período
de boa vontade com os bolcheviques e de ilusão geral sobre seu regime,
fez todo o sentido a vitória da esquerda na Inglaterra. Churchill ganhou
no seu distrito, manteve o mandato e liderou a oposição.
Seguiu-se um tempo estranho em que só
Churchill parecia enxergar perigo na dominação soviética
da metade oriental da Europa. Foi quando ele fez em Fulton, no Missouri, a convite
do presidente Truman, o famoso "discurso da Cortina de Ferro", um alerta para
o Ocidente e, para muitos, o começo da Guerra Fria.
Churchill morreu em janeiro de 1965, com 90 anos de uma existência extraordinária.
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