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Cinema As
duas vidas de Clint Eastwood Cinco
décadas atrás, ele era apenas um caubói entre muitos. Hoje, aos
76 anos, é um dos mais premiados diretores do mundo e acaba de lançar dois filmes
sobre a batalha de Iwo Jima. Um feito do ponto de vista dos americanos; outro
em que encontra a humanidade do inimigo japonês. A trajetória
do homem que se tornou o maior ícone vivo do cinema 
Isabela Boscov, de Palm Springs
Fotos Album/Stock Photos, Joe Rosenthal/AP
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| UM DESERTO ESTRATÉGICO
Recriada nas areias negras da Islândia, a Ilha
de Iwo Jima foi o palco cruento de 27 000 mortes, entre americanos e japoneses
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Na
terça-feira passada, saíram as indicações ao Oscar.
Como na premiação de 2004, em que compareceu com Sobre Meninos
e Lobos, e na de 2005, na qual ganhou em quatro categorias com Menina de
Ouro, em 25 de fevereiro Clint Eastwood vai de novo bater ponto na cerimônia.
Desta vez, compete não com um, mas com dois títulos. Dirigir um
filme é mais ou menos como comandar uma batalha (menos as baixas, claro):
um trabalho que, quando bem-feito, implica organizar os movimentos de centenas
de pessoas, demanda estratégia e liderança, pressupõe tomadas
de decisão constantes e exige imenso preparo físico e psicológico.
Para cineastas trinta ou quarenta anos mais jovens do que Eastwood, uma dobradinha
dessas seria notável. Para um homem de 76 anos, é um feito sem precedentes.
Mais ainda quando o primeiro filme é uma superprodução com
ambiciosas cenas de combate A Conquista da Honra, que estréia
nesta sexta-feira no país e concorre nas categorias de som e edição
de som e o segundo é uma aventura em que poucos diretores ousariam
embarcar. Cartas de Iwo Jima, que disputa os prêmios de melhor
filme, direção, roteiro original e edição de som,
é uma produção japonesa, com atores japoneses, e falado tão-somente
em japonês. Mais: trata de um episódio extremamente específico
da história da II Guerra, enfocado do ponto de vista dos japoneses, a defesa
da Ilha de Iwo Jima, em 1945, durante a qual o general incumbido da campanha procurou
evitar que seus soldados se suicidassem para purgar a iminente derrocada militar,
tal como pregava a cultura marcial da época, e tentou incitá-los
a continuar lutando. Tanto a derrota para os americanos em Iwo Jima quanto esse
código de conduta brutal foram soterrados pelo ímpeto revisionista
japonês no período imediatamente subseqüente. Cartas de Iwo
Jima (em cartaz a partir de 16 de fevereiro), assim, não apenas desbrava
um território que permanecia intocado. Um filme soberbo, que se irmana
com o inimigo ao mesmo tempo em que expõe a violência e a futilidade
da sua causa, ele faz de Eastwood o maior cineasta japonês honorariamente
japonês desde que os grandes, como Akira Kurosawa, Shohei Imamura
e Yasujiro Ozu, se foram. Em suas cinco décadas, a carreira do astro já
deu mais voltas do que ele próprio é capaz de contabilizar. Mas
por essa nem ele mesmo esperava, como disse a VEJA durante uma entrevista concedida
em Palm Springs, na Califórnia, onde jogaria num torneio beneficente de
golfe. Com menos alarde, outra notícia
sobre o veterano circulou nessa mesma terça-feira. Realizada todos os anos,
a enquete denominada Harris consulta o público americano para estabelecer
um ranking dos astros mais populares. Os dois primeiros lugares da lista não
causam surpresa: foram ocupados por atores de grande apelo, no auge da atividade,
Denzel Washington e Tom Hanks. No terceiro lugar, John Wayne, morto em 1979. E,
no quarto lugar, Clint Eastwood, que está vivíssimo, mas, na qualidade
de quase-octogenário e ausência certa nas badalações
de Hollywood, não é exatamente talhado para o figurino da indústria
de celebridades. A enquete diz um bocado sobre o fascínio que os caubóis
ainda hoje exercem sobre a imaginação americana. E diz mais ainda
sobre a matéria-prima de que são feitos os ícones verdadeiros.
Wayne tinha uma presença colossal e era o epítome do herói.
Também Eastwood tem uma presença colossal e, no início da
carreira, foi um desses intérpretes que a crítica ama odiar. (Segundo
Vincent Canby escreveu em 1968 no New York Times, ele só não
era um mau ator porque atores fazem alguma coisa. Anos mais tarde, Canby
admitiu que errou ao não reconhecer "a graciosidade e a espirituosidade"
do ator/diretor.) Ao contrário de Wayne, porém, Eastwood foi sempre
um herói peculiar, que atira nos outros pelas costas, como nos faroestes-espaguete
de Sergio Leone, ou um renegado. O caso exemplar é "Dirty" Harry Callahan,
o taciturno policial de São Francisco que, apresentado à platéia
em 1971, fez de Eastwood um astro de fato e de direito. Harry atira, não
pergunta nem antes nem depois e não perde tempo com o "você tem o
direito de permanecer calado". Em seu entender, bandidos têm o direito de
ir para a cadeia, se chegarem vivos até ela. A veneranda crítica
Pauline Kael decretou que o personagem era fascista. Até hoje Eastwood
discorda. Harry, diz ele, frustra-se com a ineficácia do sistema e sofre
de empatia aguda para com os alvos dos marginais. "Naquela época, só
se falava nos direitos dos criminosos. Os direitos das vítimas não
andavam muito em moda", ironiza, explicando a rapidez e a intensidade com que
o personagem entrou na veia dos americanos.
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A IMAGEM DA VITÓRIA A
foto original, e sua reconstituição em A Conquista da Honra:
uma cena que mudou o curso da guerra |  |
Durante as duas décadas seguintes,
"Dirty" Harry definiu Eastwood, apagando da memória coletiva algumas de
suas más escolhas (o título O Cadillac Cor-de-Rosa é
auto-explicativo), mas também ofuscando a inquietação intelectual
e artística que, durante todo esse período, ele já vinha
manifestando em trabalhos como O Estranho que Nós Amamos ou O
Cavaleiro Solitário. Bird, sobre o saxofonista Charlie Parker,
que Eastwood dirigiu em 1988, alertou os mais atentos para o fato de que o astro
se havia transmutado num criador de primeira ordem. Para os outros, a ficha só
caiu mesmo quatro anos depois, quando Os Imperdoáveis entrou direto
no panteão dos westerns clássicos e abocanhou quatro Oscar. Os
Imperdoáveis é uma condenação clara da corrupção
moral, social e espiritual que a violência ocasiona. Desde então,
o diretor tem aprofundado a maturidade de sua reflexão sobre a natureza
humana sobre o que constitui a hombridade, sobre os desafios do envelhecimento,
sobre a importância primal dos filhos e, sempre, sobre os efeitos da violência,
seja ela justificável ou não. "Todos me perguntam por que estou
fazendo meu melhor trabalho agora, nesta altura da vida. Para mim, parece simples:
sei mais hoje do que sabia aos 40, aos 50 ou aos 60 anos. E não parei de
aprender", diz Eastwood. A Conquista
da Honra e Cartas de Iwo Jima ampliam o escopo do diretor. Conquista
mostra o ponto de vista americano da prolongada batalha na ilha japonesa e trata
da desintegração psicológica enfrentada pelos soldados que,
num lance registrado pelo fotógrafo Joe Rosenthal, da agência Associated
Press, levantaram uma bandeira americana no cume da ilha, o Monte Suribachi, em
23 de fevereiro de 1945. A imagem (estampada nesta página, em sua versão
original e na recriação meticulosa de Eastwood) mostra seis homens
no instante em que levantavam o mastro improvisado. Graças à sua
composição magnífica, que evoca a orquestração
do esforço para a vitória, a foto funcionou como uma potente arma
de propaganda de guerra, num momento crítico da terrível campanha
do Pacífico. Três dos homens morreram nos dias seguintes ao registro.
Os outros três foram levados de volta aos Estados Unidos, numa turnê
para angariar fundos para o esforço de guerra. O objetivo do presidente
Harry Truman era levantar 14 bilhões de dólares. John Bradley, Ira
Hayes e Rene Gagnon encheram os cofres da Defesa com 28 bilhões. Mas, enquanto
eram festejados, todos os três foram aos poucos desmoronando, vitimados
pelo stress pós-traumático, pela culpa de terem sobrevivido e pela
vergonha de usar o epíteto de heróis enquanto quase 7.000 de seus
companheiros iam morrendo em solo japonês. A família de Bradley (Ryan
Phillippe) só soube que ele havia sido condecorado por bravura após
sua morte (seu filho, James Bradley, é co-autor do livro em que o filme
se baseia, disponível no Brasil pela Ediouro). Gagnon (Jesse Bradford),
que nunca entendeu a efemeridade da fama, levou uma vida desapontadora. O índio
Hayes (Adam Beach), da tribo pima, voltou para sua reserva e morreu, de alcoolismo,
aos 32 anos.
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HERÓIS POR ACASO
Bradford, Phillippe e Beach, como os soldados que venderam 28 bilhões de
dólares em bônus: vidas desmoronadas | Um
sentimento natural o de compaixão e indignação diante
de tanto desperdício perpassa A Conquista da Honra. O impacto
vem do vigor desse sentimento, e das questões que Eastwood suscita a partir
dele. As principais: a leviandade com que se emprega a palavra heroísmo
e as cicatrizes que uma guerra deixa naqueles que são obrigados a atravessá-la.
Contemplam, ainda, a ignorância do outro, mútua e obstinada, com
que adversários se enfrentam num campo de batalha. Acima de tudo, porém,
Conquista faz uma indagação política dirigida ao presente.
Se a "última guerra justa" ensejou tantas atrocidades e manipulação,
que se pode dizer de um conflito de motivações discutíveis
e desdobramentos desastrosos? O Iraque,
por assim dizer, de Eastwood está em Cartas de Iwo Jima. Enquanto
preparava Conquista, o diretor leu, num relato de um comandante americano,
que o general Kuribayashi havia sido o militar mais brilhante de ambos os lados
da campanha. Kuribayashi (belissimamente interpretado por Ken Watanabe, de O
Último Samurai) cumprira parte de seu treinamento nos Estados Unidos,
no fim dos anos 20, e adquirira noções estranhas aos preceitos militares
japoneses da época. Decidido a impedir ou ao menos postergar a queda de
Iwo Jima, aplicou idéias do oponente à sua estratégia. Ordenou
que, em vez de cometerem haraquiri quando fracassassem em determinada frente de
defesa, seus soldados se reorganizassem para continuar a resistência. Foi
desobedecido em centenas de casos. Entre o suicídio ritual, a diarréia
causada pela água contaminada e a artilharia americana, cerca de 21.000
dos 22.000 soldados japoneses concentrados na ilha perderam a vida. Mas o combate
que deveria durar quatro dias durou um mês como Kuribayashi planejava.
AP  |
EM GUERRA CONTRA O HARAQUIRI
Watanabe, como o general Kuribayashi, e, ao lado, um dos
túneis que ele mandou escavar: depois dos americanos, o suicídio
ritual foi o pior inimigo | Eastwood
ficou fascinado com o militar e o homem, revelado nas cartas escritas à
família durante a estada americana de Kuribayashi e de dentro dos túneis
e cavernas que ele mandou escavar em Iwo Jima. "Nessas cartas, Kuribayashi fala
à mulher, ao filho e à filha com a mesma afeição e
as mesmas preocupações que as de qualquer outro pai, em qualquer
outro lugar do mundo. Parece óbvio mas pus na cabeça que
deveria entender quem era cada uma das pessoas naquela ilha", explica Eastwood,
que conseguiu o sinal verde para o projeto quando o primeiro filme já estava
em andamento. Soa quase como traição dizer que Cartas é
o melhor dos dois trabalhos (e é), uma vez que ambos funcionam como contraponto
um ao outro. "Creio que nenhum de nós desejaria que a II Guerra tivesse
terminado de forma diferente. Mas creio também que é possível
compreender o inimigo e esperar que ele tenha a chance de viver e voltar para
casa", diz o diretor. Eastwood não
é, por nenhum tipo de definição, um liberal no sentido americano
da palavra (teve, aliás, diversos flertes com o Partido Republicano). Afirma,
ainda, não ser um pacifista radical: "Acredito absolutamente em negociação.
Mas existe gente que absolutamente não quer negociar". No entanto, é
hoje um dos poucos artistas que se empenham em refletir de forma conseqüente
sobre o gene americano (ou humano) da violência. Rever convicções
e divulgar os próprios erros de julgamento é coisa para homens com
H (abarcando-se aí ambos os sexos). Eastwood, que nasceu com o dom de nunca
se incomodar com a opinião alheia, faz por merecer o uso da maiúscula.
Olhando-se os dois extremos de sua carreira, o inicial e o presente, parece estar-se
contemplando duas vidas diferentes. Se se observar a progressão de seu
trabalho, porém, a vista é ainda mais impressionante: um cenário
de transformação pessoal ininterrupta, quase sempre rumo a um ponto
de vista mais compassivo e, simultaneamente, mais crítico.
Pelo lado pragmático, Eastwood tem uma receita simples para um bom filme:
50% estão na história certa e 40% na escolha correta dos atores.
"Os outros 10% são você tentando sair do caminho que todo mundo segue
e não atrapalhar demais", brinca. Gosta de sets tranqüilos. A título
de curiosidade, nem "ação!" ele grita. Perdeu o hábito porque,
nas filmagens de faroestes, o berro assustava os cavalos. Diz que freqüentemente
só descobre o que acha sobre isso ou aquilo quando conversa com outras
pessoas. "Atores e diretores que se fecham no mundinho deles perdem o equipamento
necessário para entender como funcionam o mundo e as pessoas reais, e deixam
de ser atores e diretores", diz Eastwood. "Salvo a ocorrência de algum tipo
de senilidade", pretende se manter ligado e aberto a histórias que despertem
seu interesse. Os genes estão a seu favor: sua mãe chegou aos 97
anos, e Eastwood cuida bem do patrimônio. Acredita que uma cerveja gelada
ou uma taça de vinho são a conta certa. "Melhor que isso não
fica", diz, suprimindo uma parte antes indispensável desse seu velho lema
aquela que adicionava ao drinque uma companhia feminina. Casamenteiro serial,
jura que a jornalista Dina Ruiz, que conheceu em meados dos anos 90 e descreveu
como "a melhor mulher que já encontrei", é a última senhora
Eastwood. Com todas as rugas a que tem direito, mas aprumadíssimo no andar,
o astro continua a provocar uma reação que lembra a abertura do
Mar Vermelho em Os Dez Mandamentos: a multidão abre alas para dar
passagem à lenda viva. Alguns se aproximam com juras de amor e admiração,
que o astro deflete com uma combinação de cordialidade e distância,
dosada em cinqüenta anos de prática.
Outra vantagem da idade é que ele já não dá a mínima
para o relatório da bilheteria. "No começo, o estúdio não
queria bancar Sobre Meninos e Lobos, porque achava a história muito
sombria, nem Menina de Ouro, porque dizia que ninguém iria ver um
filme sobre uma boxeadora. Menina de Ouro definitivamente não é
sobre uma boxeadora; é sobre um homem que perdeu contato com a filha e
reencontra esse amor numa outra moça. Aos 40 anos, eu talvez tivesse dado
razão ao estúdio. Hoje, posso dizer: 'Obrigado, vou fazer o filme
em outro lugar, porque essa é uma história que eu quero contar'."
Menina de Ouro é um
dos muitos exemplos de que o instinto em que Eastwood tanto confia é quase
infalível. Não só porque a história de boxe que mal
e mal valia a pena financiar rendeu 217 milhões de dólares, mas
porque, junto com Cartas de Iwo Jima, é uma das melhores depurações
de um tema recorrente nesse novo ato da carreira do diretor: o dos filhos, ou
os que fazem as vezes de filhos, como a criação mais vívida
de que um homem é capaz, e também como sua ligação
definitiva com o mundo. Eastwood, que tem presumidos sete filhos as mais
novas, as fofíssimas Francesca e Morgan, de apenas 13 e 10 anos ,
torce um pouco o nariz para teorizações do gênero ("Coisa
de francês", disse certa vez). Mas também não as desmente.
"Filmes são mesmo como filhos. Você os faz, mas eles levam a vida
deles." Dito por quem entende um bocado dos dois assuntos filhos e levar
a vida.
| OS VERDADEIROS IMPERDOÁVEIS
Identificar a si mesmo no inimigo, como Clint
Eastwood faz em Cartas de Iwo Jima, é um dos maiores desafios que
qualquer ser humano pode enfrentar. E não apenas porque, para os Estados
Unidos, o grande adversário na II Guerra foi o Japão imperial, que
arrastou o país para a encarnecida luta no Pacífico ao bombardear
Pearl Harbor. O que complica essa tarefa é um dos traços mais característicos
da história recente do militarismo japonês a selvageria sistemática
dispensada aos inimigos. Para os chineses, as memórias de estimados 4 milhões
de civis bombardeados, torturados, decapitados ou enterrados vivos durante a invasão
de 1937 a 1945 são uma fonte inesgotável de incidentes diplomáticos.
Já os milhares de ingleses, americanos e outros soldados aliados que tiveram
o infortúnio de ser capturados pelo Japão foram privados da plenitude
do direito de purgar as memórias dos hediondos campos de prisioneiros,
em que a taxa de mortalidade rondava os 30% e inexistia o tratamento comparativamente
menos brutal reservado pelos nazistas aos anglo-saxões por empatia racial:
os japoneses da época acreditavam ser a raça superior. Primeiro,
porque as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki reconfiguraram
os japoneses em vítimas. Segundo, porque o conflito ideológico entre
Estados Unidos e União Soviética criou a necessidade de cooptar
o Japão, rapidamente, para o campo da democracia e do circuito econômico
ocidental o que foi feito com enorme sucesso. Por último, e não
menos importante, devido à tenacidade da recusa do Japão oficial
em enfrentar a própria história, omitindo dela as passagens menos
lisonjeiras sejam derrotas militares, como a de Iwo Jima, sejam evidências
de conduta incivilizada. Poucas imagens da brutalidade dos guerreiros imperiais
sobreviveram, e mesmo elas são constante objeto de disputa por parte do
establishment japonês, que até hoje persiste em brigar com a realidade.
Esse comportamento brutal nada tem
a ver com a "tradicional cultura japonesa", um clichê tantas vezes evocado,
para o bem e para o mal. Ele vicejou no fim do século XIX, a partir de
uma infelicíssima conjuminância. Entre seus ingredientes, contam-se
a ascensão imperialista do Japão, uma visão doentiamente
distorcida do milenar bushido a doutrina samurai que prega o destemor
completo em combate , a exacerbação do nacionalismo e a adoção,
como religião de Estado, do xintoísmo, segundo o qual o imperador
era divino e a obediência devida a ele e a seus representantes, completa.
Da destilação dessa mistura surgiu um elemento nefasto, que acarretou
a destruição autoprovocada do próprio Japão e cerca
de 30 milhões de mortes entre o fim do século XIX e 1945: a convicção
de uma superioridade racial e cultural absoluta. Nem a vida dos soldados japoneses
que não se submetiam totalmente a esse pensamento tinha algum valor. Que
dirá, então, a dos "bárbaros" contra os quais o Império
do Sol Nascente dirigiu sua belicosidade. Mais do que reconstruir o país
e transformá-lo num prodigioso sucesso econômico, o maior feito da
história recente do Japão foi enterrar esse passado tenebroso. Enterrar,
evidentemente, não significa negar. | |
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