'
 


    

 
Edição 1993 . 31 de janeiro de 2007

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Auto-retrato
Gente
Veja essa
VEJA.com
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Esporte
Faz mal, sim

Atividade física em excesso mais
prejudica do que ajuda as crianças

Oscar Cabral
Marcos Vinícius, de 6 anos, na fisioterapia: futebol, natação e jiu-jítsu ao mesmo tempo
 
NESTA REPORTAGEM
Quadro: A idade real


A idéia de que a prática de exercícios físicos desde cedo estimula o crescimento é quase um mantra repetido por todos os pais que matriculam os filhos em escolinhas de esportes. É comum também o argumento de que as atividades extras são uma forma mais saudável de ocupar o tempo ocioso depois da escola. Ou seja, nada mais conveniente. Tudo parecia perfeito até que a revista da Academia Americana de Pediatria publicou um estudo que faz um importante alerta aos pais. Os pesquisadores acompanharam 744 crianças, de 4 a 12 anos, durante um ano. Constataram que 88,6% delas sofreram algum dano físico por causa do esporte que praticavam. Em 34% dos casos, ocorreram lesões mais sérias e foram necessários tratamentos médicos.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores desconsideraram tombos, cortes e quedas – que são perfeitamente normais em qualquer infância bem aproveitada – e avaliaram apenas a intensidade de esforço a que as crianças estavam expostas. As conclusões não são animadoras. Algumas estruturas, como as placas responsáveis pelo crescimento ósseo, podem ser afetadas. A fadiga também pode inibir a liberação do hormônio do crescimento. Ou seja, além de causar lesões, o excesso de atividades físicas pode prejudicar o desenvolvimento.

O termo overtraining, antes restrito ao universo dos atletas, vem ganhando espaço nos consultórios pediátricos. Os médicos são unânimes quanto à prevenção do problema. O ideal, dizem, é estabelecer o limite máximo de uma hora diária de exercícios. A criança também não deve fazer mais de dois esportes simultaneamente, pois o aprendizado de novos movimentos cria uma exigência adicional em uma rotina que já pode ser suficientemente estafante. E isso para as crianças com mais de 6 anos. Antes dessa idade, as aulas devem visar apenas à socialização e ao primeiro contato com o esporte. "É comum os pais matricularem os filhos nas atividades de que eles gostam, mas para as quais a criança não leva o mínimo jeito. Isso é ruim, pois faz com que aumente a cobrança", explica o pediatra Ricardo Barros, coordenador do grupo de medicina desportiva da Sociedade Brasileira de Pediatria. Caso a criança não se manifeste, o ideal é observá-la para identificar de que tipo de esporte ela gosta.

O overtraining vem acompanhado de uma série de sintomas, como alterações no humor (veja quadro). Quando a criança começa a se recusar a ir às aulas, reclama de cansaço e não dorme direito, é hora de abrir o olho. Esses são os primeiros sinais de que a rotina está muito puxada. Se o ritmo se mantiver, aumentam os riscos de lesões nos tendões e músculos. Esportes de alto impacto tendem a forçar as articulações além da conta. Ninguém precisa proibir seu filho de jogar futebol e basquete, mas é preciso que os esportes sejam alternados durante a semana e as aulas não ultrapassem uma hora de duração. "Os pais só levam as crianças ao consultório depois de meses de reclamação de dor porque pensam que é natural na prática do esporte, o que não é verdade", explica o ortopedista Edilson Forlin, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica.

Curar uma lesão nem sempre é tarefa fácil. Para que seu filho interagisse com outras crianças e praticasse algum esporte, Fernanda Soares, 25 anos, decidiu matriculá-lo na mesma academia onde faz ginástica. De uma hora para outra, Marcos Vinícius, de apenas 6 anos, começou a praticar futebol, natação e jiu-jítsu – tudo ao mesmo tempo. "A idéia era ocupar a semana toda. Mas a carga horária estava fora dos limites", explica a mãe. Os sintomas do overtraining não demoraram a aparecer. Em dois meses, o menino começou a ter insônia e a reclamar de dores no joelho. Teve de se submeter a sessões semanais de fisioterapia à base de eletroestimulação por mais de dois meses. "Matricular uma criança em vários esportes é um grande erro dos pais que pode custar muito caro aos filhos", alerta o fisioterapeuta carioca Alex Evangelista.

É preciso cuidado para não cair em algumas armadilhas. A primeira delas é a insistência dos filhos para começar novas atividades. Nessa fase, a criança quer aprender um pouco de tudo. Acaba convencendo os pais a apostar em seu desejo. Depois de comprado todo aquele aparato – uniforme, touca, roupão, sapatilhas –, são os pais que forçam os filhos a continuar, para não jogar o dinheiro fora. Outra cilada muito comum é o orgulho que os pais sentem ao ver os filhos nas quadras. O prazer da competição, associado à idéia de que seu filho é bom no que faz, pode levar os pais a desconsiderar sinais importantes na criança. Nesses casos, o esforço para criar o atleta mirim pode ser, com perdão do trocadilho, um autêntico gol contra.

 
 
 
 
topovoltar