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Esporte
Faz mal, sim
Atividade física em excesso
mais
prejudica do que ajuda as crianças
Oscar Cabral
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| Marcos Vinícius, de 6 anos, na fisioterapia:
futebol, natação e jiu-jítsu ao mesmo tempo
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A idéia de que a prática de exercícios físicos
desde cedo estimula o crescimento é quase um mantra repetido
por todos os pais que matriculam os filhos em escolinhas de esportes.
É comum também o argumento de que as atividades extras
são uma forma mais saudável de ocupar o tempo ocioso
depois da escola. Ou seja, nada mais conveniente. Tudo parecia perfeito
até que a revista da Academia Americana de Pediatria publicou
um estudo que faz um importante alerta aos pais. Os pesquisadores
acompanharam 744 crianças, de 4 a 12 anos, durante um ano.
Constataram que 88,6% delas sofreram algum dano físico por
causa do esporte que praticavam. Em 34% dos casos, ocorreram lesões
mais sérias e foram necessários tratamentos médicos.
Para chegar a esses resultados,
os pesquisadores desconsideraram tombos, cortes e quedas
que são perfeitamente normais em qualquer infância
bem aproveitada e avaliaram apenas a intensidade de esforço
a que as crianças estavam expostas. As conclusões
não são animadoras. Algumas estruturas, como as placas
responsáveis pelo crescimento ósseo, podem ser afetadas.
A fadiga também pode inibir a liberação do
hormônio do crescimento. Ou seja, além de causar lesões,
o excesso de atividades físicas pode prejudicar o desenvolvimento.
O termo overtraining, antes
restrito ao universo dos atletas, vem ganhando espaço nos
consultórios pediátricos. Os médicos são
unânimes quanto à prevenção do problema.
O ideal, dizem, é estabelecer o limite máximo de uma
hora diária de exercícios. A criança também
não deve fazer mais de dois esportes simultaneamente, pois
o aprendizado de novos movimentos cria uma exigência adicional
em uma rotina que já pode ser suficientemente estafante.
E isso para as crianças com mais de 6 anos. Antes dessa idade,
as aulas devem visar apenas à socialização
e ao primeiro contato com o esporte. "É comum os pais matricularem
os filhos nas atividades de que eles gostam, mas para as quais a
criança não leva o mínimo jeito. Isso é
ruim, pois faz com que aumente a cobrança", explica o pediatra
Ricardo Barros, coordenador do grupo de medicina desportiva da Sociedade
Brasileira de Pediatria. Caso a criança não se manifeste,
o ideal é observá-la para identificar de que tipo
de esporte ela gosta.
O
overtraining vem acompanhado de uma série de sintomas,
como alterações no humor (veja quadro). Quando
a criança começa a se recusar a ir às aulas,
reclama de cansaço e não dorme direito, é hora
de abrir o olho. Esses são os primeiros sinais de que a rotina
está muito puxada. Se o ritmo se mantiver, aumentam os riscos
de lesões nos tendões e músculos. Esportes
de alto impacto tendem a forçar as articulações
além da conta. Ninguém precisa proibir seu filho de
jogar futebol e basquete, mas é preciso que os esportes sejam
alternados durante a semana e as aulas não ultrapassem uma
hora de duração. "Os pais só levam as crianças
ao consultório depois de meses de reclamação
de dor porque pensam que é natural na prática do esporte,
o que não é verdade", explica o ortopedista Edilson
Forlin, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica.
Curar uma lesão nem sempre
é tarefa fácil. Para que seu filho interagisse com
outras crianças e praticasse algum esporte, Fernanda Soares,
25 anos, decidiu matriculá-lo na mesma academia onde faz
ginástica. De uma hora para outra, Marcos Vinícius,
de apenas 6 anos, começou a praticar futebol, natação
e jiu-jítsu tudo ao mesmo tempo. "A idéia era
ocupar a semana toda. Mas a carga horária estava fora dos
limites", explica a mãe. Os sintomas do overtraining
não demoraram a aparecer. Em dois meses, o menino começou
a ter insônia e a reclamar de dores no joelho. Teve de se
submeter a sessões semanais de fisioterapia à base
de eletroestimulação por mais de dois meses. "Matricular
uma criança em vários esportes é um grande
erro dos pais que pode custar muito caro aos filhos", alerta o fisioterapeuta
carioca Alex Evangelista.
É preciso cuidado para
não cair em algumas armadilhas. A primeira delas é
a insistência dos filhos para começar novas atividades.
Nessa fase, a criança quer aprender um pouco de tudo. Acaba
convencendo os pais a apostar em seu desejo. Depois de comprado
todo aquele aparato uniforme, touca, roupão, sapatilhas
, são os pais que forçam os filhos a continuar,
para não jogar o dinheiro fora. Outra cilada muito comum
é o orgulho que os pais sentem ao ver os filhos nas quadras.
O prazer da competição, associado à idéia
de que seu filho é bom no que faz, pode levar os pais a desconsiderar
sinais importantes na criança. Nesses casos, o esforço
para criar o atleta mirim pode ser, com perdão do trocadilho,
um autêntico gol contra.
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