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Droga
Sob o poder do ecstasy
Jovens de classe média são
o motor
do crescente tráfico da "bala"

Ronaldo Soares
Oscar Cabral
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| "Rodrigo" chegou a tomar oito "balas" na mesma
noite: dezesseis internações até se livrar
do vício |
Quando agentes da
Polícia Federal vasculharam prédios e condomínios
de luxo do Rio de Janeiro, no fim do ano passado, ouviram as respostas-padrão
dos alvos da operação: "Não sou vagabundo,
sou da paz" e "Não ficarei muito tempo preso". Repetidas
por alguns dos doze acusados de tráfico presos pela polícia,
quase todos jovens de classe média alta, as frases retratam
bem a realidade em torno dessa crescente praga urbana, as drogas
sintéticas. Elas estão criando um novo traficante
no Brasil, o garotão classe média ou alta que vende
ecstasy e LSD, ácido lisérgico que tem mais de meio
século de consumo. Os chefões do pó armados
até os dentes e entrincheirados em favelas agora dividem
a cena do crime com adolescentes e jovens de famílias com
alto poder aquisitivo, que praticam esportes, fazem faculdade, dominam
outros idiomas e são craques de internet. O fenômeno
se alastrou pelas principais capitais do país. Ele está
consolidando a triste classificação do Brasil como
potência emergente no mercado mundial de drogas sintéticas.
O volume de apreensões
de ecstasy pela Polícia Federal nos últimos anos mostra
a escalada da droga no Brasil. O número de comprimidos apreendidos
em 2001 era estatisticamente desprezível (1.900), mas em
apenas três anos registrou um salto gigantesco: 81.900 unidades.
Mesmo que em 2005 o total de apreensões tenha caído
para 53.700 pílulas, nada indica que o problema esteja sob
controle. Para a PF, isso pode ser resultado tanto do aumento da
repressão ao crime como da utilização de novas
rotas pelos traficantes. O representante do Escritório das
Nações Unidas contra Drogas e Crime para o Cone Sul,
Giovanni Quaglia, diz que há uma mudança de perfil
no mercado mundial de ecstasy. A droga parou de avançar nos
principais centros produtores e consumidores os países
europeus e os Estados Unidos. Em contrapartida, novos mercados estão
surgindo, principalmente nos países em desenvolvimento. "Nossa
preocupação é que essa tendência continue
e o Brasil vire um destino interessante, porque o mercado tradicional
está saturado", diz Quaglia.
As operações policiais
feitas no Brasil para combater as drogas sintéticas mostram
que jovens de classe média estão mergulhando de cabeça
nesse mercado. Cerca de 90% dos presos nas operações
têm esse perfil. São chamados de "traficantes playboys",
pela polícia, ou street dealers (algo como "traficantes
do asfalto"), por eles mesmos. Em 2002, a PF prendeu oito integrantes
de uma quadrilha formada por jovens que levavam cocaína para
a Europa e a Ásia e voltavam com drogas sintéticas.
Parte do bando era formada por moradores de mansões de Brasília.
Nos últimos dois anos, o delegado Luiz Marcelo Xavier, da
Polícia Civil fluminense, chefiou operações
que prenderam traficantes de drogas sintéticas em diferentes
pontos do Rio. Dos setenta presos, 90% eram estudantes universitários.
Eles usavam serviços de comunicação pela internet,
como Orkut e MSN, para negociar ecstasy. Ou, então, revendiam
a droga em raves e boates. "O traficante do morro não tem
acesso a esses lugares. Por isso, o vendedor ideal é alguém
que seja como os freqüentadores", diz Xavier.
Para ele, muitos jovens são
atraídos para esse tipo de crime movidos pela falsa idéia
de que se trata de um tráfico limpo, ou seja, não
associado à violência que cerca as drogas comercializadas
em favelas, como cocaína e maconha. "Nas drogas sintéticas,
as quadrilhas não disputam na arma, e sim no preço",
diz. Além disso, a droga vem se popularizando por ser de
fácil circulação: não tem cheiro, é
do tamanho de uma aspirina e fácil de ser "disfarçada".
Pode ser guardada, por exemplo, dentro de embalagens com pílulas
de doces, o que dificulta a identificação tanto pela
polícia quanto pela família. Nem mesmo a polícia
conhece em detalhes o funcionamento das novas quadrilhas ou o número
de pessoas envolvidas. Mas aos poucos vão se delineando as
características de seus integrantes (veja
o quadro). Existe, por exemplo, a figura do atacadista,
normalmente dono de negócios de fachada que opera no ramo
de importação e exportação. Trata-se
de pessoas que possuem contatos com laboratórios que fabricam
a droga em larga escala no exterior, em geral na Holanda, o maior
produtor mundial. Com o lucro das grandes encomendas que trazem
para o Brasil, os atacadistas lavam o dinheiro comprando imóveis,
registrados em nome de laranjas. Uma quadrilha desbaratada no ano
passado pela PF na Operação Tsunami havia adquirido
em três anos o equivalente a 5 milhões de reais em
imóveis.
Outra forma de trazer a droga
para o Brasil é fracioná-la em cargas menores, de
até 400 comprimidos, por meio de encomendas postais. "Já
encontramos ecstasy dentro de livros e até de sapatos vindos
pelo correio. Para o atacadista, esse tráfico formiguinha
é interessante, pois em caso de apreensão o prejuízo
não é grande", diz o delegado federal Fernando Franceschini,
da Coordenação de Operações Especiais
em Fronteiras da Região Sul. Outra função importante
na quadrilha é a do distribuidor, que compra parte da carga
do atacadista e revende em lotes de no mínimo 100 comprimidos.
Eles também têm a função de arregimentar
revendedores, em geral jovens de classe média que vão
a festas e boates repassar a droga ao consumidor final.
Albari Rosa/Gazeta
do Povo/Pagos
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| A polícia em ação: apreensão
de 81 900 pílulas em um ano |
O ecstasy, ou MDMA, é um tipo de metanfetamina, substância
estimulante do sistema nervoso central. Sintetizada em 1912, a droga
já foi usada como moderador de apetite e até como
desinibidor em sessões de psicoterapia, mas acabou proibida
nos anos 80. Seu uso causa sensação de euforia, gerada
pela descarga de serotonina neurotransmissor ligado ao prazer
e ao bem-estar que ela produz no cérebro. Mas também
acelera os batimentos cardíacos, eleva a temperatura corporal
e desidrata o organismo, o que leva o usuário a consumir
muita água item, aliás, que nas raves costuma
ser tão ou mais caro do que uma cerveja. Passado o efeito
da droga, geralmente ocorre uma sensação de depressão
que dura cerca de dois dias. Há casos de usuários
que, para evitar essa reação, consomem cada vez com
mais freqüência, o que leva à dependência.
Foi o que aconteceu com o analista de sistemas carioca Rodrigo (pseudônimo),
30 anos. Usuário de ecstasy nos últimos quatro anos,
ele chegou a consumir a droga diariamente. "Para obter o mesmo efeito,
comecei a usar cada vez mais. Cheguei a tomar oito balas (comprimidos)
em uma mesma noite", conta Rodrigo, que passou por dezesseis internações
para se livrar da dependência de cocaína e ecstasy
e está há mais de dois meses sem usar substâncias
tóxicas.
Há outras drogas sintéticas
que compõem com o ecstasy o grupo das chamadas club drugs.
Como o GHB, ou ecstasy líquido, alucinógeno diluído
em água ou no álcool. É extremamente perigoso,
pois a diferença entre a dose que causa o barato da droga
e a que pode levar à morte é tênue. Outro item
da lista é a ketamina, ou Special K, anestésico veterinário
do qual se extrai um pó branco para ser aspirado. Especialistas
alertam para o avanço de uma droga desse mesmo grupo, com
altíssimo poder de gerar dependência química.
Trata-se do crystal, metanfetamina quase quatro vezes mais devastadora
do que a cocaína. "Nos Estados Unidos, o crystal já
é mais consumido do que o ecstasy. É atualmente a
droga a ser combatida", disse a VEJA o psiquiatra Petros Levounis,
diretor do Addiction Institute of New York, conceituado centro de
estudo e tratamento de dependência dos EUA. No Brasil, já
há relatos de consumo da droga no Sul e em São Paulo.
Pelo visto, um novo perigo começa a rondar os lares da classe
média brasileira.
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