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Edição 1993 . 31 de janeiro de 2007

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Comportamento
A fumaça da moda

O narguilé, que pode ser fumado em grupo,
ganha popularidade entre os brasileiros


Duda Teixeira

 
Anderson Schneider
Roberto Setton
O restaurante Zuu a.Z. d.Z., em Brasília, à direita, e encontro na casa da paulistana Elaine (a segunda da esquerda para a direita): fumaça aromatizada

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Nestes tempos em que o cigarro é cada vez mais segregado nos restaurantes e bares, outro jeito de fumar está ganhando espaço e adeptos: o narguilé. O cachimbo de água, típico do Oriente Médio, está presente em bares e restaurantes de todo o Brasil. Há também quem já compre o equipamento para fumar em casa. Na boate carioca Bukowski formam-se, por noite, por volta de quarenta grupos de jovens para fumar o narguilé, uma cortesia da casa. No restaurante de culinária contemporânea Zuu a.Z. d.Z., em Brasília, o aparelho fica entre as mesas para que os clientes possam dar suas baforadas antes, durante e depois da refeição, ao custo de 45 reais por sessão. Em Fortaleza, o cardápio da casa noturna Mavik's oferece o cachimbo por 8 reais, ao som de forró, pagode, reggae e pop rock, dependendo da noite. "O narguilé se adaptou tão bem ao gosto do brasileiro que ficou impossível identificar um único perfil de fumantes. Tenho clientes de todos os estilos e idades", diz Régi Ramalho, dono de uma oficina, em São Paulo, especializada em transformar os narguilés comprados como peças de decoração em cachimbos prontos para o uso.

Enquanto a proporção de brasileiros que fumam cigarro comum caiu 20% desde 1989, o interesse pelo cachimbo árabe só aumenta. A distribuidora El Baraka, que detém metade do mercado de narguilé no Brasil, pretende importar mais de 25.000 aparelhos neste ano, 66% a mais que em 2006. Um conjunto que inclui o cachimbo de água com uma mangueira, uma embalagem de fumo e carvão especial custa 123 reais. Existem aparelhos com até quatro mangueiras, para que se fume em grupo. Narguilé é o nome árabe para o equipamento. É chamado de hookah na Índia e shisha ou goza nos países do norte da África. Há diferenças regionais no formato e no funcionamento, mas o princípio comum a todos é o fato de a fumaça passar pela água antes de chegar ao fumante.

Chalil Raad/Three Lions/Getty Images
Palestinas fumando em Belém, em 1920: narguilé com café


O narguilé foi inventado, segundo a versão mais aceita pelos historiadores, na Índia do século XVII, pelo médico Hakim Abul Fath, como um método capaz de retirar as impurezas da fumaça. Quando chegou à China, passou a ser utilizado para fumar o ópio, e assim permaneceu até a revolução comunista, no fim da década de 40. Na mão dos árabes, o cachimbo de água foi rapidamente incorporado para ser apreciado em grupo, acompanhado de café e prosa. No Brasil, muita gente anda colocando uísque ou vodca no lugar da água. Em tabacarias, os clientes sem antepassados do Oriente Médio já respondem por 80% das vendas. "Nos fins de semana, usamos o tabaco com sabor de hortelã para acompanhar a carne nos churrascos. Dá um tempero especial", diz Elaine Morrone, escultora de São Paulo que fuma narguilé com o filho e os amigos. Diferentemente do cigarro, que é um hábito solitário, o narguilé é um passatempo que estimula o convívio social.

Um dos atrativos do narguilé é o aroma doce exalado pelo fumo. As essências misturadas ao tabaco, geralmente de frutas, lembram as opções de uma sorveteria por quilo: chocolate com menta, maracujá, morango, maçã e salada de frutas. Para restaurantes e bares, a vantagem é um cheiro mais agradável que o de cachimbos ou charutos. Como a fumaça é resfriada pela água, sua inalação é mais tolerável para os não-fumantes. Outro fator que serviu para popularizar esse tipo de fumo foi a crença de que o fumo do narguilé não faz mal à saúde. Não é verdade. De acordo com um relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde em 2005, os fumantes do narguilé estão sujeitos às mesmas doenças provocadas pelo cigarro – disfunção erétil, infarto, pneumonia e câncer de pulmão. Na verdade existe um risco adicional. Em média, ao fumar um cigarro em cinco minutos, inalam-se entre 300 e 500 mililitros de fumaça. Já uma sessão de narguilé dura de vinte minutos a uma hora – o que representa 10 litros de fumaça. Enfim, como tudo o que envolve o tabaco, é um prazer que tem seus riscos.

 

 
 
 
 
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