|
|
Psicologia
O cérebro, esse perdulário
Novas pesquisas prometem revolucionar a economia ao desvendar os mecanismos
que levam às compras por impulso  Okky
de Souza e Rosana Zakabi Fabiano
Accorsi
 | SUSTO
NO FIM DO MÊS A publicitária paulista
Renata Vieira, de 25 anos, usa o cartão de crédito para pagar quase
tudo no seu dia-a-dia, desde o supermercado até o cabeleireiro. Muitas
de suas compras são feitas pela internet. O drama, segundo Renata, é
que algumas vezes ela acaba gastando mais do que o planejado. "O cartão
dá a sensação de que não estou desembolsando dinheiro,
e só percebo isso quando a fatura chega no fim do mês. De vez em
quando preciso tirar o cartão da bolsa e escondê-lo para não
cair na tentação de extrapolar no mês seguinte", ela admite.
|
Muita gente se assusta com a fatura
do cartão de crédito e fica imaginando como pôde acumular
tantos gastos extras no mês. Antes de se deixar moer pela culpa, é
bom se inteirar de uma das últimas descobertas da ciência
gastar além da conta faz parte da natureza humana. Há pelo menos
dois séculos a economia parte da premissa de que as pessoas são
livres para fazer as escolhas que julgam mais adequadas a sua vida financeira
e, nesses momentos, agem com o máximo de racionalidade. É dessa
forma que elas estipulam quanto gastar no supermercado, planejam a compra de um
carro novo e decidem como poupar para a aposentadoria. Os princípios econômicos
estão prestes a sofrer uma revisão radical. Imagens feitas com as
novas técnicas de ressonância magnética revelam que, em assuntos
ligados a dinheiro, o cérebro do consumidor de hoje funciona de forma bem
diferente do que se pensava. Na hora de fazer compras, a emoção
concorre em igualdade de condições com a razão e, freqüentemente,
a sobrepuja. As compras por impulso, às vezes vistas como gestos irresponsáveis
que geram dívidas dolorosas no cartão de crédito, na verdade
resultam de um processo químico cerebral que foge à consciência.
Essas são algumas das conclusões
da mais espetacular pesquisa já realizada sobre os processos cerebrais
associados às decisões que envolvem dinheiro. O estudo, realizado
por economistas e psicólogos das universidades Carnegie Mellon e Stanford
e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dos Estados Unidos, reuniu 26 voluntários
expostos a simulações de compra numa tela de computador. Cada um
deles tinha um crédito de 20 dólares para gastar ou levar
para casa no bolso. Primeiro se expunha um produto, como uma caixa de chocolates
e um DVD do seriado Sex and the City. Quatro segundos depois, surgia na
tela o preço do produto. Na etapa final, os voluntários tinham também
quatro segundos para decidir se compravam ou não cada item. Uma máquina
de ressonância magnética analisava o nível de atividade de
várias regiões do cérebro de cada voluntário, tomando
como base o fluxo de sangue e o consumo de oxigênio. As conclusões
foram surpreendentes. Tradicionalmente, a economia enxerga o consumidor como alguém
que decide entre a satisfação imediata em fazer uma compra e a expectativa
de usar o dinheiro futuramente para adquirir outro produto ou realizar um projeto.
Essa seria uma decisão puramente racional, em que a emoção
está ausente. Os participantes da pesquisa, no entanto, segundo mostrou
a evolução dos estímulos em diferentes partes do cérebro,
associavam a desistência de adquirir um produto não à perspectiva
de usar melhor aquele dinheiro no futuro, mas à aflição e
ao sofrimento que significaria desembolsar a quantia necessária para fazer
a compra. Caco
Argemi
 | XÔ,
TENTAÇÃO A designer gaúcha
Maristela Fait lembra bem do dia em que entrou numa joalheria e comprou, por impulso
e sem necessidade, um colar, um brinco e um anel. Arrependeu-se, e o episódio
lhe serviu de lição. Hoje, se tem vontade de comprar algo de que
não precisa, sai da loja e dá uma volta pelo shopping para evitar
a tentação. Outra tática adotada é trocar o cartão
de crédito por dinheiro. "O cartão dá muitas facilidades,
mas deixa tudo meio virtual. Pagar com dinheiro é diferente, é real.
Parece que a gente fica mais pão-duro", avalia Maristela. |
A pesquisa americana pode significar uma revolução nas estratégias
utilizadas pelo comércio. Seus resultados indicam que a definição
clássica de consumidor já não serve aos tempos atuais. A
emoção influencia fortemente as decisões de compra do consumidor
do século XXI, mesmo quando ele acha que está sendo guiado pela
razão. Os cientistas que conduziram o estudo avaliam que essa mudança
é responsável pela tendência crescente de realizar compras
por impulso e acumular dívidas no cartão de crédito. Se o
pagamento é feito com dinheiro, o córtex insular, região
cerebral que processa os acontecimentos desagradáveis, transmite a informação
de que a compra representou uma perda financeira. Quando se usa o cartão,
a sensação que o cérebro registra é a de que o produto
não custou nada. "O adiamento da hora de pagar pela compra anestesia os
consumidores contra o sofrimento de ter de desembolsar dinheiro", escrevem os
autores da pesquisa. No futuro próximo, é possível que esse
novo perfil de consumidor tenha de ser levado em conta na hora de elaborar políticas
econômicas voltadas à poupança. "Mais à frente, pesquisas
como essa ajudarão os governos e a sociedade a se orientar nos investimentos
em habitação, educação e aposentadoria", disse a VEJA
o economista Colin Camerer, do laboratório de neuroeconomia do Instituto
de Tecnologia da Califórnia (CalTech).
Os especialistas em marketing dizem que, na prática, a mudança no
perfil do consumidor vem sendo observada nas últimas duas décadas
e se deve à transformação do mercado onde ele circula. A
oferta de produtos nas lojas cresce exponencialmente, os preços de objetos
do desejo que antes só eram acessíveis aos ricos, como os eletroeletrônicos
de luxo, não param de cair, e o crédito se torna cada vez mais fácil
e elástico. "A maior oferta de produtos no mercado, somada à redução
do tempo para absorver toda a informação disponível, causada
pela correria da vida moderna, criou um consumidor ansioso, que nunca está
satisfeito com o que tem e sempre está de olho no próximo lançamento",
avalia Mário René Schweriner, coordenador do curso de pós-graduação
em ciências do consumo aplicadas da Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM). As próprias lojas se adaptaram ao consumidor que compra por impulso,
aplicando lições de especialistas em vendas para turbinar os negócios.
Estatísticas comprovam que, ao entrar num supermercado, o cliente tende
a se dirigir para as gôndolas da direita, talvez porque a maioria das pessoas
seja destra. Por isso, nesses estabelecimentos, os produtos mais caros e suscetíveis
às compras guiadas por ímpetos emocionais ficam à direita
da entrada. Caco
Argemi
 | FRUSTRAÇÃO
ON-LINE O analista de sistemas carioca Alexandre
Rangel, de 36 anos, faz mais da metade de suas compras pela internet. "Assim,
não enfrento o tumulto dos shoppings e ainda aproveito as promoções
oferecidas on-line", diz ele. Às vezes, cede às compras por impulso.
"Outro dia, gostei de um relógio-despertador que aparecia num site e resolvi
comprar. Quando a encomenda chegou, descobri que havia comprado gato por lebre.
O aparelho era difícil de manusear, além de ter um toque de despertar
irritante. Acabei voltando ao relógio antigo", conta. |
As compras por impulso são hoje um fenômeno estudado com crescente
interesse. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da consultoria de internet User Interface
Engineering avalia que 34% das compras feitas on-line são de produtos que
o consumidor não planejava adquirir ao entrar nos sites das lojas virtuais.
No Brasil, o instituto de pesquisas de mercado Sense Envirosell calcula que 15%
das compras feitas em supermercados são por impulso. Segundo o instituto,
esse é um fenômeno recente até o Plano Real, as compras
guiadas apenas pela emoção não passavam de 5%. Diz José
Augusto Domingues, sócio-diretor da Sense Envirosell: "O Brasil vive hoje
um fenômeno conhecido no mercado mundial como new money (dinheiro novo),
que ocorre nos países emergentes. Quando a economia melhora e a renda per
capita sobe, a tendência é que a população compre mais
do que precisa, principalmente produtos que ela não compraria normalmente".
A publicidade, é claro, também
está engajada na briga por capturar o consumidor que compra por impulso.
Até duas décadas atrás, o principal mote dos comerciais era
a descrição detalhada do produto e de suas vantagens. "Hoje, a propaganda
é muito menos informativa e mais ligada às emoções
das pessoas", diz Schweriner, da ESPM. "Cereais e margarinas são associados
à imagem da família feliz, e os eletrodomésticos, à
da mulher que trabalha fora e cuida da casa ao mesmo tempo", ele completa. A recente
pesquisa americana que usa imagens do cérebro comprova que existe um novo
consumidor em um novo mercado. Alguns cientistas, porém, avaliam que o
fenômeno das compras por impulso está mais entranhado na natureza
humana do que se supõe. O psiquiatra Jonathan Cohen, diretor do centro
de estudos do cérebro, mente e comportamento da Universidade Princeton,
acha que sua explicação remonta à pré-história
da espécie. Disse ele a VEJA: "Há milhares de anos, o futuro não
tinha muito valor para a humanidade. O mais racional era usar tudo imediatamente,
fosse um alimento ou um pedaço de pau. Aos poucos, o cérebro tornou-se
capaz de reconhecer a utilidade das projeções para o futuro. Mas
as regiões cerebrais responsáveis pelo impulso continuam existindo
e dizendo às pessoas para consumir imediatamente. O que leva o impulso
a vencer a razão é o que estamos tentando entender com as novas
pesquisas". Foto
Pedro Rubens
 |
Com
reportagem de Leoleli Camargo e Rafael Corrêa |