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Internet
Postar e aparecer
No mundo dos fotologs, quem se
destaca vira modelo de adolescentes

Laura Ming
Sabe aquele sonho secreto que
todo jovem tem, de que algum dia alguém descobrirá
o seu trabalho (sua foto, seu site, sua banda) e o revelará
para o mundo? Quatro meninas comuns, que nunca fizeram nada de especial
a paulista Mariana de Souza Lima, ou Mari Moon, 24 anos,
a carioca Ana Paula Matta, apelido Apê, codinome Ímpar,
20 anos, Shana Andressa Roeder, 17, a Maluka, de Pomerode, em Santa
Catarina, e Carolina Lira Alves, a Lolly, que tem 16 anos e mora
no Recife , estão aí para testemunhar que o
improvável acontece. Em comum, cada uma tem seu fotolog,
um blog com muitas fotografias e algumas palavras, ao qual dedicam
horas e horas de seu dia. A dedicação é justamente
seu diferencial, num ambiente coalhado de, como dizem, fotologgers
(ou, abreviando, floggers) segundo o Fotolog, site americano
que aloja esses diários fotográficos, são 1,2
milhão de adeptos no Brasil, 20% do total mundial. Enquanto
um logger comum posta (outro termo em bloguês) uma foto de
vez em quando, as quatro meninas trocam a sua todo dia e gastam
horas se aprontando, fazendo caras e bocas, apontando a câmera
para si mesmas e clicando (um dedinho aparecendo no canto é
charmoso), para escolher e postar a imagem que melhor combina com
seu estado de espírito. Também atualizam sempre as
outras fotos do seu quarto, do seu cachorro, da sua casa.
Enquanto a maioria responde a um ou outro comentário de visitantes,
as quatro, atenciosas e simpáticas, dão atenção
a todos, opinando, elogiando, aconselhando (tudo em poucas palavras
e sinais cifrados para o leigo, visto que a escrita não é
o forte do bando). De mensagem em mensagem, viraram uma espécie
de musas para milhares de fãs, a quem ditam modo de vestir,
de falar e de se comportar. Sendo sua área de influência
justamente aquela faixa etária em que vende seus produtos,
a Melissa, fabricante de calçados de plástico para
jovens, tratou de cooptar as celebridades virtuais para o mundo
muito real dos negócios: Mari Moon, Apê, Maluka e Lolly
acabam de assinar contrato para prestar assessoria e divulgar a
marca. "Comecei como uma brincadeira. Ainda não acredito
que virou uma coisa tão séria", diz Lolly, que nem
de internet gostava antes de um amiga lhe fazer um fotolog.
Quem se dispõe a acompanhar
assiduamente o dia-a-dia de uma desconhecida? Quase todo mundo entre
12 e 18 anos. Funciona assim: uma amiga indica um fotolog, a menina
acessa, comenta, visita o fotolog de outros visitantes, comenta,
faz o seu próprio, recebe comentários, e pronto
o vínculo virtual está formado. Foi dessa maneira
que a jovem Kaminsky Gilbert, 12 anos, de Campinas, virou amiga
do peito de Apê, de quem copia as roupas e com quem "conversa"
todo dia. "Ela é demais. Quando estou triste, me dá
conselhos, melhora o meu dia", conta Kaminsky, que nunca ficou frente
a frente com Apê, mas tem absoluta certeza de que ela é
"gente boa". "Os adolescentes querem ídolos acessíveis.
Que conversem com eles, sejam parecidos", diz Fernanda Bruno, professora
de pós-graduação em comunicação
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Eles estão divididos
em muitas tribos, e as estrelas da música e da televisão
não os representam mais."
De modo geral, a tribo é
melancólica. Manifestações como "Tenho me sentido
deprimida" e "Será que a vida vale a pena?" ensejam intensa
troca de mensagens. Abrir o coração e compartilhar
as angústias que o assaltam é outro tema freqüente.
Mari Moon, estudante de moda, cabelo colorido (atualmente, pink)
e pele branquíssima, campeã de acessos no país
(70.000 por semana), teve depressão e dividiu dia a dia o
problema com seus interlocutores. Popularíssima, ela também
tem mais de 6.000 amigos e cerca de cinqüenta comunidades em
sua homenagem no site de relacionamentos Orkut. Antes do contrato
com a Melissa, era a única que ganhava algum dinheiro com
a fama: percebeu que as meninas queriam ser iguais a ela e montou
uma lojinha virtual de roupas. Outra atribuição imprescindível
dos loggers de sucesso é freqüentar o fotolog dos outros
para saber as novidades. "Hoje em dia o legal não é
o bom, é o novo", diz Luli Radfahrer, professor de comunicação
digital na Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. "Essas meninas funcionam como curadoras, selecionando
as novidades."
Os vínculos virtuais podem
ser fortes. Mari Moon e a carioca Apê (35.000 acessos por
semana) são hoje em dia melhores amigas, que se visitam quando
dá e teclam-se todas as novidades. De conversa em conversa,
a catarinense Maluka (4.000 acessos por semana) não sai do
computador. "Posso passar até dez horas sentada direto na
frente do PC. Desde que criei meu fotolog, comecei a ir muito pior
na escola", confessa. Maluka tem mais amigos chegados na internet
do que fora dela. Há duas semanas, recebeu em Pomerode a
visita de Renan Rodrigues, de Santos, em São Paulo, que nunca
tinha visto em pessoa. "Foi muito legal. Passamos um bom tempo no
computador, comentando e mexendo no fotolog um do outro. Na minha
cidade não tem muito que fazer", relata. Ana Paula, que se
apelidou Ímpar "porque sou única", conheceu por fotolog
até o namorado, Gabriel, que ela foi (de ônibus) conhecer
em Belo Horizonte. "Acho que consigo perceber como é a pessoa
pelo computador", diz Apê-Ímpar, que se veste, maquia
e posa para umas oitenta fotos todo dia. O esforço compensa:
"Tem gente que, quando me vê, age como se eu fosse a Nicole
Kidman", esnoba.
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