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Edição 1993 . 31 de janeiro de 2007

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Perfil
Ele chama, o PIB vai

Com espírito de vendedor e trabalho
duro, João Doria Jr. especializou-se
em reunir a nata do empresariado
em alegres confraternizações.
E ganha muito dinheiro com isso


Sandra Brasil

 
Manoel Marques

Quem é capaz de pôr presidentes de grandes bancos de braços esticados, dançando a Macarena? Ou, apito na boca, distribuir tarefas para chefões da indústria e respectivas senhoras? E, ainda, vestir todo mundo de estampa de oncinha, de verde-e-amarelo ou algum outro figurino coletivo? Resposta: João Doria Jr., 49 anos, publicitário, jornalista, empresário e, acima de tudo, talentosíssimo no trato com os poderosos. Doria é presidente, membro e mola propulsora do Grupo de Líderes Empresariais (Lide), uma espécie de clube que ele fundou em 1996 e do qual são sócios atualmente 406 dirigentes e donos de empresas com faturamento acima de 200 milhões de reais, condição indispensável para entrar na turma. Juntos, compõem cerca de 40% do produto interno bruto do Brasil. Ao longo do ano, essa elite da elite do empresariado nacional, com suas mulheres (que adoram as gentilezas e são as mais animadas), parte para exclusivíssima confraternização: Doria fecha um resort e todos desfrutam quatro ou cinco dias de boa comida, esportes, dança, shows, palestras. Entre uma e outra caipirinha à beira da piscina, muitos contatos são feitos e muitos negócios, alinhavados. "É um ganha-ganha. Quem vai ganha amigos, clientes, informação, conteúdo, negócios. A prova é que nunca houve quem não quisesse voltar", gaba-se Doria. No ano passado, foram catorze encontros. Para este ano, estão previstos vinte, começando pelo Family Workshop, um "seminário para famílias" com lista de presença de 149 empresários e seus familiares – ao todo, 450 pessoas – em Mogi das Cruzes, a 65 quilômetros de São Paulo, de 25 a 28 de janeiro. Tema do encontro: "pais felizes, líderes capazes".

No programa de atividades dos membros da Lide (mensalidade: 500 reais), as mais esperadas e comentadas são o Fórum Empresarial, realizado todo mês de abril na Ilha de Comandatuba, no sul da Bahia, e o Meeting Internacional, em setembro, no exterior (o último, em Bariloche, reuniu 320 pessoas). Não se trata de boca-livre. "Os participantes são convidados a investir no evento, num sistema de cotas diferenciadas. É um negócio", explica Doria. As cotas de participação variam de 80 000 a 2 milhões de reais, dependendo da colocação do empresário na hierarquia de patrocínios. Doria administra o dinheiro, dá nota fiscal e ganha para organizar os encontros. Apresentador há catorze anos de um programa de entrevistas com políticos e empresários, o Show Business, ele percebeu antes de todo mundo que: 1) os donos das empresas estavam dando lugar a executivos profissionais; 2) esses executivos tinham interesse em se conhecer melhor. Arregaçou as mangas (mera figura de linguagem – ele nunca é visto de manga arregaçada; sem terno, faz o tipo elite paulistana arrumadinha, de calça, camisa social e suéter jogado nos ombros), montou o primeiro encontro e não parou mais. A competitividade no meio estimula o comparecimento, com base num raciocínio simples: se meu concorrente vai, se meu cliente vai, se meu fornecedor vai, tenho de ir também. Com tanto peso-pesado na lista de presença, fica fácil arrebanhar palestrantes – já falaram nos encontros ministros, governadores e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (cachê: 50 000 dólares), de quem Doria é amigo há anos. Quem participa viaja em avião fretado, tem cobertura total de saúde e segurança de altíssimo nível. Sem falar nos brindes – "delicadezas", prefere Doria –, de roupão a celular, que começam a pipocar antes do embarque ("Quero que as pessoas cheguem felizes e saiam mais felizes ainda") e continuam durante a estada no hotel. "No primeiro encontro a que fui, ficava igual criança esperando Papai Noel: não via a hora de ir para o quarto ver o que tinham deixado na minha cama", lembra com bom humor Paulo Zottolo, ex-presidente da Nivea que, em abril, assume o comando da Philips. Há festa toda noite, cada uma com sua cor ou tema expressos no convite, para o pessoal ir preparado. "Já tenho um guarda-roupa de coisas que fiz para os encontros do João. Até hoje guardo o longo de oncinha da festa africana", diz Kátia, mulher de José Carlos Grubisich, presidente da Braskem.

 
Fotos Deyse Chibli, Marcos Rosa
Com Ivan Zurita, da Nestlé, Michel Klein, das Casas Bahia, e Fernando Henrique, amigo de longa data: empresário, político ou artista, ninguém recusa convite para os encontros que Doria promove

Doria é admirado pelo que faz, e o faz com verdadeiro espírito empreendedor e evidente prazer. Ganha muito dinheiro também, o que não é visto como demérito. "Todo mundo que vai aos encontros quer ganhar dinheiro. É legítimo que o João também enriqueça", diz um sócio da Lide. Filho do deputado federal cassado João Doria, começou a trabalhar aos 13 anos em uma agência de publicidade. Envolveu-se com a política e tornou-se uma espécie de afilhado do peemedebista histórico e ex-governador Franco Montoro. Foi secretário municipal de Turismo e presidente da Paulistur e da Embratur. Além da Doria Associados, empresa que toca a Lide e atividades promocionais diversas, é dono de um centro de exposições, de uma produtora de vídeo e de uma editora. Em patrimônio pessoal, calcula-se que tenha amealhado algo em torno dos 70 milhões de reais. Mora com a mulher, Bia, e os três filhos num casarão no Jardim Europa, vizinho de três Diniz (grupo Pão de Açúcar) e um Ermírio de Moraes (Votorantim). Tem um helicóptero Bell 407 e acaba de fazer uma encomenda não confirmada de um novíssimo jato executivo Phenom, da Embraer, com entrega prevista para 2008. Trabalhador compulsivo, chega antes das 8 horas ao escritório de 1.200 metros quadrados onde trabalha com uma equipe de 58 pessoas e só volta para casa depois da 1 da manhã. "Com tudo isso, ainda arranja tempo de levar os filhos à escola. Perto do João, eu sou Dorival Caymmi", compara o publicitário Nizan Guanaes, sócio da Lide e célebre workaholic. Geraldo Alckmin, outro amigo do peito, aponta mais uma característica: "Apesar de trabalhar muito, o João parece estar sempre chegando de férias" – referência à perene boa disposição e à aparência impecável. "É o cabelo penteado que passa essa impressão", brinca Doria. "Uso gel desde os 9 anos."

 

AS DICAS DE DORIA

Táticas espertas para fazer amigos e influenciar poderosos:

• Nunca falar mal de ninguém, "nem de quem merece"

• Brilho nos olhos e sorriso aberto ao cumprimentar, voz alegre ao telefone, dar parabéns no aniversário (por cartão ou e-mail), responder a todos os recados – "o segredo do sucesso está nos detalhes"

• Convidar para almoços, jantares ou um joguinho de futebol na sua própria casa e empenhar-se em ser um anfitrião impecável

• Nos dias que antecedem um encontro de empresários, enviar à casa deles brindes – ou melhor, "delicadezas" – para "aumentar as expectativas"

* Ao organizar um desses encontros, contar a concorrentes que o outro confirmou presença. E, na lista de participantes, ter só de vice-presidente para cima

• Promover leilões e outras atividades com renda revertida para programas de educação de crianças carentes

 
 
 
 
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