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Edição 1993 . 31 de janeiro de 2007

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Moda
Corte e postura

Com laços, pregas, recortes e decotes
inesperados, a grife Huis Clos constrói
um estilo único e elegante


Bel Moherdaui

 

Fotos Otavio Dias
Detalhes que são marca registrada: "Minha roupa tem sempre um laço, um decote nas costas"

As roupas dela não são vistas nas festas de celebridades, daquelas que gostam de silicone saltando para fora dos decotes. Raramente marcam a cintura ou destacam as coxas. Ao contrário, muitas vezes mexem com a silhueta feminina tradicional. Não servem para as românticas, sexy, roqueiras, tropicalistas, deslumbradas ou outras denominações populares. Embora sussurrem – não gritem – modernidade em seus muitos e geralmente escondidos detalhes, não seguem "tendências" no sentido das novidades que se acotovelam nas vitrines a cada temporada. Seguem a mesma e cerebral concepção desde sua fundação, há quase trinta anos. Não são nada baratas. Estranhamente, encontraram um nicho específico do mercado e nele prosperaram – ela tem quatro lojas próprias e presença em 52 pontos-de-venda, na faixa superior do mercado. Para entender a moda da grife Huis Clos basta observar como se veste sua criadora, a paulistana neta de espanhóis Clô Orozco (Clotilde Maria Orozco de Garcia), 56 anos: camisa desestruturada de malha italiana prata com um grande e casual laço na frente, calça preta reta e sandália baixa vermelha, cabelos negros displicentemente presos, óculos Calvin Klein – enfim, a perfeita definição do simples milimetricamente elaborado.

"Meu estilo sempre foi baseado naquilo que eu tenho vontade de vestir", diz. Não que Clô tenha qualquer objeção a tendências – "Amo tendências", exagera –, mas todas são muito bem filtradas pelo estilo lapidado por ela e suas jovens assistentes na fábrica do Bom Retiro, berço tradicional de confecções em São Paulo, de onde saem os laçarotes inesperados, as amarraduras perfeitas, os pregueados insólitos e a arquitetura rigorosa dos vestidos, calças e camisas que são sua marca registrada. Clô costuma desenhar algumas peças e trabalhar outras diretamente no tecido. Como tudo tem um franzido aqui, um recorte fora de ângulo ali, uma dobradura mais adiante, transpor suas criações para a máquina de costura dá um trabalho danado – a Huis Clos é dos raros ateliês a ter cinco pessoas contratadas só para fazer moldes. Sua coleção de inverno, apresentada nesta segunda-feira na semana de moda de São Paulo, virá em tons de preto, cinza e marinho (ou melhor, carvão, near black e noite: "Não uso cores puras"), com toques de tons fortes, como verde e pink. "Minha roupa sempre tem um laço, um decote nas costas. Acho menos vulgar, mais chique e inusitado que um decotão na frente", diz Clô. Se não há laços, provavelmente alguma amarração complicada surgirá entre a gola e a barra da saia. "Tem cliente que reclama que a roupa deveria vir com bula", confessa a estilista. "Mas só depois de vestir é que se vê o efeito. No cabide, fica desmilingüida." Seu estilo se desenvolveu na observação dos costureiros que admira: mademoiselle Chanel, Jean-Paul Gaultier, Yohji Yamamoto e Junya Watanabe, da Comme des Garçons. "Sempre tive curiosidade de olhar para as marcas de que gosto e me debruçar sobre o trabalho delas. Ia aos desfiles, me emocionava, entrava nas lojas, não para copiar, mas para aprender. Fazia como os pintores, que iam a Paris aprender com os grandes mestres", conta.

 

Longo de algodão misturado com fios de aço e fivela-enfeite na sustentação das pregas: o esboço ganha forma final

A grife Huis Clos – tirada do título da peça do filósofo Jean-Paul Sartre, aqui traduzida como Entre Quatro Paredes – surgiu em 1977 e tornou-se refúgio de quem fugia das roupas coladas, decotadas e curtas que sempre acompanharam o gosto nacional predominante. Virou profissão antes mesmo de Clô terminar o curso de sociologia e política na Universidade de São Paulo. Ela se formou e continuou na moda, encorajada pelo primeiro marido (dois outros se seguiriam), Renato Kherlakian, dono da Zoomp. "Sociólogos são radicais. Ela precisou abdicar de uma série de conceitos para virar empresária e fazer o negócio dar certo", diz Kherlakian, que reclama para si parte do mérito pela transformação. O conceito principal – refinamento despojado, sem concessões – felizmente permaneceu.

 
 
 
 
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