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Moda
Corte e postura
Com laços, pregas, recortes
e decotes
inesperados, a grife Huis Clos constrói
um estilo único e elegante

Bel Moherdaui
Fotos Otavio Dias
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| Detalhes que são marca
registrada: "Minha roupa tem sempre um laço, um
decote nas costas" |
As roupas dela não
são vistas nas festas de celebridades, daquelas que gostam
de silicone saltando para fora dos decotes. Raramente marcam a cintura
ou destacam as coxas. Ao contrário, muitas vezes mexem com
a silhueta feminina tradicional. Não servem para as românticas,
sexy, roqueiras, tropicalistas, deslumbradas ou outras denominações
populares. Embora sussurrem não gritem modernidade
em seus muitos e geralmente escondidos detalhes, não seguem
"tendências" no sentido das novidades que se acotovelam
nas vitrines a cada temporada. Seguem a mesma e cerebral concepção
desde sua fundação, há quase trinta anos. Não
são nada baratas. Estranhamente, encontraram um nicho específico
do mercado e nele prosperaram ela tem quatro lojas próprias
e presença em 52 pontos-de-venda, na faixa superior do mercado.
Para entender a moda da grife Huis Clos basta observar como se veste
sua criadora, a paulistana neta de espanhóis Clô Orozco
(Clotilde Maria Orozco de Garcia), 56 anos: camisa desestruturada
de malha italiana prata com um grande e casual laço na frente,
calça preta reta e sandália baixa vermelha, cabelos
negros displicentemente presos, óculos Calvin Klein
enfim, a perfeita definição do simples milimetricamente
elaborado.
"Meu estilo sempre foi baseado
naquilo que eu tenho vontade de vestir", diz. Não que
Clô tenha qualquer objeção a tendências
"Amo tendências", exagera , mas todas
são muito bem filtradas pelo estilo lapidado por ela e suas
jovens assistentes na fábrica do Bom Retiro, berço
tradicional de confecções em São Paulo, de
onde saem os laçarotes inesperados, as amarraduras perfeitas,
os pregueados insólitos e a arquitetura rigorosa dos vestidos,
calças e camisas que são sua marca registrada. Clô
costuma desenhar algumas peças e trabalhar outras diretamente
no tecido. Como tudo tem um franzido aqui, um recorte fora de ângulo
ali, uma dobradura mais adiante, transpor suas criações
para a máquina de costura dá um trabalho danado
a Huis Clos é dos raros ateliês a ter cinco pessoas
contratadas só para fazer moldes. Sua coleção
de inverno, apresentada nesta segunda-feira na semana de moda de
São Paulo, virá em tons de preto, cinza e marinho
(ou melhor, carvão, near black e noite: "Não
uso cores puras"), com toques de tons fortes, como verde e
pink. "Minha roupa sempre tem um laço, um decote nas
costas. Acho menos vulgar, mais chique e inusitado que um decotão
na frente", diz Clô. Se não há laços,
provavelmente alguma amarração complicada surgirá
entre a gola e a barra da saia. "Tem cliente que reclama que
a roupa deveria vir com bula", confessa a estilista. "Mas
só depois de vestir é que se vê o efeito. No
cabide, fica desmilingüida." Seu estilo se desenvolveu
na observação dos costureiros que admira: mademoiselle
Chanel, Jean-Paul Gaultier, Yohji Yamamoto e Junya Watanabe, da
Comme des Garçons. "Sempre tive curiosidade de olhar
para as marcas de que gosto e me debruçar sobre o trabalho
delas. Ia aos desfiles, me emocionava, entrava nas lojas, não
para copiar, mas para aprender. Fazia como os pintores, que iam
a Paris aprender com os grandes mestres", conta.
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| Longo de algodão misturado
com fios de aço e fivela-enfeite na sustentação
das pregas: o esboço ganha forma final |
A grife Huis Clos tirada
do título da peça do filósofo Jean-Paul Sartre,
aqui traduzida como Entre Quatro Paredes surgiu em
1977 e tornou-se refúgio de quem fugia das roupas coladas,
decotadas e curtas que sempre acompanharam o gosto nacional predominante.
Virou profissão antes mesmo de Clô terminar o curso
de sociologia e política na Universidade de São Paulo.
Ela se formou e continuou na moda, encorajada pelo primeiro marido
(dois outros se seguiriam), Renato Kherlakian, dono da Zoomp. "Sociólogos
são radicais. Ela precisou abdicar de uma série de
conceitos para virar empresária e fazer o negócio
dar certo", diz Kherlakian, que reclama para si parte do mérito
pela transformação. O conceito principal refinamento
despojado, sem concessões felizmente permaneceu.
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