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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A farsa cruel de um
ponto de exclamação
O grevismo na universidade recorre a
pose
de herói para esconder o papel de vilão
A greve continua! Assim terminava
o comunicado expedido na segunda-feira passada pelo comando de greve
do Andes o Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior
, dando conta das últimas notícias do movimento
deflagrado já lá iam mais de oitenta dias nas universidades
federais. O ponto de exclamação ao fim da frase dizia
mais de suas intenções do que as palavras. Caso estivesse
escrito "A greve continua", sem ponto de exclamação,
se trataria de uma informação, não mais que
isso, aos associados. O ponto de exclamação mudava
tudo. Conferia à frase épicos tons de heroísmo,
de ardor pela causa, de brado retumbante. Não, a questão
não era apenas que a greve continuava. Era que a greve continua!
O ponto de exclamação,
até pela forma, representava uma espada desembainhada contra
o inimigo. En garde! Era um convite à arremetida contra
o tirano, o opressor, o infiel. Ele vai ver só! Quem vai
ver? Quando há greve numa fábrica, quem "vai ver só"
é o patrão, que sentirá seus efeitos no bolso.
Numa greve em universidade, com perdão para repisar no óbvio,
são os alunos. É contra eles, ao fim e ao cabo, que
se produzem seus resultados. O ponto de exclamação
do Andes era uma espada espetada contra a barriga da estudantada.
O Andes, em temporada de euforia
cívica, informou que patrocinou dezesseis greves nas universidades
federais desde 1980, perfazendo 978 dias de paralisação.
Santo Deus, que proeza! e lá vai outro ponto de exclamação,
que é isso que o Andes julga merecer com tal performance.
O jornal O Globo fez algumas singelas continhas e chegou
a conclusões não tão lisonjeiras para o sindicato
dos docentes. Os 978 dias equivalem a dois anos e oito meses. Descontados
os fins de semana, e levando em conta que o ano letivo tem 200 dias
úteis, chega-se a três anos e meio sem aulas. Mais
seis meses e se completariam os quatro anos equivalentes a bom número
de cursos de graduação. Claro, há as famosas
reposições. Mas, até acontecerem, já
quebraram o ritmo que, como em qualquer atividade, é fundamental
para os bons resultados. E, quando acontecem, é em meio aos
atropelos do Natal ou do Ano-Novo, às preguiças do
verão ou do Carnaval, quando as cabeças não
estão na melhor forma para os rigores do estudo.
O deputado Paulo Delgado (PT-MG),
alertado pela reportagem do Globo, iniciou, como presidente
da Comissão de Educação e Cultura da Câmara,
um movimento para regulamentar o direito de greve nas universidades
públicas. A providência, tal qual a famosa reforma
política, inclui-se entre as que caem de podres, de tão
necessárias para desentravar o país, mas que, por
contrariar interesses corporativos, são sempre jogadas para
as calendas gregas. "Há um abuso do direito de greve", diz
Delgado. A presidente do Andes, Marina Barbosa, reage: "O direito
de greve está previsto na Constituição. Qualquer
regulamentação restringirá esse direito". Eis
um modo enviesado de ler a Constituição. Ali está
escrito (artigo 37, VII) que o direito de greve dos funcionários
públicos "será exercido nos termos e nos limites definidos
em lei específica". Opor obstáculos à materialização
da lei específica é desrespeitar o texto constitucional.
Para citar um exemplo, só
um, de como o espeto do Andes encosta na barriga dos estudantes,
atente-se para uma decisão tomada pelo comando de greve da
Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba. Comunicaram
os grevistas na quarta-feira passada que não corrigirão
as provas da primeira etapa do vestibular de 2006. Com isso, e enquanto
durar a greve, não poderá ser realizada a segunda
etapa. Sabe-se o que significa para um jovem o ano do vestibular
muito trabalho, tensões, angústias. Os grevistas
de Campina Grande resolveram adicionar a esse amargo coquetel a
incerteza em torno de quando e se as provas serão
realizadas.
"É preciso atualizar a
agenda da indignação", afirma o deputado Paulo Delgado.
"A greve continua!" é irmã gêmea de "A luta
continua!". Que por sua vez é prima de "O povo unido jamais
será vencido!" e cunhada de "Abaixo a ditadura!". Pertencem
todas a uma família de slogans apropriados ao combate contra
os regimes castradores de direitos e opressores do povo. Tiveram
seu papel durante o regime militar. Na democracia, merecem ser usados
com cuidado. Quando menos, o cuidado de verificar se o direito de
um o de greve, da parte do docente não fere
o do outro o de ter aulas, da parte do estudante.
A greve nas universidades federais,
desgastada como costuma acontecer com esses movimentos que se esticam
sem rumo e sem nexo, ameaçava morrer de morte natural no
fim da semana passada. Ao completar 88 dias, na sexta-feira, tinha
chance de escapar (por pouco) do terrível anátema
lançado pelo senador Cristovam Buarque, o primeiro dos três
ministros da Educação do governo Lula. "Uma greve
que ultrapassa os 100 dias mostra que a universidade não
é mais necessária, da forma como está estruturada",
disse ele ao Globo. "Imagine um banco parado por 100 dias."
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