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Entrevista:
Bassem Eid
Também temos culpa
Ativista palestino diz que a ocupação
israelense virou desculpa para os
próprios erros dos palestinos

José Eduardo Barella
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PHMRG

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"Não temos autocrítica
e estamos pagando por isso" |
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O palestino Bassem Eid, de 47
anos, tem um trabalho inusitado para quem vive nos territórios
ocupados por Israel: ele monitora e denuncia violações
de direitos humanos cometidas pelos próprios palestinos e
que têm como vítimas os habitantes da Faixa de Gaza
e da Cisjordânia. Eid trocou a carreira de jornalista pela
de ativista de direitos humanos em 1988, quando começou a
trabalhar para uma ONG israelense que investigava abusos das tropas
de Israel nos territórios ocupados. Em 1996, indignado com
o comportamento ditatorial da recém-criada Autoridade Palestina,
fundou o Grupo Palestino de Monitoramento de Direitos Humanos, com
a ajuda de doadores europeus. Eid já foi preso pela polícia
palestina e interrogado durante 24 horas. Também foi acusado
de traição e ameaçado por grupos terroristas.
Isso não o impede de continuar denunciando a corrupção
no governo palestino e os abusos da polícia e dos grupos
armados nos territórios, como o Hamas. Divorciado e pai de
oito filhos, Eid falou a VEJA de Jericó, onde vive.
Veja Em geral,
os palestinos reclamam dos israelenses. O senhor ficou conhecido
por denunciar as violações de direitos humanos cometidas
por seus patrícios. Por quê?
Bassem Eid Estamos vivendo um período de terror
que nada deve aos piores momentos da ocupação militar
israelense. Nos últimos cinco anos, mais de 350 palestinos
foram assassinados por razões políticas pelos próprios
palestinos. Esse número equivale a 10% dos civis mortos pelas
tropas israelenses nesse período. Essa guerra interna nos
territórios ocupados já tem até nome
é a "intrafada", em oposição à intifada,
a revolta contra a ocupação. A matança promovida
por grupos armados contra integrantes de facções rivais,
debaixo do nariz das forças de segurança palestinas,
responde pela maioria das mortes. A violência sob a chancela
oficial também é alarmante. Há casos de pessoas
que ficaram três anos detidas sem acusação formal.
Tivemos palestinos mortos na prisão e outros ameaçados,
torturados e perseguidos como se fossem bandidos. São pessoas
acusadas de colaborar com os israelenses, mas o único crime
da maioria dessas vítimas foi divergir da Autoridade Palestina.
Veja Como a
sociedade palestina reage a essa situação?
Eid É possível dividir a sociedade palestina
em três categorias. A primeira, que abriga a maioria, é
formada pelos cidadãos que têm medo da Autoridade Palestina
e dos grupos armados. A segunda inclui os que defendem apenas seus
interesses pessoais e perderam o que chamo de interesse público.
A última é a dos alienados, que não se importam
se vivemos numa ditadura ou numa democracia. Nenhum desses grupos
se propõe a denunciar os abusos cometidos pela Autoridade
Palestina e pelos bandos armados. Também não vejo
uma articulação pela democracia no meio acadêmico
ou na imprensa palestina.
Veja Qual a
explicação para a passividade diante de tanta violência?
Eid O medo da repressão ajuda a explicar esse
silêncio. Mas há outros motivos. Os palestinos, é
bom lembrar, fazem parte do mundo árabe. Jamais estudamos
na escola conceitos como democracia, liberdade, pluralismo e direitos
humanos. Nossa única referência são os regimes
autoritários da região. Ou seja, em nossa natureza,
somos um povo violento. No que se refere à humilhação
imposta às mulheres e ao desrespeito aos direitos individuais,
não há diferença entre o que ocorre em Damasco
e na Faixa de Gaza.
Veja A
vida dos palestinos na Faixa de Gaza melhorou após a retirada
das tropas israelenses?
Eid Se alguma coisa mudou, foi para pior. Por
incrível que pareça, os palestinos tinham mais segurança.
As tropas israelenses impediam que os grupos armados agissem livremente.
Depois da retirada, os terroristas do Hamas impuseram a lei do terror
aos moradores de Gaza. Além disso, passaram a lançar
mísseis contra as tropas israelenses do outro lado da fronteira.
Estas respondem com tiros e acabam atingindo civis. É a estratégia
do Hamas: mostrar aos palestinos que os israelenses não saíram
de Gaza.
Veja É
possível construir um governo palestino democrático
sob ocupação israelense?
Eid Esse dilema existe desde que os acordos de Oslo
criaram, em 1994, o governo semi-autônomo da Autoridade Palestina
nos territórios ocupados. Foram necessários mais de
dez anos para que os palestinos percebessem o mal que esse governo
nos causou. Yasser Arafat, o presidente da Autoridade Palestina
até morrer, em 2004, foi um ditador. Ele usou a ocupação
israelense todo esse tempo como desculpa para seus erros. Aliás,
a mania de responsabilizar os outros pelos próprios fracassos
é uma característica da sociedade palestina. O que
os israelenses têm a ver com as violações de
direitos humanos cometidas por palestinos contra palestinos em nossas
prisões? Nada, mas insistimos em culpá-los. Não
temos autocrítica e estamos pagando por isso.
Veja A intifada
foi um erro?
Eid Foi um desastre, a pior coisa que poderia
ter nos acontecido. Não conseguimos nada e ainda perdemos
o pouco que havíamos conquistado no passado. Tudo por culpa
de Arafat, que governava de acordo com seus interesses pessoais,
e não com os do povo palestino. Ele comandava pessoalmente
os grupos armados que alimentavam a intifada. É interessante
notar que, até sua morte, mais de 80% dos palestinos apoiavam
a intifada. Hoje, esse índice não passa de 40%. As
pessoas perceberam que não avançamos no que era mais
importante, a criação do Estado palestino.
Veja Quais foram
os outros erros de Arafat?
Eid O pior de todos foi a roubalheira que ele
patrocinou. Arafat tomou posse como presidente da Autoridade Palestina
em 1996, mas já era corrupto desde que assumiu a liderança
da Organização para a Libertação da
Palestina, trinta anos antes. O mundo fechou os olhos porque Arafat
sempre foi peça-chave para um acordo de paz com Israel. Desde
1996, estima-se que mais de 60% da ajuda financeira internacional
aos palestinos tenha sido desviada. Quem percorre hoje os territórios
administrados pela Autoridade Palestina percebe que em dez anos
a miséria continua igual.
Veja Mahmoud
Abbas sucedeu a Arafat na presidência da Autoridade Palestina.
O que mudou?
Eid A rigor, nada. Os israelenses acreditam que Abu
Mazen (como Abbas é conhecido entre os palestinos) é
mais democrático, o que facilitaria um diálogo direto.
O problema é que ele tem o DNA ideológico de Arafat.
Ambos fazem parte da mesma geração de líderes
palestinos que surgiu e cresceu sob regimes autoritários
do Egito, Síria, Argélia, Iraque e Jordânia.
Esses políticos nunca praticaram nenhum tipo de democracia,
e agora não seria diferente com Mazen.
Veja Abbas tem
apoio entre os palestinos para assinar a paz com Israel?
Eid Abu Mazen não tem força política
para nada. O sucesso ou o fracasso de seu governo está nas
mãos do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon. Restam-lhe
duas opções: ou aceita as exigências israelenses
para assinar a paz ou os palestinos continuarão a brigar
entre si. Para fechar um acordo com Sharon, ele terá de desarmar
o Hamas e a Jihad Islâmica, entre outros grupos terroristas.
Se tomar essa iniciativa, ele correrá o risco de cair. Como
nenhum palestino quer perder o emprego, muito menos Abu Mazen, as
coisas devem continuar como estão.
Veja Uma tentativa
de desarmar os terroristas palestinos poderia resultar em guerra
civil?
Eid Caso Abu Mazen decida desarmar os grupos terroristas
na marra, é provável que tenhamos um conflito. Milhares
de palestinos seriam mortos por outros palestinos. Mas, sinceramente,
não seria algo terrível ou duradouro. Historicamente,
em determinadas situações, a guerra civil é
até benéfica. No caso palestino, obrigaria o governo
a combater e desarmar grupos extremistas como o Hamas e a Jihad
Islâmica. Isso ajudaria a abrir caminho para uma solução
do conflito com os israelenses.
Veja Por que
israelenses e palestinos não conseguem fazer a paz?
Eid A liderança israelense e a palestina passaram
a depender do conflito para sobreviver politicamente. Foram assinados
vários acordos de paz, e sempre um dos lados acaba tomando
a iniciativa de violá-los. Não acredito que a liderança
palestina esteja interessada em fazer a paz com Israel. Tampouco
vejo empenho do governo israelense em selar um acordo definitivo.
É duro, mas essa é a realidade no Oriente Médio.
Veja O senhor
concorda que, após meio século de violência,
é difícil acreditar que não haja interessados
numa solução para o conflito?
Eid A população israelense sabe
que um acordo de paz traria segurança a Israel e, por isso,
apóia uma solução negociada. Por causa do sofrimento
acumulado por tantos anos de ocupação, o palestino
comum não tem tão claro esse desejo de paz. Ele olha
para o país vizinho e vê que os israelenses têm
liberdade de movimento e levam vida normal. Enfim, tudo o que não
pode fazer ou nem sequer sonhar. Essa diferença colossal
toca fundo nos palestinos. Nós não queremos ser vistos
como um povo perdedor. Tivemos várias oportunidades de fechar
um acordo definitivo, inclusive os que contemplavam a criação
de um Estado independente. Mas o rancor pelo sofrimento vivido e
o orgulho sempre falaram mais alto, e acabamos desperdiçando
todas essas chances.
Veja Qual é
a possibilidade de extremistas islâmicos tomarem o poder pelo
voto?
Eid Essa possibilidade existe, mas considero pequena.
Temos uma tradição laica, até mesmo entre a
liderança da Autoridade Palestina, e arrisco dizer que formamos
a sociedade mais aberta do Oriente Médio depois de Israel.
Os palestinos têm elevado grau de instrução.
Cerca de 80% da população usa a internet. Comparados
com o restante do mundo árabe, somos os mais propensos a
assimilar a cultura ocidental. É claro que o fator religioso
pesa. Os palestinos consideram-se mais religiosos que os israelenses.
Mas sabemos o que significa fundamentalistas no poder. A maioria
dos palestinos não deseja isso.
Veja O que falta
aos palestinos para fechar um acordo de paz definitivo com os israelenses?
Eid Os palestinos têm de ser realistas na mesa
de negociação. Está na hora de aprender que
a vida vale mais que um pedaço de terra. Milhares de palestinos
morreram nos últimos anos, e o que conseguimos em troca?
Precisamos, primeiro, aceitar que os Estados Unidos são a
única superpotência mundial. Não haverá
acordo sem a bênção da Casa Branca. Além
disso, os palestinos precisam convencer os países árabes
a manter relações com Israel. Os outros entraves que
costumam impedir um acordo serão mais simples de resolver.
Veja O senhor
acredita que seria fácil chegar a um acordo sobre Jerusalém,
que os dois lados consideram a capital de seu Estado?
Eid Quantos palestinos vivem em Jerusalém?
Não passam de 200 000. Enquanto isso, mais de 3 milhões
de palestinos vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Se
Israel libertar os mais de 7 000 palestinos que mantém em
suas prisões, tenho certeza de que um acordo sobre o status
da cidade será rápido. Mas Israel precisa tomar a
iniciativa, e logo. Hoje, a maioria dos palestinos prefere negociar
com Sharon a negociar com qualquer outro líder israelense.
Veja Os palestinos
aceitam abrir mão do direito de retorno dos refugiados em
troca de um Estado independente?
Eid O direito de retorno dos refugiados ao território
que hoje constitui Israel é uma bandeira usada mais pela
Autoridade Palestina do que pelos próprios refugiados. A
insistência de incluir essa exigência como questão
inegociável foi um artifício utilizado por Arafat
em 2000 para irritar os israelenses e mantê-los sob pressão.
O que realmente interessa a esses refugiados e descendentes é
obter emprego, moradia digna, hospitais e escolas para os filhos.
Não se fala mais em direito de retorno. A maioria dos palestinos
esqueceu o assunto.
Veja O senhor
fala como se os palestinos estivessem dispostos a renunciar ao sonho
de ter um Estado independente...
Eid Pergunte a qualquer palestino que passa três
horas por dia nos postos de controle israelenses qual é seu
maior sonho, e ele vai responder: liberdade de movimento para poder
trabalhar em Israel. Isso mostra que o que nós, palestinos,
precisamos é de uma economia robusta, para termos acesso
a uma vida mais digna. O mundo acredita que o Oriente Médio
será um paraíso se houver paz entre israelenses e
palestinos. Não é bem assim. O ex-premiê israelense
Shimon Peres acertou quando disse que o desenvolvimento econômico
da região, e não um acordo de paz, ajudaria a criar
um novo Oriente Médio. Estamos diante de uma oportunidade
de ouro para captar recursos no exterior, investir em infra-estrutura
e criar instituições fortes. O momento exige estratégia
de ação coisa que a Autoridade Palestina não
tem, pois há muito deixou de lado a causa pública
para privilegiar os interesses de poucos. Por isso, considero mais
importante priorizar o desenvolvimento econômico dos palestinos
do que a criação do Estado independente.
Veja O senhor
quer dizer que a criação de um Estado palestino não
é uma prioridade?
Eid Não estamos prontos para assumir nosso
próprio Estado, e por uma razão simples: nunca fomos
governados por palestinos. Nossa dura realidade é que não
aprendemos nada em 38 anos de ocupação israelense.
Receio que vamos precisar de mais vinte anos para aprender a cuidar
de nosso próprio destino. Antes disso, não acredito
na criação do Estado palestino.
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