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André
Petry Soltando os presos
"Os
tubarões do dinheiro público, os criminosos do
colarinho branco, são os que mais se interessam em manter as prisões
como depósito de lixo humano"
Está certo o juiz da cidade de Contagem que, diante das condições
degradantes em que os presos sobreviviam nas delegacias da cidade, começou
a libertá-los? Primeiro, o juiz mandou soltar um punhado de presos, todos
devidamente condenados. Foi um espanto. Três dias depois, ele mandou soltar
mais uma leva de condenados, formada por homicidas e assaltantes, todos condenados
e todos vivendo em condições igualmente subumanas em distritos policiais.
Foi outro espanto. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, acusou o
juiz de querer se promover. O Tribunal de Justiça evitou que as libertações
se concretizassem. E o juiz, por fim, está temporariamente afastado do
cargo. Mas ele está certo?
Desde o século XVIII a sociedade
tomou consciência plena de que um prisioneiro, qualquer prisioneiro, não
pode ser submetido a condições desumanas, degradantes. Um preso,
qualquer preso, não pode ser torturado, humilhado, animalizado. Um ser
humano não pode ser tratado como um porco, um bicho. É um traço
civilizatório da sociedade saber como punir seus criminosos. Ninguém
tem dúvida de que as prisões e as delegacias brasileiras são
depósito de lixo humano e violam consistentemente os princípios
mais rudimentares do que se pode entender como civilizado. No caso do xadrez em
que se encontravam os presos libertados pelo juiz de Contagem, comprovou-se que
a situação era um escândalo havia gente com sarna,
gente com tuberculose, gente com feridas à flor da pele, todos se engalfinhando
numa cela superlotada. Então,
o juiz acertou ao libertá-los?
A imagem de dezenas, centenas de presos, uns sobre os outros, agitando as mãos
pelas grades de celas superlotadas é uma constante na vida penitenciária
do Brasil. Uma vergonha que não envergonha. As prisões são
infernais, e não há exceção entre as regiões
mais pobres e as mais ricas do país. É tudo mais ou menos o mesmo
escândalo, com variações sutis.
Agora mesmo, uma decisão judicial mandou interditar uma penitenciária
em Caixas do Sul, no interior do Rio Grande do Sul. Cabiam nela 300 presos, mas
havia 750. Pouco antes disso, num fim de semana levemente mais agitado que o habitual,
três penitenciárias do interior de São Paulo enfrentaram motins
violentos devido à superlotação que é o início
da degradação. Numa delas, havia 1.050 presos onde cabiam 800. Noutra,
eram 1 150 para 800. Na terceira, 1.000 presos ocupavam o espaço de 760.
Diante desse quadro, o juiz de Contagem
está certo? Os tubarões
do dinheiro público, os criminosos do colarinho branco, são os que
mais se interessam em manter as prisões como depósito de lixo humano.
É a eles e não a nós que realmente interessa
que condenado brasileiro seja tratado feito gado e que as prisões sejam
pocilgas intoleráveis. É que, sendo assim, sendo tudo tão
degradado, a sociedade duvida de sua própria legitimidade de mandar os
tubarões para a cadeia e a cadeia segue sendo lugar praticamente
exclusivo dos pretos e pobres. E,
então, o juiz está certo?
Claro que não está certo. Mas que sua briga é boa, é.
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