Uma Bienal de
comer com os olhos

Mostra usa o tema modernista da antropofagia para
promover um banquete visual com mestres do passado

Angela Pimenta

Com Vincent van Gogh no ataque, a XXIV Bienal de São Paulo, que abre neste sábado, 3, quer ser mais ofensiva do que a seleção de Wanderley Luxemburgo. Armado nos últimos dois anos pelo curador Paulo Herkenhoff, o escrete da Bienal pretende repetir o sucesso da última edição da mostra, que levou 400.000 pessoas — ou quatro Maracanã lotados — ao pavilhão do Ibirapuera. Para atrair as multidões, em vez de concentrar suas fichas na arte contemporânea, a Bienal investe prioritariamente nos artistas do passado. Até mesmo seu tema oficial, o canibalismo, é dos tempos de antanho. Foi pinçado do Manifesto Antropofágico, escrito por Oswald de Andrade, em 1928. O esquema tático da curadoria junta nomes de grande apelo visual, como Francis Bacon e René Magritte, a griffes de primeira linha, embora menos conhecidas, da arte moderna. No meio-de-campo da Bienal comparecem artistas refinados, como o escultor suíço Alberto Giacometti ou o pintor venezuelano Armando Reverón. Esta mostra aposta também em relíquias, como o retratista holandês do século XVII Albert Eckhout, que pintou os índios e negros de Pernambuco, e o pintor romântico francês Théodore Géricault. De Géricault, a Bienal exibe uma pequena jóia do Museu do Louvre, um desenho preparatório para a obra-prima do artista, A Jangada da Medusa. Já deste tempo convulso em que vivemos há poucas vedetes, como a escultora minimalista Eva Hesse, o multimídia Bruce Nauman e a escultora Louise Bourgeois, que esteve na última edição da mostra.

As estrelas
da mostra

Número de obras dos
principais artistas

Van Gogh 28
Magritte 30
Bacon 14
Giacometti 36
Reverón 23

Sempre mastodôntica, a exposição, que reúne cerca de 1.000 obras produzidas por 300 criadores, tem em sua retaguarda um amontoado heterogêneo de artistas, vindos tanto da Croácia quanto de Porto Rico, num total de 55 países. Como sempre, esta edição também terá uma legião de asneiras, muitas das quais empacotadas para presente sob o nome de "instalação". Com um orçamento de 15 milhões de reais, a XXIV Bienal continua sendo uma das três maiores mostras do planeta, ao lado da Documenta de Kassel, na Alemanha, e da Bienal de Veneza, na Itália. Quando abrir, a exposição paulista estará enfrentando pela primeira vez a concorrência direta de dois outros eventos: a Bienal de Sidney, já em cartaz na Austrália, e a de Berlim, na Alemanha, a ser inaugurada em outubro.

Até a semana passada, em função da crise das bolsas de valores, o presidente da Fundação Bienal, Julio Landmann, tentava cobrir um déficit de 1,5 milhão de reais causado pela desistência de dois patrocinadores e pela desvalorização do real diante do dólar, que encareceu a exposição em pelo menos 200.000 reais. Desta vez, na captação de patrocínios, que contam com incentivos fiscais do governo, a Bienal teve de enfrentar ainda a concorrência da Copa do Mundo e dos candidatos às eleições. "Estamos fazendo de tudo para abrir no azul. Só no projeto de arte-educação para estudantes de 1º grau, investimos mais de 1 milhão de reais", diz Landmann.

Prestígio — Desde que saiu do fundo do poço, no qual se encontrava no começo dos anos 90, a Bienal vê seu prestígio crescer diante dos principais museus do planeta. No passado recente, muitos curadores estrangeiros ficavam de cabelo em pé só de ouvir falar no Brasil. Isso mudou, e para melhor. Esta é, por exemplo, a primeira vez que a exposição conta com uma obra do Louvre, talvez o emprestador mais difícil de todo o planeta. O pavilhão do Ibirapuera exibe também quadros do pintor surrealista chileno Roberto Matta e do muralista mexicano David Siqueiros, emprestados pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMA, que há dez anos se negava a ceder qualquer obra para exposições no Brasil. Até a própria presidente do museu nova-iorquino, Agnes Gund, baixou a guarda — ela está emprestando um desenho de Bruce Nauman de sua coleção pessoal.

Para arregimentar o acervo que será exposto em São Paulo, o curador Paulo Herkenhoff, que tem bom trânsito entre os museus internacionais, e o gerente internacional Pieter Tjabbes perderam a conta de quantas viagens fizeram. Só Herkenhoff estima ter voado 400.000 quilômetros, o equivalente a dez voltas em torno da Terra. Ambos, em companhia do presidente Landmann, se valeram de um vasto arsenal diplomático, que incluía desde a distribuição de catálogos das mostras passadas a emprestadores em potencial até uma maratona de jantares protocolares nas embaixadas brasileiras ao redor do mundo. Além desse tipo de lobby, a Bienal também recorre a outros expedientes para promover-se. Um deles é convidar, pagando a passagem e a estada, alguns críticos internacionais, como o americano Edward Leffingwell. Ele deverá assinar um artigo para a prestigiada revista Art in America. Na última Bienal, a revista, uma espécie de bíblia das artes visuais, contemplou a mostra brasileira com seis páginas.

Na montagem da XXIV Bienal, a tarefa mais complicada foi obter as quinze telas e os treze desenhos de Van Gogh. Por pouco, a sala de Van Gogh não fica só no papel. Depois de um ano e meio de muita diplomacia com os holandeses, os principais colecionadores do artista, a Bienal ouviu um sonoro não do Museu Van Gogh. A Bienal enfrentou ainda competição invencível com uma instituição gigantesca, o Museu d'Orsay, de Paris, que neste exato momento apresenta uma grande mostra comparativa entre Van Gogh e o pintor francês Jean-François Millet, uma das maiores fontes de inspiração do mestre holandês. O jeito, então, foi recorrer ao acervo do Museu de Arte de São Paulo, que está cedendo quatro telas, por sinal todas de excelente qualidade, a museus menores, como o Szépmuvészeti, de Budapeste, e a colecionadores privados. "É claro que não estamos saindo com o acervo ideal. Falta, por exemplo, um auto-retrato de Van Gogh. Mas temos uma amostra digna de sua arte", diz Pieter Tjabbes, que acumula a curadoria da Sala Van Gogh. Em termos do conjunto da obra, o forte desta exposição está em René Magritte e Francis Bacon. Do primeiro, há nada menos do que 29 telas e uma escultura, que refazem um percurso coerente da carreira do artista. Do segundo, são catorze trabalhos, alguns dos quais de dimensões gigantescas, como Três Estudos para um Retrato de John Edwards. Cada um dos painéis mede 1,98 metro de altura por 1,47 de largura.

"Contaminação" — Todos os artistas presentes na mostra foram escalados pelo curador Herkenhoff como uma forma de ilustrar o tema oficial, o canibalismo, a pedra de toque do movimento antropofágico brasileiro nos anos 20. Naquele tempo, a elite cultural paulistana, liderada por Oswald de Andrade, resolveu dar uma interpretação original ao arraigado hábito que o brasileiro tem de assimilar influências externas, do idioma francês ao uso de fraque e cartola. "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago", bradou Oswald em seu manifesto, numa referência a índios brasileiros que comiam a carne dos inimigos na esperança de assimilar sua força. Como isso foi nos anos 20, quando o Brasil começava a livrar-se de seu complexo de inferioridade cultural, uma ferida dolorosa da colonização portuguesa, muitos acham que o tema perdeu a atualidade, o sentido. "Isso é falta de imaginação. O Brasil de hoje já não cabe nos rótulos de 1928", alfineta o crítico Ronaldo Brito. "Por outro lado, o melhor da arte moderna brasileira não tem nada a ver com a antropofagia de Tarsila do Amaral. O melhor é, por exemplo, um Alberto da Veiga Guignard", completa. "Sempre soube que o canibalismo seria um tema polêmico. Minha intenção não é fazer da antropofagia uma coisa absoluta, mas colocá-la em questão", rebate, por sua vez, o curador Herkenhoff.

Na montagem da mostra, o curador resolveu arriscar, abolindo qualquer tipo de fronteira temporal ou geográfica. Misturou obras de artistas originalmente distantes no tempo e no espaço. A essa jogada ensaiada, Herkenhoff dá o nome de "contaminação". Assim, os rostos massacrados dos retratos na sala de Francis Bacon terão a companhia de uma Trouxa do escultor brasileiro Arthur Barrio. Nos anos 60, na época da ditadura, Barrio colocava uma de suas Trouxas, que se assemelham à forma de um cadáver ensangüentado embrulhado num lençol, pelas ruas do Rio de Janeiro, para despertar a curiosidade dos passantes. Agora, sua Trouxa fará, literalmente, uma dobradinha com Bacon. Outro contágio estético se dará na sala dedicada aos séculos XVI-XVIII, que reúne as pinturas de Albert Eckhout e as ilustrações de Théodore de Bry sobre os ritos canibalescos dos índios brasileiros. Tais pérolas do passado terão como companhia um tacape contemporâneo do escultor carioca Tunga. A curadoria de Herkenhoff optou por uma estratégia ousada, que tanto pode possibilitar leituras inovadoras quanto uma aproximação anedótica e postiça de obras totalmente díspares.

Museu — Criada nos anos 50 pelo mecenas paulista Ciccillo Matarazzo, a exposição originalmente era um termômetro das tendências contemporâneas. Nas últimas edições, no entanto, ela foi adquirindo um caráter mais voltado para o aspecto museológico. Isso fez com que a Bienal reconquistasse o grande público, mas resultou na perda de parte de seu prestígio internacional no que diz respeito à contemporaneidade. Além disso, o próprio conceito que a move tornou-se alvo de especialistas. "A fórmula das bienais, exposições caríssimas e gigantescas, está esgotada. No passado, essas mostras eram a única maneira de o público de um país ter acesso à produção dos outros. Mas hoje, com a facilidade das viagens, da TV e das revistas de arte, elas perderam o sentido", disse a VEJA o crítico australiano Robert Hughes, que escreve para a revista americana Time. Para Hughes, "as bienais costumam ser uma fantasia curatorial. São amorfas, mal focadas, inexpressivas, limitam-se a refletir o mercado de arte".

Robert Hughes, evidentemente, fala da perspectiva de quem vive em Nova York, parada obrigatória das maiores exposições de arte do planeta. Já para o público brasileiro, que vive num país de poucos museus e coleções paupérrimas, a Bienal é uma atração e tanto. "Ela cumpre um papel importantíssimo na formação de uma sensibilidade moderna", avalia o crítico Paulo Venâncio Filho. Graças à habilidade de seus organizadores, a Bienal consegue trazer a São Paulo, ainda que por pouco tempo, grandes nomes. Foi o que aconteceu em 1996, com as salas especiais de Picasso e Munch. A esta altura do campeonato, o público sabe bem o que quer. Numa pesquisa feita há dois anos, a Bienal apurou que seus visitantes queriam ver obras de mestres como Van Gogh e Picasso. Trocando em miúdos, o brasileiro sabe que é melhor ver boa arte moderna em pílulas do que uma overdose de instalações de segunda.

Vincent van Gogh

Pintando gente simples, paisagens e jarros de flores, em apenas dez anos de trabalho o holandês Vincent van Gogh (1853-1890) revolucionou a pintura. Com pinceladas nervosas, feitas de cores puras e espessas, ele traduziu em arte seu tumultuado mundo interior, que oscilava da depressão, que o levaria ao suicídio, a uma vitalidade ímpar. Como observa Pieter Tjabbes, curador da mostra de Van Gogh na Bienal, "ele é o protótipo do artista moderno, um modelo consumado de desregramento social e extrema solidão". A grandeza do pintor está justamente em sua intensidade poética. Em Van Gogh, até mesmo a luz não se limita a ser um elemento exterior às coisas, mas parece, ao contrário, emanar de cada planta ou peça de mobília. O pintor foi também um retratista de primeira, como se vê no retrato do adolescente Armand Roulin, feito em Arles, na França, em plena maturidade do artista. Com os ombros caídos, o garoto Roulin, filho do carteiro da cidade, foi pintado com o rosto em devaneio, de paletó azul-escuro contra um fundo verde-claro. O desenho dos contornos do rosto é suave. É uma obra de extrema sutileza e verdade. "Van Gogh provou que a pintura podia alcançar a intimidade e a intensidade da paixão", diz o historiador da arte Meyer Schapiro. Os quadros do pintor holandês serão, sem dúvida, a maior atração para o público da Bienal.

Fotos: Fundação Bienal de São Paulo


René Magritte

Magritte e O Balcão
de Manet:
casando o
banal com o absurdo

Partindo de lugares-comuns como chapéus e maçãs, o surrealista belga René Magritte (1898-1967) tornou-se um mestre do absurdo. Com essa matéria-prima, rearranjada em situações bizarras, ele subverteu a lógica cotidiana no começo do século, numa leitura toda própria das teorias de Sigmund Freud, pai da psicanálise. Com um estilo preciso, à beira da ilustração, Magritte até hoje seduz e perturba o grande público. No início da carreira, foi um cubista medíocre, que ganhava a vida desenhando papéis de parede. Bem-humorada, sua obra ironiza grandes mestres, como é o caso de O Balcão de Manet, feita a partir de uma tela do impressionista francês Édouard Manet. Para o crítico italiano Giulio Carlo Argan, "Magritte cria a anti-história, desvenda o absurdo do banal".


Francis Bacon

O irlandês Bacon e
Três Estudos de
Henrietta Moraes

(abaixo): esfolando
seus personagens,
reduzidos a uma
massa de cores


Fotos: Fundação Bienal de São Paulo

Quem vê o programa do Ratinho na TV não tem motivos para estranhar a obra do irlandês Francis Bacon (1909-1992). Tanto Ratinho quanto Bacon fazem da miséria humana o seu prato principal. A diferença é que, ao contrário da demagogia do roedor da TV, a pintura do irlandês não oferece redenção a seus personagens. Com o rosto esfolado e o corpo distorcido, espremidos contra um fundo asfixiante, os retratados de Bacon não tentam despertar a piedade do público. Ao contrário, as vítimas do pintor parecem divertir-se, perversamente, com o horror que sua visão desperta. Retratista de primeira numa época em que a fotografia já havia desbancado o retrato pintado, Bacon dominava seu ofício como poucos. "Como só acontece com os velhos mestres da pintura, nas mãos de Bacon a tinta se faz carne", diz o crítico australiano Robert Hughes. Além de se valer de expedientes inventados pelo cubismo, como a distorção e o retalhamento do corpo humano, Bacon submetia seus retratados a uma massacrante massagem facial, transformando seus rostos numa espessa geléia de cores difusas. Como se percebe nos Três Estudos de Henrietta Moraes, o rosto de seus retratos jamais se equaciona numa fisionomia definida. "O mistério está na irracionalidade com que se molda a aparência. Se não é irracional, a pintura é mera ilustração", dizia o pintor. Viciado no jogo e na bebida, Bacon, um autodidata dos pincéis, decidiu-se pela pintura depois de ver uma mostra de Picasso, em 1927. No começo da carreira, ele, que alardeava sua condição homossexual, pintava bandidos e assassinos. Depois retratou amigos célebres, como o pintor Lucian Freud. Antes marginalizado pela crítica, ao morrer Bacon gozava de prestígio entre os estudiosos e no mercado de arte.


Alberto Giacometti

Giacometti, Busto de
Diego
e Mulher: na
fronteira entre
o ser e o nada

"Eu faço desfazendo", costumava dizer o escultor suíço Alberto Giacometti (1901-1966), um dos grandes nomes de seu ofício neste século. É verdade. Quando se trata desse artista, fica difícil dizer onde começa o espaço e termina a matéria. De acordo com o filósofo Jean-Paul Sartre, um de seus melhores amigos, as figuras de Giacometti equilibram-se dolorosamente na fronteira entre o ser e o nada. Esquálidas e corroídas, suas esculturas parecem objetos arqueológicos há muito enterrados, e novamente trazidos à luz do dia. A maestria da escultura de Giacometti, também um fino desenhista, está no modo como aliava sua economia formal à nervosa sinuosidade que agita a superfície de suas peças. Ele obtinha tal dinamismo por meio do despedaçamento dos membros e da eliminação de qualquer supérfluo. Em sua fase surrealista juvenil, Giacometti produziu peças irônicas, como Mulher Colher. Na maturidade, nos anos 40 e 50, o ponto alto de sua obra, criou figuras humanas descarnadas, como Busto de Diego (1954), em bronze, feita a partir da imagem de seu irmão. A porção mais radical de sua obra reduz as figuras a um eixo vertical. São peças muitas vezes minúsculas, com uma força incompatível com o seu tamanho. "Mesmo perdidos no espaço, os corpos e cabeças de Giacometti continuam dominando-o", diz o historiador inglês David Sylvester.


Tarsila do Amaral

Mesmo sem possuir o vigor de um Guignard ou de um Goeldi, Tarsila do Amaral (1886-1973) entrou para a História como a artista-símbolo do modernismo. Com suas cores chapadas, representando ícones da mitologia nativista brasileira, como o Abaporu e o Urutu, ou retratando personagens transplantados para a América, como essa A Negra (1923), a pintura de Tarsila simboliza a antropofagia. Casada com Oswald de Andrade, Tarsila defendia o canibalismo cultural como uma afirmação da cultura brasileira diante da tradição européia.

Association Française


Albert Eckhout

Fotos: Fundação Bienal de São Paulo

Saíram da paleta do holandês Albert Eckhout (1612-1665) as primeiras imagens de todos os povos americanos. Pintor oficial da comitiva de Maurício de Nassau, que comandou a invasão holandesa no século XVII, Eckhout foi incumbido de pintar a gente, plantas e bichos do Novo Mundo. Durante os sete anos em que aqui viveu, Eckhout "humanizou" os índios e negros. Como se sabe, os europeus então consideravam africanos e ameríndios como não pertencentes à espécie humana. Pois Eckhout tratou de dignificar seus personagens, chegando ao ponto de conferir-lhes a majestade dos antigos gregos. Com minúcia e senso documental, retratou também a flora, com todo o esplendor e o exotismo das bananeiras, cajus e maracujás. Fez o mesmo com a fauna, pintando tatus, sapos e pequenos roedores, dispostos no chão como complemento para a figura humana principal. Apenas os índios tapuias, uma tribo canibal feroz, jamais subjugada pelos brancos, escapou da idealização de Eckhout. Nesse impressionante painel (acima), pintado em óleo sobre madeira, com 1,68 metro de largura por 2,94 metros de altura, Eckhout vê os tapuias como bestas terríveis numa dança selvagem. "A mensagem por trás das obras de Eckhout seria esta: aqui estão esses tupis, negros, mulatos e mestiços, convertidos à civilidade. E aqui estão nossos tapuias, irredimíveis alienígenas infernais", diz o historiador holandês Ernst van den Boogaart.


Armando Reverón

É a própria luz, e não as cores, o tema principal da obra do venezuelano Armando Reverón (1889-1954), um dos maiores nomes da pintura latino-americana, até hoje praticamente desconhecido no Brasil. Depois de estudar na Europa nos anos 10, o pintor retornou à Venezuela, passando a viver como um hippie numa cabana feita com troncos de coqueiro, na Praia de Macuto. Ali passaria todo o resto de sua vida, retratando a paisagem local em tons que, apesar de pálidos, mostram um lugar escaldante, saturado de luz. Outro motivo favorito era Juanita, tema de Maja (1936).


Bruce Nauman

Fotos: Fundação Bienal de São Paulo  


Foto: Donald Woodmani/
Courtesy Sperone Westwater
Nauman, seus
vídeos e instalação:
violência e morte

O americano Bruce Nauman (1941) é um instalador por excelência. Uma das principais estrelas da arte americana, desde os anos 60 Nauman fotografa, filma e desenha. Em suas obras desponta o indivíduo contemporâneo. Longe de ser uma fraude, a obra de Nauman se reveste de uma feroz ironia contra as noções preestabelecidas. Numa escultura em neon, faz um trocadilho com as palavras eat (comer) e death (morte). "A arte de Nauman é repleta de exemplos dessa comédia violenta que nenhuma espécie de humor alivia", diz o crítico Robert Storr, seu curador na Bienal. Em Triângulo da América do Sul (1981), ele põe o continente de cabeça para baixo, com um triângulo e uma cadeira.


Eva Hesse

Eva Hesse e Accession II,
em metal e borracha:
toque criativo em
materiais descartáveis

Poucos artistas foram tão copiados quanto a americana de origem alemã Eva Hesse (1936-1970). Pintora abstrata no começo da carreira, nos anos 60, Eva começou a lidar com materiais descartáveis. Mesmo na vanguarda minimalista -- corrente que desprezava a subjetividade do artista --, ela privilegiava o gesto criativo. Fez obras de uma beleza estranha e fugidia, como Accession II, uma caixa metálica revestida com fios de borracha. Por fora, a obra é uma couraça. Por dentro, a escultura parece uma cabeleira revolta e indecifrável. Mesmo morta, ela continua presente na arte contemporânea. Cultuada pelas feministas, é dos nomes mais influentes na arte contemporânea, inclusive no Brasil.


Louise Bourgeois

A escultora americana de origem francesa Louise Bourgeois (1911) é uma velhinha obcecada por aquilo. Na última Bienal, madame Bourgeois, que vive em Nova York há sessenta anos, fez sucesso com sua gigantesca aranha de bronze. Agora, ela volta à Bienal com uma sala em que mais uma vez tematiza o sexo e a violência. A Destruição do Pai (1974), por exemplo, é uma câmera cavernosa avermelhada que, à semelhança de uma garganta dentada com óbvias conotações sexuais, está pronta para engolir o mundo, principalmente a tradição masculina. "Essa peça é realmente criminosa. Trata-se de um impulso que ocorre em alguém que está sob forte tensão emocional e acaba se voltando justamente contra quem mais ama", confessa a octogenária edipiana. O repertório de imagens de Bourgeois, que inclui manequins de pano simulando um estupro, pende para o sadismo. Com tamanha agressividade, sua obra exala uma solidão patética.




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