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As
estrelas
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| Van Gogh | 28 |
| Magritte | 30 |
| Bacon | 14 |
| Giacometti | 36 |
| Reverón | 23 |
Sempre mastodôntica, a exposição, que reúne cerca de 1.000 obras produzidas por 300 criadores, tem em sua retaguarda um amontoado heterogêneo de artistas, vindos tanto da Croácia quanto de Porto Rico, num total de 55 países. Como sempre, esta edição também terá uma legião de asneiras, muitas das quais empacotadas para presente sob o nome de "instalação". Com um orçamento de 15 milhões de reais, a XXIV Bienal continua sendo uma das três maiores mostras do planeta, ao lado da Documenta de Kassel, na Alemanha, e da Bienal de Veneza, na Itália. Quando abrir, a exposição paulista estará enfrentando pela primeira vez a concorrência direta de dois outros eventos: a Bienal de Sidney, já em cartaz na Austrália, e a de Berlim, na Alemanha, a ser inaugurada em outubro.
Até a semana passada, em função da crise das bolsas de valores, o presidente da Fundação Bienal, Julio Landmann, tentava cobrir um déficit de 1,5 milhão de reais causado pela desistência de dois patrocinadores e pela desvalorização do real diante do dólar, que encareceu a exposição em pelo menos 200.000 reais. Desta vez, na captação de patrocínios, que contam com incentivos fiscais do governo, a Bienal teve de enfrentar ainda a concorrência da Copa do Mundo e dos candidatos às eleições. "Estamos fazendo de tudo para abrir no azul. Só no projeto de arte-educação para estudantes de 1º grau, investimos mais de 1 milhão de reais", diz Landmann.
Prestígio Desde que saiu do fundo do poço, no qual se encontrava no começo dos anos 90, a Bienal vê seu prestígio crescer diante dos principais museus do planeta. No passado recente, muitos curadores estrangeiros ficavam de cabelo em pé só de ouvir falar no Brasil. Isso mudou, e para melhor. Esta é, por exemplo, a primeira vez que a exposição conta com uma obra do Louvre, talvez o emprestador mais difícil de todo o planeta. O pavilhão do Ibirapuera exibe também quadros do pintor surrealista chileno Roberto Matta e do muralista mexicano David Siqueiros, emprestados pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMA, que há dez anos se negava a ceder qualquer obra para exposições no Brasil. Até a própria presidente do museu nova-iorquino, Agnes Gund, baixou a guarda ela está emprestando um desenho de Bruce Nauman de sua coleção pessoal.
Para arregimentar o acervo que será exposto em São Paulo, o curador Paulo Herkenhoff, que tem bom trânsito entre os museus internacionais, e o gerente internacional Pieter Tjabbes perderam a conta de quantas viagens fizeram. Só Herkenhoff estima ter voado 400.000 quilômetros, o equivalente a dez voltas em torno da Terra. Ambos, em companhia do presidente Landmann, se valeram de um vasto arsenal diplomático, que incluía desde a distribuição de catálogos das mostras passadas a emprestadores em potencial até uma maratona de jantares protocolares nas embaixadas brasileiras ao redor do mundo. Além desse tipo de lobby, a Bienal também recorre a outros expedientes para promover-se. Um deles é convidar, pagando a passagem e a estada, alguns críticos internacionais, como o americano Edward Leffingwell. Ele deverá assinar um artigo para a prestigiada revista Art in America. Na última Bienal, a revista, uma espécie de bíblia das artes visuais, contemplou a mostra brasileira com seis páginas.
Na montagem da XXIV Bienal, a tarefa mais complicada foi obter as quinze telas e os treze desenhos de Van Gogh. Por pouco, a sala de Van Gogh não fica só no papel. Depois de um ano e meio de muita diplomacia com os holandeses, os principais colecionadores do artista, a Bienal ouviu um sonoro não do Museu Van Gogh. A Bienal enfrentou ainda competição invencível com uma instituição gigantesca, o Museu d'Orsay, de Paris, que neste exato momento apresenta uma grande mostra comparativa entre Van Gogh e o pintor francês Jean-François Millet, uma das maiores fontes de inspiração do mestre holandês. O jeito, então, foi recorrer ao acervo do Museu de Arte de São Paulo, que está cedendo quatro telas, por sinal todas de excelente qualidade, a museus menores, como o Szépmuvészeti, de Budapeste, e a colecionadores privados. "É claro que não estamos saindo com o acervo ideal. Falta, por exemplo, um auto-retrato de Van Gogh. Mas temos uma amostra digna de sua arte", diz Pieter Tjabbes, que acumula a curadoria da Sala Van Gogh. Em termos do conjunto da obra, o forte desta exposição está em René Magritte e Francis Bacon. Do primeiro, há nada menos do que 29 telas e uma escultura, que refazem um percurso coerente da carreira do artista. Do segundo, são catorze trabalhos, alguns dos quais de dimensões gigantescas, como Três Estudos para um Retrato de John Edwards. Cada um dos painéis mede 1,98 metro de altura por 1,47 de largura.
"Contaminação" Todos os artistas presentes na mostra foram escalados pelo curador Herkenhoff como uma forma de ilustrar o tema oficial, o canibalismo, a pedra de toque do movimento antropofágico brasileiro nos anos 20. Naquele tempo, a elite cultural paulistana, liderada por Oswald de Andrade, resolveu dar uma interpretação original ao arraigado hábito que o brasileiro tem de assimilar influências externas, do idioma francês ao uso de fraque e cartola. "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago", bradou Oswald em seu manifesto, numa referência a índios brasileiros que comiam a carne dos inimigos na esperança de assimilar sua força. Como isso foi nos anos 20, quando o Brasil começava a livrar-se de seu complexo de inferioridade cultural, uma ferida dolorosa da colonização portuguesa, muitos acham que o tema perdeu a atualidade, o sentido. "Isso é falta de imaginação. O Brasil de hoje já não cabe nos rótulos de 1928", alfineta o crítico Ronaldo Brito. "Por outro lado, o melhor da arte moderna brasileira não tem nada a ver com a antropofagia de Tarsila do Amaral. O melhor é, por exemplo, um Alberto da Veiga Guignard", completa. "Sempre soube que o canibalismo seria um tema polêmico. Minha intenção não é fazer da antropofagia uma coisa absoluta, mas colocá-la em questão", rebate, por sua vez, o curador Herkenhoff.
Na montagem da mostra, o curador resolveu arriscar, abolindo qualquer tipo de fronteira temporal ou geográfica. Misturou obras de artistas originalmente distantes no tempo e no espaço. A essa jogada ensaiada, Herkenhoff dá o nome de "contaminação". Assim, os rostos massacrados dos retratos na sala de Francis Bacon terão a companhia de uma Trouxa do escultor brasileiro Arthur Barrio. Nos anos 60, na época da ditadura, Barrio colocava uma de suas Trouxas, que se assemelham à forma de um cadáver ensangüentado embrulhado num lençol, pelas ruas do Rio de Janeiro, para despertar a curiosidade dos passantes. Agora, sua Trouxa fará, literalmente, uma dobradinha com Bacon. Outro contágio estético se dará na sala dedicada aos séculos XVI-XVIII, que reúne as pinturas de Albert Eckhout e as ilustrações de Théodore de Bry sobre os ritos canibalescos dos índios brasileiros. Tais pérolas do passado terão como companhia um tacape contemporâneo do escultor carioca Tunga. A curadoria de Herkenhoff optou por uma estratégia ousada, que tanto pode possibilitar leituras inovadoras quanto uma aproximação anedótica e postiça de obras totalmente díspares.
Museu Criada nos anos 50 pelo mecenas paulista Ciccillo Matarazzo, a exposição originalmente era um termômetro das tendências contemporâneas. Nas últimas edições, no entanto, ela foi adquirindo um caráter mais voltado para o aspecto museológico. Isso fez com que a Bienal reconquistasse o grande público, mas resultou na perda de parte de seu prestígio internacional no que diz respeito à contemporaneidade. Além disso, o próprio conceito que a move tornou-se alvo de especialistas. "A fórmula das bienais, exposições caríssimas e gigantescas, está esgotada. No passado, essas mostras eram a única maneira de o público de um país ter acesso à produção dos outros. Mas hoje, com a facilidade das viagens, da TV e das revistas de arte, elas perderam o sentido", disse a VEJA o crítico australiano Robert Hughes, que escreve para a revista americana Time. Para Hughes, "as bienais costumam ser uma fantasia curatorial. São amorfas, mal focadas, inexpressivas, limitam-se a refletir o mercado de arte".
Robert Hughes, evidentemente, fala da perspectiva de quem vive em Nova York, parada obrigatória das maiores exposições de arte do planeta. Já para o público brasileiro, que vive num país de poucos museus e coleções paupérrimas, a Bienal é uma atração e tanto. "Ela cumpre um papel importantíssimo na formação de uma sensibilidade moderna", avalia o crítico Paulo Venâncio Filho. Graças à habilidade de seus organizadores, a Bienal consegue trazer a São Paulo, ainda que por pouco tempo, grandes nomes. Foi o que aconteceu em 1996, com as salas especiais de Picasso e Munch. A esta altura do campeonato, o público sabe bem o que quer. Numa pesquisa feita há dois anos, a Bienal apurou que seus visitantes queriam ver obras de mestres como Van Gogh e Picasso. Trocando em miúdos, o brasileiro sabe que é melhor ver boa arte moderna em pílulas do que uma overdose de instalações de segunda.
Vincent van Gogh
Fotos: Fundação Bienal de São Paulo |
René Magritte
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Francis Bacon
Quem vê o programa do Ratinho na TV não tem motivos para estranhar a obra do irlandês Francis Bacon (1909-1992). Tanto Ratinho quanto Bacon fazem da miséria humana o seu prato principal. A diferença é que, ao contrário da demagogia do roedor da TV, a pintura do irlandês não oferece redenção a seus personagens. Com o rosto esfolado e o corpo distorcido, espremidos contra um fundo asfixiante, os retratados de Bacon não tentam despertar a piedade do público. Ao contrário, as vítimas do pintor parecem divertir-se, perversamente, com o horror que sua visão desperta. Retratista de primeira numa época em que a fotografia já havia desbancado o retrato pintado, Bacon dominava seu ofício como poucos. "Como só acontece com os velhos mestres da pintura, nas mãos de Bacon a tinta se faz carne", diz o crítico australiano Robert Hughes. Além de se valer de expedientes inventados pelo cubismo, como a distorção e o retalhamento do corpo humano, Bacon submetia seus retratados a uma massacrante massagem facial, transformando seus rostos numa espessa geléia de cores difusas. Como se percebe nos Três Estudos de Henrietta Moraes, o rosto de seus retratos jamais se equaciona numa fisionomia definida. "O mistério está na irracionalidade com que se molda a aparência. Se não é irracional, a pintura é mera ilustração", dizia o pintor. Viciado no jogo e na bebida, Bacon, um autodidata dos pincéis, decidiu-se pela pintura depois de ver uma mostra de Picasso, em 1927. No começo da carreira, ele, que alardeava sua condição homossexual, pintava bandidos e assassinos. Depois retratou amigos célebres, como o pintor Lucian Freud. Antes marginalizado pela crítica, ao morrer Bacon gozava de prestígio entre os estudiosos e no mercado de arte. |
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Alberto Giacometti
"Eu faço desfazendo", costumava dizer o escultor suíço Alberto Giacometti (1901-1966), um dos grandes nomes de seu ofício neste século. É verdade. Quando se trata desse artista, fica difícil dizer onde começa o espaço e termina a matéria. De acordo com o filósofo Jean-Paul Sartre, um de seus melhores amigos, as figuras de Giacometti equilibram-se dolorosamente na fronteira entre o ser e o nada. Esquálidas e corroídas, suas esculturas parecem objetos arqueológicos há muito enterrados, e novamente trazidos à luz do dia. A maestria da escultura de Giacometti, também um fino desenhista, está no modo como aliava sua economia formal à nervosa sinuosidade que agita a superfície de suas peças. Ele obtinha tal dinamismo por meio do despedaçamento dos membros e da eliminação de qualquer supérfluo. Em sua fase surrealista juvenil, Giacometti produziu peças irônicas, como Mulher Colher. Na maturidade, nos anos 40 e 50, o ponto alto de sua obra, criou figuras humanas descarnadas, como Busto de Diego (1954), em bronze, feita a partir da imagem de seu irmão. A porção mais radical de sua obra reduz as figuras a um eixo vertical. São peças muitas vezes minúsculas, com uma força incompatível com o seu tamanho. "Mesmo perdidos no espaço, os corpos e cabeças de Giacometti continuam dominando-o", diz o historiador inglês David Sylvester.
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Tarsila do Amaral
Association Française |
Albert Eckhout
Saíram da paleta do holandês Albert Eckhout (1612-1665) as primeiras imagens de todos os povos americanos. Pintor oficial da comitiva de Maurício de Nassau, que comandou a invasão holandesa no século XVII, Eckhout foi incumbido de pintar a gente, plantas e bichos do Novo Mundo. Durante os sete anos em que aqui viveu, Eckhout "humanizou" os índios e negros. Como se sabe, os europeus então consideravam africanos e ameríndios como não pertencentes à espécie humana. Pois Eckhout tratou de dignificar seus personagens, chegando ao ponto de conferir-lhes a majestade dos antigos gregos. Com minúcia e senso documental, retratou também a flora, com todo o esplendor e o exotismo das bananeiras, cajus e maracujás. Fez o mesmo com a fauna, pintando tatus, sapos e pequenos roedores, dispostos no chão como complemento para a figura humana principal. Apenas os índios tapuias, uma tribo canibal feroz, jamais subjugada pelos brancos, escapou da idealização de Eckhout. Nesse impressionante painel (acima), pintado em óleo sobre madeira, com 1,68 metro de largura por 2,94 metros de altura, Eckhout vê os tapuias como bestas terríveis numa dança selvagem. "A mensagem por trás das obras de Eckhout seria esta: aqui estão esses tupis, negros, mulatos e mestiços, convertidos à civilidade. E aqui estão nossos tapuias, irredimíveis alienígenas infernais", diz o historiador holandês Ernst van den Boogaart. |
Armando Reverón
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Bruce Nauman
O americano Bruce Nauman (1941) é um instalador por excelência. Uma das principais estrelas da arte americana, desde os anos 60 Nauman fotografa, filma e desenha. Em suas obras desponta o indivíduo contemporâneo. Longe de ser uma fraude, a obra de Nauman se reveste de uma feroz ironia contra as noções preestabelecidas. Numa escultura em neon, faz um trocadilho com as palavras eat (comer) e death (morte). "A arte de Nauman é repleta de exemplos dessa comédia violenta que nenhuma espécie de humor alivia", diz o crítico Robert Storr, seu curador na Bienal. Em Triângulo da América do Sul (1981), ele põe o continente de cabeça para baixo, com um triângulo e uma cadeira. |
Eva Hesse
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Louise Bourgeois
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S.A. |