Revelações de Rachel

A escritora cearense conta os bastidores de
sua vida e da de seus amigos intelectuais

João Gabriel de Lima


Rachel de Queiroz,
hoje e aos 18 anos:
estréia precoce
na literatura
Foto: Celso Oliveira/´Álbum de família  


Rainha dos estudantes
"O Quinze foi publicado em agosto de 1930. Não fez grande sucesso quando saiu em Fortaleza. Escreveram até um artigo falando que o livro era impresso em papel inferior. Outro sujeito escreveu afirmando que o livro não era meu, mas do meu ilustre pai, Daniel de Queiroz. Isso tudo me deixava muito ressabiada. (...) Na mesma época fui eleita Rainha dos Estudantes. Fui uma rainha muito festejada porque, sendo jornalista e já tendo saído O Quinze, havia muita badalação em torno de mim. Cidade pequena, sabe como é."

A escritora Rachel de Queiroz, de 87 anos, é do tempo em que intelectual que se prezasse tinha de ser vermelho ou verde-amarelo: comunista ou integralista. Em suma, ter no bolso a carteirinha de algum partido radical. Em 1930, quando ainda usava fralda no mundo das letras — ficou famosa precocemente como escritora aos 19 anos, graças ao sucesso de seu romance de estréia, O Quinze , Rachel já era militante do Partido Comunista Brasileiro, que inclusive ajudou a organizar. Por causa de suas convicções, a escritora foi presa várias vezes. Rompeu com o "partidão" quando dirigentes de visão estreita tentaram convencê-la a mudar o enredo de seu segundo romance, João Miguel, por achar que a trama estaria carregada de "preconceitos contra a classe operária". A partir daí, Rachel radicalizou e virou trotskista, sofrendo perseguição sistemática da ditadura do Estado Novo. Em 1964, a autora deu uma guinada e apoiou o golpe militar de 31 de março, chegando inclusive a conspirar contra o presidente João Goulart. Seu apartamento no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, num edifício que hoje leva seu nome, virou ponto de encontro de militares e intelectuais opositores do regime, liderados pelo escritor Adonias Filho.

Tantos Anos (Siciliano; 256 páginas; 25 reais), autobiografia de Rachel de Queiroz, narra essas idas e vindas no estilo coloquial e fluente a que os leitores de seus textos de jornal estão acostumados. O livro, escrito com a colaboração de Maria Luíza, irmã da escritora, que ajudou a dar forma a trechos ditados por Rachel e ainda incluiu lembranças da infância de ambas, pode ser lido como uma crônica do Brasil do século XX, concebida por alguém que viveu intensamente o período. Ao longo de sua trajetória, Rachel conviveu com várias figuras de destaque da cultura brasileira, de Manuel Bandeira a Guimarães Rosa, de Mário Pedrosa a Mário de Andrade. Os personagens não são apenas escritores ou críticos. Há um capítulo saboroso dedicado ao Padre Cícero, que a autora conheceu na juventude, quando era professora da Escola Normal de Fortaleza e foi participar de uma banca examinadora em Juazeiro. Tantos Anos mostra também uma característica incômoda dos intelectuais brasileiros. Eles não refletem muito quando resolvem apoiar esta ou aquela corrente ideológica, guiando-se mais por amizades e panelinhas do que por convicções. Vigora, na vida cultural, o mesmo princípio coronelista da política partidária. Rachel não desenvolve nenhuma tese sobre esse assunto — ela tenta, tanto quanto possível, manter o tom de crônica —, mas o leitor chega facilmente a essa conclusão pelos exemplos listados no livro.

Mário de Andrade:
ela costumava recitar
trechos inteiros do
romance
Macunaíma
Foto: USP  


Homossexual sufocado
"Tenho a impressão de que a vida pessoal de Mário de Andrade era muito vazia. Talvez porque ele não ousasse assumir o seu sufocado homossexualismo. Tinha umas irmãs solteironas com quem vivia. E assim, a todo jovem que o procurava, ele correspondia amigavelmente. A mim, por exemplo, dava as maiores espinafrações porque eu não respondia às suas cartas. Logo eu, que nunca escrevo para ninguém. (...) Brincava comigo, me fazia um carinho era muito carinhoso comigo. Mário distinguir alguém de nós, tratar com uma ternura especial, era motivo de orgulho."

Sem mulheres — Um episódio emblemático é o referente ao escritor paraibano José Lins do Rego. Segundo Rachel, ele teria aderido ao integralismo porque achava que o nacionalismo professado por essa ideologia — versão cabocla e estúpida do fascismo italiano — se coadunava com aquele expresso em sua literatura. Alertado por Rachel e pelo crítico Mário Pedrosa, também paraibano, José Lins escreveu um mea-culpa abjurando suas idéias. Aliás, Mário Pedrosa seria, de acordo com Rachel, o único integrante do Partido Comunista na época que havia lido O Capital na íntegra. Os outros se instruíam por apostilas doutrinárias que, mal traduzidas, eram cheias de trechos dúbios. Daí a histórica tradição de discussões intermináveis nas assembléias do partido. A própria trajetória de Rachel ilustra bem como um intelectual aderia a uma ideologia. Ela foi levada ao comunismo na juventude por um grupo de escritores cearenses seus amigos, uma turma que chama no livro de "a minha corriola". Transformou-se em trotskista depois do episódio já citado da censura ao seu romance. Aproximou-se de intelectuais católicos como o poeta Augusto Frederico Schmidt, que era também editor e acabou sendo o responsável pela publicação de João Miguel. Por fim, a escritora conta como aderiu ao golpe de 64 em parte por motivos pessoais: era amiga de Humberto de Alencar Castello Branco, um dos generais conspiradores, que se transformaria no primeiro presidente da revolução.

Outro atrativo do livro são os perfis dos escritores com quem Rachel conviveu. Há um capítulo inteiro dedicado a Mário de Andrade, definido por Rachel como o guru de toda a sua geração. Nesse trecho, lê-se também a revelação mais bombástica do livro, sobre o homossexualismo do escritor. Rachel é a primeira a falar abertamente sobre o assunto, tratado como tabu pelos guardiães da obra de Mário, que se agrupam no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Rachel vai além: ela atribui ao "homossexualismo reprimido" do autor de Macunaíma a sua compulsão em escrever cartas. "Ele mantinha amizades a distância para compensar a frustração em sua vida pessoal", teoriza. Há também um retrato vívido do poeta Manuel Bandeira, ídolo da escritora ao lado de Mário de Andrade. Rachel conta como o autor de Vou-me Embora pra Pasárgada, mesmo curado da tuberculose, gostava de ser paparicado pelos amigos — e principalmente pelas amigas — como se estivesse doente. "Quando o visitávamos em sua casa, ele dizia que nenhuma mulher jamais havia passado uma noite inteira em sua cama, insinuando que se resguardava para evitar uma possível recaída", conta Rachel.

A conspiradora
"O general Castello Branco tinha sido comandante da Região, em Fortaleza, fizera muitas relações e, Alencar que era, descobrimos que éramos parentes; e, assim, entre nós, surgiu uma relação muito simpática, muito cordial. (...) Já o que nós fazíamos era conspiração mesmo. (...) Naturalmente que comigo eles não se abriam ou se aprofundavam muito. Eles me usavam como jornalista, eu opinava muito e era muito lida."

Carcereiros — Assim como despe seus amigos da aura de grandes vultos, Rachel também cuida, no livro, de desmitificar a si própria, fugindo do vício, tão comum em obras do gênero, do auto-endeusamento. Quando fala de suas prisões por motivos políticos, ela evita o tom de mártir e conta, com bom humor, que foi sempre bem tratada na cadeia e que até fazia amizade com os carcereiros. Em sua defesa implícita da idéia de que as ditaduras brasileiras não eram tão selvagens assim, Rachel às vezes exagera, como no trecho em que faz a afirmação absurda de que o presidente Emílio Garrastazu Médici não sabia que no país governado por ele havia tortura. Por uma razão parecida, o ex-presidente austríaco Kurt Waldheim virou motivo de piada em seu país quando declarou que não sabia do holocausto mesmo sendo membro de carteirinha do Partido Nazista. A imagem distorcida que Rachel tem de Médici talvez derive do fato de a escritora ter-se afastado do convívio dos políticos depois da morte de seu amigo Castello Branco. Primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz é também uma das poucas personalidades brasileiras cuja vida daria, realmente, uma biografia interessante. Escrito com a pena leve da cronista de jornal, Tantos Anos é um livro saboroso, mas não está à altura da vida que pretende retratar. Para fazer jus à sua existência movimentada, Rachel de Queiroz precisaria mais do que 256 páginas. Alguns capítulos poderiam ser aprofundados. O leitor sai de Tantos Anos gratificado, mas com a sensação de que ainda há material suficiente para um segundo volume.




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