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Está nas mãos dele
O Brasil
está numa encruzilhada:
ou faz ajustes ou enfrenta o caos
Antenor
Nascimento Neto e Eliana Simonetti
O Brasil vive um momento decisivo. Ou
escapa da crise e entra no século XXI como um país
moderno ou regride para seu passado de subdesenvolvimento
e inflação. A escolha, em grande parte, está nas mãos
de Fernando Henrique Cardoso. Sob esse ponto de vista,
não existe uma terceira via para o presidente. Ele tem
sido um governante com méritos reconhecidos. Em quatro
anos, deu estabilidade à moeda, criou condições para a
modernização da economia e recolocou o Brasil no quadro
dos países com peso específico na ordem mundial. Agora
está diante de uma encruzilhada de riscos. Ele pode
produzir uma reforma profunda capaz de cortar a praga do
déficit público. Nesse caso, tem chance de estabilizar
a economia. A outra opção é produzir reformas de
meia-sola, apoiadas unicamente no aumento de impostos,
uma daquelas saídas manjadas que empurram os problemas
para o futuro e revelam fraqueza política. A não ser
para aqueles que lucram com a inflação e o atraso, essa
opção é inaceitável.
O discurso do
presidente na semana passada parece indicar que ele
escolheu o primeiro caminho. Falando no Ministério das
Relações Exteriores, na quarta-feira, Fernando Henrique
prometeu que o ajuste virá ainda neste ano, e que será
rigoroso. "Tenho insistido sempre em soluções
definitivas, e não paliativas. Reformas que resolvam
nossos problemas pela raiz e não ataquem apenas os
sintomas", disse. A praça gostou do discurso. Logo
depois da fala do presidente, sua aprovação nas
pesquisas eleitorais subiu ainda mais, indicando que
dificilmente deixará de se reeleger. Outros sinais
vieram de fora. Ele foi elogiado pelo secretário do
Tesouro americano, Robert Rubin, pelo diretor-gerente do
Fundo Monetário Internacional, Michel Camdessus, pelo
presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, e pelo
presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento,
Enrique Iglesias. Eles estão formando um mutirão de
socorro financeiro ao país orçado entre 25 bilhões e
50 bilhões de dólares. "Se mesmo com sua
liderança esclarecida e forte, com sua força econômica
e sua decisão de se pautar por regras claras, o Brasil
sucumbir, então o problema não é do Brasil mas do
sistema capitalista", disse, na semana passada,
Joseph Stiglitz, segundo homem mais forte do Banco
Mundial.
Nem toda a torcida
externa pode salvar o Brasil se o governo não agir. A
situação é a mais grave já enfrentada pelo Plano
Real. As reservas internacionais estão sendo corroídas
ao ritmo de 500 milhões de dólares por dia, apesar dos
juros de 50% ao ano e das promessas de que não haverá
desvalorização da moeda. Não há nem mesmo o perigo de
uma mudança política radical, já que as pesquisas
eleitorais dão como razoavelmente segura a reeleição
de Fernando Henrique. Nada disso segura mais os dólares,
depois da hecatombe da Ásia e da Rússia. O que o
investidor vê é o déficit de 7% do PIB, que infla a
dívida interna, de 346 bilhões de reais, e aponta para
o risco de um calote. E vê também o emagrecimento das
reservas internacionais, que caíram de 74 bilhões de
dólares em abril para 48 bilhões em setembro. Com a
corrosão, surge o temor de que não haja dinheiro para
honrar os compromissos externos deste ano. "A
inação será uma tragédia. Jogará o país numa crise
sem precedentes", diz o economista Mailson da
Nóbrega, ex-ministro da Fazenda.
Eliminar o déficit
público implica cortar despesas do governo federal, mas
igualmente podar gastos feitos pelos 27 governadores e
mais de 5.000 prefeitos. É uma trabalheira ciclópica
obrigar quem gasta o dinheiro dos outros a economizar.
Mas isso precisa ser feito e para que tenha uma
chance de dar certo o presidente tem de contar com a boa
vontade do Judiciário e magnetizar o Congresso nessa
cruzada. Um ajuste assim normalmente significa que
funcionários públicos podem perder o emprego, que
empresários devem passar sem subsídios e que
empreiteiros tenham de viver um bom tempo sem contratos
novos. O político, que tem poder de aprovar ou não o
ajuste, perde sua moeda de troca habitual, que é a
habilidade de dar emprego e agradar ao eleitorado com a
nova ponte ou o posto de saúde. Por aí se vê que as
dificuldades são grandes. No Brasil há uma agravante, a
Constituição de 1988, que criou despesas para o governo
federal sem lhe dar mais recursos. O Executivo gasta 80%
de suas receitas em despesas obrigatórias. Os 20% que
sobram cobrem gastos do dia-a-dia, inclusive o
esparadrapo que vai para o hospital. Durante anos, a
inflação alta e, mais tarde, o fluxo externo de
capitais mascararam a prestação de contas do Estado com
sua usina de déficits. Agora, a máscara caiu.
Um dos principais
rombos do Orçamento está num presente dado por essa
Constituição aos funcionários públicos com idade para
se aposentar. Muitos deles nunca haviam contribuído para
a Previdência, mas passaram a ter o direito de se
aposentar com vencimento integral. Criou-se um rombo nas
contas da Previdência da ordem de 40 bilhões de reais
por ano, despesa que o governo precisa cobrir. Esse é um
bom exemplo de um problema duplo, político e financeiro,
que um ajuste fiscal crível terá de desmanchar. De um
lado, há quase 3 milhões de funcionários públicos
aposentados, que nada contribuem para a Previdência. Uma
das maneiras possíveis de arrecadar mais dinheiro pelo
governo seria cobrar deles uma contribuição
proporcional aos ganhos. Pode ser difícil. Mas há do
outro lado do balcão 150 milhões de pessoas, que pagam
a conta dos aposentados sem receber nenhum benefício por
isso.
A seu favor, para
convencer a sociedade da urgência das reformas, Fernando
Henrique conta com o risco iminente a que o país está
exposto. Se a crise não for contida, o cenário futuro
é pavimentado de incertezas. O governo terá de
desvalorizar o real, o que encarecerá as importações.
E não é só o produto supérfluo que ficará mais caro.
Alimentos, combustível, matérias-primas e peças que a
indústria importa ficarão imediatamente mais caros. O
resultado final mais provável é a volta da inflação,
a doença que durante duas décadas transferiu renda dos
pobres para os ricos e impediu o país de crescer. Um
outro efeito, difícil de medir e até de imaginar, seria
a desorganização industrial. Com a abertura econômica,
as empresas passaram a ser muito mais eficientes,
começaram a montar seus produtos com componentes
estrangeiros, além dos nacionais, de forma a reduzir
custos. Apostaram nas virtudes da competitividade, do
corte de custos, da eficiência, enfim. Muitas das
melhores empresas, as que formam o tecido sadio da
economia nacional, seriam inviáveis se fossem obrigadas
a operar sob a velha ordem inflacionária.
É provável que a
percepção de todos a respeito desses riscos já tenha
sido ativada. Mas é provável também que os políticos
eleitos na próxima prova das urnas prefiram evitar o
sacrifício de votar as reformas necessárias para
realizar o ajuste das contas e vejam vantagens em
mergulhar o país numa massa econômica caótica. Outro
risco é o presidente perder o ímpeto reformador depois
das eleições e escapar para a saída simples do aumento
de impostos, sem corte de despesas. No país, isso virou
tradição. Desde 1988, o governo já aumentou o PIS, o
Cofins, o IPI e o ICMS, e criou a CPMF. O Brasil já tem
uma das maiores cargas tributárias entre os países em
desenvolvimento toma 30% do PIB em impostos todo
ano e o déficit continua crescendo. Essa saída
é mortal, pois passaria ao mundo a idéia de que o
Brasil é mesmo ingovernável.
"Não há
mágica numa situação desse tipo. É preciso restaurar
a credibilidade do Estado brasileiro", disse a
Felipe Patury, editor-assistente da sucursal de VEJA em
Brasília, o presidente do Banco Central, Gustavo Franco.
No fundo, não interessa a ninguém que o Brasil mergulhe
em dificuldades. O tropeço do Brasil arrastaria consigo
a América Latina, principal parceira comercial dos
Estados Unidos, que absorve 21% de suas exportações,
queimando um capital enorme investido por americanos e
europeus nas economias emergentes da região. Só os
bancos americanos têm no Brasil um estoque de 28
bilhões de dólares em empréstimos. Para se ter uma
idéia dessa fortuna, basta lembrar que na Rússia, cuja
moratória chacoalhou o mundo, os bancos americanos
tinham emprestado apenas 7 bilhões de dólares. As
fichas estão lançadas no caso brasileiro. De um lado,
há dinheiro e disposição para salvar o país. Se isso
for feito, a mudança econômica será notável. Do
outro, há o déficit, problema difícil de resolver, mas
não impossível. Nunca houve tanta necessidade de
decapitar o dragão nem tanta oportunidade. A espada
está nas mãos de Fernando Henrique e dos futuros
congressistas. Será preciso usá-la.
Previsões
para 1999:
Crescimento |
Estagnação |
Recessão |
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| Foto: Bia Parreiras |
Roberto Campos,
economista, deputado federal
"O problema fiscal provoca um déficit nas contas externas do
país de 4% do PIB, e os investidores internacionais já mostraram
que não estão dispostos a financiar mais de 2%. É preciso cortar
gastos do governo, promover uma simplificação tributária e obter
um auxílio externo que permita a redução dos juros. Com isso, a
recessão será curta."
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| Foto: Sergio Zalis/ZNZ |
Carlos
Langoni,
professor do Centro de Economia Mundial da
Fundação Getúlio Vargas
"O Brasil precisa de um projeto fiscal que
tenha credibilidade e de uma reforma tributária
importante. Com isso, conseguirá apoio do Fundo
Monetário Internacional e pelo menos 25 bilhões
de dólares do Banco Mundial, de governos dos
países ricos e de bancos privados
internacionais. Se as reformas forem
implementadas com rapidez, a recessão poderá
ser superada no segundo semestre do próximo
ano."
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| Foto: Clovis Ferreira |
Mailson
da Nóbrega,
consultor de empresas em São Paulo
"O governo terá de fazer um corte em suas
despesas de 3% a 4% do PIB, ou 30 bilhões de
dólares. Com isso, tem boas chances de conseguir
ajuda externa de organismos oficiais e de bancos
privados. Se tudo der certo, os brasileiros ainda
terão de agüentar taxas de juros muito altas
por mais dois anos. Em 1999, o Brasil vai
empobrecer. O PIB deverá encolher entre 1% e 2%.
Não tem jeito. Temos de escolher entre a
recessão e a volta da inflação."
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| Foto: Regis Filho |
Eduardo Giannetti,
professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade
de São Paulo
"É necessário que se promova uma drástica redução do déficit
público sem aumento de impostos, com cortes nos gastos com juros
e com a previdência do setor estatal. Além disso, é preciso conquistar
uma assistência financeira de organismos internacionais para garantir
que a desvalorização cambial seja mantida no limite técnico desejável
e necessário."
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Dançando
conforme a música
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Delfim:
"O Brasil vai
pagar caro por essa
política de câmbio" |
| Foto: Antonio Milena |
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Enquanto não encontra tempo para
realizar seu grande projeto, que é escrever
sobre o período do "milagre
brasileiro", quando foi o czar de uma
economia que crescia a índices de 10% ao ano, o
deputado federal Delfim Netto (PPB-SP), 70 anos,
afia sua voz de crítico. Seu décimo livro, Crônica
do Debate Interditado (Topbooks, 248
páginas), lançado na semana passada, é quase
premonitório sobre a fragilidade das contas
brasileiras nestes dias de quebradeira
internacional. "O Brasil vai pagar caro por
essa política de câmbio", advertia, já em
1995, conforme se lê num dos capítulos. Em boa
parte dos artigos e entrevistas reunidos no
livro, Delfim afirma que o governo se sentou
sobre o sucesso do Plano Real sem querer enxergar
que estava criando uma espécie de armadilha
contra o crescimento econômico.
O governo,
segundo ele, só pensou na reeleição, deixando
para usar o "saco de maldades" mais
tarde. Numa entrevista de março passado, Delfim
fez o seguinte alerta: "Fico espantado
quando ouço o governo dizer que estamos
crescendo há cinco anos seguidos. É uma
patacoada. (...) Estamos fazendo uma aposta de
altíssimo risco. De repente, um fato externo
pode destruir tudo". Desta vez, o fato
externo chamou-se Rússia. Como um dos raros
expoentes em sua área que não foram buscar
diplomas no exterior, o ex-ministro bate forte na
"rapaziada" de Brasília, dizendo que o
problema do crescimento não existe na cabeça
dos economistas brasileiros educados em escolas
americanas: "Somos dominados por uma
ideologia em que a especulação financeira é
soberana". Tão soberana, em sua opinião,
que o Brasil terá agora de dançar a música que
o mercado internacional decidir tocar: "Se
eles mandarem a gente dançar vestido de baiana,
pode comprar turbante e sandálias e aprender a
rebolar".
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