Atletismo

O outro Ronaldo

Corredor brasileiro surpreende em Berlim ao
estabelecer nova marca mundial da maratona

Na largada da Maratona de Berlim na semana passada, o brasileiro Ronaldo da Costa, 28 anos, era apenas mais um número na multidão de 28.000 corredores. Quando cruzou a linha de chegada, duas horas, seis minutos e cinco segundos depois, Ronaldo colocou seu nome na história dessa corrida mitológica. Novo recordista mundial da modalidade, ele foi o primeiro ser humano a correr os 42.195 metros da maratona na velocidade média de 20 quilômetros por hora. O expansivo Ronaldo comemorou o feito com duas cambalhotas, deixando a platéia alemã ainda mais eufórica. "Eu estava preparado para vencer, mas nunca imaginei que poderia bater um recorde", disse. Maratonistas do mundo inteiro corriam para superar a marca de 2h6min50s, estabelecida pelo etíope Belayneh Dinsamo, em Roterdã, há dez anos. Ronaldinho, que hoje divide o pedestal internacional da fama com seu homônimo do futebol, não estava entre os favoritos para alcançá-lo. Apesar de ser leve e franzino, o biotipo ideal para as corridas longas, ele preferia distâncias de até 10.000 metros, em pista. Até agora era lembrado apenas por ter vencido a Corrida de São Silvestre, em 1994. No ano passado, em Berlim, aventurou-se pela primeira vez a enfrentar a maratona. Chegou em quinto lugar.

Ronaldo treina normalmente nos campos de Descoberto, pequena cidade mineira onde nasceu. Embarcou para a Alemanha confiante. As coisas saíram melhor do que se esperava. Depois de uma semana de chuva, o domingo amanheceu com sol, pouca umidade no ar e temperatura de 10 graus. O percurso levemente descendente de Berlim ajudava ainda mais. A capital alemã, ao lado de Roterdã, na Holanda, tem um dos percursos mais favoráveis para tentar o recorde da maratona. Quatro das cinco melhores marcas do mundo foram obtidas nessas duas cidades. Ronaldo chegou à metade da corrida em uma hora e cinco minutos, como havia planejado. Foi a partir daí que se deu a surpresa. Em vez de manter a marcha ritmada dos formidáveis corredores quenianos e etíopes que dividiam com ele a liderança, o brasileiro acelerou. Desgarrou do grupo de frente numa atitude temerária. Foi um tiro certo. Sentia-se tão leve e solto que aceitou dar entrevistas, em espanhol, para a televisão alemã, enquanto corria. Num fenômeno raro, conseguiu fazer a segunda metade da corrida quase quatro minutos mais rápido do que a primeira. Ao cruzar a linha de chegada, risonho e relaxado, o ex-menino pobre que queria ser jogador de futebol era o novo herói do esporte mundial. Estava também financeiramente descansado, com o prêmio de 100.000 dólares no banco. O cachê que cobra para participar de corridas saltou de 7.000 para 15.000 dólares.




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