Adeus antes do fim

Florence leva para o túmulo o mistério
de sua prodigiosa carreira de atleta

Maurício Cardoso

O tempo sempre foi curto para Florence Griffith Joyner, a estonteante atleta americana que morreu na semana passada provavelmente em conseqüência de um ataque cardíaco. A vida de Florence foi brutalmente abreviada. Ela morreu aos 38 anos de idade, enquanto dormia, em sua casa na Califórnia. A carreira de Florence foi meteórica. Embora corresse desde os 7 anos, todas as suas incríveis façanhas foram realizadas no espaço de menos de um ano — mais exatamente entre a primavera e o verão de 1988. Os tempos das corridas de Florence foram curtíssimos. Ela correu os 100 metros em 10s49 e os 200 metros em 21s34, recordes que nenhuma outra mulher conseguiu ameaçar até hoje, passados dez anos. O que deverá ser longo, e talvez jamais suficiente, será o tempo necessário para explicar os flashes de exuberância atlética de Florence Griffith Joyner. Ao morrer de causas ainda não explicadas, ela deixou mais dúvidas do que certezas sobre sua misteriosa passagem pelo mundo do esporte. Sobre ela pesam suspeitas fortes de que tenha recorrido ao uso de drogas proibidas para aumentar seu desempenho.

Antes mesmo de seu sepultamento, que estava previsto para o sábado 26, na Califórnia, cruzavam em todas as direções insinuações e acusações sobre a fulgurante "Flo-Jo", como ficou conhecida. Ela deslumbrava as audiências usando roupas berrantes e longas unhas multicoloridas. Mas, entre os colegas, o que chamava a atenção era sua musculatura volumosa, bem definida, e suas passadas absurdamente rápidas. Em uma entrevista à revista alemã Stern, em 1989, o corredor americano Darrell Robinson, seu colega de treinamentos, garantiu ter recebido 2.000 dólares dela para comprar hormônio do crescimento, droga clássica dos atletas de velocidade e força. "Se ela fez algo, chegou a hora de contar tudo para esclarecer as gerações futuras", disse Evelyn Ashford, ex-recordista mundial dos 100 metros rasos e grande rival de Florence nas pistas, concedendo-lhe agora o privilégio da dúvida. "No começo da carreira ela era muito feminina, mas algum tempo depois já parecia um homem", disse o campeão olímpico dos 800 metros Joaquim Cruz na época de suas grandes conquistas. Cruz foi muito criticado, mas hoje suas observações são endossadas. "Sua incrível transformação física não foi natural. Mesmo treinando dez, quinze horas por dia, é humanamente impossível transformar-se daquela forma. Pelo uso de drogas ela perdeu alguma imunidade cardiovascular. O processo é conhecido", diz o francês Jean-Pierre de Mondenard, especialista em drogas no esporte.

Quando ainda corria, Florence rebateu todas as acusações, da mesma forma que seus familiares — o marido, Al Joyner, e o concunhado Bob Kersee, ambos seus ex-treinadores — negaram as insinuações de agora. As autoridades esportivas saíram em sua defesa. "Em 1988, Florence passou por onze exames antidoping e nada foi encontrado contra ela", disse Craig Masback, presidente da federação americana de atletismo. O que faz de Florence a suspeita número 1 é sua própria biografia ilustrada. Até 1984, era uma boa atleta, igualzinha às centenas de boas atletas do mundo. Nas Olimpíadas daquele ano ganhou medalha de prata nos 200 metros. Esperava mais. Parou de treinar e quando voltou, dois anos depois, era outra pessoa Os músculos cresceram e ela voava nas pistas. Entre as mulheres não havia ninguém comparável a ela.

Morte súbita — Entre os homens havia uma alma gêmea, o canadense Ben Johnson. Johnson também surgiu do nada, transformou-se numa montanha de músculos, triturou recordes e adversários e foi banido do esporte por uso e abuso de anabolizantes. Florence passou incólume por todos os testes, mas, quando a Federação Internacional de Atletismo anunciou que passaria a fazer testes aleatórios fora do calendário de competições, ela abandonou as pistas. Antes dessa medida os atletas sabiam quando seriam testados e podiam programar o tratamento com drogas com a segurança de não ser pegos. Ao se retirar de maneira tão intempestiva, Florence reduziu as chances de se conhecer qual era seu segredo. Com sua morte, o mistério tende a se prolongar. Os médicos não acreditam que a autópsia revele algo a respeito de anabolizantes. "O uso de esteróides anabólicos pode causar microscópicas lesões no tecido do coração", explica Harry Bonnell, médico legista de San Diego. "Mas outras doenças, como inflamações, podem causar lesões idênticas."

O que está confirmado pelos cientistas é que existe uma relação entre morte súbita por ataque cardíaco e uso de esteróides. Em seu livro Drugs, Sports and Politics (Drogas, Esportes e Política), Robert Voy, ex-médico do Comitê Olímpico dos Estados Unidos, cita casos de arteriosclerose precoce e distúrbios cardiovasculares causados pelos esteróides. Mas, se não foram as drogas, o que matou a superatleta, símbolo de saúde e vigor físico, no esplendor de seus 38 anos? Os médicos não acreditam que o esporte, mesmo nos níveis de stress físico e mental da alta competição, produza danos ao sistema cardiovascular. Se Florence sofria alguma cardiopatia, o problema era, muito provavelmente, anterior a sua entrada no esporte.

Entre não atletas também são freqüentes as mortes durante a prática de atividade física. Paulo Sérgio da Silva, 28 anos, um dos 5.000 atletas que participaram da maratona de São Paulo, em abril, correu 12 quilômetros, sentiu-se mal e parou. Levado ao hospital, sofreu uma parada cardíaca e morreu duas horas depois de ter largado para o que pensava ser um programa de saúde. Mesmo diante desses casos, os médicos são unânimes em reafirmar os benefícios do exercício físico. "Os sedentários, os fumantes e os hipertensos com certeza correm muito mais riscos do que quem faz exercícios", diz Joseph Smith, do Barnes-Jewish Hospital, de Saint Louis, Estados Unidos. O que os médicos recomendam para quem não é atleta é uma boa orientação. Uma regra importante é que o exercício obedeça a uma rotina. "Ser atleta apenas no fim de semana é o maior perigo", diz Calisto Barcha Neto, especialista em medicina esportiva de São Paulo. A segunda regra fundamental é fazer uma boa avaliação médica antes de iniciar atividades. "O exercício físico só faz bem ao coração", diz Barcha. "Mas, se a pessoa já sofre de alguma doença cardiovascular, o exercício pode precipitar um acidente."

 



 





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