| |
Imagem arranhada
Uma das
farmácias mais antigas do Brasil
é acusada de fabricar remédios falsos
Quanto mais se
investiga, mais assustador fica o escândalo dos
remédios falsificados. Na semana passada, foi
interditado, em São Paulo, o laboratório Veafarm, da
farmácia de manipulação Botica Ao Veado D'Ouro. A
empresa é acusada de ter produzido quase 1 milhão de
comprimidos de farinha como sendo o medicamento Androcur,
usado para o tratamento do câncer de próstata. A
notícia causou surpresa porque, desta vez, a fraude não
envolve um laboratório improvisado em fundo de quintal.
Ao contrário. A Botica Ao Veado D'Ouro é uma
centenária instituição paulistana. Fundada em 1858 por
dois imigrantes alemães, era tida como um símbolo de
tradição e confiabilidade na capital paulista. A lista
de clientes que a freqüentaram nestes anos todos
incluía muita gente famosa e dois presidentes da
República Velha, Campos Salles e Washington Luís. Essa
boa imagem longamente construída rachou diante da
revelação de que o Veafarm fabricou e distribuiu
remédios falsos para todo o país. Segundo a polícia,
pelo menos dez pacientes com câncer teriam morrido por
tomar essas pílulas inócuas.
Os dois
proprietários do Veafarm, Daniel Eduardo Derkacheff Vera
e Edgar Helbig, foram indiciados pela polícia de Santo
André, cidade da Grande São Paulo onde fica o
laboratório. Ricardo Camargo Garcia, genro de Vera e
ex-sócio da empresa, foi preso. Na época gerente-geral
do laboratório, ele é acusado de ter mandado produzir
os placebos que saíam do Veafarm, sem nota fiscal,
direto para as mãos do comerciante autônomo Élcio
Ferreira da Silva, único comprador dos medicamentos
falsos. Silva confessou à polícia que era ele quem
mandava fazer as embalagens, bulas e rótulos copiados do
Androcur para acondicionar as pílulas recebidas do
Veafarm.
O delegado Guerdson
Ferreira, responsável pelo caso, diz ter provas de que,
entre dezembro de 1996 e setembro do ano passado, o
laboratório fabricou quase 1 milhão de pastilhas de
placebo. Numa gráfica próxima à casa de Élcio Silva,
os investigadores encontraram caixas, bulas, rótulos e
máquinas para cortar as embalagens do falso Androcur. Ao
ser indiciados na delegacia, os donos da empresa negaram
ter conhecimento da fraude, trocaram acusações e
jogaram a culpa principalmente no ex-sócio Garcia.
"Agiram pelas minhas costas", esquivou-se Vera.
"Se soubesse, teria parado a produção",
afirmou Helbig. O delegado, porém, acredita que os dois
podem ser enquadrados por crime culposo. "Como
responsáveis pela empresa, eles deveriam ter algum tipo
de controle sobre o que era fabricado e
comercializado", diz ele.

|
|