Pesquisa

Arma biológica

Brasil exporta inimigo natural de praga agrícola

Robert Barreto,
de Viçosa: fungos
contra árvore
invasora no
Havaí e Taiti
Foto: Giovani Pereira  

O Brasil está exportando um produto inusitado. Acondicionados em pequenas caixas térmicas de isopor cuidadosamente lacradas, a uma temperatura pouco acima de zero grau, ácaros, fungos, bactérias e até alguns vírus viajam nos aviões, em compartimentos isolados, para vários países da América Latina, para os Estados Unidos e a África. Os bichinhos fazem parte de um arsenal desenvolvido por cientistas brasileiros para a guerra biológica que acontece nos campos agrícolas de todo o mundo. Nos últimos anos, o Brasil tornou-se um dos mais importantes produtores desse tipo de arma, que, agora, começa a exportar.

Os programas de controle biológico substituem a aplicação de toneladas de pesticidas pela disseminação de inimigos naturais dos insetos, ervas daninhas e fungos que tiram o sono e roubam os lucros dos agricultores. Nos Estados Unidos, a batalha está sendo travada entre hordas de formigas lava-pés e moscas enviadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa. As moscas põem ovos dentro da cabeça da formiga. Quando a larva cresce, a lava-pé explode. Além de arruinar campos de soja e plantações de batata e de frutas cítricas no sul do país, da Flórida ao Texas, as picadas dessas formigas matam entre três e dez americanos por ano.

Equilíbrio — Os fungos que a Universidade Federal de Viçosa, UFV, está exportando para o Taiti e o Havaí atacam inimigos compatriotas. Vendida como planta ornamental na década de 60, a brasileira canela-de-veado tornou-se uma calamidade em países onde seus inimigos naturais estavam ausentes. "No Brasil, a árvore nunca ultrapassa 6 metros de altura", explica o fitopatologista Robert Weingart Barreto, da UFV. "Em outras regiões do planeta, virou um monstro de 30 metros, que já engoliu 40.000 hectares de florestas nativas no Havaí e tomou 70% das áreas verdes do Taiti." O fungo exportado provoca uma doença nas folhas da planta invasora que acaba por matá-la.

A principal vantagem das armas vivas é financeira. As fazendas de trigo gaúchas e paranaenses deixaram de gastar 16 milhões de dólares por ano em pesticidas pela ação de pequenas vespinhas que começaram a ser soltas no campo, há vinte anos. "Hoje, essas vespas que parasitam os ovos do pulgão, um inseto que ataca o trigo, agem também no Paraguai, no Uruguai, na Bolívia, na Argentina e no Chile", afirma José Manuel Cabral, da Embrapa.

Alexandre Mansur




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