Sem giz nem lousa

Internet e novos programas ajudam escolas
a usar melhor o computador em sala de aula

Manoel Fernandes e Raul Juste

Fotos: Egberto Nogueira
Aula gravada
No Colégio Objetivo, de São Paulo, o professor usa,
em lugar do quadro-negro, um telão especial,
reproduzido nos monitores dos alunos. As aulas
são gravadas em disquete

Há dois anos, o engenheiro Takatoshi Shinzato não vai à escola de seu filho Tiago, de 16 anos, estudante do 3º ano do 2º grau do Colégio Bandeirantes, em São Paulo. Apesar da distância, ele está muito bem informado sobre a vida escolar do garoto. "Sei as notas, a freqüência e recebo todos os avisos da diretoria", diz o pai. As notícias chegam à casa da família via Internet. Quando necessário, Shinzato despacha para os professores mensagens com comentários ou sugestões. A escola de Tiago, onde 95% dos alunos têm computador em casa, montou um provedor de acesso à Internet e forneceu um endereço eletrônico para cada estudante. É um exemplo de como os computadores estão mudando a rotina em alguns colégios públicos e privados do país. O número deles nas escolas brasileiras é ainda pequeno, mas a cada dia se descobrem novas maneiras de usá-los como recurso pedagógico. Pelo último censo do Ministério da Educação, MEC, feito no ano passado, 4,3% das escolas de ensino fundamental e médio do país têm computadores em pelo menos uma sala de aula. Entre os colégios privados, o porcentual sobe a 28%, contra 1,2% na escola pública.

Os computadores chegaram às escolas privadas brasileiras no final da década de 80. Eram uma novidade, mas poucos professores e orientadores sabiam como utilizá-los de forma eficaz na sala de aula. Em geral eram usados como substitutos sofisticados das máquinas de escrever. Os raros programas existentes não traziam novidades pedagógicas. "Não passavam de livros eletrônicos", afirma Rosemary Soffner, do Colégio Magno, de São Paulo. O salto qualitativo veio com o aprimoramento dos programas e com a Internet, que ampliou o universo de busca de dados e criou uma infinidade de recursos para estimular a curiosidade dos alunos. "Estamos entrando numa era em que o professor deixará de ser a única fonte de informação", afirma Fredric Michael Litto, coordenador da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, USP. Um exemplo disso ocorre no Grupo Positivo, uma empresa com sede em Curitiba que já criou mais de 100 programas educativos. Todos aliam as informações curriculares à capacidade do computador de criar simulações e desafios que desenvolvam o raciocínio. Um deles, O Patrulheiro das Galáxias, é um jogo em que os estudantes são transportados para um planeta fictício onde, através de desafios, recebem informações sobre atmosfera, fotossíntese, chuva, sistema solar e outros assuntos. Diversas imagens do acervo da Nasa, a agência espacial americana, ilustram o jogo.

Cubo mágico
Na mesa Alfabeto, do
Positivo, o computador é
conectado a um teclado com
letras de madeira. A criança
aprende a escrever com
a ortografia correta
  Foto: Jader da Rocha

Como qualquer outra ferramenta pedagógica, o computador pode ajudar professores e alunos a melhorar seu desempenho em sala de aula. Evidentemente, ele não resolve o problema se a escola for ruim, o professor não tiver a competência necessária para ensinar ou os estudantes não quiserem aprender. Muitos colégios tentam atrair novos alunos com o argumento de que oferecem computadores, embora não saibam exatamente para que servem. "É preciso separar projetos sérios da picaretagem", afirma Nelson Pretto, professor da Universidade Federal da Bahia e um estudioso da tecnologia aplicada à educação. "O uso da informática numa escola só funciona se criar uma nova forma de relacionamento do aluno com o estudo. Não adianta oferecer o computador mais potente e moderno se o método de ensino continuar o mesmo, com os estudantes repetindo velhas fórmulas."

Prova animada
No Action Kid, a turma
é dividida em dois times
que respondem a
questões formuladas
pelo computador. Há
programas de
matemática a geografia
Foto: Jader da Rocha  

Aula a distância — Quando bem utilizado, o computador pode ter múltiplas aplicações numa escola. No Colégio Magno, alunos da capital paulista acompanham, por um sistema de videoconferência, as aulas dadas num observatório astronômico localizado em Minas Gerais, a mais de 200 quilômetros de distância. A rede de escolas Objetivo, também de São Paulo, tem uma "sala do futuro" onde o quadro-negro e o giz foram substituídos por uma tela especial. Nela, o professor escreve usando os dedos ou um pincel de madeira e cada rabisco aparece simultaneamente nas telas dos computadores individuais dos alunos. Ao final da aula, todas as anotações ficam gravadas num disquete que pode ser levado para casa.

Nota em casa
O engenheiro Shinzato
acompanha pela Internet
a freqüência e as notas
do filho, Tiago. Também
envia comentários e
sugestões para o
Colégio Bandeirantes
  Foto: Gladstone Campos

As máquinas oferecem algumas vantagens sobre a época em que os recursos em sala de aula se resumiam a giz, apagador e quadro-negro. No Colégio Positivo, de Curitiba, um equipamento chamado mesa Alfabeto associa computador a letras de madeira de modo que os alunos da pré-escola possam copiar palavras, preencher lacunas e participar de joguinhos. Outro equipamento, chamado Action Kid, é um playground com computadores e botões eletrônicos no qual duas equipes competem respondendo a perguntas sobre o que estudaram com o professor. "Com o computador, ficou mais fácil para o estudante enfrentar o erro", afirma o pedagogo Luca Rischbieter, do Positivo. "A máquina não dá bronca e o aluno não precisa levantar o dedo, encabulado, para dizer que errou. Além disso, o computador tem paciência infinita: as crianças podem tentar acertar quantas vezes quiserem os testes e exercícios propostos em um programa."




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