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O encanador e o eletricista têm telefone celular. O filho do zelador faz faculdade à noite e o chofer de táxi levou a família para viajar de avião pela primeira vez. Telefone, faculdade e viagem foram símbolos que, há duas gerações, identificavam a posição de destaque de uma reduzidíssima parcela da população. Atualmente são ocorrências muito menos raras na vida de uma massa maior de pessoas. Por observação visual, é possível perceber que um grande número de brasileiros que antes seriam classificados como pobres ou muito pobres melhorou de vida e usufrui hoje os confortos típicos da classe média. As estatísticas comprovam o movimento que o olhar capta: o ponteiro da pobreza baixou no país nos últimos anos. Esqueça um pouco as notícias de que os mercados financeiros estão derretendo e atente para alguns números. Nos últimos seis anos, perto de 19 milhões de pessoas deslocaram-se da base para o miolo da pirâmide social. É o que se lê na mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, PNAD, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em 1992, segundo o IBGE, 52% das famílias brasileiras sobreviviam com renda de até três salários mínimos. Há dois anos, essa porcentagem havia caído para 35%. Ou seja, 17% das famílias antes definidas como pobres subiram na vida. Outras agências de
pesquisa, usando critérios diferentes, chegaram a
conclusões semelhantes. Milhões de brasileiros galgaram
degraus na escada econômica. Mais da metade já pode ser
classificada como segmento emergente ou de classe média.
A imagem desenhada por essas estatísticas é bem
diferente daquela que freqüenta o pensamento das
pessoas. O Brasil continua sendo um país socialmente
imperfeito, com uma quantidade de gente na miséria que,
proporcionalmente, nos deixa em situação
desconfortável no mundo. O país, no entanto, não está
paralisado, muito menos caminhando para trás. Sua
população está abraçando um padrão de vida que
melhora a cada geração. Trabalhando num universo
restrito às seis principais capitais do país, São
Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte,
Recife e Salvador, e a pessoas entre 15 e 65 anos de
idade, a empresa de pesquisa Marplan constatou que 3,9
milhões delas incrementaram seu padrão de vida entre
1993 e 1997. Há cinco anos, nessas seis cidades, os
pobres e miseráveis eram 8 milhões, ou 40% da
população, de acordo com a Marplan. O número
reduziu-se para 5,8 milhões, ou 26%, em 1997. Há mais
1,7 milhão de pessoas, de famílias emergentes, que
puseram o pé na classe média. "Poucos perceberam,
mas a situação para esse grupo melhorou muito nos
últimos anos e isso está transformando o país",
analisa o cientista político Sérgio Abranches,
consultor no Rio de Janeiro. |
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O emergente é o
sujeito que hoje em dia é visto comprando seu primeiro
carro, ampliando a casa, viajando mais. Foi ele o
consumidor guloso de geladeiras, fornos de microondas,
televisores e roupa nova na explosão de consumo de
1995-1996. Foi tanta gula que muitos se enforcaram em
prestações que esgotaram todo o orçamento. No momento
estão na quarentena forçada dos juros estratosféricos,
mas ainda usufruem os bens que adquiriram. Muitos dos que
compraram carro e microondas pela primeira vez há alguns
anos estão pensando agora num computador, na escola de
inglês para os filhos, talvez em mudar para um bairro
melhor. "A possibilidade de consumir mais abre os
horizontes da pessoa. Ela lutará para melhorar seu
padrão de vida", diz Paulo Secches, presidente da
InterScience, empresa de pesquisa de mercado de São
Paulo. |
![]() Foto:Álbum de família/ Jader da Rocha |
Se muitos
intelectuais não notaram o que ocorreu no Brasil e não
enxergam nenhuma melhora diante de seus óculos, os
industriais e comerciantes perceberam e arregaçaram as
mangas. Estão produzindo detergentes mais baratos,
televisores mais simples, pacotes de viagem em conta para
os novos turistas. A InterScience foi contratada para
medir o poder de compra dos consumidores de primeira
viagem. O resultado mostra que eles é que possuem o
grosso do dinheiro que circula no país. Na carteira da
classe média e dos emergentes caem todo ano 429 bilhões
de dólares. Ricos e pobres, somados, têm 90 bilhões.
Conclusão da InterScience: a economia brasileira deve
voltar-se para atender ao miolo da pirâmide e não
apenas à classe média alta e aos ricos, como
antigamente. "É essa massa média da sociedade
brasileira, que está virando maioria da população, que
vai eleger o presidente, ditar padrões de comportamento
e dizer o que as empresas vão produzir", afirma
Roseli Azambuja, diretora de pesquisa da agência de
publicidade Standard, Ogilvy & Mather. |
![]() Fotos: Marcio Lima |
Consumo não é tudo na vida, mas serve como uma mola para o crescimento de um país. As sociedades mais desenvolvidas, com maior capacidade de eliminar a miséria, foram erguidas sobre grandes mercados consumidores, um dos fatores que as enriqueceram. E o enriquecimento sistemático traz como conseqüência a melhoria da educação, da qualidade das empresas e das instituições. Todos os países que alcançaram um alto grau de desenvolvimento econômico e social têm a maioria de seus habitantes situada na classe média. No Japão, Alemanha e nos Estados Unidos eles são entre 70% e 90% da população. Historicamente, a classe média é o segmento da sociedade mais obcecado pelo progresso pessoal, pela idéia de melhorar de vida. Está o tempo todo tentando comprar aquilo que ainda não tem. Essa ambição, além de movimentar a economia, se estende para a política. A classe média abandona sem o menor constrangimento os governos que a contrariam, porque rejeita tudo que possa atrapalhar seu sonho de progresso.
Nem de longe o Brasil se compara a esses países. Tem um PIB per capita de 5000 dólares. O americano é mais de cinco vezes esse valor. O conceito de classe média brasileira, pelo próprio fato de que o país está em processo de desenvolvimento, tem de ser mais elástico do que em países com sociedade madura. A semelhança está no comportamento, voltado para o aprimoramento pessoal. A luta do pobre está centrada na manutenção de suas condições de sobrevivência. O máximo que ambiciona é que os filhos vivam um pouco melhor. A estratégia de quem escapou da pobreza, ou que atingiu um nível razoável de tranqüilidade econômica, é continuar progredindo. Esse sentimento já é visível na maneira como as pessoas se comportam. Os cursos noturnos de inglês e de informática estão lotados de gente que sabe que sem esse reforço não conseguirá emprego bom nem progresso na carreira. O brasileiro está estudando mais. Em 1970, o tempo médio na escola não passava de três anos, insuficiente para completar o primário. Em 1995, esse período já era de sete anos. O computador é visto como uma ferramenta de trabalho e de instrução. Segundo o instituto Marplan, das famílias com renda entre dez e trinta salários mínimos, 6% tinham um micro em casa em 1993. Hoje são 20%. "Nunca houve tanta procura por cursos de mestrado ou doutorado", nota o consultor paulista Antonio Cabrera, professor da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo, especializado em contratação de executivos. Os emergentes e a classe média estão modificando a atitude de quem lhes fornece serviços e produtos. Não faz muito tempo, os consumidores eram apáticos, com uma atitude conformista diante de trabalhos malfeitos e produtos ruins. O quadro foi completamente alterado. Em 1990 havia cerca de trinta Procons repartições estaduais ou municipais de proteção ao consumidor em funcionamento no país. Hoje são 600. Um dos Procons mais antigos é o de São Paulo, fundado há 22 anos. Em 1977, recebeu 1542 reclamações. No ano passado foram 238000. O sujeito de classe média é insistente, é um cobrador. Ele se junta em grupos para aborrecer os que não lhe servem bem. Estão florescendo no país associações de donas de casa, de devedores de bancos, das vítimas de atraso de vôo. Há 65 grandes grupos de consumidores registrados no Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, do Ministério da Justiça. O departamento estima que informalmente funcionem cerca de 1000. Sensíveis a essas cobranças, muitas empresas mudaram. É incrível, mas no começo da década os erros para menos no peso dos produtos da cesta básica eram de 30%. Caíram para 3%, de acordo com o Instituto de Pesos e Medidas, Ipem. A vigilância está em alta. "As pessoas, hoje, passam o dobro do tempo no supermercado lendo as informações da embalagem", diz Adejayr Cyro Trigo, superintendente do Ipem em São Paulo. Os serviços de atendimento ao consumidor saíram da pré-história. Há seis anos, a maior parte das empresas usava uma secretária eletrônica, que gravava a reclamação. Depois, passaram a usar um funcionário para conversar com o queixoso. Agora, as mais sérias empregam atendentes, que anotam a reclamação, providenciam o reparo e ligam de volta para saber se o cliente ficou satisfeito. "Nesse aspecto, as empresas que funcionam no Brasil estão longe do padrão usado em países desenvolvidos e o descaso com o consumidor ainda é grande. Mas a atenção melhorou muito nos últimos tempos", constata Júlio Lobos, dono de uma consultoria que pesquisa a eficiência do atendimento aos consumidores. Além de seu tamanho e poder de consumo, o perfil da classe média também mudou. No passado, bastava um diploma universitário para garantir um futuro cômodo e sem risco. Manter o emprego nos dias de hoje é uma tarefa angustiante. Agora, o profissional precisa do diploma, do inglês, de flexibilidade para atuar em vários setores da empresa, criatividade, reciclagem contínua e disposição para trabalhar mais do que os outros. Ainda assim, está sempre com medo de ser substituído por alguém mais preparado ou de ser riscado da folha de pagamento por um método de trabalho que emprega menos gente. São enormes as exigências impostas pela empresa moderna e só quem as cumpre ganha um visto para residir no meio da pirâmide. Esse ambiente transforma a pessoa. De um lado ela se sente mais ameaçada, tem medo de perder a posição e os confortos que acabou de conseguir. Não avalia muito bem aonde chegou porque está cercada de indivíduos cujo padrão de vida elevou-se na mesmíssima proporção. Em muitos casos, o índice de insatisfação permanece inalterado. A pessoa tende a continuar reclamando que tudo vai mal, por aquele tipo de reflexo que faz o sujeito achar que a meteorologia está sempre em crise. Se é verão, queixa-se do calor. Se é inverno, queixa-se do frio. Um outro caminho
tradicional, no passado, para ingressar na classe média
estava no emprego público. Segundo o cientista político
Sérgio Abranches, metade da classe média era formada
por burocratas, professores da rede pública ou
funcionários de estatais. Hoje, de acordo com Abranches,
apenas uma em cada quatro pessoas empregadas de classe
média tem o governo como patrão. Essa é uma
interessantíssima alteração genética no tecido social
do país, cujas conseqüências são também captadas por
pesquisas. Há 21 anos a agência de publicidade
Standard, Ogilvy & Mather averigua periodicamente as
ambições e o humor da classe média. O brasileiro não
deseja mais encostar-se numa repartição. Na pesquisa do
ano passado, as pessoas responderam que querem ter um
negócio próprio, como primeira opção, ou trabalhar
numa multinacional, em segundo lugar. Pouquíssimos
optaram por buscar uma vaga na burocracia governamental.
O Brasil mudou. |
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