Malásia

Golpe da sodomia

Isso é que é crise: ex-ministro é preso
por homossexualismo e subversão

Aventuras sexuais manipuladas para criar uma crise política, escândalo nacional, instabilidade. Isso tudo está acontecendo na Malásia, um dos pequenos Tigres Asiáticos derrubados pelo terremoto cambial no Oriente e agora às voltas com uma encrenca política das bravas. O componente sexual é de dar inveja ao algoz de Bill Clinton, o promotor Kenneth Starr. No começo do mês, Mahathir Mohamad, homem forte e primeiro-ministro há dezessete anos, demitiu seu ministro das Finanças, Anwar Ibrahim, acusando-o de práticas homossexuais com um irmão de criação e um assessor político — a sodomia é crime no país, de forte tradição muçulmana. Anwar rebateu o golpe convocando manifestações de protesto que obtiveram surpreendente adesão, considerando-se as regras autoritárias do regime. No último dia 20, policiais vestindo gorros ninja invadiram a casa de Anwar, no meio de uma entrevista à imprensa, e o levaram preso, em regime de incomunicabilidade. Aflita, a mulher do ex-ministro, Aziza, sempre coberta pelo véu muçulmano, disse ter medo que o marido fosse contaminado com o vírus da Aids na prisão, num plano para consubstanciar a acusação de sodomia, que se soma à de subversão da ordem.

"Eu me transformei num ditador", ironizou Mahathir, diante das críticas à prisão de seu ex-herdeiro político. Originário da militância nacionalista — ex-colônia britânica que vivia da borracha levada da Amazônia brasileira, a Malásia só obteve a independência em 1957 —, o médico Mahathir há muito tempo já é um autocrata ao estilo do indonésio Suharto. Ele sempre controlou uma frente política que lhe garante intermináveis reeleições e ao mesmo tempo promoveu o desenvolvimento econômico, notável, enquanto durou. Seu receio é justamente seguir o mesmo destino de Suharto, defenestrado na esteira da crise.

Mão pesada — Com a economia, que era considerada uma das mais estáveis da Ásia, desorganizada e uma população clamando cada vez mais por reformas, Mahathir convenceu-se, não sem alguma razão, de que Anwar estava tirando proveito de seu desgaste. Enquanto o primeiro-ministro adotava uma posição intervencionista em relação à economia, Anwar procurava reforçar sua imagem de moderno, defendendo o livre mercado. Em junho, ele tentou uma manobra para apressar uma troca na liderança do país. Mahathir desceu então sua mão pesada, sobre o rival e a economia. Anwar foi enquadrado por sodomia, corrupção e traição. A economia, engessada pela centralização do câmbio, pelo controle no fluxo de capitais e pela maquiagem nos balanços bancários para disfarçar os empréstimos bichados. A demissão de Anwar desencadeou os protestos pedindo por reformas, tal como aconteceu na Indonésia, embora sem o mesmo ímpeto. Já os banqueiros internacionais, por enquanto, estão calados. Mahathir está pagando para ver de onde vem o perigo maior a seu reinado.




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