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Um amor de garota
Depoimento
e cartas mostram que Monica
agiu como uma adolescente apaixonada
Oferecida,
interesseira, pervertida, irresponsável, sedutora de
homens casados, chantagista. A imagem que os americanos e
boa parte do resto do mundo formaram de Monica Lewinsky
não é nada positiva. Dificilmente poderia ser
diferente. Sem nunca ter aberto a boca em público desde
a eclosão do escândalo, o retrato da estagiária que
abalou o império foi desenhado com base no que os outros
diziam dela e, acima de tudo, na descrição das
atividades sexuais travadas na clandestinidade dos
corredores da Casa Branca, expostas com minúcias
clínicas no relatório do promotor especial Kenneth
Starr. A morena que seduz o presidente dos Estados Unidos
exibindo-lhe as laterais da calcinha, e depois o
atormenta com exigências de um bom emprego, parece de
fato uma peste, para não usar termo mais vulgar. A
Monica que aparece na transcrição integral de seus
depoimentos à Justiça, no entanto, é outra coisa: é
uma jovem apaixonada pelo homem que descreve,
alternativamente, como "bonitão", "um
garotinho" ou "raio de sol". É uma
paixão juvenil (e que outro tipo existiria?), que se
derrama em lágrimas, dúvidas e cobranças. E que
poderia trazer em seu bojo a salvação do objeto de
desejo que, inadvertidamente, arrastou para a beira da
destruição. "Eu só queria dizer que ninguém
nunca me pediu para mentir, nem me ofereceu emprego em
troca do meu silêncio", declarou Monica, antes de
cair no choro, no encerramento do depoimento final ao
júri de instrução que apurou as denúncias contra Bill
Clinton. Ou seja, de uma só tacada ela desmente duas das
acusações mais graves contra o presidente: a de induzir
a declarações falsas em juízo e de manipular
testemunhas num processo.
Haveria ironia mais
deliciosa do que ver Clinton, o político que se enrascou
nos rabos-de-saia, ser salvo pela fidelidade apaixonada
de uma mulher? O presidente, na verdade, será julgado
por aquilo que as investigações concluírem que fez,
não pelo que Monica disse que ele não fez. Na semana
passada, porém, Clinton se beneficiava de uma
surpreendente onda de simpatia. Os americanos não
gostaram da atitude dos políticos republicanos, que
forçaram a divulgação do vídeo com o depoimento
sigiloso do presidente sobre o escândalo
político-sexual. Também pegou muito mal, para o
promotor Starr, a eliminação das declarações de
Monica em favor de seu amado no relatório oficial
elas só aparecem na íntegra dos depoimentos, prestados
em agosto. A humanização da imagem da ex-estagiária
também conta pontos a favor de Clinton. Sincera, frágil
e, sim, um pouquinho manipulativa, Monica abriu o
coração para os 23 jurados anônimos em boa
parte senhoras negras de meia-idade, a se julgar pela
composição demográfica de Washington. Eles, ou elas,
adoraram, retribuindo com conselhos, manifestações de
apoio e até de carinho. O interrogatório num vetusto
tribunal onde se decidia o destino do homem mais poderoso
do mundo terminou em clima de sessão de psicoterapia de
grupo, com direito a chavões do tipo "perdoe a si
mesma", "supere isso e vá em frente",
"todo mundo erra" e "deixe de
racionalizar". Monica terminou agradecendo a todos
"por entender esta situação e abrir seus
corações, sua mente e sua alma".
Ataque de
ciúme O próprio Clinton se saiu melhor
do que a encomenda no vídeo divulgado com tanto
estardalhaço. Em meio a declarações tortuosas, à
constrangedora insistência em dizer que sexo oral não
constitui relação sexual tal como definida em juízo, o
presidente deixou escapar manifestações de carinho pela
ex-estagiária, que em público desprezou como
"aquela mulher". Chamando-a de Monica, em lugar
do formal senhorita Lewinsky, ele a descreveu como uma
"boa garota, com um bom coração e uma boa
cabeça" que terminou "apunhalada pelas costas
por Linda Tripp", a falsa amiga que gravou as
confidências da então estagiária sobre o caso com
Clinton e entregou as fitas a Starr, desatando o
surrealista escândalo sobre a vida sexual do presidente
e suas implicações jurídicas.
Monica deve ter
adorado o tratamento afetuoso. Em seu depoimento, ela
conta como caiu de amores pelo presidente e continuou
apaixonada depois que o mundo veio abaixo, tentando
protegê-lo o quanto pôde até que não pôde
mais e entregou o jogo, em troca da garantia de não ser
processada. Nem ser qualificada como "aquela
mulher" a abalou. "Ele tinha de fazer
isso", disse, magnânima. Só sentiu o golpe quando
ele reconheceu em público as "relações
impróprias": parecia que estava falando de momentos
casuais, quase anônimos, de sexo oral. Bem diferente das
fantasias românticas que desenvolveu. Ingenuamente,
guardava esperanças de que Clinton se divorciaria da
mulher, Hillary. Imaginava que o presidente pretendia,
assim, poder dedicar mais tempo ao romance com ela, uma
estagiária com idade para ser sua filha. Teve um ataque
de ciúme quando viu uma foto do casal Clinton em pose
carinhosa a inevitável cena da filial com inveja
da matriz. Àquela época, Monica ainda assinalava em sua
agenda cada momento inesquecível do romance com Clinton.
Queria porque queria "discutir a relação",
como pediu num bilhete manuscrito e algo rasurado.
"Eu pensava que ele tinha uma alma muito
bonita", derramou-se aos jurados, em sua linguagem
de folhetim. "Eu o achava incrível. Olhava para ele
e via um garotinho. Ele sempre me fazia sorrir quando
estava a meu lado. Ele era um raio de sol."
Carícia
furtiva Diante das primeiras
perguntas sobre sexo, Monica pediu para responder de
olhos fechados, de tão constrangida. Aos poucos, no
entanto, o ambiente se descontraiu. A testemunha, num
dado momento, chegou a perguntar se podia ficar em pé
para demonstrar como conseguiu aproximar-se do presidente
no meio de uma multidão e, de costas, num gesto furtivo,
lhe fazer uma carícia nos genitais, sem que ninguém
visse. Considerando-se o tema, os jurados até que
demonstraram relativa discrição nas perguntas sobre
sexo. Houve a história do charuto? "Sim, uma vez.
Uma vez", confirmou Monica, ansiosa por delimitar a
experimentação. Ela queria consumar uma relação com
penetração? Essa foi mais difícil. "Posso me
esconder debaixo da mesa?", apelou a depoente.
"Bom, eu queria..., eu tentei..., eu coloquei o
genital dele perto do meu." Monica atingiu o orgasmo
nas relações com Clinton? Foram quatro vezes. Ou seis,
segundo a confusa Monica a má memória pode ser
atribuída aos antidepressivos que ela vinha tomando
desde o início de 1995.
Em várias ocasiões, Monica pediu desculpas.
Disse que sabia que não devia envolver-se com homens casados, que nunca
quis prejudicar o presidente, que se sente culpada por ter falado demais
sobre o romance principalmente à falsa amiga. "Sinto muito,
mesmo, por tudo o que aconteceu", apelou. "E eu odeio Linda
Tripp." Nesse momento, caiu no choro. Os membros do júri a socorreram
com um rosário de consolações, culminando com um "aqui se faz, aqui
se paga". Curiosamente, a crendice pode provar-se verdadeira, porque
a maré se voltou decididamente contra Linda Tripp (veja
quadro). Os jurados lhe desejaram, ao fim da audiência,
"um buquê de sorte, sucesso, felicidade e bênçãos". Ela caiu
no choro de novo. Uma jovem apaixonada, confusa, perdida. Talvez os míseros
5% dos americanos que admitem ter alguma simpatia por Monica aumentem
um pouco mais.
Como
uma cabra-montesa
Será que,
para Bill Clinton, o pior já passou? A semana
que se iniciou com a ameaça de provocar mais
sangramento por causa da divulgação do vídeo
com seu depoimento ao júri de inquérito
terminou com resultados surpreendentemente
positivos para o presidente americano, notório
pela capacidade de sobrevivência. "Essa é
a vida dele: pular de precipício em precipício,
como uma cabra-montesa, escapando de fuzis de
mira até chegar, são e salvo, ao outro lado,
como nos filmes", reconheceu, desconsolado,
o ex-senador Alan Simpson, da oposição
republicana. A estratégia da Casa Branca foi
criar a falsa expectativa de que o presidente
perdera a compostura ao depor. Ao contrário,
Clinton utilizou suas habilidades de advogado e
político mostrando-se escorregadio como um
peixe, sim, mas sem desastres irreparáveis.
Segundo pesquisa do jornal New York Times,
após a transmissão do vídeo, a aprovação ao
desempenho político de Clinton subiu ainda mais.
Dos cerca de 60% que ele vinha mantendo até a
semana anterior, saltou para 67%. Mais
significativo: 65% dos americanos,
independentemente de simpatias partidárias,
acham que o Partido Republicano está recorrendo
a expedientes condenáveis para enfraquecer o
presidente.
A semana
só não foi melhor porque não deu certo a
tática ensaiada pela Casa Branca para terminar
rapidamente o caso. A idéia era que Clinton
prestasse um "depoimento voluntário"
ao Congresso, rasgando as vestes de
arrependimento. O mea-culpa terminaria com uma
moção de censura e uma multa. Nada feito. O
caso vai seguir os procedimentos normais. O
presidente da Comissão de Justiça da Câmara,
Henry Hyde, da oposição, já apressou o
cronograma, marcando para meados da semana que
vem, no máximo, a votação que definirá se o
processo de impeachment será ou não
desencadeado. A decisão deverá pesar no
resultado das eleições de 3 de novembro, para o
bem ou para o mal de Clinton.
Os aliados
do presidente acreditam que o quadro continuará
favorável com a divulgação dos telefonemas de
Monica Lewinsky e Linda Tripp. As conversas
deverão provocar ainda mais aborrecimento à
população, que já não agüenta mais tanta
roupa suja lavada em público. Outro capítulo:
os advogados de Clinton tentam um acordo para
evitar que Paula Jones, a única mulher que levou
o presidente aos tribunais sob acusação de
assédio sexual, e perdeu, entre com um recurso
na Justiça. Paula já desistiu de um pedido
público de desculpas e quer 1 milhão de
dólares. Os advogados acham que ela topa pela
metade.
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A história
do vestido
Afinal, por
que Monica Lewinsky guardou o tal vestido
manchado? Por maus hábitos higiênicos
("Só costumo lavar uma roupa usada quando
pretendo usá-la de novo") e por influência
da malvada Linda Tripp, a confidente que gravou
as conversas por telefone com Monica e entregou
tudo ao promotor Kenneth Starr. Quando constatou
que o vestido azul-marinho tinha a mancha
incriminadora do sêmen do presidente, a falante
Monica comentou com Linda. A falsa amiga sugeriu
que o guardasse num cofre, como futura prova.
Monica rejeitou a idéia, mas devolveu o vestido
ao armário, sem lavar, diante de um argumento
muito mais poderoso: segundo Linda, ela ficava
gorda com ele. Linda Tripp não deve escapar
impune: aparentemente, ela fez cópias das fitas
entregues à Justiça, ao contrário do que
declarou. Por isso, pode encarar um processo por
falso testemunho. Paralelamente, ela está sendo
processada no Estado de Maryland, ao lado do
distrito de Washington, onde grampear telefones
sem conhecimento do interlocutor é crime. Linda
se tornou unanimidade. Traidora e dedo-duro, tem
o perfil daqueles que todos amam odiar.
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