Eleições

Aposta no milagre

Na reta final da campanha, os aliados de Lula
já não sabem mais o que fazer para reagir

Lula e Brizola: medo
de sair das urnas com
votação menor que a
das eleições passadas
Foto: Renan Cepeda  

O candidato do PT Luís Inácio Lula da Silva entregou-se nos últimos dias a uma busca frenética pelos votos que lhe escaparam durante a campanha presidencial. Programou uma maratona de comícios que o fará percorrer dez capitais até a próxima quinta-feira, último dia em que é permitido fazer campanha antes da eleição. Apesar do esforço, Lula sabe que são mínimas suas chances de evitar uma nova derrota eleitoral. Na pesquisa mais recente do Ibope, divulgada na quarta-feira, a distância entre ele e o presidente Fernando Henrique Cardoso estava alguns pontos menor, mas faltava muito para reanimar o sonho da oposição de levar a disputa para o segundo turno (veja o quadro ao lado). No fim da semana, o Ibope já havia colhido números mais frescos. De acordo com as novas projeções, a vantagem de FHC sobre os adversários estava crescendo novamente.

Os aliados de Lula não sabem mais o que fazer além de esperar um milagre. "Podem ocorrer surpresas nos últimos dias", diz o deputado Luiz Gushiken, coordenador-geral da campanha petista. "Numa crise como essa que o país atravessa, tudo fica imprevisível. Não se pode excluir o imponderável." O próprio Lula tem dado sinais de resignação diante da provável derrota eleitoral. "Ele está tranqüilo", afirma um dos seus colaboradores mais próximos. "Acha que, se perder, pelo menos cumpriu seu dever como candidato da oposição." Desde que estourou a crise na Rússia e os efeitos do desastre começaram a se fazer sentir no Brasil, não se falou mais de outra coisa na campanha do PT. A estratégia da oposição serviu para colocar Fernando Henrique na defensiva, mas não trouxe nenhuma vantagem eleitoral para a esquerda. "O problema é que não soubemos mostrar claramente que temos uma proposta alternativa para o país", afirma o deputado José Genoíno, do PT de São Paulo.

O grande temor do PT agora é sair da eleição, além de derrotado, menor do que entrou. Desde que disputou sua primeira campanha presidencial, em 1989, Lula só viu seu eleitorado crescer, ao mesmo tempo que o do atual vice de sua chapa, Leonel Brizola, era reduzido até virar farinha. Unidos pela primeira vez nesta eleição, os dois líderes da esquerda estão preocupados com o risco de encolher. No primeiro turno de 1989, 28% do eleitorado votou nas candidaturas de Lula e Brizola. Hoje, as intenções de voto da chapa formada por ambos somam pouco mais de 20%. "Lula provavelmente sairá enfraquecido das urnas", diz o professor José Augusto Guilhon Albuquerque, cientista político da Universidade de São Paulo, USP. "Ele construiu uma base sólida no eleitorado, mas não consegue ampliá-la." Aumentar a simpatia dos eleitores por Lula revelou-se uma missão quase impossível desta vez. A primeira semana do horário gratuito fez os índices de rejeição do candidato saltarem de 33% para 41%. Depois, eles até diminuíram um pouco, mas continuam sendo maiores do que no início da campanha eleitoral.

Ricardo Balthazar




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