Imprensa

O show de variedades das 8

Lágrimas, curiosidades médicas, bichinhos a todo
momento. Afinal, o que está acontecendo com o JN?

William Bonner no
cenário do programa:
matérias sobre o mundo
animal e atores da casa
Foto: Fernando Lemos/Strana  

Pressionado pelas medições das empresas especializadas, que registram um declínio em sua audiência, o Jornal Nacional está escorregando para um tom popularesco. De três anos para cá, o principal noticiário da televisão brasileira, programa obrigatório de quem decide os destinos da nação e fonte de informação de quem mora nas regiões mais distantes do país, vem deixando em segundo plano notícias relevantes para privilegiar reportagens lacrimosas, curiosidades do mundo animal ou intermináveis inventários sobre a vida de celebridades. Corre um risco com essa estratégia: perder credibilidade entre os telespectadores exigentes sem alargar a audiência nas camadas menos educadas da população. Afinal, o telespectador que gosta de apelação de verdade não aceita água-com-açúcar como substituto.

Essa tendência do Jornal Nacional fica gritante se medida com um cronômetro. No dia em que o ator de novelas Danton Mello, do segundo escalão da emissora, sofreu um acidente em Roraima, a reportagem sobre o fato ocupou dez minutos e onze segundos. No mesmo dia, a notícia a respeito dos cortes anunciados no Orçamento da União, motivados pela grave crise internacional, mereceu apenas um minuto e 24 segundos. O nascimento da filha de Xuxa ganhou longuíssimos dez minutos, uma eternidade em televisão. À declaração de moratória de noventa dias da Rússia, em 17 de agosto, dedicaram-se quarenta segundos. O Jornal Nacional ouve a opinião de populares na rua a respeito de medidas complexas do governo no campo da economia, e não se passa muito tempo sem que pessoas vítimas de alguma desgraça sejam entrevistadas em seu noticiário até o ponto em que começam a chorar. São invariavelmente pessoas humildes. A lágrima que escorre pelo rosto tornou-se aparentemente uma meta do JN. Escorridas as primeiras, encerra-se a entrevista.

Lillian: gota d'água
para a sua saída foi
reportagem sobre coala
que chupava picolé
  Foto: Antonio Milena

A emissora decidiu dar esse tom ao Jornal Nacional baseada em pesquisas de opinião. Num primeiro momento, tais estudos abordaram desde o formato do programa até quais seriam os apresentadores preferidos do público, passando pelos assuntos de maior apelo. Estes seriam, pela ordem, serviço, comportamento, saúde e meio ambiente. Iniciou-se, aí, uma leve correção de rumos no telejornal, que em 1995 teve um aumento de audiência de 46 para 49 pontos. De lá para cá, por vários fatores, entre eles a melhoria dos telejornais de outras redes, a entrada em cena de concorrentes de baixa extração e o incremento do mercado de TV a cabo, esse número só fez cair (veja gráfico). Cresceram então as reportagens com o intuito de comover e distrair o espectador. Nesse período, o apresentador Cid Moreira se aposentou e foi substituído por William Bonner e Lillian Witte Fibe. Em março deste ano, Lillian Witte Fibe voltou ao Jornal da Globo. Noticiou-se à época que Lillian reivindicava reportagens de mais substância para apresentar. Reclamava entre os colegas do excesso de matérias melosas sobre animais. A gota d'água teria sido uma reportagem sobre coalas calorentos que chupavam picolé num zoológico da Oceania. Lillian saiu, a doce Fátima Bernardes entrou e o mundo animal permaneceu. Em maio, o romance extraconjugal de uma macaca do zoológico de Brasília mereceu duas extensas reportagens.

"Entretenimento" — Mesmo com a popularização, o Jornal Nacional não está reconquistando a atenção dos telespectadores. Nos levantamentos do Ibope, a audiência subiu de 37 para 39 pontos do ano passado até agora. De acordo com outro levantamento, da agência Almap/BBDO, que se baseia em dados do Ibope e norteia o mercado publicitário, os números são piores. A audiência, entre 1997 e agora, caiu de 41,5 para 41,2. Não importa fazer análise exaustiva de variações tão pequenas. A visão que fica no prazo mais longo é para baixo. "Hoje, o Brasil real não está no Jornal Nacional", avalia Sebastião Squirra, professor da Universidade de São Paulo e estudioso do assunto. Segundo um diretor da própria Globo, a popularização do JN não é uma escolha adequada. "Não adianta querer novelizar o telejornal para satisfazer ao público", afirma esse diretor da emissora. "Isso é ingenuidade."

Amorim: "O JN virou
um produto de
entretenimento, não
tem mais notícias"
Fotos: Cida Souza  

Os responsáveis pelo Jornal Nacional argumentam que a cobertura tradicional de política e economia feita pelos outros noticiosos da televisão teria se tornado burocrática. "Sobre política, o Jornal Nacional noticia tudo que é relevante, da mesma maneira que age em relação à economia", diz um comunicado passado a VEJA na quinta-feira passada pela direção de jornalismo da Globo. "Nossa cobertura passou a ter enfoque a partir da realidade do Brasil, abandonando o blablablá de Brasília." Um ex-jornalista da Globo, Paulo Henrique Amorim, hoje comandando um telejornal na TV Bandeirantes, tem uma opinião bastante crítica sobre os critérios que na verdade estão norteando o noticiário de sua antiga casa. "O Jornal Nacional se transformou em mais um produto da linha de entretenimento da Globo. Não há mais notícias ali."

Em vários momentos no passado, o Jornal Nacional cometeu erros. Em 1982, quando Leonel Brizola, candidato odiado pelos militares, estava ganhando a disputa pelo governo do Rio de Janeiro, a Globo preferiu divulgar levantamentos não oficiais e manipulados que mostravam o candidato Wellington Moreira Franco em primeiro lugar. Em 1984, com a campanha das diretas já estourando nas ruas, o noticiário da Globo ignorou o fato até quando não foi possível mais escondê-lo. Na campanha presidencial de 1989, a emissora fez uma cobertura tendenciosa em favor de Fernando Collor de Mello. Esses erros não desfazem uma tradição criada em 29 anos pelo Jornal Nacional. Nesse período, o telejornal da Globo, inspirando-se no modelo das redes americanas, desenvolveu um estilo de jornalismo que nem com todo o empenho os concorrentes conseguiram suplantar. A Globo é a emissora que mais investe em jornalismo no país e o Jornal Nacional, com uma média de audiência acima dos 40 pontos (o que significa 40 milhões de telespectadores), ainda é um dos dois programas de maior público da televisão brasileira, ao lado da novela das 8. Trinta segundos de publicidade nos intervalos do Jornal Nacional custam 110.000 reais, o equivalente a um apartamento de dois quartos na Zona Sul do Rio. Mas as coisas já não são como antes. "Se a audiência descer para menos de 40 pontos, a tendência é que o valor do espaço publicitário também caia", avalia o diretor de uma agência de publicidade carioca. Outra coisa que pode ocorrer num prazo mais longo, caso se mantenha a linha histórica de queda, é a mudança do perfil do anunciante em função da popularização do Jornal Nacional. Se passar a ser visto como um telejornal atraente mas pouco denso, o programa pode até ganhar pontos no Ibope, mas arrisca-se a perder o público das classes A e B, que é o favorito das agências de publicidade.

Casoy: chamado
para fazer jornalismo
sério na Record

Há um elemento educativo numa programação de TV que se mantenha acima do nível dos concorrentes, como tem feito a Globo nas últimas três décadas. Além de elevar a percepção e as expectativas da audiência, ela cria parâmetros que as TVs concorrentes não podem ignorar. Mesmo recaindo sempre nos noticiários sensacionalistas, o SBT por anos a fio fez algumas tentativas de chegar mais perto da concorrente no jornalismo. A Bandeirantes contratou o âncora Paulo Henrique Amorim para ter telejornal sério. A Record, do bispo Edir Macedo, tomou Boris Casoy do SBT com o mesmo objetivo. Boris faz jornalismo sério. Infelizmente, o sucesso popular de produções grotescas, como o Programa do Ratinho e de seu similar Leão Livre, fica piscando lá no marcador do Ibope e exercendo uma tentação pérfida sobre os programadores dos outros canais. Atribui-se ao financista inglês Thomas Gresham, que viveu há mais de 400 anos, a elaboração de uma lei, a "lei de Gresham", segundo a qual quando duas moedas circulam num país a moeda má expulsa a boa. Pelo que se vê na tela da Globo, essa atração fatal pelo show de variedades parece estar em ação.

 



 


Denúncia vazia

Na terça-feira passada, o Jornal Nacional fez uma reportagem sobre o motoboy Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido como o "maníaco do parque" depois que confessou ter matado dez mulheres e abandonado seus corpos numa mata de São Paulo. Desde que foi preso, o assassino deixa cada vez mais evidente sua mente perturbada, detalhe que o Jornal Nacional não parece ter percebido. O motoboy havia declarado quase três semanas antes para uma junta de psiquiatras que VEJA pagou 300.000 reais à sua advogada e a outras duas pessoas a fim de obter a confissão do maníaco em primeira mão. Dias mais tarde, o motoboy desmentiu essa acusação através de um documento assinado perante um delegado de polícia. Muito bem: o Jornal Nacional promoveu o maníaco a boa fonte de seu noticiário no momento em que o rapaz fez a acusação à revista. Mas não considerou seu depoimento confiável quando ele voltou atrás na denúncia.

Para completar sua reportagem da semana passada, o Jornal Nacional entrevistou os pais do motoboy em São Paulo, na terça-feira, dia em que o programa foi ao ar. Eles disseram à emissora que seu filho confia na advogada que tem. Declararam-se convencidos, eles próprios, de que a história da propina era uma invenção. O Jornal Nacional também escamoteou essa versão do seu noticiário. "Agiram de má-fé", entendeu o pai do maníaco.

A direção do Jornal Nacional disse a VEJA que a entrevista com os pais não foi ao ar "por motivo simples: a própria equipe que foi entrevistar a advogada verificou que era uma farsa. Chegando ao escritório (da advogada), encontrou os pais, que na verdade nem deveriam ser ouvidos. A entrevista foi feita por insistência da advogada e, em seguida, desqualificada porque o repórter constatou que os dois apenas reproduziam texto — com palavras em latim! — entregue discretamente por ela". Argumento curioso. Como sabem até os calouros de direito, advogados instruem seus clientes. Deixar-se instruir pela advogada (até mesmo em sânscrito) é antes de tudo uma prova de confiança. Ou será que a direção do Jornal Nacional pretendia que os pais do maníaco se aconselhassem com o promotor? Para veicular a acusação de um suposto procedimento antiético de VEJA, o Jornal Nacional pisoteou a lógica. Pena.




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