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| Moema Cavalcanti |
O comprismo tem números exatos e brinda os brasileiros com um troféu. Na frente de japoneses e alemães, somos os turistas que mais gastam dinheiro nos Estados Unidos. Na ponta do lápis, 2.373 dólares per capita, segundo o Departamento de Comércio americano. Número de curvar a Europa, encabular o Oriente, espantar os próprios americanos que desembolsam 1.840 dólares quando desfilam por aqui com sua pele muito clara e camisas espalhafatosas. Há diferenças ainda mais fundamentais. Os gringos que vêm conhecer a terra dos papagaios ganham, em média, 72.000 dólares por ano, mais do dobro que os 800.000 brasileiros que visitam todo ano os domínios de Tio Sam. Outro detalhe importante: é impresso no país deles o dinheiro que gastam aqui. Já nós gastamos em viagens, e não só para lá, 5,8 bilhões de dólares em 1997, em divisas que não fabricamos e esbanjamos e que nos últimos dias têm maciçamente batido em retirada do país.
Os viajantes brasileiros estão sob a guarda de dois dogmas do Real. O primeiro, cultivado como pedra filosofal, é a abertura para o exterior. Com as reservas se derretendo, ninguém falou ainda em desglobalizar o turismo, porque pegaria mal para nosso impávido perfil liberal impor restrições e limitações. O outro é a básica insolência doutrinária do plano econômico, que subestima o valor do dólar e desata o consumismo nessa moeda barata. No ano passado carimbaram passaporte no exterior 4 milhões de brasileiros. Entre eles, muitos que conservam o princípio machadiano da peregrinação. "Viajar é multiplicar a vida", escreveu Machado de Assis, um cosmopolita das letras que nunca foi muito além de Petrópolis. No mundo que ele descreveu melhor do que ninguém o sintoma continuava o mesmo. Carregamos pela História afora o travo colonial. "Ser da elite é estrangeirar-se", diz o antropólogo Roberto DaMatta. O comerciante inglês John Luccock relata pasmo que, logo depois da abertura dos portos por dom João VI, em 1808, firmas inglesas venderam para consumidores ávidos e deslumbrados uma partida inteira de patins para o gelo. O século XX começou com almofadinhas cariocas se cumprimentando em francês na Avenida Rio Branco e termina com o país afluente almejando o padrão Miami de vida. É minoria o viajante ocasional, o cearense onipresente, cozinheiro, garçom, motorista e aventureiro nas lonjuras mais remotas.
Os brasileiros, mais os da falange
sacoleira mas não só eles, procuram sobretudo nos
Estados Unidos a novidade. Não qualquer novidade, que
essa todo mundo tem, mas a última novidade. Celular
virou banalidade, mas você já tem um celular digital?
Ainda não? Pois ele tem agenda com memória para 150
telefones, armazena mais de uma dezena de recados e está
equipado para conversas simultâneas com mais de uma
pessoa. Aqui custa os olhos da cara e em Miami pode ser
comprado só por uns 1.300 dólares. Há um constrangedor
parentesco entre esse padrão de consumo e o padrão de
direitos sociais vigente por aqui: direitos qualquer um
pode ter, legal é ter privilégios.
Foto: Divulgação |
Copyright © 1998, Abril
S.A. |