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| Luiza Ruberti |
Sempre acreditei que os países são salvos pelas grandes "vitórias" ou pelas grandes "derrotas". O perigo é o "meio sucesso". As grandes vitórias inspiram autoconfiança e são a vitamina de futuras realizações. As grandes derrotas tornam a sociedade plástica para aceitar reformas. A desilusão torna-se a semente da transformação.
O problema brasileiro nas últimas décadas foi o "meio sucesso". Por longo tempo, o Brasil conseguiu uma convivência entre alta inflação e rápido desenvolvimento. Enquanto a Europa nos anos 70 sofria de "estagnação", nós tínhamos "crescinflação". Com isso, a sociedade desenvolveu extraordinária tolerância para com a inflação. Havia mesmo quem considerasse que um pouco de inflação era indispensável ao crescimento. E as esquerdas brasileiras nunca entenderam que na raiz da vergonhosa concentração de renda no Brasil estavam o governo (que descurou da educação básica) e a inflação (que expoliou indecentemente os pobres). Outros países da América Latina jugularam a inflação antes de nós: a Argentina porque sofreu três hiperinflações; o Chile porque além da hiperinflação de Allende passou por uma guerra civil ideológica.
O Brasil foi também o mais lento e resistente nas privatizações. É também o resultado do "meio sucesso". Criamos empresas estatais que, se ineficientes por parâmetros mundiais, pareciam razoavelmente eficazes no contexto latino-americano. Assim, a Petrossauro era tecnologicamente superior à YPF argentina (antes de privatizada) e à Pemex (cuja única vantagem era ser uma vaca leiteira para o Tesouro mexicano).
O Plano Real foi uma brilhante ginástica financeira assente em três pivôs: a âncora cambial, a desindexação (pela URV) e a política monetária restritiva de juros altos. A base fiscal, como o próprio nome o indica Fundo Social de Emergência , providenciou apenas um temporário equilíbrio. Fomos excepcionalmente beneficiados no início com a liquidez internacional, que permitiu ampla liberalização de importações, sem constrangimento cambial.
Mas a maldição do "meio sucesso" também persegue o Plano Real. Sendo êxito espetacular no estancamento da inflação, foi medíocre na reestruturação do Estado e das finanças. Houve rápido progresso nas reformas ideológicas, como a abolição dos monopólios estatais ou da discriminação contra empresas estrangeiras. Com as privatizações, avançamos no "redimensionamento" do Estado, superando a falsa sacralidade estratégica que cercava a Vale do Rio Doce ou a Telebrás. Mas estamos atrasados na "reestruturação" do Estado, objeto das reformas previdenciária, fiscal e administrativa. Esse atraso se deve em parte à interferência da tese da reeleição, que dominou por algum tempo a agenda política. Em parte, houve demasiada complacência com o déficit público, porque a liquidez internacional permitia seu financiamento (aparentemente indolor) por capitais voláteis.
Hoje, as coisas mudaram. Estamos pagando as penalidades do "meio sucesso". O mundo reconhece as grandes transformações estruturais da economia brasileira efetuadas por FHC. Mas, depois dos prejuízos decorrentes das crises asiática e russa, recusa-se a continuar financiando nossos déficits cambiais, vistos cada vez mais como esbórnia do governo e não como expansão produtiva do setor privado.
Completar o "meio sucesso" do Plano Real com um enérgico programa de austeridade fiscal é nossa principal tarefa pós-eleitoral. Não há mais espaço para gradualismo na redução do déficit, porque não há mais financiadores pacientes. Austeridade fiscal não consiste em aumentar impostos, e sim em cortar gastos, simplificar o sistema e redistribuir mais eqüitativamente a carga fiscal. E, uma vez que estamos na era da informática, substituir o artesanato dos impostos declaratórios por impostos cobrados eletronicamente.
Roberto Campos é embaixador e deputado federal
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